Crónicas do meu viver // Por Luís Machado
A leitura de um texto inserto no facebook, intitulado " História insólita de Portugal: padre com 299 filhos perdoado por repovoar Trancoso " , deu-me o mote para a crónica de hoje, tão leve quanto o tema o permita. No citado texto dá-se conta que, na cidade de Trancoso, no século XV, viveu um clérigo que, em 53 mulheres, entre as quais a própria mãe, irmãs e outras parentes, terá gerado 299 filhos. O insólito da questão é que, por carta régia de 1487, o rei de Portugal legitimou o nascimento de uma criança, filha de uma mãe solteira da localidade e do dito clérigo. E assim começou a epopeia da fabricação em série das 299 crianças de Trancoso, se a estatística estiver certa e não houver outras não contabilizadas. E aquilo que hoje seria considerado um crime, não o foi, então, por ter o dito padre contribuído com a sua esforçada ação, para o repovoamento de Trancoso, localidade histórica onde o Rei Dom Dinis celebrou o seu casamento com a que viria a ser a Rainha Santa Isabel, celebrada pelo lendário milagre das rosas…
E o caso não teria sido único pois, mais recentemente, se dizia do Abade de Vinhas que os filhos do dito, de mãos dadas , preencheriam a distancia que vai de Macedo de Cavaleiros a Bragança. Isto se conta no imaginário popular, passe o exagero, pois não me parece que o abade tivesse tempo e força para tal empreendimento, embora seja conhecida a pertinácia e a potência física de muitos dos nossos clérigos, de então, grandes obreiros do repovoamento do nosso depauperado território. Para tudo é preciso tempo e disposição e, isso, era coisa que não faltava, num universo feminino alargado e num ambiente gastronómico de qualidade como é o transmontano, onde à excelência dos enchidos e do presunto, se junta a superior qualidade de um bom vinho tinto, apelativo de outros prazeres.
Mas o problema do povoamento do território que vimos tratando de uma maneira bem-humorada, é um problema sério, que remonta aos inícios da nacionalidade e se mostra preocupante nos dias de hoje. Desde o início da nossa independência que o problema de ocupação do território mereceu dos nossos primeiros reis uma preocupação muito especial, dado que as lutas sucessivas e prolongadas, com os mouros que habitavam a península ibérica desde o século VIII, muito contribuíram para o despovoamento de grandes áreas do nosso novel país. No sentido de combater essa praga que, a par de outras pragas, punha em causa a coesão nacional e não permitia o normal aproveitamento das riquezas existentes, os primeiros reis, com especial relevo para D. Sancho I , tomaram as medidas necessárias ao repovoamento do território, reconstruindo povoações , construindo outras, concedendo forais, distribuindo terras às ordens religiosas e outras medidas que permitissem a fixação das gentes, o incremento da lavoura e o aproveitamento dos recursos naturais...
E assim o interior do reino se viu polvilhada de cidades, vilas e aldeias, onde homens válidos e mulheres valentes foram construindo o país que somos, procriando e educando as suas proles nos princípios do cristianismo, com a ajuda de voluntários valerosos como o clérigo de Trancoso, com cuja história iniciamos esta crónica, e dos senhores feudais que não deixava desamparadas as mais belas donzelas dos seus povos.
E assim se chegou aos nossos dias, com outras ideias e outros conceitos quanto ao interesse ou não de manter povoado o interior do país, com custos elevados e benefícios discutíveis, no entender de sábias cabeças que tudo aferem pela quantidade de euros necessários à criação e manutenção das estruturas indispensáveis à fixação das pessoas, famílias, velhos e novos.
Quando muito se fala em parcerias público-privadas que terão levado quase à bancarrota o Estado, pelos ruinosos contratos celebrados, fala-se, muitas vezes, de coisas que não se entendem. E se foram celebrados contratos em que os interesses do Estado não foram acautelados, isso não invalida a justeza do conceito em que o privado investe no financiamento dum serviço público, sendo ressarcido a longo prazo pelo investimento efetuado, mediante a concessão de serviços, nas condições acordadas. E a que propósito trago este problema a esta crónica? É que este conceito que muitos julgam recente, já era aplicado no antigo regime na Administração Geral dos Correios, superiormente dirigida pelo Correio-Mor , Eng. Couto dos Santos. Tal permitiu que o serviço de correios fosse levado aos lugares mais recônditos do território, com a construção de edifícios por privados, destinados às suas Estações. É que o citado Correio-Mor e, bem, entendia que essa era a única forma de dotar o pais, num curto prazo, das Estações necessárias não cabal desempenho do serviço de correios. Os privados construíam, os CTT alugavam e colocavam o pessoal e os equipamentos necessários ao serviço.
Entendia-se, e bem, que a construção das Estações, investimento vultoso, não deveria ser pago por uma só geração, mas por todas as gerações que haveriam de usufruir dos benefícios do investimento. De outra forma seria impossível dotar o pais de tidas as Estações necessárias.
E tempos houve em que se dotaram muitas das melhores aldeias com as infraestruturas indispensáveis à vida atual em comunidade: Estação dos CTT, banco, posto de saúde, farmácia, estabelecimentos comerciais adequados às necessidades, escolas , párocos nas suas igrejas. Sem essas e outras estruturas é impossível que alguém esteja interessado em viver em tais localidades e, paulatinamente, vão desertando e migrando para o litoral, onde vão contribuir para o aparecimento de graves problemas. Só assim, também, alguém estará interessado em investir em empresas nessas localidades e criar os empregos que obstem ao abandono das populações.
E assim se cria um problema que alguém terá de resolver : ou há condições para as populações se fixarem e os empregos surgem, ou não se criam as condições e as populações migram. Se nada se fizer, dentro de poucos anos, as nossas aldeias serão uma saudade porque ninguém lá vive. E já não estamos no tempo do clérigo de Trancoso com os seus 299 filhos, nem do Abade de Vinhas e quejandos. Hoje as famílias planeiam muito bem a sua estrutura, com o auxílio de instrumentos vários que me dispenso de referir. Mas que o clérigo de Trancoso era um herói, era, mais os que tinham de o aturar.
Outros tempos!
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