Crónicas doo meu viver //
POR LUIS MACHADO
1 - No próximo dia 23 de Setembro farei, se Deus quiser, 80 anos de idade.
Não é uma data qualquer, é o inicio de uma nova década, um marco mais a colocar neste grande campo que é a vida , tempo de reflexão e de angústias , de balanços e perspectivas para um futuro que ainda ansiamos.
E se recordar é viver, que melhor data e tempo para desenrolarmos o novelo onde fomos guardando os dias e as estórias e , puxando o fio , trazermos ao presente autores e atores desta aventura e , ternamente , tecermos imagens de uma vida que vai longa...
Sempre encarei poeticamente a vida. Quando era menino, queria ser poeta e não sabia ainda que o poeta sofre quando as emoções canta...
Na pré-adolescência já escrevia poemas de amores contrariados e textos em que donzelas frágeis tinham em mim o seu cavaleiro andante , defensor de suas virtudes e admirador de suas belezas. E imaginava Hermengardas e eu um qualquer Conde que lutava bravamente por sua dama e donzela.
Eram tempos lindos , vividos na candura dos verdes anos , influenciado pela leitura de romances históricos e de cavalaria que povoavam o meu imaginário...
E à medida que o tempo passava, os cenários iam mudando, mas mantinha-se o mesmo espírito cavalheiresco e romântico que havia de me acompanhar pela vida fora.
De amores platónicos e outros menos , se preencheram os anos. Sonhos, quimeras, ilusões, paixões desfeitas pelo destino , lutas no esgravatar da vida , o mundo como palco , actores de comédias e tragédias , encenadas neste caminhar insano a caminho do futuro.
E o que é o futuro quando se é adolescente? É sonho e fantasia, é um querer ser diferente , é uma procura constante , um experimentar de novas sensações , uma revolta permanente contra tudo e todos , um saber de quem sabe tudo.
Todos fomos assim e ainda bem que o fomos , o sonho a comandar a vida , a procura de novas soluções e novos horizontes... E um dia descobrimos que somos adultos e que a vida não é um paraíso e que o amor é uma coisa diferente dos arroubos e das paixões dos namorados e que há a realidade que nos empurra para caminhos diferentes e nos impõe soluções diversas.
E se temos a sorte de encontrar a companheira que nos há-de guiar e seguir nos caminhos íngremes que temos de percorrer, é o começar de uma vida nova que se espera plena , segura e feliz. E se surgirem os filhos e os netos, é como que se redimensionássemos os sonhos e procurássemos, num outro horizonte , descobrir novos motivos para lutar e atingir os objetivos que almejamos.
Mas nem sempre é assim e esse é um dos problemas da vida. Nunca os tive e Deus deu-nos força e engenho para seguirmos o caminho que traçamos e ver crescer as flores que plantamos. Nada é eterno!
Há céus e aléns e estrelas e sóis que temos de , um dia , percorrer. Uns vão e outros ficam olhando o tempo....à espera de um outro tempo em que uma chuva de estrelas , voando em formação , escoltadas por anjos , nos levarão até além dos céus...
Até lá, temos pela frente a vida que não nos dá quartel! Que fazer quando o nosso tempo passa como um rio que corre, sem parar e além , no horizonte , já se vislumbra o mar ? Como gerir um tempo que não é nosso , mas que temos de viver como se nosso fora? ". Vou desistir da idade, a idade está em meu pensamento, vou viver a vida toda como se fora um momento. "... Sonho , realidade , saudades de outros tempos já vividos , anseios não cumpridos, uma amálgama de sentimentos se cruzam no nosso coração...
Às vezes esquecemo-nos da idade e isso é bom...Outras sentimos que as portas se fecham com estrondo e apontam-nos um mundo que era diferente e não melhor... E o nosso sorriso fica mais pálido e os nossos olhos mais tristes....
E como seria bom termos uma mão amiga sobre a nossa, um quase nada de sonho que nos aquece a alma , um sopro de ternura que nos eleva aos céus... Mas ao olhar estas mãos desenlaçadas, precocemente inúteis, cheias de nada , olhando o tempo , penso , interrogo-me , busco e vivo este presente que se arrasta à procura das respostas... que já tardam...
Há andorinhas nos beirais da minha rua...Tenho melros assobiando no jardim e as cegonhas desenham círculos no céu... Gostava de ser pássaro , voar livremente para além do horizonte , havia de encontrar o céu e espreitar o futuro...
Aos 80 anos, ser pássaro livre é uma loucura, mas é da boa loucura que se alimentam os poetas e o menino que eu fui queria ser poeta... E eu sinto que um dia hei-de ser novamente menino, sonhando com amanhãs que cantam e madrugadas que libertam...
2 -- Palavras poucas para dizer da muita amargura que me vai na alma pelo drama pungente dos desgraçados que, aos milhares, em condições as mais degradantes, se lançam na aventura de alcançarem a Europa, o paraíso com que sonham.
São oriundos dos países do Médio Oriente , em guerra , e da África , fugindo à miséria mais atroz em que os mergulharam.
São homens e mulheres, velhos e crianças, transportados em condições inferiores às do gado e, muitas vezes , tratados como bandidos , quando eles são apenas as vitimas de interesses inconfessáveis e que procuram apenas um palmo de terra para descansar e um pedaço de pão para comer.
Não há, por vezes , respeito pela dignidade humana e um pouco de amor no coração de quem decide. Indignamo-nos quando, quase diariamente, tomamos conhecimento das tragédias que se abatem sobre estas verdadeiras ondas de emigrantes. Muitos assobiam para o lado e nem querem saber. Outros, a maioria, indigna-se e esquece.
Mas este é um problema grave que tem de ser resolvido e não basta socorrer os que fogem à miséria, mas ir ao fundo da questão e erradicar as causas da fuga maciça de tais desgraçados…
É um crime contra a Humanidade se tal não for feito.
Publicada no Correio Transmontano a 2 de setembro de 2015
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