quarta-feira, 30 de setembro de 2015

OUTONO


As árvores da minha rua
já estão perdendo a folha,
tudo já perdeu o viço,
vem o vento e espalha tudo,
a tudo dando sumiço...

As árvores que foram belas,
ficam tristes, pesarosas ,
as folhas estão amarelas,
árvores que foram frondosas
estão agora desfolhadas...
Até já os pássaros migram,
vão juntos , em debandadas,
sem passarões que os persigam,
na busca de um novo lar
onde possam procriar...

De mansinho, o Outono avança,
traz ventos, leva cansaços,
leva pedaços de esperança,
traz o frio , rompe laços,
leva saudades do Verão,
lembranças de Primaveras,
deixa em cada coração
pedaços de vãs quimeras,
sonhos lindos de outras eras...

E as folhas que vão caindo,
o vento as vai levando,
varre também ilusões
e os sonhos lá vão fugindo
varridos dos corações...

Vem a chuva , vem o vento ,
vêm também vendavais...
Talvez lá pela Primavera
venha , enfim , uma bonança
que nos traga uma outra esperança...

As árvores da minha rua
já estão perdendo a folha,
há já muita árvore nua ,
ainda há rosas nos rosais,
fugiram as andorinhas,
mas há ninhos nos beirais,
das belas aves que eu via
já só ficaram pardais...

De mansinho o Outono avança,
passos leves de quem dança
num compasso de tristeza,
fria e leve, sem esperança,
vai dormir a natureza,
os sonhos vão hibernar
esperando a Primavera
que um dia há-de voltar...

LUIS MACHADO

sábado, 26 de setembro de 2015

Quem tem uma mãe tem tudo // O meu herói

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Quem tem uma mãe tem tudo

A minha mãe Soledade


A minha mãe chamava-se Soledade que é sinónimo de solidão, estado de tristeza de quem se sente só. Nada mais errado, pois teve oito filhos e uma caterva de netos que não lhe permitiam ter um momento livre nunca a deixando só. 
A Senhora Soledadinha, como carinhosamente lhe chamavamos, não tinha grande cultura livresca, nem muitos anos de estudo, mas era um repositório do saber popular, acumulado ao longo de gerações e que se consubstanciava nos ditos e máximas que usava com mestria. Não tinha nascido num folinho, como ela dizia, antes tinha comido o pão que o Diabo amassou, com uma infância que não fora feliz.
Era inteligente, observadora, perspicaz e comentava com graça os acontecimentos políticos do seu tempo, sem subterfúgios ou palavras dúbias, pedindo meças aos nossos actuais comentadores, pagos a peso de ouro.
À medida que ia somando filhos, ia perdendo um pouco da paciência que era necessária para aturar a prole e não eram raros os tabefes que ia distribuindo para desconsolo de alguns e gáudio de outros.
Criar oito filhos, numa época de pouca abastança e de trabalho mal remunerado, era mais difícil do que gerir uma creche, já que a mãe acumulava as funções de empregada doméstica, ama, cozinheira, administrativa, educadora, gestora dos poucos fundos entrados pelo trabalho do pai e sei lá que mais funções que o governo de uma casa implica. E tudo sem um queixume, assumindo o destino como um dever irrevogável e irreversível, porque Deus assim quisera e ela e o pai assim assumiram.
Quantas vezes ela teve de fazer o milagre de multiplicação dos pães, que as bocas eram muitas e os proventos poucos, mas com um pouco de nada ela fazia maravilhas na cozinha e os seus cozinhados tinham o sabor das iguarias mais cantadas. E até o caldo de farinha milha com uma chouriça sanguinha, se transformava num manjar dos deuses. Era de lamber os beiços, como então se dizia. E com um pouco mais de presigo, das iguarias que a mãe inventava com génio, lá se iam criando os oito filhos, sãos e escorreitos, preparados para enfrentar a vida, sem grandes luxos, mas com uma visão da vida e do mundo que lhes permitiu encontrar o seu caminho.
Eu era o mais velho dos oito irmãos e como tal gozei de alguns privilégios que aos outros não foram permitidos. Fui o único que, ao sair da primária, pude continuar os estudos. Os restantes fa-lo-iam mais tarde, subindo na vida a pulso. E agora, quando completo oitenta anos, olho e vejo-os a todos, saudáveis, fruindo a vida, contemplando os filhos e netos que perpetuarão o nome dos Machados.
Mas a vida é um caminhar no tempo e este trouxe à Senhora Soledadinha melhores condições de vida e a alegria de ver os filhos conquistarem a sua independência, com alguns acidentes de percurso que foram resolvendo.
Não sei se há alguma Santa com o nome de Soledade, mas se não há, eu elejo a minha mãe com o coração e rezarei perante o quadro com a sua imagem, pintado pelo meu amigo Manuel Barreira, que, orgulhosamente tenho exposto na minha sala de estar. Os seus olhos tristes refletem os sacrificios que fez para nos criar, mas eu sei que, no céu, ela está orgulhosa de todos nós tanto quanto nós nos orgulhamos dela.

A minha mãe Soledade





O meu herói


Este conto foi escrito há cerca de trinta anos e dedico-o a todos os pais.
Recordo-o ainda com saudade, embora os anos vão desfazendo os profundos laços de amizade e ternura que nos uniam.
Mas ele foi sempre para mim um ser muito especial, movimentando-se num mundo que não era real, flutuando entre o céu e a terra entre o sonho e as duras certezas do quotidiano.
Naquele dia, eu acordara cedo. Pouco dormira, preocupado com as responsabilidades que me esperavam. Levantei-me, lavei-me, vesti-me, tomei o pequeno-almoço e quando chegou a hora de partir, peguei na sacola com os livros e lá fomos os dois, eu e o meu pai calcorreando as longas ruas que nos separavam da escola.
Havia poucos carros, mas as ruas estavam pejadas de transeuntes que caminhavam rápido para os empregos. De vez em quando via-se um carro, puxado por pachorrentos bois, transportando as coisas mais diversas, guiados por homens possantes de aspecto austero e rude, tez tisnada pelo sol, faces enrugadas pelo frio de muitos invernos.
No caminho encontramos outros iniciados nestas coisas da escola igualmente preocupados e apreensivos.
Contavam-se histórias de longas réguas, pesadas como o tempo, brandidas pela mão de professoras sem dó, de olhares furibundos, que não perdoavam a ignorância ingénua da pequenada. E eu ia pensando nos bolos que me esperavam, nas histórias contadas pelos mais velhos, de tudo dando conta ao meu pai, na longa caminhada pelas ruas estreitas, com o seu sorriso complacente e bondoso, animador e camarada.
Eram oito e meia quando chegamos à escola. O velho convento infundia respeito. Viam-se ainda os claustros em ruínas, onde, à noite, dizia-se, as almas dos velhos frades vinham rezar as suas orações!
Gaiatos traquinas e barulhentos animavam a malta e havia risos e gargalhadas, misturadas com as lágrimas furtivas dos mais novos.
E, então, chegou a professora: nova e bonita, inspirou-me alguma confiança e dissipou alguns dos medos que me atormentavam. O meu pai abraçou -me, disse-me que era preciso estudar para ser um homem de bem, mas eu percebi que uma lágrima bailava nos seus olhos bons, quando me deixou, com a promessa de que, no fim das aulas, me viria buscar.
E agora ele ali estava, passados tantos anos, a olhar-me como nesse primeiro dia de escola da minha infância, compreendendo os meus sonhos de adolescente, animando-me com as suas palavras, sonhando comigo um mundo mais fraterno! E lá íamos nós percorrendo outros caminhos, conversando sem fim, sem medo que as palavras não chegassem para dizermos, um ao outro, tudo o que nos ia na alma. Aprendi com ele a amar a vida nas coisas mais simples e a respeitar os outros como irmãos, o companheirismo e a amizade!
Lembro-me que passeávamos pelos campos, alheados do tempo, insensíveis ao cansaço, falando de tudo, cheios de certezas, corações sem ódio, fruindo a vida, poetas anónimos, fazedores de ilusões!
E veio-me, então, à lembrança um dia em que tudo foi diferente. Era o pós-guerra e a crise tudo avassalava e destruía. Os sonhos num mundo melhor e mais fraterno confrontavam-se com a dura realidade da miséria e até os poetas tinham fome... Nesse dia ficou desempregado, chegou a casa sem dinheiro e sem brilho no olhar... Indiferentes a tudo, as crianças corriam e brincavam. Dali a pouco, iriam querer comer!... E comeram, porque a solidariedade humana funcionou em pleno e aquele olhar voltou a recuperar o brilho!
Quando, anos mais tarde, eu parti para longe, foi como se partisse um pedaço de si mesmo! Mas os nossos corações mantiveram-se unidos e sempre que o visitava, havia montes de notícias a relatar, recordações a avivar, planos a gizar, como se a vida recomeçasse em cada reencontro!
E quando um dia, já muito doente, se despediu de mim, com lágrimas nos olhos e a garganta embargada pela comoção, eu senti que o Meu Herói se aprestava para a longa viagem sem regresso e temia que o seu "menino" não voltasse a tempo de o apertar nos braços como naquele primeiro dia de escola da minha infância!
Voltarei sempre... enquanto capaz de sonhar e de me sentir camarada e irmão de toda a gente! Enquanto, Meu Herói, acreditar que vale a pena ser " um homem de bem" como quiseste que eu fosse! Simplesmente!

Luís Machado

Os meus pais Emílio e Soledade

Eu na Primeira Comunhão

sábado, 19 de setembro de 2015

O TEU CORPO


Vejo no teu corpo
a ondulação das searas
quando o trigo loiro
brilha à luz do sol

Sinto no teu corpo
as curvas do tempo
desenhando desejos
que ne dão alento

Bebo nos teus olhos
o brilho do luar
esses olhos lindos
que lembram o mar

Esse mar profundo
que é meu fetiche
e espelha teus olhos
da cor do azeviche

Ponho nos teus lábios
meus beijos de mel
não são como outros beijos
que sabem a fel...

De veludo feita
pego em tua mão
tão terna , serena , tão meiga
que afaga meu coração

Eu queria conjugar
contigo o verbo amar
e nos meandros do tempo
ao futuro , então , chegar


Luis Machado

Reflexões e Memórias DO AMOR, DA AMIZADE E DA VIDA

Crónicas do meu viver // POR LUIS MACHADO

1 - No último fim-de-semana, desloquei-me a Viana do Castelo para assistir às Bodas de Ouro de um irmão. Foi uma festa linda, para o casal, para os filhos e netos, para todos os convidados presentes. No copo de água que se seguiu à missa houve tempo para trazer ao presente recordações de muitos anos, actualizar conversas há muito adiadas, rever velhos amigos, cantar e dançar ao som de belas melodias, seleccionadas a preceito por quem sabe do ofício e conhece os gostos de quem ouve.
Novos e velhos dançaram alegremente, esquecendo reumatismos e dores nas articulações, que a alegria é a melhor terapia para muitas das moléstias que afligem os mais idosos. E porque me recordei de bodas semelhantes celebradas há anos, a vontade recusou-se a entrar na dança e fiquei ali, comovido, a olhar os pares que rodopiavam na sala, as lembranças ensombrando este momento feliz.
Celebrar 50 anos de casamento é um momento de felicidade que muitos não alcançam. Só o amor ajuda a ultrapassar o tempo, somando, ano após ano, bons e maus momentos, vitórias e desaires, momentos de euforia e tristeza, nascimento de filhos e netos, morte de entes queridos que ficarão, para sempre, na nossa saudade.
O que há de mais belo no amor de um homem e de uma mulher durante tantos anos, é a capacidade de ultrapassarem, em conjunto, as agruras que a vida vai trazendo, de arranjarem soluções para as dificuldades que têm de enfrentar, terem tempo, disposição, carinho para educarem os filhos e mimarem os netos e, muitas vezes, se esquecerem de si próprios e dos prazeres que podiam fruir. Mas na hora de fazer o balanço, sentimos que valeu a pena e que as rugas e os cabelos brancos são apenas mimos que a vida nos deu por tanto termos vivido. E só o amor que sentimos é o prémio de todas as lutas e canseiras que a vida nos trouxe.

2 - Quando calcorreava ruas e avenidas da minha terra natal, quantas lembranças me vieram à mente, sonhos, amores e desamores, amigos que partiram, lugares onde fomos felizes e deixamos um pouco de nós próprios, ilusões que alimentamos e se desfizeram no tempo, quimeras que perseguimos, utopias que sonhamos. E vejo-me, menino e moço , deambulando pelas ruas da urbe , catrapiscando as moçoilas , que as havia bonitas , sonhando aventuras que eram apenas desejos , imaginando-me um galã desses filmes melosos que o cinema americano nos dava , imitando bigodes e penteados poupudos, alindados por uma boa camada de brilhantina. O meu herói era o Clarc Gable que aprimorava um sorriso que derretia corações...
E de sonho em sonho, já que não havia divas , lá acabávamos por conquistar uma colega estudante ou uma costureirinha simpática das modistas da terra. E havia algumas muito bonitas que nos faziam arregalar os olhos de cobiça e nos atraíam quais sereias cantando no mar que ali bem perto estava. Mas não quero entrar na minha própria privacidade e por aqui me fico. Todavia, lembro com saudade esses tempos da minha mocidade em que o sonho comandava , realmente , a vida...
E alguns sonhos ficaram pairando no azul dos céus daquele verde Minho... E falando ainda de amor, ficou-me , das minhas leituras de algum dia , um poema de D.Berta Bento Colaço (?) que dizia assim : " O flirt é um fio dourado/ sobre um rio pendurado, todo luz/ Amor é o nome desse rio/ quem não sabe andar no fio, catrapuz. " Confesso que, embora alertado, e porque sempre achei graça ao flirt, algumas vezes me desequilibrei no fio e catrapus, mergulhei nas águas do rio. Nalguns casos foi agradável a queda, havia uns braços suaves que nos amparavam e , ternamente , nos colocavam na margem. Outras, não era assim e de amores desgraçados estão os romances cheios...
Cuidado com o fio, o rio continua correndo por aí e nem sempre as ninfas nos estendem os braços com ternura. Mas amem, amem sempre, o amor torna diferente a vida, suaviza as dificuldades do caminho, inebria os sentidos, perfuma o ar que respiramos, leva-nos a alems onde tudo é azul e o sol eterno...
E quando alguém celebrar 50 anos de casados, cantem hossanas ao amor e acendam uma vela do tamanho da esperança... O mundo bem precisa de amor e de esperança...

3- Há dias fui agradavelmente surpreendido com a visita de um velho amigo e colega, António Joaquim Canedo de seu nome, que , no pós 25 de Abril , comigo enfrentou , profissionalmente , as dificuldades do momento. Há muitos anos que não o via pelo que recordamos peripécias do passado, falamos do presente e admirei a frescura de espírito deste jovem de 84 anos quando nos falava do futuro. Descobri nele um poeta de mérito quando teve a gentileza de me oferecer um exemplar do seu livro " Transmontano de Gema ".E o conteúdo do livro mostra-nos mesmo a fibra de um transmontano de gema e de um cidadão atento ao que se passa no seu país. São sublimes alguns dos seus poemas que nos recitou e que sabia de cor. Bem haja, bom amigo.

4 -  Queria ainda fazer referência a um livro do meu bom amigo Prof. Afonso Maria de Castro, com o título " Doces Recordações ". É um livro despretensioso, com histórias que nos encantam e recordações que, muitas vezes, nos comovem, escrito com a graça e o saber de um cultor da língua. Será um manancial de boas ideias e inspiração para algumas das minhas crónicas. Um muito obrigado pela gentileza da oferta. Do céu alguém lhe agradecerá a dedicatória verbal que nos foi transmitida.

Publicada no Correio Transmontano a 19 de setembro de 2015

https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

CAMINHOS

(Ouvindo My Way...)


Vou pela vida fora,
trilhando caminhos
e outras veredas
onde há rosmaninhos,
mas também abrolhos...

Prescruto o horizonte
onde nada vejo,
caminho, só curvas,
sem quaisquer imagens,
sem um só ensejo
de outras paisagens...

Caminho, caminho,
sem nunca parar,
talvez lá no fundo,
sem eu esperar,
o caminho se estenda
para um outro lugar...

E , então , de repente ,
vejo horizontes,
caminhos diferentes
para eu cruzar,
que eu desconheço,
onde é que irão dar?

E fico aturdido,
por onde hei-de ir
se não tenho um fim
para prosseguir...
Qual o meu caminho,
se nem sonhos tenho
para perseguir?

Não vás por ali
que o caminho é estreito,
diz-me o coração,
dentro do meu peito...

Por lá, também não,
é um lugar distante,
vai dar ao sertão,
só há lá tristezas
e desilusão...

E aquele, além ,
não queiras também,
parece um oásis,
é apenas miragem
dum grande deserto,
com a morte por perto...

Fico aturdido,
qual o meu caminho,
qual hei-de escolher
nesta encruzilhada
que é o meu viver...

E , então , na paisagem
se desenha um pássaro,
com uns olhos tão grandes,
tão belos e lindos,
que ao ver tal imagem,
diz-me o coração
e estes olhos meus,
que os olhos tão belos
só podem ser teus...

Se me deres a mão,
eu vou por aí...
Cheira a Primavera,
cheira a alecrim,
a abraços e beijos
guardados pra mim...

Luis Machado

A Vida é assim ( em noite de S.João )

Dizia Vinicius de Morais " (...) viver sem amor, não é viver. "

Fiz um poema para ti
que te não leio...
É triste, fico só com ele
e com a minha saudade...
Já não é tempo
de te escrever poemas,
nem de saltar fogueiras,
de martelinhos leves
nas cabeças duras,
de paixões passageiras
em noites de verão,
nem de sonhos vadios
pelo S.João...

É tempo de , ternamente ,
te sonhar, de longe,
de repousar , sereno ,
o meu coração,
de arquivar na memória
mais esta ilusão...

Segue o teu caminho...
Não esperes por mim...
A vida é assim....

Luís Machado

VIDA


Se penso
Sorrio de tristeza...
E neste riso subtil
Inútil
Cínico
Sagaz,
Me retrato,
Contrafeito!

E se busco, ao pensar,
Um sentido
Um fim
Uma razão,
Vejo apenas
E só,
Tristeza e dó,
Abutres,
Hienas,
Feras,
Fazedores de quimeras...

Mas se sonho
Criança
Uma outra vez
E sempre,
Descubro
Súbita luz,
Uma razão,
Viver,
Um fim,
Ser irmão,
Um sentido,
Dar!...

E nesta luta
Permanente,
Instante,
Entre o ser e o sonho,
A vida acontece,
Incoerente,
Perene
E pungente...

Luís Machado

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA


Semeio meus afectos
na terra abençoada
dos meus sonhos...
Sonhos de paz
harmonia
amor
Fraternidade...
Sonho ser criança
uma outra vez
num mundo
de alegria
com tudo cor de rosa,
( não é Raquel ?)
ou de fantasia,
amor de Mariana,
um mundo de acção
Irreprimível, infindável
que faz da escola
um lugar " chato"
para o Pedro Miguel...
Queria ser tudo
o que são meus netos,
Nuno, Gui, Rui Péricles, Bia,
Mario Péricles,
Queria sonhar para eles
e todos os meninos
do mundo,
um dia que não fosse hoje
ou amanhã, mas sempre,
um dia feliz,
sem fome,
sem ódios,
sem violência,
um dia de amor
universal,
todo o menino irmão,
todo igual...
E sabes, Pedro,
Queria que soubesses
que ainda tenho aqui
neste meu peito,
os abraços apertados
que me davas
quando não era ainda
tão velho como sou
e queria pedir-te
que me deixasses
dar um desses abraços
aos meninos que sofrem
e que não têm
o colinho dum avô
pra descansar...
Semeio meus afectos
na terra abençoada
dos meus sonhos...

Luís Machado

MARIA E OUTRAS FLORES


E se todas as flores
se chamassem MARIA?
Haveria outros exemplares
no meu jardim?
Perfumariam as rosas
meu espaço
e as primaveras ondulariam
nos meus ventos?
Cantariam as cores do arco-iris
minhas tulipas anãs
que tanto adoro?
E haveria os cravos vermelhos
do meu sangue?
E outras, tantas, tão belas,
agarradas aos canteiros como lapas,
sonhadoras, silentes...?
Mas há um cantinho,
só meu,
que só eu trato,
onde há Marias,
brancas de luar,
onde, quando estou triste,
vou chorar...
E se um sonho
ali pousa
para me consolar,
rego-o de perfumes
das flores tão belas
que só eu sei amar...

Luís Machado

POESIA


Pego nas palavras,
misturo-as com ideias, junto um pouco de sonho,
envolvo em fantasia,
Bato e
levo ao coração
para cozer
em lume brando
e gratinar...
A forma é a da alma,
o tempo o que eu quiser...
Sirvo com amor
e um pouco de alegria
ou apenas dor...
O prato é a Poesia...

Luis Machado

SONHANDO UMA LUA NOVA


Pensei-te antes de o seres...
Sonhei-te Lua Nova,
sem órbita nem sol,
buscando a luz,
a luz que ainda não tinhas,
sem saberes onde
e ao que vinhas...

Sonhei-te Lua Nova
buscando o teu destino,
em galáxias distantes,
nos confins dos céus,
livre, sonhando com sóis
que estendiam seus raios
enleando o teu corpo
em arrebois de luz...

Eu andava perdido
nesse universo imenso,
em buracos negros
onde a luz não chegava
e bem procurava
um céu encontrar
onde eu fosse Sol,
namorando uma lua
para me orbitar...

E quando, por fim,
cheguei a esses céus,
já um outro Sol
tinha os olhos teus
e tu, Lua Nova,
que já foras livre,
girafas na vida
presa aos raios seus,
luarejando as noites
destes olhos meus...

Pus-me a poetar,
a viver de sonhos,
sonhando outras luas...
e eu , o seu Sol,
raiava de luz
as noites de breu...
E o meu coração
passeava, errante,
buscando o impossível,
nesta luta instante...

E a luz, já difusa,
lá no horizonte,
mostra-me, ainda viva,
uma Lua Nova,
orbitando um Sol
que se vê, lá longe,
no seu arrebol...

E eu vou poetando,
vivendo meus sonhos,
sonhando luares,
estrelas nos céus
e olhos tão lindos
que sei são os teus...

E lá vou guardando,
adentro de mim,
os sonhos de amor
da grande aventura
que jamais tem fim...

Luís Machado

DÚVIDA

Duvido, logo penso
e se penso, existo,
nesta existência dúbia
de quem sente
que morrem lentamente
os anseios e os sonhos que sonhamos!
O vento sopra as vozes
de quem chora em silencio,
sem censura e força
para calar o pensamento,
as vozes de quem espera
que ainda haja flores na primavera
e que o dia amanheça,
que o sol não arrefeça
e brilhe e ilumine a esperança.
Duvido, logo penso,
mas fenece-me a vontade de pensar
a vida duvidando...
Anseio que o vento encha de orvalho
a madrugada
e haja flores na Primavera,
das cores que tu quiseres
e que possas duvidar
para poderes pensar...

Luís Machado

Viagem Espacial

Acabei de me inscrever, como voluntário, numa viagem espacial cujo objectivo é atingir, para além de Marte, um planeta ainda não descoberto, onde haja Homens (e Mulheres), sem necessidade de os procurar com uma candeia e onde o mês de Abril comece só no dia 2.
Parece haver apenas uma certeza em relação ao planeta em causa : não é habitado por Pinóquios.
Pensa-se também que, a haver atmosfera, o consumo de ar não seja ainda tributado e a água não tenha sido privatizada, perspectivando-se a possibilidade de óptimos investimentos nestas áreas e outras a pensar.
Estou muito confiante e aconselho: comecem a poupar uma parte substancial das chorudas reformas ou pensões que auferem, pensando no seu investimento em produtos de rendimento garantido, já que naquele planeta só haverá gente séria.
Pensem no assunto. A inscrição só é possível no dia de hoje : mandem um email para o Além.

Luis Machado

Publicada no Correio Transmontano a 1 de abril de 2015

https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O meu Herói

Este conto foi escrito há cerca de trinta anos e dedico-o a todos os pais .

Recordo-o ainda com saudade, embora os anos vão desfazendo os profundos laços de amizade e ternura que nos uniam.
Mas ele foi sempre para mim um ser muito especial, movimentando-se num mundo que não era real, flutuando entre o céu e a terra entre o sonho e as duras certezas do quotidiano.
Naquele dia , eu acordara cedo. Pouco dormira, preocupado com as responsabilidades que me esperavam. Levantei-me, lavei-me,vesti-me,tomei o pequeno almoço e quando chegou a hora de partir, peguei na sacola com os livros e lá fomos os dois, eu e o meu pai calcorreando as longas ruas que nos separavam da escola.
Havia poucos carros, mas as ruas estavam pejadas de transeuntes que caminhavam rápido para os empregos. De vez em quando via-se um carro, puxado por pachorrentos bois,transportando as coisas mais diversas, guiados por homens possantes de aspecto austero e rude, tez tisnada pelo sol, faces enrugadas pelo frio de muitos invernos.
No caminho encontramos outros iniciados nestas coisas da escola igualmente preocupados e apreensivos.
Contavam-se histórias de longas réguas , pesadas como o tempo, brandidas pela mão de professoras sem dó, de olhares furibundos, que não perdoavam a ignorância ingénua da pequenada. E eu ia pensando nos bolos que me esperavam, nas histórias contadas pelos mais velhos, de tudo dando conta ao meu pai, na longa caminhada pelas ruas estreitas, com o seu sorriso complacente e bondoso, animador e camarada.
Eram oito e meia quando chegamos à escola. O velho convento infundia respeito.Viam-se ainda os claustros em ruínas, onde, à noite,dizia-se, as almas dos velhos frades vinham rezar as suas orações!
Gaiatos traquinas e barulhentos animavam a malta e havia risos e gargalhadas, misturadas com as lágrimas furtivas dos mais novos.
E,então, chegou a professora: nova e bonita, inspirou-me alguma confiança e dissipou alguns dos medos que me atormentavam. O meu pai abraçou -me, disse-me que era preciso estudar para ser um homem de bem, mas eu percebi que uma lágrima bailava nos seus olhos bons, quando me deixou,com a promessa de que, no fim das aulas, me viria buscar.
E agora ele ali estava, passados tantos anos, a olhar-me como nesse primeiro dia de escola da minha infância, compreendendo os meus sonhos de adolescente, animando-me com as suas palavras, sonhando comigo um mundo mais fraterno! E lá íamos nós percorrendo outros caminhos, conversando sem fim , sem medo que as palavras não chegassem para dizermos,um ao outro, tudo o que nos ia na alma. Aprendi com ele a amar a vida nas coisas mais simples e a respeitar os outros como irmãos, o companheirismo e a amizade!
Lembro-me que passeavamos pelos campos, alheados do tempo,insensíveis ao cansaço, falando de tudo, cheios de certezas, corações sem ódio, fruindo a vida, poetas anónimos, fazedores de ilusões!
E veio-me, então, à lembrança um dia em que tudo foi diferente. Era o pós-guerra e a crise tudo avassalava e destruía. Os sonhos num mundo melhor e mais fraterno confrontavam-se com a dura realidade da miséria e até os poetas tinham fome... Nesse dia ficou desempregado, chegou a casa sem dinheiro e sem brilho no olhar... Indiferentes a tudo, as crianças corriam e brincavam. Dali a pouco, iriam querer comer!...E comeram,porque a solidariedade humana funcionou em pleno e aquele olhar voltou a recuperar o brilho! 
Quando, anos mais tarde, eu parti para longe, foi como se partisse um pedaço de si mesmo! Mas os nossos corações mantiveram-se unidos e sempre que o visitava, havia montes de notícias a relatar, recordações a avivar, planos a gizar, como se a vida recomeçasse em cada reencontro!
E quando um dia, já muito doente, se despediu de mim, com lágrimas nos olhos e a garganta embargada pela comoção, eu senti que o Meu Herói se aprestava para a longa viagem sem regresso e temia que o seu "menino" não voltasse a tempo de o apertar nos braços como naquele primeiro dia de escola da minha infância!
Voltarei sempre... enquanto capaz de sonhar e de me sentir camarada e irmão de toda a gente! Enquanto, Meu Herói, acreditar que vale a pena ser " um homem de bem" como quiseste que eu fosse! Simplesmente!


Luís Machado

Percurso


Fui gazela livre
Brincando com os sonhos,
Ágil, perseguindo o futuro,
Desenrolando a vida,
Novelo fofo
De ternura feito.....
Fui ave solta
Sonhando igualdade,
Lúdicos devaneios
Por um além sou cor,
Planura sem fim
Semeada de amor....
Fio vendaval
Arrastando ideias,
Vento de mudança
Arrasando rotinas ,
Fui coragem,
Fui força
Fui certeza...
Que é do horizonte
Onde almejei o fim?
Porque passou a vida
Sem esperar por mim?

Luís Machado

80 ANOS DE VIDA E OUTRAS VIDAS SEM RUMO

Crónicas doo meu viver // POR LUIS MACHADO


1 - No próximo dia 23 de Setembro farei, se Deus quiser, 80 anos de idade.
Não é uma data qualquer, é o inicio de uma nova década, um marco mais a colocar neste grande campo que é a vida , tempo de reflexão e de angústias , de balanços e perspectivas para um futuro que ainda ansiamos.
E se recordar é viver, que melhor data e tempo para desenrolarmos o novelo onde fomos guardando os dias e as estórias e , puxando o fio , trazermos ao presente autores e atores desta aventura e , ternamente , tecermos imagens de uma vida que vai longa...
Sempre encarei poeticamente a vida. Quando era menino, queria ser poeta e não sabia ainda que o poeta sofre quando as emoções canta...
Na pré-adolescência já escrevia poemas de amores contrariados e textos em que donzelas frágeis tinham em mim o seu cavaleiro andante , defensor de suas virtudes e admirador de suas belezas. E imaginava Hermengardas e eu um qualquer Conde que lutava bravamente por sua dama e donzela.
Eram tempos lindos , vividos na candura dos verdes anos , influenciado pela leitura de romances históricos e de cavalaria que povoavam o meu imaginário...
E à medida que o tempo passava, os cenários iam mudando, mas mantinha-se o mesmo espírito cavalheiresco e romântico que havia de me acompanhar pela vida fora.
De amores platónicos e outros menos , se preencheram os anos. Sonhos, quimeras, ilusões, paixões desfeitas pelo destino , lutas no esgravatar da vida , o mundo como palco , actores de comédias e tragédias , encenadas neste caminhar insano a caminho do futuro.
E o que é o futuro quando se é adolescente? É sonho e fantasia, é um querer ser diferente , é uma procura constante , um experimentar de novas sensações , uma revolta permanente contra tudo e todos , um saber de quem sabe tudo.
Todos fomos assim e ainda bem que o fomos , o sonho a comandar a vida , a procura de novas soluções e novos horizontes... E um dia descobrimos que somos adultos e que a vida não é um paraíso e que o amor é uma coisa diferente dos arroubos e das paixões dos namorados e que há a realidade que nos empurra para caminhos diferentes e nos impõe soluções diversas.
E se temos a sorte de encontrar a companheira que nos há-de guiar e seguir nos caminhos íngremes que temos de percorrer, é o começar de uma vida nova que se espera plena , segura e feliz. E se surgirem os filhos e os netos, é como que se redimensionássemos os sonhos e procurássemos, num outro horizonte , descobrir novos motivos para lutar e atingir os objetivos que almejamos. 
Mas nem sempre é assim e esse é um dos problemas da vida. Nunca os tive e Deus deu-nos força e engenho para seguirmos o caminho que traçamos e ver crescer as flores que plantamos. Nada é eterno!
Há céus e aléns e estrelas e sóis que temos de , um dia , percorrer. Uns vão e outros ficam olhando o tempo....à espera de um outro tempo em que uma chuva de estrelas , voando em formação , escoltadas por anjos , nos levarão até além dos céus...
Até lá, temos pela frente a vida que não nos dá quartel! Que fazer quando o nosso tempo passa como um rio que corre, sem parar e além , no horizonte , já se vislumbra o mar ? Como gerir um tempo que não é nosso , mas que temos de viver como se nosso fora? ". Vou desistir da idade, a idade está em meu pensamento, vou viver a vida toda como se fora um momento. "... Sonho , realidade , saudades de outros tempos já vividos , anseios não cumpridos, uma amálgama de sentimentos se cruzam no nosso coração...
Às vezes esquecemo-nos da idade e isso é bom...Outras sentimos que as portas se fecham com estrondo e apontam-nos um mundo que era diferente e não melhor... E o nosso sorriso fica mais pálido e os nossos olhos mais tristes....
E como seria bom termos uma mão amiga sobre a nossa, um quase nada de sonho que nos aquece a alma , um sopro de ternura que nos eleva aos céus... Mas ao olhar estas mãos desenlaçadas, precocemente inúteis, cheias de nada , olhando o tempo , penso , interrogo-me , busco e vivo este presente que se arrasta à procura das respostas... que já tardam...
Há andorinhas nos beirais da minha rua...Tenho melros assobiando no jardim e as cegonhas desenham círculos no céu... Gostava de ser pássaro , voar livremente para além do horizonte , havia de encontrar o céu e espreitar o futuro... 
Aos 80 anos, ser pássaro livre é uma loucura, mas é da boa loucura que se alimentam os poetas e o menino que eu fui queria ser poeta... E eu sinto que um dia hei-de ser novamente menino, sonhando com amanhãs que cantam e madrugadas que libertam...

2 -- Palavras poucas para dizer da muita amargura que me vai na alma pelo drama pungente dos desgraçados que, aos milhares, em condições as mais degradantes, se lançam na aventura de alcançarem a Europa, o paraíso com que sonham.
São oriundos dos países do Médio Oriente , em guerra , e da África , fugindo à miséria mais atroz em que os mergulharam.
São homens e mulheres, velhos e crianças, transportados em condições inferiores às do gado e, muitas vezes , tratados como bandidos , quando eles são apenas as vitimas de interesses inconfessáveis e que procuram apenas um palmo de terra para descansar e um pedaço de pão para comer.
Não há, por vezes , respeito pela dignidade humana e um pouco de amor no coração de quem decide. Indignamo-nos quando, quase diariamente, tomamos conhecimento das tragédias que se abatem sobre estas verdadeiras ondas de emigrantes. Muitos assobiam para o lado e nem querem saber. Outros, a maioria, indigna-se e esquece.
Mas este é um problema grave que tem de ser resolvido e não basta socorrer os que fogem à miséria, mas ir ao fundo da questão e erradicar as causas da fuga maciça de tais desgraçados…
É um crime contra a Humanidade se tal não for feito.

Publicada no Correio Transmontano a 2 de setembro de 2015

https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/

MÚSICA - O LADO BELO DA VIDA

Crónicas do meu viver // Por Luis Machado

Quando , como eu , estamos prestes a atingir a proveta idade de 80 anos, a vida já não tem para nós aquele deslumbramento próprio dos verdes anos. Vemos as coisas com mais serenidade , sem grandes entusiasmos , sonhos limitados , arroubos breves , sem quimeras e sem procuras vãs.
Já atravessamos muitos desertos e percorremos muitos caminhos , nadamos em muitos mares e rios , sentimos a beleza de muitas primaveras e o rigor de invernos que foram pintando de branco os nossos cabelos.
Já não são os concertos barulhentos e com milhares de assistentes , a beleza dos seus efeitos de luzes , a elegância das bailarinas e dos coros , que nos empolgam e nos levam para fora de casa até de madrugada.
Mesmo quando se canta o amor a noite inteira e se eleva ao rubro o coração das teenagers e as que julgam que ainda o são, não conseguimos reunir entusiasmo bastante para nos perdermos no seio da multidão que vibra e vive cada momento com emoção.
E , no entanto , eu entendo a necessidade de tais eventos , a vontade de pular , de cantar bem alto as canções que do palco vêm ,de adular os cantores , de gritar o seu nome e de sonharem beijos que flutuam no ar... 
A vida tem tão poucos momentos de descontração e felicidade que é preciso aproveitar estes momentos efémeros e vivê-los intensamente ,para , mais tarde , recordar...
Ontem, à noite , foi um desses momentos e nas vias que levavam ao Eixo Atlântico, o movimento era grande e os lugares de estacionamento tornaram-se poucos. Juntaram-se milhares de pessoas para verem o fogo de artifício e assistirem ao Concerto de Tony Carreira..
À meia-noite , em ponto , subiu o primeiro foguete a que se seguiu uma belíssima sessão , com bouquets maravilhosos , durante 15 minutos.
Assisti a tudo da janela da minha casa , acompanhado do meu cão que se assustou e não gostou do barulho. Mas foi lindo... 
Depois seguiu-se o Concerto que empolgou os milhares de assistentes.. Não assisti. Da janela da minha casa apreciei o bulício e recolhi-me.
Hoje , após o almoço , como sempre , instalei-me no sofá para dormir uns minutos. Mas o sono não veio e , então , pus a rodar um CD com o Concerto de Aranjuez. Não sei quantas vezes já ouvi este concerto , mas foram muitas.
Fechei os olhos para melhor saborear os acordes , na semi obscuridade da sala , em absoluto silencio . E senti-me noutro mundo, como que se não tivesse corpo e o espírito vagueasse no espaço , embalado pelas notas maravilhosas do Concerto.! E ali fiquei alguns minutos, sem pensar , sem sentir , absorto no fruir desta música celestial que me empolga! Quando o CD terminou fiquei em paz comigo próprio e pensei como o mundo seria bem mais belo , se substituíssemos o troar dos canhões pela harmonia e beleza do Concerto de Aranjuez !





Publicada no Correio Transmontano a 22 de agosto de 2015

https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/

Virtual


E quando, virtual, te sonho
Escrevo este poema para ti,
Sonhando que o lerás com o coração...
Eu sei que escrevo palavras
Sem sentido: mera ilusão
Dum sonho que sonhei
Que partilhavas...
Esqueci-me do tempo e da idade
E quis sonhar,
Como se fora hoje
Da minha mocidade o dealbar...
Mas já vai longo o tempo
E tudo corre já
Para esse mar de nada
Onde todas as quimeras desaguam...
E quando,virtual, te sonho,
Teu nariz empinado,
Teus olhos como estrelas,
Sorriso misterioso e lindo,
Eterna Gioconda,
Sei que é apenas quimera,
Bem perto do mar,
Sem espaço, nem tempo
Para te encontrar...
Quisera pegar na tua mão
E com carinho,
Percorrer contigo
Outro caminho....
E quando, virtual, te sonho,
Um outro sonho eu tenho:
Que se torne real
O simples esboço
Que de ti desenho.


Luis Machado

Amor improvável

E se num dia qualquer
o amor acontecesse
e nesse dia improvável
meu coração renascesse
e juntinho com o teu
cantasse hinos à vida?
E se num dia qualquer
fosse essa música ouvida
pelos deuses do amor
e por eles convertida
nas pétalas duma flor,
malmequer, rosa vermelha,
um amor quase perfeito,
perfume do coração
que enchesse nosso peito?
E se num dia qualquer,
tudo isto acontecesse
e o amor renascesse
do fundo da minha dor,
era o Além que eu veria
no brilho do teu olhar,
era a tua mão na minha
que me havia de guiar,
era o sonho que eu sonhara
no horizonte a brilhar,
era num outro tempo,
outra vida a começar...

Luís Machado

FÉRIAS, AMORES E SAUDADES

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado


1 - Cheguei a Vila Praia de Âncora com um sol radioso, o mesmo sol que brilhava quando, há muitos anos , para aqui vinha namorar , o mesmo sol que acalentou o crescimento de meus filhos e netos , o mesmo sol que há-de raiar para além de mim, esconder paixões e guardar estórias que , um dia , alguém há-de contar.
Sentado no muro de pedra que separa a avenida da praia , repetindo um gesto que durante muitos anos efectuava diariamente , olhava o mar , calmo como um lago , onde apenas suaves ondas se esmagavam na areia e corriam docemente pelos pés das crianças que faziam castelos...
Lá longe , no horizonte , o céu e o mar abraçavam-se num amplexo sem fim , juntando azuis e verdes e dourados de sóis que se miravam nas águas...
Às vezes, junto ao horizonte, passavam barcos que pareciam brinquedos de papel , daqueles que os pais fazem com jornais para os seus filhos brincarem nas pocinhas que o mar vai deixando na praia...
Absorto no meu pensamento, ouvia as sereias convidando ao amor , seus corpos esculturais rebolando-se nas águas mansas , esperando que algum Adónis as abraçasse para sempre!...

2 - Na avenida marginal, onde estou sentado , alguma entidade colocou painéis com as fotos de pescadores que dedicaram parte ou toda a sua vida à pesca do bacalhau , afrontando o mar em frágeis barcos , lá nos mares gelados da Terra Nova e Gronelândia. Eram centenas de heróis , alguns familiares de amigos nossos que nos contavam estórias de naufrágios e salvamentos em condições terríveis.
Viana do Castelo teve, no passado, a maior frota bacalhoeira do país e empresas dedicadas à pesca , de grandes dimensões , com barcos que , ainda hoje , povoam o meu imaginário, como o Santa Maria Madalena, o Santa Maria Manuela, o Vasco D'Orey e outros.
Na minha pré-adolescência costumava assistir, na doca comercial, à chegada dos barcos e ao descarregamento do bacalhau já salgado que era encaminhado para as empresas de seca , uma das mais importantes em Darque , na margem sul do rio Lima , onde se praticava a cura amarela , muito procurada e apreciada.
Como foi possível que tudo isto desaparecesse com o tempo e empresas e barcos fossem engolidos por falências e abates impensados, fruto de gestões incompetentes e politicas erradas.
Resta-nos como recordação de tudo isto , o Gil Eanes , o velho navio - hospital que dava assistência à frota bacalhoeira nacional e que um movimento exemplar de vianenses resgatou da sucata, recuperou, transformou em Fundação, com uma Pousada da Juventude e um Museu das coisas do Mar. E é vê-lo garboso , exibindo a sua beleza numa das docas comerciais , bem perto do centro da cidade , para usufruto dos vianenses e visitantes que o procuram aos milhares.
E se a tudo isto juntarmos o desaparecimento progressivo dos Estaleiros Navais que chegaram a empregar para cima de dois mil trabalhadores, compreende-se o sentimento de desânimo das gentes do mar que viram as suas frotas irem desaparecendo e hoje estão reduzidas à expressão mais simples. 
O que é feito dessa Viana virada para o mar?
Resta a saudade e a procura de oportunidades noutras áreas e Viana tem tantas potencialidades!

3 - Há por aqui muitos brigantinos que por cá ficaram e constituíram família, alguns já na segunda e terceira gerações.
Sem perderem o amor à sua terra natal que permanece bem vivo, aqui se radicaram e desempenharam lugares de destaque na vida da cidade. De destacar a classe dos professores que se espalhou por todo o distrito, contribuindo com o seu saber para o desenvolvimento da terra que os acolheu e amou.
Assim também Bragança acolheu muitos vianenses que por lá foram ficando e aprenderam a amar.

4 - Hoje está a chover e tivemos de interromper as idas à praia... Ansiamos que o sol regresse! Os dias passam e aproxima-se o tempo de regressar., com o coração cheio de saudades, de estórias e recordações. Aproveitamos para visitar irmãos e suas famílias. Foi tempo de recordações e de saudades. E tantas estórias tinham já e ainda para contar! Fomos ao baú do tempo ressuscitar velhos amores, falar dos que partiram e estão no céu guardando o lugar aos que um dia hão-de chegar. Falamos de tudo!...
Como foi bela esta estadia em Vila Praia de Âncora..... Aquelas pedras , aquelas areias, aquelas dunas , aqueles mares, guardam recordações inolvidáveis de tempos felizes...
Foram várias gerações que por ali passaram e amaram sob o céu quente de Agosto : destinos diversos , sortes diferentes , profissões as mais díspares, militares , professores , médicos , gestores, tantas outras, mais ou menos importantes , irmanadas numa amizade que não morre, antes se fortalece com o tempo, cimentada pelas saudades que enchem nossas almas...
No decorrer da longa conversa que hoje mantive com alguns dos meus irmãos, um deles lembrou uma das minhas paixonetas de adolescente, uma artista de circo, contorcionista, linda, escultural! Chamava-se Florbela, casualmente o mesmo nome da minha filha mais velha, a nossa Bê. Transcrevo uma quadra que os meus 18 anos de então, me ditaram, em homenagem à bela Florbela:

"Florbela me chamaram
quando a este mundo vim
umas flores me invejaram
outras não vivem sem mim. "

Eu era, talvez, uma dessas flores, quiçá um cravo vermelho, sonhado nessa quimera da adolescência e recordado agora com a ternura dos meus cabelos brancos....E que saudades, Deus meu!


Publicada no Correio Transmontano a 19 de agsto de 2015
https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/

BARCO À VELA

Eu ia num barco à vela
no mar alto, a navegar...
Levava comigo a vida,
Queria o mundo conquistar!
Levava também os sonhos
de quem está a começar,
Bebia a luz das estrelas,
Conjugando o verbo amar...
Que belos eram os peixes,
junto do barco, a saltar,
Ouvia cantar sereias
que me queriam conquistar...
Ia seguindo o meu rumo,
Sempre, sempre a velejar,
o vento ia ajudando,
tinha pressa de chegar...
Lá no fundo, o horizonte
ia ficando mais perto,
havia sóis a dizer-me
que o caminho estava certo...
Até que um dia, uma estrela
caiu dos céus, nos meus braços,
mudou o rumo à viagem
e mostrou-me outros espaços...
Deixamos então o mar
e rumamos à montanha!
Que lindos eram os montes
nesta terra tão estranha...
Colhemos flores nos campos
que juntamos às estrelas,
nasceram flores tão lindas
que era um regalo ve-las!...
E o tempo lá foi correndo,
sem parar um só momento,
tão célere, tão veloz
como o próprio pensamento...
Quando as estrelas do céu,
um dia, deram pela falta
duma irmã que lhes fugira,
ainda a lua ia bem alta,
vieram busca-la, então,
enchendo a terra de luz,
deixando o meu coração
como o de Cristo na cruz!
Pensei voltar ao meu barco,
navegar noutras ideias,
mas o mar estava diferente,
já nem havia sereias!...
E eu olho o horizonte,
vejo-o bem perto de mim,
as águas que , então sulquei
já só me levam ao fim!...

Luís Machado

DIA DOS NAMORADOS


Não há muito tempo
eu dava-te flores
e beijos
e olhava-te nos olhos
com amor...
Era um dia como os outros,
mas ainda assim,
era bom lembrar
que para mim,
era um dia de sempre,
sem pôr do sol
sem fim...
Havia outras flores
que cultivamos
com amor
que cresceram
e deram cor à vida...
E havia o céu
e havia as estrelas
e havia o futuro
que queríamos percorrer
bem juntos
de mãos dadas...
Depois, um dia,
um dia muito longo,
murcharam as flores
que tinha para te dar
e ficou a saudade
e as lágrimas furtivas
e a solidão
de quem não espera já!...
Mas no dia dos namorados,
onde quer que estejas,
vou mandar-te uma rosa
e cravos vermelhos
e muitos, muitos beijos,
tantos, quantos a saudade
possa suportar,
com algumas lágrimas
que ainda ficaram
por chorar!...

Luís Machado

Chamei-te amor

Chamei-te Amor porque não sabia o teu nome
e Amor é um nome lindo ,
Começou a chover...
O aroma das flores
dissipa-se no ar
e eu repito , baixinho, vezes sem conta, o teu nome lindo
e sonho palavras que não dizes...
Apetece-me descansar no teu regaço, repousar a cabeça no teu peito,
banir para sempre este cansaço
de estar longe, sem ti.
Amor, o teu nome lindo
repito sem cessar,
enquanto o aroma das flores
se dissipa no ar...
Começou a chover
os meus olhos cansados
anseiam por te ver...,
Sinto fugir o tempo
como as águas dum rio
que corre sem parar...
Além já se vislumbra o mar...
Temo, Amor, que me falte o tempo,
para te encontrar.

Luís Machado


Fervença , meu amor

Crónicas do meu viver // Por Luis Machado


1 - Hoje levei meus passos até às margens do Fervença.
Percorro o passadiço lentamente, desfiando recordações de dias mais felizes em que percorria toda s encosta, de lanço em lanço .
Subíamos os 135 degraus do escadório que nos levava à Capela de N.Sra da Piedade , tomávamos a estrada ao cimo, descíamos novamente até ao rio e procurávamos uma sombra onde descansar da caminhada. 
Havia bancos e sombras em todos os patamares , mas os passos antes eram poucos. Junto ao rio , no parque infantil , ainda se viam algumas pessoas e no espaço do café esperava-se , pacientemente , que os clientes chegassem. 
Agora já não me afoitava subir a escadaria e a percorrer os sucessivos patamares. A condição física já não é a mesma e custa-me percorrer , sózinho , aquele espaço...
Mas hoje ,dando continuidade a algumas romagens de saudade que há algum tempo encetei , levei meus passos até às margens do Fervença , na área intervencionada da Polis. De novo percorri , lentamente , o passadiço , debrucei-me no gradeamento a contemplar as águas e as margens e procurei , em vão , algum peixinho que as alegrasse.
As águas corriam lentamente, pejadas de detritos das belas árvores que orlam a margem direita. Chorões imponentes como que se lavavam no rio, estendendo os seus ramos até às águas... Ao passar nos açudes, o rio cantava harmonias que deliciavam meus ouvidos e me faziam sonhar cataratas gigantes de Fervenças enormes , rendilhando as águas que saltavam para colossais abismos...
E o Fervença corria , manso , muito devagar , alargando além , junto ao jardim , orlado de canaviais onde , em tempos , havia patos que grasnavam e desenhavam nas águas os seus bailados...
E não pude ouvir o seu grasnar , nem o coaxar das rãs que , em multidões , povoavam as margens...Nem o cantar dos melros no arvoredo... nem pássaros voando , perseguindo insectos... apenas , de quando em vez , uma pomba perdida passava ante meus olhos...
Só o arvoredo estava belo, de verdes matizados , ramos enleados e folhas bem juntinhas, inclinado para o rio como que a querer beijá-lo.
Estou um pouco surdo e já misturo os meus zumbidos crónicos com o sibilar dos sons da natureza... Mas pareceu-me ouvir ao longe o canto das cigarras e dos grilos... ou será o vento? Seria algum lamento por esta tristeza de não haver vida neste rio tão belo...

2- Entro no bar, sento -me naquele confortável espaço envidraçado , saboreio um bom café e umas águas e só não fumei um pensativo cigarro, porque não fumo...
Mas fiquei ali a pensar , só , com a minha solidão , organizando os meus sonhos , revivendo passados , consultando um presente que procuro viver sem tibiezas...
E vêm-me à lembrança outros tempos nestes mesmos espaços , no jardim frente ao rio , com festas à mistura, bailes onde deslizava nos braços da amada , noite fora , até de madrugada...
Era a primeira vez que vinha a Bragança. Desaguei com um amigo , num daqueles carros americanos enormes , na Av.João da Cruz , frente ao café Lisboa , donde telefonamos e anunciamos a chegada. Não havia telemóveis, nem SMS , voicemail e quejandos. E fomos ao encontro daquela que seria a minha nova família, recebido com alguma desconfiança, pois os minhotos não gozavam de grande fama por estas bandas. Mas eu era especial e os meus advogados se encarregaram de me defender o bom nome. E lá fui aceite , autorizado a catrapiscar a minha princesa que comigo trabalhava lá nos confins do Minho.
E o tempo fez o resto. Deus nos traçou o destino e , mais tarde , cá vim parar , acompanhado de quatro minhotinhos, saborear Bragança, por quem me apaixonara havia muitos anos. E por cá fiquei , ignoto cidadão fazendo o seu melhor, construindo futuros sonhando madrugadas , declinando protagonismos , à espera de amanhãs que pensava felizes...
E agora ali estava , no café do Fervença , catalogando memorias, escondendo desilusões e mágoas, arrumando sonhos , alinhavando ilusões. E enquanto isso , ansiava que algum melro assobiasse no arvoredo e ouvia os silêncios que do rio vinham... Peguei nos meus passos e regressei a casa... Era tempo...

3 - Hoje chega a Bragança a Volta a Portugal em bicicleta. O centro da cidade regorgita de gentes que assistem ao programa televisivo que antecede a chegada. Há movimento. O pais assiste a um desfilar de entrevistas e informações sobre Bragança , sua historia , sua vida , sua beleza , seus anseios. No canto do café, onde me sento, observo o bulício, ouço opiniões, deito um olho à TV... É bom ver vida neste centro histórico , normalmente , morto ou adormecido.
Os repórteres do CT acompanham a azáfama com alegria. Poucos são os acontecimentos que sucedem em Bragança.
Bragança hoje está no mapa…


Publicada no Correio Transmontano a 31 de julho de 2015
https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/

A Galiza mai-lo Minho, Cantigas de Amor e casamentos raianos

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado 


1. Com o calor que tem feito, todo o trabalho é penoso. Agradável mesmo,é saborear umas bebidas frescas numa qualquer esplanada ou, em casa, com um mínimo de roupa e descalços, estendermo-nos no sofá e aí pensarmos: o que fazer ao tempo? Sou reformado , dispensado de horários e muitas horas do dia utilizo-as estudando , lendo , escrevendo, facebookiando, e, confesso, não me sobram muitas.
Poderia utilizar melhor o tempo, não fora a idade que me vai entorpecendo as pernas e enfraquecendo a vontade. Mas , ainda assim , há uma parte do dia que dedico aos amigos e aproveito para sentir o pulsar da cidade , o movimento das gentes , um ou outro evento.
Nota-se um número crescente de estrangeiros no centro da cidade , dinamizando o serviço de cafés e restaurantes , quiçá de outros estabelecimentos comerciais. A maioria são espanhóis que emprestam à área uma maior alegria.
2 . Há alguns anos atrás, eu atendia na Livraria Mário Péricles, muitos espanhóis que ali iam procurar livros dos nossos melhores escritores e conversar um pouco. Nunca nos ficávamos pela conversa que era sempre agradável, pois eram , normalmente , pessoas de cultura superior , preparando doutoramentos ou simplesmente apreciadores da literatura portuguesa. E , com alguma vaidade o digo , tenho a convicção de ter sido útil a muitos , ao ponto de me oferecerem livros da sua autoria que guardo ainda, com muita amizade e saudade. Um desses visitantes era professor universitário em Madrid e mandou-me alguns livros da sua autoria : traduções em Castelhano de obras de Fernando Pessoa , com a respectiva analise e comentários. Estava a preparar o doutoramento e a tese versaria Fernando Pessoa.
Uma outra situação interessante, das que ainda recordo , foi a de uma pessoa de idade que , após a aquisição de alguns livros , me perguntou se eu saberia a razão por que os tinha adquirido : " Sabe, eu levo os livros porque sou galego , não sou espanhol. Os espanhóis não lêem autores portugueses . Não era totalmente verdade , mas isso me levou a pensar na excelência das relações que , principalmente na raia minhota , galegos e portugueses mantinham em todas as áreas , desde a comercial, à cultural , turística e até amorosa...
3. Há muitos anos vivi na vila de Monção debruçada sobre o rio Minho que corria , bucolicamente , em direcção ao mar , com as suas águas beijando ternamente as margens da Galiza e do Minho.
Era um rio muito belo e rico em lampreias , sável , um ou outro salmão e muitos dos peixes que , normalmente , povoavam os rios do norte do país. Hoje já não é bem assim, pois a construção de barragens do lado espanhol, alterou profundamente o equilíbrio ecológico.
A margem portuguesa do rio era muito bonita , amuralhada numa certa extensão, com espaços ajardinados, e era por ali que se viam pares de namorados, contemplando a paisagem idílica, de mãos dadas , fruindo a natureza e trocando caricias...
Do lado espanhol via-se passar o comboio ronceiro , à semelhança do Tua , vencendo , lentamente , a distância que o aproximava de outras urbes.
E o rio corria , lentamente , ao ritmo da vida de então, convidando o olhar a espraiar-se pelas distâncias que o haviam de levar até Caminha e ao Atlântico. Para trás ficara Melgaço, outra vila raiana , capital do contrabando , que era , nessa época , o ganha pão da maioria dos seus habitantes.
Zona montanhosa e pedregosa, muitas daquelas pedras tinham assistido ao nascer do Condado Portucalense e à génese de Portugal, pela mão de Afonso Henriques, filho de Henrique, cavaleiro provençal a quem Afonso de Leão havia oferecido o Condado,como recompensa da ajuda na luta contra os sarracenos.
Era um território de fragas e rios idílicos, cujas fronteiras foram sendo desenhadas na ponta das espadas , lanças e varapaus , com que se iam combatendo e empurrando os mouros para sul...
E assim nasceu Portugal, companheiro de sempre da Galiza ,com quem partilhou a língua, os costumes , a poesia , durante muito tempo , até que cada um seguiu o seu caminho...
E como são belas e ingénuas as poesias do nosso cancioneiro galaico-português , cantigas de amor , cantigas de amigo , cantigas de escárnio e mal dizer , tão belas , tão sedutoras , que foram o enlevo de poetas e réis que também as cantaram... "ai flor, ai flor do verde pino, se sabedes novas do meu amigo..."
Mas é assim a vida e a Galiza e o Minho nunca passaram da fase de namorados que trocaram promessas que nunca cumpriram...
E no passeio dos Neris , era assim que lhe chamávamos quando ali namorava, na muralha sobre o rio, um poeta monçanense, João Verde, escreveu o seguinte poema : " A Galiza mai -lo Minho/ são como dois namorados/que o rio traz separados /quase desde o nascimento. / Deixá-los pois namorar/ já que os pais para casar/lhes não dão consentimento "...
E ao ler diariamente, no grupo Terras Ibéricas/Gentes e Lugares, memórias desse passado que nos une , não posso deixar de pensar no belo poema que transcrevo acima e noutros casamentos que na raia imensa ficaram por fazer...

Publicada no Correio Transmontano a 28 de julho de 2015
https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/

QUANDO O SOL NOS ESQUENTA A MENTE

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado



Hoje vou escrever uma crónica um pouco diferente e em vez de tratar e desenvolver um tema ou contar uma história, vou deixar deambular a mente, livremente , por ai , esquentada por este calor estival que nos convida às sombras e às bebidas frescas.
Uma das coisas que me ocorreu tratar, foi a beleza, não a beleza dos campos e jardins , matizados das mais lindas flores ou do verde suave dos prados, do sussurrar sereno das águas dos rios e riachos , do trinado das aves canoras , do azul esplendoroso dos céus... Não, apetece-me falar da beleza feminina , rivalizando com a beleza da natureza , em harmonia e cor , na suavidade dos movimentos , quiçá na ternura da voz... 
Espectador insuspeito , sento-me numa qualquer esplanada e aprecio o movimento dos corpos , quase desnudos , de muitas beldades , realçando as formas , aprimorando os rostos , abrilhantando o olhar , estudando os gestos , calculando os passos... 
E dá gosto olhar e sonhar belezas ocultas que se adivinham , juntas às que os nossos olhos vêem... 
E ali ficamos absortos no pensamento e na lembrança de outros tempos em que os nossos olhos brilhavam e os nossos corpos tremiam à passagem de uma mulher bonita que nos excitava os sentidos... Hoje, tudo é diferente... A quantidade e a qualidade aumentaram exponencialmente, a beleza feminina , natural ou fabricada , é uma constante e a excitação que provocam nos jovens não tem paralelo com a que provocavam no " antigamente ", quando uma saia ou um vestido mais curtos nos levavam aos céus... 
Os jovens de hoje são uns felizardos , vivem no seio da beleza e nem se apercebem dela , tudo é natural , tudo a natureza lhes oferece ... e há flores tão lindas...
Fico ali sentado , os olhos espraiando , os sonhos voando no tempo , pomba branca que já foi falcão , sonhando horizontes onde eles não vão... Fico ali sentado e, antes que o tempo passe e me tire o olhar, olho , discretamente , a beleza que passa e escrevo , na mente , poemas de amor que ninguém lerá... Depois, depois, vou dormir a sesta e descansar da excitação , a que não é alheio o tempo , arrumar os sonhos , descer ao real...
A sesta é quase uma instituição nacional. E sabe tão bem... Sento-me no sofá , manuseio o jornal , fecho o facebook e...durmo um pouco , não muito ... Às vezes dá-me para sonhar , coisas sem nexo , outras que gostaria fossem reais , outras ainda relacionadas com a vida e seus problemas... 
Hoje na TV falava-se do ORPHEU e dos 100 anos da sua publicação. O entrevistado fez uma boa apresentação da assunto e mostrou a obra , os números publicados ( 2 ) e um terceiro que estaria pronto para publicação, mas que não o chegou a ser. Falou dos mentores do movimento : Fernando Pessoa , Mário Sá Carneiro e Almada Negreiros , das reacções que provocou na época , do vanguardismo que inspirou toda a literatura portuguesa subsequente. Loucura criativa própria dos génios...
Na ordem do dia , está o problema da Grécia. Fala-se muito , diz-se pouco , esgrimam-se verdades e inverdades , omite-se , acrescenta-se , sofre-se e faz-se sofrer. Há os que sabem tudo e os que não sabem nada, os que emitem opiniões criticas fundamentadas e os que deturpam e insultam , como é apanágio dos ignorantes. 
Na Mitologia da Grécia Antiga havia alguns milhares de Deuses e Semi - Deuses. Depois de uma letargia de milénios, pode ser que acordem e intervenham a tempo de resolver a contenda... Bom seria... Deus sempre ajudou os necessitados, mas , às vezes , parece estar distraído. 
Por cá, não precisamos da intervenção dos Deuses. Não vivemos em pecado e temos pensadores experimentados e infalíveis que não têm quaisquer dúvidas. Sabemos que o Reino de Deus será dos pobres e , portanto , estamos descansados. Os ricos não precisam do céu e não farão concorrência à plebe. Só esperamos que não chova na festa... 
Quanto ao Olimpo, bem , esperemos que os milhares de Deuses se entendam e não arranjem algum empate técnico que transfira para os simples heróis a resolução do caso... Ou que CRONOS se irrite e arrase tudo com alguma tempestade... 
Mas é tempo de férias e o mar está calmo... 
Proliferam as festas e romarias , por todo o lado há gigantones e cabeçudos , para lá do Minho onde se dança o vira.


Publicada no Correio Transmontano a 1 de julh de 2015
https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/

UM VELHO QUE NÃO ERA DO RESTELO (ou um quase conto)

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado


Há já muitos anos, eu e a minha mulher, educados os filhos e entregues a si próprios, gostávamos de , no verão, ir gozar umas pequenas férias, sós , como dois namorados, num qualquer lugar onde retemperássemos forças. A praia era o lugar preferido e aí passávamos 10 a 15 dias, descontraídos, acompanhados de velhos amigos ou outros de circunstância que o acaso punha no nosso caminho. 
Nesse ano o local escolhido foi Benidorm, no sul de Espanha, uma praia maravilhosa que nos havia sido recomendada por um dos meus filhos que ali havia estado. 
Escolhida a Agência de Viagens que haveria de organizar a viagem e a estadia, marcada a data , escolhidos os companheiros de jornada, aí vamos nós percorrendo as centenas de quilómetros que nos separavam do destino, num belo autocarro que demorou muitas horas até ao sul de Espanha. Aí chegados, depositados no Hotel, organiza-mo-nos de acordo com as amizades ou afinidades que uniam os membros do grupo e , desde logo , iniciamos a fruição do tempo. A nossa companhia predilecta foi para um casal de Bragança, amigo da minha mulher há longos anos. A senhora era professora jubilada e o marido funcionário bancário aposentado, muito conceituado, pessoa de muitas leituras e grande cultura, personalidade forte, porte atlético, uns anos mais velho do que eu. Era um casal muito unido, ainda apaixonados, então, mais do que nunca, pois uma fatalidade se abatera sobre o meu amigo : estava a ficar cego, a sua visão era quase nula, não conseguia ler e já se orientava mal. Essa circunstância aproximou-nos mais e eu passei a ser, naquele período, os olhos que o meu amigo ia perdendo. 
Quando, pela manhã, nos deslocávamos para a praia, logo aí ,no trajecto , íamos passando em revista o que de interesse se passara e fora noticiado, comentando , opinando , avançando soluções para alguns problemas. O meu amigo era um homem de esquerda, equilibrado, nada radical , com uma consciência social profunda, preocupado com a situação das camadas mais vulneráveis da sociedade e com a barbárie que se ia impondo no mundo. Eu era o discípulo, ele o mestre. Mas as circunstâncias alteraram, um pouco, esta relação e era eu que levava ao mestre " notícias do meu país ", como o vento as levava ao Poeta... 
Durante o dia o calor aconselhava que nos recolhêssemos um pouco e adiávamos a continuação das nossas conversas para a noite. E, então, nas noites cálidas de Benidorm, na avenida marginal, sentados num banco de pedra , rodeados de uma multidão ruidosa , bombardeados pela música infernal dos bares e discotecas que enxameavam a avenida , ali estávamos nós , absortos , pensando os problemas do mundo , como se estivéssemos sós e nada perturbasse a nossa solidão . E de tudo falávamos e tudo discutíamos e para tudo tínhamos uma solução, um caminho a percorrer, sempre com os olhos no futuro. Eram longas e diversas as nossas conversas, variados os temas, sem lugar para silêncios. Os meus olhos permitiam-lhe ver o que os seus próprios olhos lhe negavam e, sendo eu bastante mais jovem , o meu amigo bebia das minhas palavras o entusiasmo e a emoção que se vai perdendo com a idade. Criamos uma boa amizade e eu aprendi, um pouco mais, o valor da solidariedade. 
Um dia , passados muitos meses ,chegou-me a noticia de que o meu amigo falecera , em Braga , vítima de um acidente estúpido. Fiquei em choque, o meu coração sentiu muito aquela perda, a perda de alguém com quem sonhara alvoradas de liberdade e bem estar para a humanidade, a perda de alguém cujos olhos viam para além das trevas e que deram outro brilho ao meu olhar , a perda de alguém que me ensinou caminhos que o tempo me ajudou a percorrer...

Publicada no Correio Transmontano a 26 de junho de 2015

https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/

QUANDO O CORAÇÃO SE REPARTE

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado



A vida é feita de bons e maus momentos.... Há períodos em que tudo parece correr bem: fabricamos sonhos, criamos ilusões, navegamos em euforias empolgantes, descobrimos paraísos, descansamos em oásis onde bebemos a esperança...
Parecem-nos claras as escolhas dos caminhos que trilhados, certos os passos, adequado o ritmo, belo o horizonte que almejamos...
E vamos caminhando, acompanhando o tempo, ouvindo cantar os pássaros e colhendo flores, amando primaveras, vivendo o dia a dia que nos ocupa as horas, nos resolve tarefas, nos garante os bens de que necessitamos. Não há tempestades ou procelas nos nossos corações, vivemos em paz,bem connosco e com os outros, respirando saúde...
Mas há também períodos em que nos parece que o mundo vai ruir a nossa volta: falta-nos a saúde, os bens escasseiam,os amigos(?) fogem,o amor arrefece,os sonhos dissipam-se,as ilusões morrem,a esperança fornece, os caminhos estreitam-se,o horizonte é longínquo, os nossos corações afogam-se em rios de amargura....Se ao menos houvesse esperança, se no fim da jornada brilhasse um raio de sol, se as procelas assinassem! E vamos caminhando, acompanhando o tempo, a espera que os pássaros cantem e as flores rebentem em primaveras de cor...
A vida e assim, repartindo-se em momentos de tristeza ou euforia, de bem estar ou carência, de sonhos ou desilusões, de luta ou acalmia,de paixões ou serenidade...
E assim vai sendo também o nosso coração. Das paixões da juventude, evoluímos, lentamente, para a serenidade da velhice, num caminhar gradual, povoado de amores esquecidos, renovados, conseguidos. Num tempo certo ou serôdio, o nosso coração esteve, por certo, refém de um outro coração, ligados platónica ou efectivamente, por juras ou anseios, em sonhos irrealizáveis ou, de facto consumados. Em algum momento da nossa vida, sentimos que o nosso coração vagueava, errante, perdido num turbilhão de dúvidas, indeciso, perplexo, dividido, hesitando quanto ao caminho a seguir. E sofremos porque o amor se não reparte, é tudo ou nada, é dádiva total, é unívoco. Até que um dia, um raio nos atinge e algo nos diz, é por ali que vou, é este o meu caminho. E , então , tudo é fácil e o nosso espírito serena. Depois vem o tempo, como juiz das nossas decisões...
Queria falar ainda de um outro amor que enche o nosso coração e que, esse sim, se reparte sem que isso nos angustie ou fira: o amor à nossa terra, a terra onde nascemos ou a que nos adoptou. Como dizia a canção, eu tenho dois amores que em tudo são iguais: Bragança onde vivo há 43 anos e Viana do Castelo,onde nasci...há muitos anos. Em Viana do Castelo, nasci, cresci, fui educado, fui feliz (e infeliz ), aprendi a ser homem, a amar a natureza e o próximo. Bebi a beleza prodigiosa de uma região privilegiada pela natureza, com o seu rio lendário (o Lete do esquecimento) , o mar de praias de areia fina, onde as ondas rebentam na penedia e se desfazem em espuma rendilhada e vão e vêm, num vaivém sem fim... E os montes altaneiros, Santa Luzia , a verdura dos campos, os seus monumentos, a sua história e, mais que tudo, a família, os amigos, a lembrança dos amores da juventude, os sonhos que sonhei e que foram morrendo com o tempo... E a saudade de tudo que foi e já não é, os país que Deus levou, os amigos que partiram, as ilusões que se esvaíram...
E por fim Bragança, que amo porque é já minha, onde meus filhos cresceram, se educaram, onde fui feliz enquanto pude, onde moram meus afectos e os sonhos que sobraram de uma vida já longa. Bragança que eu amo, porque é já minha, que eu amo pela sua beleza, pelos seus monumentos, pelas suas gentes, pelas amizades que fui construindo em quatro décadas de salutar convívio, por aquele cantinho do café onde vou sonhando... Bragança e Viana do Castelo, dois amores para um só coração, um só amor repartido, com ternura e o desvelo de quem muito ama… 

Publicada no Correio Transmontano a 18 de junho de 2015
https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/