sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

POVOAMENTO E OUTRAS HISTÓRIAS

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

A leitura de um texto inserto no facebook, intitulado " História insólita de Portugal: padre com 299 filhos perdoado por repovoar Trancoso " , deu-me o mote para a crónica de hoje, tão leve quanto o tema o permita. No citado texto dá-se conta que, na cidade de Trancoso, no século XV, viveu um clérigo que, em 53 mulheres, entre as quais a própria mãe, irmãs e outras parentes, terá gerado 299 filhos. O insólito da questão é que, por carta régia de 1487, o rei de Portugal legitimou o nascimento de uma criança, filha de uma mãe solteira da localidade e do dito clérigo. E assim começou a epopeia da fabricação em série das 299 crianças de Trancoso, se a estatística estiver certa e não houver outras não contabilizadas. E aquilo que hoje seria considerado um crime, não o foi, então, por ter o dito padre contribuído com a sua esforçada ação, para o repovoamento de Trancoso, localidade histórica onde o Rei Dom Dinis celebrou o seu casamento com a que viria a ser a Rainha Santa Isabel, celebrada pelo lendário milagre das rosas… 

E o caso não teria sido único pois, mais recentemente, se dizia do Abade de Vinhas que os filhos do dito, de mãos dadas , preencheriam a distancia que vai de Macedo de Cavaleiros a Bragança. Isto se conta no imaginário popular, passe o exagero, pois não me parece que o abade tivesse tempo e força para tal empreendimento, embora seja conhecida a pertinácia e a potência física de muitos dos nossos clérigos, de então, grandes obreiros do repovoamento do nosso depauperado território. Para tudo é preciso tempo e disposição e, isso, era coisa que não faltava, num universo feminino alargado e num ambiente gastronómico de qualidade como é o transmontano, onde à excelência dos enchidos e do presunto, se junta a superior qualidade de um bom vinho tinto, apelativo de outros prazeres. 

Mas o problema do povoamento do território que vimos tratando de uma maneira bem-humorada, é um problema sério, que remonta aos inícios da nacionalidade e se mostra preocupante nos dias de hoje. Desde o início da nossa independência que o problema de ocupação do território mereceu dos nossos primeiros reis uma preocupação muito especial, dado que as lutas sucessivas e prolongadas, com os mouros que habitavam a península ibérica desde o século VIII, muito contribuíram para o despovoamento de grandes áreas do nosso novel país. No sentido de combater essa praga que, a par de outras pragas, punha em causa a coesão nacional e não permitia o normal aproveitamento das riquezas existentes, os primeiros reis, com especial relevo para D. Sancho I , tomaram as medidas necessárias ao repovoamento do território, reconstruindo povoações , construindo outras, concedendo forais, distribuindo terras às ordens religiosas e outras medidas que permitissem a fixação das gentes, o incremento da lavoura e o aproveitamento dos recursos naturais... 

E assim o interior do reino se viu polvilhada de cidades, vilas e aldeias, onde homens válidos e mulheres valentes foram construindo o país que somos, procriando e educando as suas proles nos princípios do cristianismo, com a ajuda de voluntários valerosos como o clérigo de Trancoso, com cuja história iniciamos esta crónica, e dos senhores feudais que não deixava desamparadas as mais belas donzelas dos seus povos.

E assim se chegou aos nossos dias, com outras ideias e outros conceitos quanto ao interesse ou não de manter povoado o interior do país, com custos elevados e benefícios discutíveis, no entender de sábias cabeças que tudo aferem pela quantidade de euros necessários à criação e manutenção das estruturas indispensáveis à fixação das pessoas, famílias, velhos e novos. 

Quando muito se fala em parcerias público-privadas que terão levado quase à bancarrota o Estado, pelos ruinosos contratos celebrados, fala-se, muitas vezes, de coisas que não se entendem. E se foram celebrados contratos em que os interesses do Estado não foram acautelados, isso não invalida a justeza do conceito em que o privado investe no financiamento dum serviço público, sendo ressarcido a longo prazo pelo investimento efetuado, mediante a concessão de serviços, nas condições acordadas. E a que propósito trago este problema a esta crónica? É que este conceito que muitos julgam recente, já era aplicado no antigo regime na Administração Geral dos Correios, superiormente dirigida pelo Correio-Mor , Eng. Couto dos Santos. Tal permitiu que o serviço de correios fosse levado aos lugares mais recônditos do território, com a construção de edifícios por privados, destinados às suas Estações. É que o citado Correio-Mor e, bem, entendia que essa era a única forma de dotar o pais, num curto prazo, das Estações necessárias não cabal desempenho do serviço de correios. Os privados construíam, os CTT alugavam e colocavam o pessoal e os equipamentos necessários ao serviço.

Entendia-se, e bem, que a construção das Estações, investimento vultoso, não deveria ser pago por uma só geração, mas por todas as gerações que haveriam de usufruir dos benefícios do investimento. De outra forma seria impossível dotar o pais de tidas as Estações necessárias.

E tempos houve em que se dotaram muitas das melhores aldeias com as infraestruturas indispensáveis à vida atual em comunidade: Estação dos CTT, banco, posto de saúde, farmácia, estabelecimentos comerciais adequados às necessidades, escolas , párocos nas suas igrejas. Sem essas e outras estruturas é impossível que alguém esteja interessado em viver em tais localidades e, paulatinamente, vão desertando e migrando para o litoral, onde vão contribuir para o aparecimento de graves problemas. Só assim, também, alguém estará interessado em investir em empresas nessas localidades e criar os empregos que obstem ao abandono das populações.

E assim se cria um problema que alguém terá de resolver : ou há condições para as populações se fixarem e os empregos surgem, ou não se criam as condições e as populações migram. Se nada se fizer, dentro de poucos anos, as nossas aldeias serão uma saudade porque ninguém lá vive. E já não estamos no tempo do clérigo de Trancoso com os seus 299 filhos, nem do Abade de Vinhas e quejandos. Hoje as famílias planeiam muito bem a sua estrutura, com o auxílio de instrumentos vários que me dispenso de referir. Mas que o clérigo de Trancoso era um herói, era, mais os que tinham de o aturar.
Outros tempos!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

ERA UMA PALAVRA SÓ


Era uma palavra só
aquela que eu dizia
nos teus lábios,
doce palavra que a emoção
tecia docemente,
descendo no teu peito
até meu coração...

Era uma palavra bela,
feita cor,
colorindo teus beijos
com a ternura doce
dum olhar sereno,
ao dizer em teus lábios
a palavra AMOR...

Era uma palavra só
aquela que eu dizia
nos teus lábios,
bebida dum só trago,
nesse desejo ardente
de respirar teu hálito...

Era uma palavra só
vivida num só tempo,
flor que nos perfuma
o próprio pensamento,
desejo que consome
o teu próprio nome
que digo tantas vezes
ao balbuciar te amo...

Era uma palavra só
aquela que eu dizia
nos teus lábios...
Amor era a palavra...
Dos teus beijos,
apenas um sonho que sonhei...

Luis Machado

sábado, 6 de fevereiro de 2016

SAUDADES E CARNAVAL

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

1 - Dentro de alguns dias regressarei a Bragança depois de uma ausência prolongada de algumas semanas. Já começava a ter saudades e é sempre bom regressar ao lar e ao convívio dos amigos, embora me sentisse bem junto dos familiares onde me encontro. 
Aproveitei o tempo para fazer, mais uma vez , uma romagem de saudade à minha terra natal, Viana do Castelo , onde passei alguns dias com familiares. À medida que os anos passam, sinto uma saudade maior dos lugares e pessoas que povoam o meu imaginário e me contam histórias que a memória me traz ao presente. Calcorreei a parte mais antiga da cidade, alindada por obras de restauro e conservação de algumas das suas ruas velhinhas, apreciei a zona portuária, o navio Gil Eanes que contínua garboso e bem conservado e recordei casas e amigos que por ali moravam, alguns já partidos desta vida, outros que se transferiram para outras zonas mais novas, alguns que, simplesmente, migraram ou emigraram à procura de melhores condições de vida. Por mais de uma vez me desloquei à Praia Norte, local paradisíaco dos meus tempos de menino e moço, e ali , numa das esplanadas, assentava arraiais, tomava o meu café, lia o jornal e contemplava o mar , a sua penedia batida pelas ondas que se erguiam e desfaziam em espuma rendilhada, quase junto ao bar. Havia gaivotas esvoaçando, gritando os seus pios roucos, pousadas nos rochedos, nadando sobre as águas ou bicando as vidraças do bar em que me encontrava. Lá longe, no horizonte, passavam barcos, tão pequeninos que mais pareciam os barquinhos de papel dos meus poemas...
E ali me deixava ficar durante algum tempo, poetando, sonhando, recordando... E como eram belas as recordações que eu tinha daquela praia velhinha dos meus tempos de menino, praia selvagem , sem avenidas , sem muros de suporte, com uma penedia extensa onde apanhávamos, sem licenças ou fiscalização, caramujas , lapas , mexilhões, ouriços do mar , caranguejos e outros, que levávamos para casa em grandes ou pequenas sacadas. Às vezes lá apareciam uns polvitos e pequenos camarões, fugidos ao cardume, que nos iniciavam no gosto dos seus irmãos mais velhos e das lagostas e lavagantes, santolas e outros que, raramente estavam ao alcance da nossa débil economia.... Mar inspirador de poetas, imensidão que nos levou aos quatro cantos do mundo, local de trabalho dos velhos marinheiros, tez tisnada pelo sol e pelo sal daquelas águas que tantas vezes sulcaram. Lá longe, no horizonte, moravam muitos dos meus sonhos e , com o por do sol , muitos deles feneceram, afogados na realidade da vida.
E como era lindo o por do sol na minha praia velhinha...Era como se, ternamente, levasse os meus sonhos dóricos para um amanhã que talvez houvesse...Muitos não regressavam nesse amanhã distante... Por trás de mim, erguia-se, altaneiro, o monte de Santa Luzia e a sua imponente basílica, do zimbório da qual se avistava o mundo... Era , segundo um oficial da marinha inglesa com quem convivi na juventude , a paisagem mais bela que observara nas suas andanças. 
Vou regressar a Bragança para matar saudades, levando outras saudades, saudades de tudo, da família, das paisagens, do mar, das recordações de amores que ali vivi, das amizades que permaneceram no meu coração, da juventude que morou em cada canto por onde passei, tão distante como os sonhos que nela moravam...

2 - É tempo de carnaval! Vêm-me à memória outros carnavais em que fui feliz, lá longe, nos confins da idade, sem máscara nem nariz de palhaço , nesta palhaçada em que se transformou s vida, em que representamos histriónicos papeis no dia a dia. Se fosse possível desafivelar a máscara de cada um que passa, se fosse possível ver no semblante o que a mente de cada um pensa e no coração o que , realmente , sente, faríamos como o palhaço que ri quando ,às vezes, lhe apetece chorar , tal a hipocrisia e o desamor que se apoderou das gentes. Mas é Carnaval, tudo é permitido, nada faz mal , encenam-se pantuminas e comem-se butelos, nesta festa que marca o adeus à carne , nestes dias que antecedem a Quarta Feira de Cinzas. Por todo o mundo há festas e cortejos, com especial relevo para o carnaval brasileiro e o seu samba, montra de beleza e descontração, com muitos exageros à mistura. Desejos recalcados, emoções contidas, prazeres que se procuram, loucuras que se desejam, tudo se esconde debaixo das máscaras que se afivelam e tudo explode neste período de liberdade total.
Em muitas localidades, encenam-se a queima de um boneco que, após a feitura do testamento , é queimado e destruído, exprimindo o cancelamento das culpas passadas. Por cá , muitos bonecos seria preciso queimar.! Mas isso são outras contas e não vamos estragar a alegria breve deste carnaval necessário para aliviar o stress.
Atirem-se ao butelo e às cascas, divirtam-se, bailem o samba ou outro ritmo de que gostem, afivelem a máscara, deixem a tristeza em casa , assumam a sua verdadeira natureza , Limpem a mente , aliviem o coração.
Quarta feira, para os cristãos, começa a quaresma. Será tempo de reflexão. Simbolicamente acaba-se a carne, fonte de prazer. Vamos tratar da alma!

NAQUELE BAR DA PRAIA


As ondas batiam , iradas,
na penedia extensa...
Espumas rendilhadas e gaivotas
povoavam meus sonhos e lembranças
de corpos ondulantes
aquecendo ao sol, desejos,
sorrisos doces,seios provocantes...

Via , na lonjura dos tempos,
romances, passeando, de mãos dadas ,
nas areias molhadas
daquela praia imensa,
bolas coloridas de crianças
com seus pezinhos tenros
perseguindo sonhos e esperanças...

O barquinho de papel que eu sonhara,
atravessando,ternamente, o mar,
buscando as ilusões que, então , criara,
via-o , ao longe ,naquele horizonte
onde o sol pousava
em arrebois de cor
e onde os sonhos ganham mais fulgor...

Naquele bar da praia, sobre o mar ,
gaivotas espreitando na vidraça larga,
reformados curtindo um bom café,
jornal aberto nas páginas centrais,
vi passar meus tempos de menino,
adolescente já, prenhe de ilusões,
sonhando futuros que não haverá...

As ondas batiam , iradas,
na penedia extensa...
No meu coração moravam saudades...
A vida passara...Devagar? Depressa?
Mirei o horizonte onde o meu barquinho
jamais vai chegar...
Gaivotas voavam em meu derredor
e o vento trazia mensagens de amor...
Ouço-as no silêncio deste meu viver,
afago-as no peito, vejo-as crescer
no meu coração...
Não quero que sejam mais uma ilusão...

Luis Machado