quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

SOLIDÃO

Sinto a solidão
quando os olhos ergo
e não vejo ninguém...
E , no entanto , lá fora ,
à minha volta , aqui ,
há gente que passa
mas não passa por mim...
Eu permaneço só,
no meu silêncio ,
buscando não sei quê
que não passa aqui...
É talvez esta loucura
de poeta só,
que sonha amanhãs
que já não há,
que busca realidades
que estão para além
do horizonte que vislumbra,
que contempla borboletas azuis
que são gaivotas,
nadando sobre as ondas,
que , com as pesadas asas,
não passam do efémero
espaço onde caminho...
E as borboletas coloridas
que eu sonhava ver,
esfumam-se no vento,
são apenas quimera
perdida no azul dos céus,
sem primavera...
Sinto a solidão
quando os olhos ergo
e não vejo ninguém...

Luis Machado

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

CONTO DE NATAL CIDEA e LÚCIO , UM AMOR FALHADO

De Luis Machado

Eu sou Lúcio e vivo de sonhos.

Chamava-se Cidea a bela jovem que encontrou meus olhos quando, naquela tarde de verão, eu, Lúcio, chegara, pela primeira vez , ao bairro onde iria morar por muitos anos.
Eu tinha onze anos e ela, possivelmente, teria a mesma idade. Tinha os olhos doces e o seu rosto fazia lembrar um botão de rosa, era assim que eu a via. Se é que o amor nasce desse modo , foi amor o que nasceu ali. Tentar explicar , depois de tanto tempo , o que senti , então, é correr o risco de extrapolar no tempo outras experiências vividas com atores diferentes e em circunstâncias diversas. Mas sei , isso recordo , que o meu coração infante recebeu aquele choque que o amor provoca e nos faz vibrar e sentir que algo de novo vive em nós.
Doravante ,eu percorria o quarteirão do bairro onde ela morava e olhava a janela do seu quarto , procurava o jardim , de longe , em silêncio , como que envergonhado deste amor precoce que ia criando raízes , bem fundo , no meu coração.
Havia rosas e outras flores no jardim desse meu bairro, mas eu nunca tive coragem de colher uma para lhe mandar e , primavera após primavera , as flores iam crescendo e murchando , à cadência do tempo, tal como nós que de meninos e moços, percorremos os anos , sofremos as convulsões da adolescência e damos connosco adultos , percorrendo caminhos e vislumbrando horizontes que almejamos, sonhamos e vamos , vamos , vamos...
Cidea amou outras gentes enquanto crescia e o seu coração aprendia... 
Enquanto isso, eu ia seguindo, de longe , a sua vida e sonhava histórias de cavalaria , eu Lúcio, cavaleiro andante , protector de sua dama , Cidea , e , por montes e vales , levava o seu pendão e , no peito , o seu coração.
Os anos foram passando e aquele amor de infância permanecia no coração de Lúcio com a mesma candura e a ternura de sempre. Fazia poemas que guardava no coração e a ninguém transmitia, cantava só, no meu quarto, as canções românticas que gostava que ouvisse , imaginava declarações de amor que ficavam no meu pensamento e que nunca os meus lábios pronunciavam e , platonicamente, sonhava com um amor puro , só sentimento , que fazia de Cidea , para mim , uma imagem etérea...
Um dia o destino aproximou-nos e o meu coração ficou cheio de esperança, pude pegar-lhe na mão, sem lhe dizer que a amava e sentir que aquela imagem etérea era também mulher e fiquei-me na contemplação platónica daquela beleza que guardei tantos anos no meu coração. 
Dia após dia, crescia em mim esse amor que extasiado eu via ali , sentada junto a mim , candidamente falando da vida , num respeito profundo , inumano , sem que os sentidos empolgassem a nossa relação de amizade. 
E eu Lúcio, sonhava futuros e crianças brincando naquele bairro de jardins floridos, Ternuras, afagos , suspiros de amor , adeus venho já , nas calmas manhãs de outono...
Passavam-se os dias e eu sentia em Cidea uma certa ternura naquele olhar tão lindo que me apaixonara naquela tarde distante. Os meus olhos sorriam no brilho desse olhar e era terna a noite quando me ia deitar e a lua ne acompanhava os passos...
Cidea era para mim o sonho de criança que o destino adiara. Todo aquele tempo em que esperara por ela, cimentara em mim a certeza de que um dia ela seria minha e que, juntos, caminharíamos na vida de mãos dadas... Mas outros eram os desígnios de Deus... 
Um dia, enchi-me de coragem e escrevi-lhe uma longa carta de amor , como , então, era usual fazer e fiquei aguardando um sim àquele amor paciente que tantos anos guardara no meu coração. 
Era tempo de Natal, havia cânticos nas ruas da minha cidade e sorrisos felizes nos rostos das crianças: É Natal , é Natal , já nasceu Jesus... As luzes iluminavam os céus e o meu coração vestia-se de esperança, aguardando uma carta de Cidea que me trouxesse certezas do seu amor desejado...Eram longas as horas , os dias infindáveis, a espera uma tortura...
Até que chegou a ansiada carta...Abri-a e os meus olhos ficaram rasos de lágrimas...". Lúcio, lamento , em nome da nossa amizade, mas o meu coração pertence já a outrem. Lembras-te daquele rapazinho , como tu lhe chamaste , de que falamos há dias? É esse o dono do meu coração. Serei tua amiga para sempre , pesa-me não poder ser mais." 
Lá fora, a música continuava a tocar...É Natal, é Natal , já nasceu Jesus... 
O meu intranquilo coração ficou despedaçado... Acabara-se o tempo, ruíra o meu sonho de criança, os meus olhos moravam a vida,sem esperança. Nas palhinhas do Presépio um Jesus pequenino sorria e eu não achava graça... 
Fugi do mundo, embrenhei-me no nada, frui aventuras inconsequentes e fúteis, enclausurei-me nas páginas de mil livros , fui poeta , rasguei meus versos, chorei no silêncio da imensa solidão que me tomou...
Depois...descobri um outro tempo e entrei... 
Nunca mais vi Cidea. Dizem-me que está velhinha como eu cujos níveos cabelos teimam em me adornar a fronte. No baú dos meus sonhos, quando dói mais a dor que , às vezes , sinto, vou espreitar o sono daquele sonho antigo, afago-o com carinho , deixo-o dormir tranquilo, pois sei que me acompanhará enquanto percorrer este caminho... 
E eu Lúcio que vivo no sonho e fantasia, contemplo, com saudade , esse outro tempo em que sonhei um grande amor, falhado... 
É Natal, uma outra vez, há cânticos nas ruas da minha cidade e sorrisos felizes nos rostos das crianças: É Natal, é Natal, já nasceu Jesus... As luzes iluminam os céus. Nas palhinhas do Presépio um Jesus pequenino sorri e eu acho graça…

SONHO


Quando a tristeza
invade o meu olhar
e as saudades calam
fundo ns minh'alma,
na mesa do café, na minha,
saco da pena e escrevo
silenciosos beijos,doces,
que te mando no vento,
nesta brisa amena
que é o meu pensamento...
Pudera eu ir também,
ser eu o mensageiro ,
voar sobre as montanhas,
atravessar o mar,
qual pássaro perdido
buscando te encontrar...
Quisera ser só alma,
sem corpo, sem nada,
e só , na brisa fresca
desta manhã de Outono,
beber dos olhos teus
esta saudade morna,
nesta procura instante,
perene e sufocante...
Quisera que meus ócios,
na quietude serena deste dia,
me trouxessem novas
deste amor plangente
que minh'alma enleva,
procura, busca , chama , espera,
na ânsia de te encontrar
e te levar comigo
para alem dos sonhos...
Luis Machado

sábado, 12 de dezembro de 2015

NATAL, TEMPO DE AMOR, DE TODOS OS AMORES

Crónicas do meu viver/ /Por Luís Machado

Nesta quadra festiva fala-se muito de amor, dos vários tipos de amor que vivem dentro da mesma palavra: amor ao próximo, amor à família, amor/paixão entre dois seres que se querem.

1 - O primeiro enche as páginas de jornais, revistas, redes sociais, organizações de solidariedade social e outras organizações afins, todos eles apostados na solidariedade para com os que mais sofrem, os que menos têm, os que mais precisam. É como que um rebate de consciência pelo pouco que fazemos, ao longo do ano, em prol dos mais necessitados, aqueles que, por circunstancias várias, se veem atirados para a rua, para o desemprego, para a cama de um hospital, para um lar de idosos, para a prisão, para o vício que mata, para a marginalidade que aniquila. E lembro-me que todos nascemos iguais em direitos, mas que nascemos, muitas vezes, diferentes pelas circunstâncias: uns nascem numa família miserável onde tudo falta, outros na abundancia supérflua onde tudo sobra; uns inteligentes, para quem tudo é mais fácil e outros a quem a natureza não dotou; uns sãos, perfeitos e saudáveis, outros aleijados, doentes, cheios de problemas físicos ou mentais.
Muitas vezes não temos consciência dessas abismais diferenças e atiramos as culpas para a inércia, para o não querer fazer, para o vicio assumido e não combatido, para tudo aquilo que pensamos aliviar a nossa consciência. E , no entanto, como cidadãos temos muita culpa porque assim seja, porque não soubemos construir uma sociedade diferente , mais humana , menos egoísta , mais justa , mais solidária , mais atuante na defesa dos direitos humanos , mais interventiva na escolha e responsabilização de quem manda e desmanda.
Penso no Papa Francisco e no seu exemplo de humildade que é apenas um caminho numa igreja que devia concentrar-se na defesa dos pobres e oprimidos, mas vive ainda numa certa opulência. Penso no muito que fez e no muito que há ainda a fazer... 
É Natal! Como seria bom que este Natal fosse, realmente, um Natal de amor e fraternidade entre os homens...

2 - Celebra-se ainda o amor à família, a reunião dos pais, filhos, netos, irmãos e demais familiares que , percorrendo enormes distâncias , apagam , à volta da mesa que se quer farta e variada , as saudades que lhes enchiam a alma... E o bacalhau e seus bolinhos, o polvo, os filhós, as rabanadas, os sonhos, o bolo rei, as frutas cristalizadas e outros acepipes , não são mais que um pretexto para o amainar das saudades , para a troca de afetos , para o distribuir de carinhos e meiguices... E quando, à meia-noite, o Pai Natal bate a porta e carrega o saco dos brinquedos, é uma explosão de alegria na pequenada que contagia os adultos e induz à troca de mais abraços e ao afogar de mais saudades e à recordação de outros natais, com outros alguéns que já partiram...É a hora da lágrima ao canto do olho e aos suspiros que engolimos em silêncio porque é tempo de festa, não de tristeza...

É bom que o Pai Natal não se esqueça dos que nada têm e pouco esperam!
3- E temos, por último, o amor / paixão entre dois seres que se querem. O amor é transversal a todas as idades. E se é paixão na juventude, é um sentimento sossegado, terno e doce quando a neve de muitos invernos já tingiu de branco os nossos cabelos... Mesmo quando o nosso coração está amargurado, o amor está lá e o sonho, quantas vezes, suaviza a amargura, a melancolia e a solidão das nossas vidas... Como diz António Gedeão, o sonho é uma constante da vida, ou como Fernando Pessoa… “O homem é do tamanho do seu sonho”. 
Há algum tempo, num tempo de muita solidão, escrevi um poema que intitulei " Amor ou um sonho de Verão " .Talvez não fique mal nesta crónica que fala do amor. 
" - Chamei-te Amor / porque não sabia o teu nome/ e Amor é um nome lindo. Começou a chover / o aroma das flores dissipa-se no ar /e eu repito, baixinho, / vezes sem conta, o teu nome lindo/ e sonho palavras que não dizes... Apetece-me descansar no teu regaço. / Repousar a cabeça no teu peito,/ banir, para sempre , este cansaço/ de estar longe sem ti Amor, o teu nome lindo, / repito sem cessar/ enquanto o aroma das flores/ se dissipa no ar. Começou a chover/Os meus olhos cansados/anseiam por te ver... Sinto fugir o tempo / como as águas de um rio/ que corre sem parar... Além, no horizonte, já se vislumbra o mar Temo, Amor, que me falte o tempo para te encontrar.
O amor é alegria e sofrimento, é procura e encontro, é um contentamento descontente, como dizia Camões... É transversal a todas as idades, ama o jovem, ama o velho... " Amor verdadeiro é aquele que o vento não leva e a distância não separa " Amor é sonho, é fantasia, é dor. Há juras de amor eterno que o tempo quebra e apaga e, como dizia Florbela Espanca," Tudo no mundo é frágil/tudo passa / Quando me dizes isto /toda a graça/ duma boca divina, fala em mim." , mas ". Há uma primavera/ em cada vida ,/. É preciso cantá-la assim/ florida/ pois se Deus me deu voz/ foi pra cantar.." 
Cantemos, então, o amor... E vós jovens, Cantai, como Florbela Espanca, "Eu quero Amar, amar perdidamente. Amar só por amar..."
Só o amor nos torna felizes, embora, às vezes, choremos quando a saudade nos amarfanha a alma. 
É Natal, tempo de amor, de todos os amores…

Publicado no Correio Transmontano a 11/12/2015


NESTE NATAL SILENTE



Sinto na alma o frio da noite
neste Natal silente
Fantasmas e recordações me tolhem
a alegria e a música que , tão docemente ,
penetra no meu coração saudoso,
faz-me regressar a um outro mundo
em que só o sol raiava
e a vida só flores me dava...
Mas as rosas vermelhas, meu enlevo ,
vão-se desfazendo neste outono gélido
e a neve fria dos meus anos
arrefece minha ânsia de esperar
por novas primaveras,
sem ilusões , sem quimeras,
com um sonho só
que guardo no meu peito,
ternamente, com a suave doçura
que o amor lhe empresta...
Neste Natal silente,
neste Natal de festa,
sou gaivota voando, além,
sobre as ondas do mar,
olhando , no horizonte, o arrebol
dum sol que vai nascer
e subir nos ceus até ao zénite,
aquecendo de novo um coração
que teima ainda querer viver...

Luís Machado

domingo, 6 de dezembro de 2015

NATAL DE HOJE E DE SEMPRE // BRAGANÇA, TERRA NATAL E DE SONHOS

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Quando era menino e moço, era costume fazermos, lá em casa, o presépio e adornarmos a Árvore de Natal. Esta mistura do religioso com o profano não nos causava qualquer conflito emocional e era com alegria que percorríamos a cercania do lugar onde morava, à procura de musgo para compormos as ruas e caminhos do presépio, assim como dávamos um salto ao Monte de Santa Luzia, em busca de um pinheirinho que enfeitávamos com o que tínhamos e não era muito: umas fitas coloridas, umas bolas , uns bonecos e pequenos tabletes de chocolate e pouco mais , porque não havia dinheiro para comprar iluminações como as que agora se usam , se é que as havia, então.
E como era belo o nosso presépio, feito com pequenas figuras de barro , de cores variadas , com o Menino Jesus nas palhinhas , Nossa Senhora e S.José , ladeando-o , os imprescindíveis Reis Magos com as suas ofertas, o burrinho e a vaquinha , pastores , ovelhas e curiosos , figuras grotescas ,por vezes , apreciando o evento , que já havia quem gostasse de apreciar tudo , naquele tempo...E a estrela que guiara os Reis Magos, lá estava , num sitio mais alto , como um farol , guiando os marinheiros que procuravam bom porto...
E como eram belos , o nosso presépio e a nossa árvore, tão belos como não havia outros, mesmo aquele muito grande que montavam na Igreja da Misericórdia, com águas em cascata , moinhos que rodavam , figuras que se moviam , luzes que acendiam e apagavam, grandes e belas figuras , das tradicionais às mais modernas . Mas o nosso presépio tinha outro encanto, fora feito com o nosso entusiasmo e a candura e a inocência dos nossos poucos anos e até o Menino Jesus parece que sorria para nós... Será que sorria mesmo? E ali ficávamos, contemplando o conjunto, absortos, sonhando estórias que outros nos contavam, sobre fugas e milagres que não percebíamos bem, mas que ouvíamos com prazer e arquivávamos no nosso imaginário... 
Entretanto os tempos mudaram, nada é permanente na vida, e o marketing, os negócios, a política e outros interesses, transportaram o espírito natalício para um patamar diferente e o consumismo tomou conta de tudo e engalanou o mundo com as suas luzes e árvores monumentais. O Pai Natal, deslizando nos seus trenós, vindo do país do gelo , entrou profundamente no imaginário das crianças e dos adultos e inundou os espaços com prendas e festas , colocando em segundo plano a humildade do presépio, onde um Cristo Menino se aquece nas palhinhas, quando se publicitam colchões luxuosos , onde dormir é um sonho... E entre a palha e o conforto desses colchões de sonho, a escolha é óbvia. Num mundo materialista o Pai Natal ganhou e são tantos os Pais Natal que já se organizam desfiles para entrada no Guinness, alargando o negócio até ao rapar dos bolsos. 
Tudo se compra e tudo se vende, satisfazem-se as carências de um ano de privações, para alguns, empanturram -se outros com excessos que depois há que pagar, a criançada rejubila com a esperança de novos brinquedos, os adolescentes encantam-se com os novos modelos de tabletes e quejandos , os adultos namoram eletrodomésticos e mobílias, férias de sonho ou passeios relâmpago com ceias programadas onde há tudo o que os ricos consomem todo o ano... E há Pais Natal por todo o lado, colorindo a paisagem e entusiasmando a criançada, com chocolates e balões coloridos, em profusão... 
Parafraseando D.Luísa de Gusmão, esposa de D.João IV, que dizia " antes ser rainha por um dia do que duquesa toda a vida ", eu diria, a propósito dos festejos de Natal, que mais vale ser rico por um dia do que pobre todo o ano e não me custa aceitar que uma parte da humanidade carente de bens materiais e afeto, se empolgue e se lance na euforia coletiva que são os festejos natalícios. E os pobres, coitados, cuja carência os afasta, no resto do ano , de festas e iguarias, bem precisam que o Pai Natal os acolha , por uns dias, no seio da sua opulência e lhes traga de prenda um balão onde diga Esperança.
Mas as festas de Natal têm uma outra vertente, a festa da família, que convida à aproximação de pais e filhos ausentes , de netos ansiosos por encontrarem de novo os avós que não viam há muito , de irmãos que raramente se encontram , de amigos que se renovam... E a ceia, que se apresenta farta e variada, neste encontro fraterno, leva em cada acepipe um pedaço do coração de quem participa, mais as saudades de quem falta porque a lonjura obriga...
E Bragança também tem o seu Natal, um carinho oferecido às suas gentes pela CM , que estas muito apreciam, o gesto e o evento, intitulado Bragança, Terra Natal e de Sonhos. O evento desenvolve-se a partir da Praça Camões, onde se poderão apreciar um conjunto de atividades, a pista de gelo, encanto de crianças e adultos, uma belíssima árvore de Natal, um rico e maravilhoso presépio montado com amor pelo seu criador, standes e uns cafezinhos de apoio, para além de pistas e outros entretenimentos para as crianças. A festa alonga-se a toda a cidade com iluminações, um presépio na Praça da Sé e o apoio, sempre presente, do Comércio local, alindando e iluminando as suas montras. E não falta a música de fundo, criando ambiente para o fruir saudável da quadra festiva e para termos, realmente, Bragança em Terra Natal e de Sonhos. Pena é que, para muita gente , o sonho termine quando se apagar a última luz. Mas enquanto isso não acontecer, estendam as mãos aos que sofrem e tornem o Natal um verdadeiro Natal que, mais do que festa , deve ser Amor.

Luís Machado

Publicado no Correio Transmontano a 4/12/2015

VIÚVA DO FATO ESCURO


Estavas vestida de escuro
como se fosse o teu muro
que eu não posso ultrapassar...
Porque não vestes de azul
ou de verde , cor da esperança
e deixas, só na lembrança,
as coisas que trazem dor?
Anda viver o presente
se teu coração consente...
Vamos viver este sonho
num tempo que ainda não foi...
Vês além as borboletas?
Nunca usam roupas pretas,
vestem-se do arco-iris ,
levam nas asas os sonhos
que enchem o meu coração,
percorrem a imensidão ,
passam por cima do muro ,
desse preto que é prisão ,
deixam em teu peito a ilusão
deste amor que em vão sonhei...
Voltam nas asas do vento,
trazendo só um lamento
do tempo que já passou...
Porque não vestes de azul
ou de verde, cor do mar?
Tanto eu gostava de ir
pelo mundo navegar,
num barco chamado esperança,
levando-te no meu colo,
com o amor a tripular...
Não te vistas mais de escuro,
deixa-me saltar o muro...

Luis Machado
Woodland, Taiwan, Madeira Morta, Montanha 櫸

sábado, 28 de novembro de 2015

JUVENTUDE, TEMPO DE SONHOS

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado


Como tantos outros seres humanos, na minha infância e adolescência, eu tive um sonho: queria ser advogado para que, com a fluência do meu verbo e o meu saber , pudesse ajudar os que não tinham quem os defendesse.
É um tempo em que o sonho comanda a vida, o coração repleto de ilusões, a vontade de modificar o mundo, tempo de " make love , not war " , dos suspiros de amor , das flores no cabelo , da rebeldia contra o " status quo " , da procura do diferente...
É vivermos num mundo de fantasia, perseguindo quimeras, sonhos que o vento leva e a realidade trai, amores platónicos que o destino contraria e destrói... 
E sonhamos ser tudo e mais, cavaleiro andante, heróis, poetas, aventureiros, ascetas, religiosos, defensores dos pobres e oprimidos... É uma idade linda, cheia de força e contradições, na procura dum caminho que, às vezes , não será o melhor... Vive-se com sofreguidão, o tempo é pouco e o mundo pequeno para os nossos sonhos... 
É o tempo das grandes paixões, da adoção das utopias, do empolamento do ego , dos amores de perdição ou salvação , do nascer das grandes amizades que hão-de perdurar ao longo da vida...
Recordo , com saudade , as amizades desenvolvidas nesse tempo de procura de horizontes e caminhos, muitos deles já partidos , outros perdidos no turbilhão da vida , poucos ainda presentes nesta luta por um amanhã incerto... E revejo, como um filme, imagens guardadas no meu coração, aventuras que vivemos juntos, quimeras que perseguimos com esse entusiasmo jovem, amores que procuramos com a ternura e a ingenuidade da idade. 
Lembras-te, Carlos , quando , numa só bicicleta , íamos para os lados de Outeiro e Perre , à procura do amor, com o entusiasmo dos nossos verdes anos? Como era belo esse tempo! Tu consomaste esse amor, eu não , assim o quis o destino , e parti para outros horizontes e um outro amor que durou cinco décadas... Quando eu me juntar a ti , nesse céu onde estás , havemos de recordar esses tempos áureos da nossa juventude ,com a alegria de então e o entusiasmo que púnhamos em tudo o que fazíamos... 
Havemos de fazer uma farra, se S.Pedro deixar, e convidaremos o Magalhães, o Jeremias, o Armando e outros que for possível juntar... Sabes, lembro-me, agora que estou velho,, dos nossos passeios noturnos no jardim , junto ao Rio Lima , onde ouvíamos a Banda do Orfanato que o maestro Zé Pedro(?) dirigia com mestria e nos deliciava com partituras de encantar... E íamos olhando as moças , respirando o ar puro do rio com a sua beleza e o murmurar das águas correndo para o mar...
Quantas estórias aqueles bancos poderiam contar , quando , nas noites luarentas, trocávamos confidências , deixando deslizar o tempo,, sem angústias , sem dor , antecipando a fruição dum futuro que sonhávamos... 
E o tempo, esse tempo que vamos somando, dia a dia, levou-nos para horizontes diferentes e formatou as nossas vidas… Anos passaram sem que as noites luarentas, no velho jardim , à beira-rio , nos juntassem , e tu partiste sem que eu o soubesse... A vida havia-nos separado e a velha amizade de quase irmãos foi-se esbatendo e ficou a saudade... 
E aquele sonho da minha infância, de querer ser advogado, não foi mais do que um sonho de criança que a vida contrariou quando me levou para outros destinos. Mas o meu pendor e a visão romântica da vida sempre me acompanharam, nada mudou com o tempo...
Mas outro tempo chegou, um tempo de egoísmo e ambição e eu fiquei fora do tempo...

Luís Machado

Publicado no Correio Transmontano a 28/11/2015

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

RICOS E POBRES E OUTRAS ESTÓRIAS // HUMOR COM HUMOR SE PAGA

Crónicas do meu viver // Luís Machado


Um dos problemas que, como cidadão, mais me preocupa, é o da pobreza em Portugal. E ando tanto mais preocupado, quanto é certo que o problema já ultrapassou os limites daquele extrato da população que nunca conheceu situação diferente e invadiu áreas onde era impensável que isso acontecesse há uns anos atrás. 
Todos sabemos, por experiência própria ou pelas notícias que nos chegam através da comunicação social , que a classe média foi completamente arrasada e há já casos de miséria a atingi-la. Mas o que mais me preocupa é o facto de os ordenados auferidos pelos nossos políticos estarem de tal nodo degradados que há deputados que nem sequer ganham para almoçarem diariamente no Tavares Rico e ate o próprio Presidente se queixa de não ganhar para as despesas. 
Quando a situação chega a este ponto, algo de muito mal se passa na sociedade portuguesa e há que arranjar soluções urgentes. Não é fácil, mas estou em crer, contas feitas por alto, que se aumentássemos uns mil euros por mês aos governantes e deputados, uns seis ou sete milhões de euros haviam de chegar. Mas se aumentássemos uns simples dois euros por mês aos 1,7 milhões de pensionistas que recebem menos de 600 euros por mês, o aumento da despesa rondaria os 48 milhões de euros, o que seria incomportável para o erário público. Daí que a solução é simples, não há aumentos para os pensionistas, mas nada obsta a que se aumentem os mil euros aos políticos porque, no fundo, o acréscimo da despesa seria uma bagatela. Não sei se este pequeno aumento de mil euros seria suficiente para almoçar diariamente no Tavares Rico ou resolveria o défice doméstico do Presidente. Mas a crise tem de ser suportada por todos e em vez de almoçarem todos os dias no dito restaurante, podiam os deputados fazê-lo apenas nos dias em que comparecessem às sessões da Assembleia da Republica.
Quanto aos pensionistas, teriam de continuar a comer a sopinha mal adubada e ,se o dinheiro não chegasse , há sempre a possibilidade de recorrerem à Misericórdia ou à Caritas, porque , felizmente , a caridade ainda é uma das grandes virtudes do nosso povo. É que isto de aumentos ou divisões de lucros é um problema já antigo e que, por vezes, se resolve com alguma imaginação.
Soube, há muitos anos, de uma empresa pública que, a partir de certa altura, passou a distribuir pelos seus empregados uma parte dos lucros apurados. Nos primeiros anos, a distribuição de lucros concedia aos trabalhadores qualquer coisa como o equivalente a, entre 1/2 e um vencimento mensal. Num dos anos subsequentes os lucros diminuíram drasticamente e cifraram-se em apenas cerca de 100 contos , o que daria a cada trabalhador uma participação de apenas 2,50 escudos( moeda antiga) , uma moedinha pequenina que daria para dois ou três cafés. 
O Conselho de Administração resolveu, e bem, não fazer a normal distribuição de lucros e dividiu, assim constou então, os lucros entre os membros do conselho.Sempre alguém ficou satisfeito. Para que serviriam os 2,5 escudos? 
O problema não é muito diferente do que agora se faz, quando, quem manda , se aumenta a si próprio. É apenas uma bagatela. Mas é a crise e há que tomar medidas drásticas, não vá o povo habituar-se a viver indefinidamente acima das suas possibilidades.
Quanto à pobreza, no fundo, não deixa de ter os seus benefícios. Os mais velhos devem lembrar-se da historia do Sapateiro que sabia tocar rabecão, incluída nos textos do livro de leitura do , então , ensino primário.: um rico deu ao sapateiro uma grande quantia, em troca do silêncio do sapateiro que alegrava os seus dias de trabalho tocando rabecão. Ao fim de alguns dias sem poder tocar, a tristeza invadiu o coração do sapateiro que resolveu devolver o dinheiro ao rico, pois era mais feliz sendo pobre, mas com a liberdade de poder tocar o seu rabecão.
Daí que, meus caros, toquem qualquer coisa que lhes alivie a dor pelas dificuldades em que vivem, bombo, gaita de foles , acordeão ou simplesmente ferrinhos , mas toquem , toquem a vida para a frente , que o que importa é que haja alegria. 
É que, nesse tempo, ainda havia a FNAT( Fundação Nacional para Alegria no Trabalho) , mas como agora muitos nem trabalho têm, para que serviria a Fundação?
Olhem, folclorem-se, arranjem um Rancho e vamos ao vira. Cantando e bailando, castanhas assadas e uma boa pinga, não há crise que nos afete, nem governo que nos faça falta. Sempre se poupa algum.

Publicado no Correio Transmontano 20 de novembro de 2015

domingo, 15 de novembro de 2015

SOLIDÃO

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Gosto de me isolar na minha salinha fofa, rodeado de um quase silêncio, selecionar uma música suave que me descansa o espírito, baixinho, quase em surdina, e ali ficar a pensar, a ler , a escrever, a navegar na internet, ligando-me ao mundo que , lá fora , discute o óbvio e permanece ,inflexível , na admiração do complexo. 
Sinto que, às vezes, me dá vontade de cultivar um certo alheamento em relação ao que se ouve e diz e esquecer-me dos comentários de tantas cabeças pensantes que peroram um pouco por toda a parte, desde as mesas dos cafés, jornais, rádio , televisões, onde poses estudadas e treinadas procuram criar , em muitos casos ,uma falsa imagem de competência..... E assim se criam mitos , se constroem heróis , se preparam profetas , se omite ,se engana , se mente , se criam factos ,ser travestem informações , se diz e desdiz , numa cadência tal que o comum dos mortais se deixa enlear por esta onda informativa que não informa nada , antes baralha o difícil discernimento das coisas... 
E há poses que, pela sua imponência , amedrontam quem as vê e ouve. Outras deixam escapar a necessidade de serem simpáticas para quem lhes paga o pão nosso de cada dia. Desde o apocalipse até ao paraíso, há vaticínios para tudo, transmitidos com arrogância intelectual ou sorrisos de circunstancia.! E eu que até sou uma pessoa compreensiva e me aflijo com o mal dos outros , sinto uma grande tristeza com o enorme número de manetas que por aí há no campo da informação... 
Regresso ao meu quase silencio, só , extasiado com a música que ouço , em surdina , e penso como a mentira é atroz ! Destrói todas as certezas que fomos construindo ao longo da nossa existência e torna-nos cépticos em relação a tantas coisas que nos podiam fazer felizes! E a mentira é prolixa e está patente em todo o lado e em muitas das coisas em que acreditávamos quase como um dogma. Apetece alhearmo-nos de tudo e. não pensar e refugiarmo-nos neste " laissez faire ", já que o nosso esforço é inglório , incompreendido e maltratado. 
E este só ,esta solidão em que a vida nos coloca , leva-nos até António Nobre e ao seu SÓ " ouvi estes carmes que eu compus no exílio / ouvi-os vós todos, bons portugueses/pelo cair das folhas, o melhor dos meses/mas tende cautela , não vos faça mal/que é o livro mais triste em Portugal. " 
António Nobre morreu em 1900 , na cidade do Porto ,com 33 anos , tuberculoso ,depois de um exílio voluntário , em Paris , durante alguns anos.. 
SÓ é o único livro que publicou em vida, nas suas palavras , o livro mais triste que há em Portugal. E lembrei-me de outros exilados , igualmente voluntários, que a vida obrigou a deixar a sua família , o seu país , os seus sonhos , na procura de outros sonhos , de outras pátrias onde pudessem sonhar com uma vida decente e melhor , levando consigo esta palavra saudade que os nossos vates cantam e outros entoam, como " Zé brasileiro, português de Braga .." , outras sobre o Minho e o seu vinho verde e tantas que ecoam por esse Portugal fora...
E esta palavra Saudade que ensinamos a Cabo Verde e ao mundo, tão portuguesa, tão nossa, vive, mãos dadas com a solidão, com a Soledade que Amália nos canta e que tanto sentimos no fundo da nossa alma... E no quase silêncio da minha sala fofinha, ouço o trinado dolente das guitarras, envolvente e triste, cantando a saudade que o vento leva àqueles que na solidão do mundo, suspiram por um amanhã que lhes permita aspirar o doce ar da sua aldeia distante! "
" Pergunto ao vento que passa, noticias do meu pais..." , assim dizia Manuel Alegre, quando no exílio, este involuntário... O que me responderá o vento, se eu lho perguntar agora?

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

NÃO CHORES MAIS , TERNA GUIDA OU DIÁLOGO COM A ALMA



Não chores mais, terna Guida.
O que é que te fez a vida?
Estás só? É solidão?
Vem cá e fala comigo,
abre-me o teu coração,
talvez que falando os dois,
encontremos solução...
Sabes, às vezes,eu também choro
quando me chega a saudade,
como tu ausculto a vida,
não percebo esta vontade
de nos fazer tanto mal...
Mas sabes, o principal
é pensar que outros sofrem,
estão sós , na solidão,
há dor no seu coração,
Tristeza, Sem Esperança, Stone, Estátua, Esculturacomo tu buscam respostas
que a vida lhes não dá...
Todo aquilo que não gostas,
eles não gostam também,
cada um vive o que tem,
numa procura constante,
todos querem ser felizes,
ninguém quer a solidão...
Não chores mais, terna Guida,
estende-me a tua mão,
anda caminhar comigo,
abre-me o teu coração,
vamos conversar baixinho,
talvez haja solução...
Dou-te todo o meu carinho
e quem sabe se essa mão
nos mostra outro caminho,
bem longe da solidão
Não chores mais, terna Guida...
Vamos enfrentar a vida...
Às vezes ,começa em dor
o que termina em amor...

Luís Machado

DO SONHO E DA VIDA

Crónicas do meu viver// Por Luís Machado

Para amenizar um pouco a secura das palavras que tratam assuntos sérios que nos entristecem, hoje vou começar por transcrever um esboço de conto que escrevi, em que a realidade se mistura com o sonho e produz uma saudade que não morre e nos leva às raízes de uma vida longa... Então, é assim: 
" É apenas um sonho de criança, dos tempos em que tu eras ainda um botão de rosa e eu aguardava que crescesses para aspirar o teu perfume. O roseiral era o caminho dos meus passos e eu regava, com o meu amor ingénuo, o pé da roseira em que crescias...
Cresceu o tempo em muitos luares e sóis e tu abriste em flor, rosa tão perfumada e bela, que o roseiral passou a contemplar outros olhares que cobiçavam seu tesouro. E eu continuava a regar o pé da roseira que , orgulhosa , te mostrava , com o meu amor ingénuo, contemplando o belo... 
Um dia passou um cavaleiro e levou-te no seu corcel veloz e eu fiquei a olhar a estrada que guardou teu perfume para sempre... Os meus olhos procuravam, na imensidão da vida ,a rosa perfumada que com tanto desvelo eu regara....Apenas aquela estrada conservava o teu perfume e , lentamente , o meu amor ingénuo foi morrendo e ficou apenas a saudade... E quando na rua vejo belas rosas caminhando, imagino-te, esplendorosa e linda, a alimentar os meus sonhos de criança ...". 
É apenas um esboço dum conto muito maior que atravessa o tempo e não tem fim, um conto que se chama Vida... E é nesse tempo que eu caminho e me perco e me embrenho em recordações e saudades e navego em barcos de papel que atravessam os mares à procura do horizonte que não alcanço e Miro as estrelas à procura dos céus e caminho pelos campos onde colho flores e descanso nas areias douradas ouvindo o marulhar das ondas...
E o meu barco à vela tem pressa de chegar que já perdeu muito tempo e não pode voltar... Procuro futuros , mas nos meus poemas tudo em mim é pretérito, rodeado de brumas, cheio de silêncios... Distribuo optimismo e palavras lindas, mas, às vezes, está bem cinzento o meu coração... Queria pintar o arco-íris, mas não tenho cores para o alegrar... E vem-me à lembrança uma frase de Martin Luther King que vi citada : " Subi o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo....". 
Felizes os que vêem toda a escada e não hesitam , nem procuram e sabem que a felicidade está além no horizonte que vislumbram... Sobre o mar , os meus barcos de papel , os meus barcos à vela e os sonhos que lá moram, vão navegando, à procura de um horizonte e de uma enseada onde possam aportar. Quem sabe se vão voltar carregados de ilusões , se de quimeras que o vento desfaz num sopro... Talvez me tragam a esperança de um novo mundo a crescer para lá do horizonte.
Talvez, se o vento mudar, ainda haja primavera e nos jardins da quimera os sonhos possam medrar... Talvez o amor que sonhei com eles possa chegar e dos confins do abstracto, real se possa tornar...
Foi no mundo do sonho que escrevi esta crónica que se quereria versasse assuntos mais reais e de interesse. Mas neste mundo que poucas alegrias nos dá e nos mostra quadros de miséria material e moral de estarrecer, um pouco de sonho e poesia faz bem à alma...
E se , como dizia o poeta , " o sonho comanda a vida.." , deixe-mo-nos embalar nesta onda poética e também sonhemos com um amanhã diferente , mais humano , mais solidário , mais livre , em que sejamos irmãos e não rivais , homens verticais , sem medo , enfrentando a vida com determinação e amor... Talvez ainda haja esperança.

Publicado no Correio Transmontano a 6 de novembro de 2015

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

SE EU PUDESSE ESTAR ONDE TU ESTÁS


Se eu pudesse estar onde tu estás
dar-me-ias a mão
e caminhariamos sobre as águas do mar
até ao horizonte...
Regressariamos no tempo até eu ser jovem
e tu donzela....
Amar-te-ia como o fruto ama a flor
e os nossos corpos fundir-se-iam
como a água do rio se funde com o mar...
Seríamos só um, procurando os céus ,
tu serias eu e eu serias tu,
nesse amplexo perdido no infinito...
A minha vida percorreria o teu ventre
e o teu perfume penetraria no meu ser...
E haveria jardins à espera de sementes
que germinassem e florissem
pela Primavera...
Quando o sol nascesse,
o horizonte seria só vermelho
e o nosso sangue beberia dele
a cor e o fogo que alimenta o amor...
Quando o tempo acabasse,
serenamente , beijaria os teus lábios
e acariciava o teu rosto,
esperávamos pela madrugada que surgia
e sobre o mar regressavamos ao nada...
Havia rugas nos teus olhos
e a sombra dos meus cabelos brancos
recebia das tuas mãos macias
a doce carícia dum adeus...
Se eu pudesse estar onde tu estás!!!

Luis Machado

DOS PROBLEMAS DA VIDA ÀS POLÉMICAS ENTRE O PORTO E O NORTE

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Há dias em que temos necessidade de parar e fazer um balanço às nossas vidas. Que pretendemos fazer? Fizemos tudo certo até aqui ou andamos perdidos em deambulações sem nexo, procurando sem sabermos o rumo, inflectindo, às vezes, para caminhos ínvios que nos levam à tristeza e à amargura? E, então, um dia há uma palavra, uma frase, uma atitude que nos faz pensar e refletir profundamente sobre a vida : o que fomos, o que queremos, o que podemos ou devemos fazer...
Dormimos sobre este momento e deixamos ao subconsciente o trabalho de procurar respostas. E, então, no dia seguinte, acordamos ou desolados e tristes ou apaixonados pela vida e com as respostas que ansiávamos...
Então, é hora de decisões, de iniciar caminhos não trilhados ou consolidar posições e amar a vida com o coração lavado das angústias que nos atormentavam...
E lá vamos nós viver outra aventura, sentir outros sentires, caminhar em direção ao oásis onde brotam águas que nos saciam as sedes, percorrer mares que nos levam a horizontes onde o sol se recolhe e põe serenamente, lá vamos nós perseguindo utopias, à espera de céus onde tudo é paz e harmonia, onde os homens são irmãos, onde a solidariedade não é uma palavra vã, onde as palavras têm um sentido e não escondem montanhas de hipocrisia e falsas fés... E depois, meu Deus, como é triste a realidade que encontramos além no horizonte que almejamos. E o nosso coração volta a duvidar e a sentir a negridão da vida e a falácia das soluções que julgávamos encontrar no fim do caminho que trilhamos... 
Quanta hipocrisia e desamor, quantas palavras fúteis gastas em discursos lindos onde o verbo amar se conjuga em tons de rosa, quantos caminhos ínvios travestidos de alamedas, quantos céus cinzentos onde o azul já raiou...
Lemos os jornais, olhamos as imagens da TV, seguimos, curiosos, as mensagens das redes sociais, percorremos as ruas depois do anoitecer e vemos miséria e mais miséria , degradação, ódio, violência e sentimo-nos pequenos, impotentes, quiçá com um pedaço de culpa do que se passa no mundo, pela inércia, pelo deixar correr, pelo nosso egoísmo, pela cegueira demonstrada em tantos momentos cruciais. Regresso ao inicio desta crónica e pergunto a mim próprio " o que devemos ou podemos fazer? " E sinto-me impotente para encontrar respostas e continuo refletir, a pensar, a sentir na alma a angústia de tantos que o destino lançou para a vida em condições degradantes, impróprias de um ser humano, sem direito a nada, nem sequer um sorriso...
Vou à janela, são 18 horas, a noite já desceu sobre o casario, choveu, ouço o vento assobiando no arvoredo...Lá longe, as luzes já há muito se acenderam, parece um arraial, a névoa desce lentamente, embaciando o negrume da noite... Não há estrelas no céu...
As ruas, nesta zona onde moro, estão quase desertas, todos regressam a casa, que o tempo não convida a permanecer lá fora… Estou no Porto. Ontem fui tomar m café ao shopping, onde há um café airoso de que gosto. Estava quase cheio... muitas pessoas de idade que ali gastam o tempo que lhes vai sobrando.... Enquanto esperava, olhei à minha volta contemplei o espaço, bem concebido, belo, com um toque de bom gosto ao harmonizar um recanto com plantas verdes cujos galhos subiam para os céus. Gostei de ver, assim como uma feira do livro, quase deserta, e, lá mais ao fundo, repuxos de água refrescando o ambiente.
Gosto do Porto. É uma cidade bonita e airosa, cheia de História, que soube combinar o antigo com o moderno e tirar proveito da beleza com que a natureza a dotou... E gosto, essencialmente, do seu povo, da sua sinceridade congénita, da leveza do seu falar brejeiro, do seu " Carago " sonante, do apego às suas coisas, da sua capacidade de dizer presente quando as circunstâncias o impõem. E gosto também da sua Francesinha e duma boa tripalhada à moda do Porto, regada com um bom vinho verde. Mas não gostei das palavras que a imprensa põe na boca do seu Presidente de Câmara, quando se recusou a misturar o Galo de Barcelos e os chouriços de Trás-os-Montes, com a sua marca Porto. Se assim o disse, foi mau e expôs-se a reações desabridas de quem se sentiu ofendido naquilo que tem de mais querido, o seu artesanato ou a sua gastronomia, conhecidas em todo o mundo e apreciadas por muitos e muitos portuenses.
O Galo de Barcelos é o símbolo de um artesanato encantador que teve como seu expoente máximo Rosa Ramalho e seus seguidores e é conhecido além-fronteiras como representante de uma cultura popular que permanece bem viva na região de Barcelos, como os bordados e a louça o são em Viana do Castelo. Os enchidos, alheiras, salpicão, chouriços/as fazem parte da riqueza gastronómica de Trás-os-Montes, muito contribuem para a economia da região e fazem as delicias de nacionais e estrangeiros que nos visitam... Não ficam mal ao lado do Vinho do Porto, produzido nas arribas do Douro, nessa antiquíssima província de Trás-os-Montes e Alto Douro...
Foi um mau serviço prestado à causa da regionalização, pois vem pôr a nu aquilo que muitos temiam: o Porto e o Norte são coisas distintas. o Porto é uma nação, como gostam de dizer, e o resto é paisagem, como já há muito se dizia para os lados de Lisboa.
Pessoalmente, recuso-me a acreditar que fossem essas as palavras e a intenção do Sr. Presidente, até pela simpatia que por ele nutro. E seria bom que isso fosse esclarecido porque o Porto sem o Norte pouco é e o Norte sem o Porto fica ainda mais pobre. E já lhe basta o abandono a que o interior foi votado!

Publicado no Correio Transmontano a 30/10/2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

E AQUELES QUE POR OBRAS VALEROSAS, SE VÃO DA LEI DA MORTE LIBERTANDO

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Pesquisando, numa das minhas estantes, alguns livros que queria consultar, vieram-me à mão dois exemplares de obras de autores transmontanos : " Bragança , Coimbra em miniatura " , de José Santa Rita Xisto e " Bragançanismo - Tentativas Históricas e Literárias " , de Eduardo Carvalho. São livros que li há mais de 20 ou 30 anos e que, do seu interesse literário e histórico , está na hora de reler e reaprender o seu excelente conteúdo. E como na ocasião manuseava uma edição de Os Lusíadas, lembrei-me dos versos de Luís de Camões: " E aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando / cantando espalharei por toda a parte / se a tanto me ajudar o engenho e arte. " Não faltou a Camões engenho e arte , como ele próprio reconhece, "Não me falta na vida honesto estudo / de longa experiência misturado / nem engenho que aqui vereis presente /coisas que juntas se acham raramente ". E cantou como ninguém jamais cantou ou cantaria , as virtudes de um povo a quem o destino encomendou grandes feitos e que , a golpes de génio e coragem, " passou ainda além da Taprobana " e alargou o mundo e chegou até onde era possível alcançar... 
E assim , por obras valerosas, se foi da lei da morte libertando, levando até aos confins dos mares, a Fé e o saber de antanho. Perdoe-nos a História alguns males que também fizemos, ante a grandeza do que fizemos bem. E quando " o Mostrengo que está no fim do mar " , no dizer de Fernando Pessoa, se ergueu e disse " Quem é que ousou entrar nas minhas cavernas que não desvendo / meus tetos negros do fim do mundo " , o homem do leme respondeu " Aqui ao leme sou mais do que eu / sou um povo que quer o mar que é teu / e mais que o Mostrengo que me a alma teme / e roda nas trevas do fim do mundo / manda a vontade que me ata ao leme / de el-Rei D.João ll ". 
E sempre assim foi: em Ourique, em Aljubarrota, nas Invasões Francesas, quiçá noutras ocasiões em que fomos postos à prova como povo. Sempre soubemos ser grandes na nossa pequenez e alijar a albarda quando nos quiseram tratar como burros. Como dizia o Marquês de Pombal ao embaixador espanhol " Diga lá ao seu Rei que em Portugal , mesmo depois de mortos , ainda são precisos quatro para nos tirar de casa " , respondendo a uma ameaça de invasão. E o povo anónimo que construiu os Jerónimos e a Batalha, fortes e castelos, palácios e igrejas de uma beleza ímpar, faz parte dos que" por obras valerosas se vão da lei da morte libertando " e não só aqueles a quem se erguem estátuas. "Heróis do mar, nobre povo , nação valente e imortal..." e não terra de PIGS, de pobretanas e ignorantes, de mandriões e pedintes, como, por vezes, nos querem rotular. 
Terra de poetas e artistas, de guerreiros e Santos , de gente de bem que dá a camisa por uma boa causa, Portugal será sempre terra de gente valerosa a quem Deus concedeu uma Pátria linda , onde o sol brilha no azul dos céus e onde as estrelas se miram , cintilantes , no mar imenso que , um dia , já foi nosso, pese embora, como dizia Camões, "... dos portugueses / alguns traidores houve algumas vezes".
E vêm-me à lembrança os nomes do Conde Andeiro. Miguel de Vasconcelos e outros que a História regista. Os vendilhões do Templo terão sempre uma chibata para os expulsar , assim como os que " por obras valerosas se vão da lei da morte libertando " , terão sempre um Camões para os cantar e um povo para os seguir e homenagear. E porque uma das homenagens mais simples e baratas para os cofres municipais é a que se presta através da toponímia, não será despiciendo lembrar que, talvez, fosse possível rever os critérios de atribuição de nomes de ruas, praças e avenidas aos que lutaram pela sua terra com o seu trabalho, pela projeção social alcançada, pela valia da sua arte, das suas produções literárias e poéticas, pela bondade das suas vidas, pelo seu saber compartilhado durante décadas e décadas. E que as rotundas que se forem construindo exibam as tradições e costumes desta terra tão bela. Como seria interessante a coexistência, nos mesmos espaços, do moderno e do tradicional, num país cada vez mais velho...

Publicado no Correio Transmontano a 22/10/2015

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

REFLEXÕES DE OUTONO

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Há dias em que a vida nos parece complexa e triste, sem que haja uma razão plausível para o nosso estado de espírito. Olhamos em nosso redor e vemos o sol brilhar no azul dos céus, enquanto uma brisa fresca embala as folhas das árvores que vão caindo neste início de Outono. Fica bela a paisagem matizada de mil cores, adoçando os sentidos, lembrando arco-íris que em seu arco perfeito, vai beber a água que depois vai ser chuva ( era assim que sonhávamos na longínqua infância). Mas é um belo triste o deste Outono que nos faz lembrar a nossa caminhada para Invernos que hão-de ser frios, tingindo de branco os nossos cabelos, recordando neves que já achamos belas. 
Não me apetece deambular pelas ruas da cidade , animadas por grupos de estudantes que se iniciam nas praxes académicas. Sinto uma sonolência que me convida à sesta, mas resisto ouvindo os acordes suaves de melodias de sempre que me mantêm desperto. Recolho-me ouvindo e revendo um vídeo maravilhoso produzido por Caves Estúdios de Vídeo, poetas do som e da imagem, sobre o Nordeste Transmontano, tão belo e sedutor que nem Torga seria capaz de cantar melhor as belezas deste Reino Maravilhoso. Fiquei encantado e isso me ajudou a levantar o astral e a pisar tempos idos em que percorria, por dever de ofício, todo o distrito de Bragança e tinha o ensejo de observar a natureza em toda a sua beleza e mirar as montanhas que , altaneiras, se perfilavam no meu trajeto.
Às vezes parava, ali para os lados de Vimioso, a observar um vale profundo onde se viam águias voando e planando naquele vasto espaço. E como era belo vê-las evolucionar nos céus, observando presas ou apenas exercitando competências. Outras aves o vídeo me mostrou, como as cegonhas que adoro e visitava amiúde, nos campos que ladeiam o IP4 , em frente a Castro de Avelãs.
Era um prazer imenso vê-las, ao fim da tarde , passearem-se nos campos, procurando o alimento para levar para o ninho onde os filhotes, com o outro membro do casal ,esperavam ansiosos. E quando chegava o tempo, eu espiava, com tristeza, o momento de as ver partir para outras paragens mais amenas , fugindo ao rigor do Inverno transmontano. Bons tempos em que as cegonhas vinham de Paris, transportando os bebés que haviam de ser crianças e homens e mulheres para alegria das gentes. 
Em todas as localidades havia crianças que enchiam as escolas e professores dedicados que lhes ensinavam os primeiros saberes. Havia risos e choros , cabeças rachadas e joelhos esfolados e cantos de alegria que ecoavam na aldeia. E havia pais que respeitavam o/a professor/a dos filhos e lhes agradeciam o desvelo com que os tratavam e lhes abriam os caminhos da vida.
Hoje é confrangedor percorrer essas aldeias que regurgitavam de crianças, adultos e idosos e ver o estado de abandono a que foram votadas. As cidades, o litoral e a emigração todos levaram e ficaram os edifícios, como fantasmas dançando no tempo. As escolas fecharam, as poucas crianças que havia foram levadas para os Mega Agrupamentos e os Professores, muitos deles, atirados para o desemprego ou para escolas bem longe dos seus lares. E a alegria que ecoava nos vales e montes desta terra abençoada, deu lugar ao silêncio que alimenta as saudades. 
Vejam, quem puder, as fotos publicadas por Orlando Nascimento no Facebook , sobre a aldeia de Palas-Vinhais e ficarão em choque ao contemplar tal desolação. Os sinos da Igreja já não chamam os fiéis e talvez já nem cobras ou lagartos embelezem a paisagem... E vieram-me à lembrança outros tempos em que se cantava a liberdade e a esperança e " uma gaivota voava, voava..." e Zeca Afonso cantava o futuro que sonhávamos e Sérgio Godinho pedia pão, saúde, educação... Outros pediam igualdade e fraternidade e muitos sonhavam, sonhavam apenas... 
Recordo-me de, num parque de campismo do verdejante Minho, termos reunido um orfeão improvisado e entoarmos as canções de Abril. Foi lindo e empolgante e houve lágrimas nos olhos de muitos dos que assistiam. Depois, depois o tempo seguiu o seu caminho...Saltos e recuos, esperança e desilusões... Chegado o Outono, murcham as flores e calam-se os pássaros... Há dias em que a vida nos parece complexa e triste...

terça-feira, 13 de outubro de 2015

PENSO EM TI

Penso em ti
como uma estrela distante
lá nos confins do mundo,
nessas galáxias sem fim
onde vives sem mim,
um sol em extinção
cuja luz mal atinge
já teu coração...

Penso em ti ,
no brilho dos teus olhos,
na luz com que iluminas
os céus com que ainda sonho.

Penso em ti
como um anjo alado
que acompanha meus passos
e me leva pela estrada fora
até ao fim do tempo...

Penso em ti
como se o pensamento
fosse, apenas, um momento
e a luz iluminasse os ceus
na procura da galáxia
onde, intensamente, brilhas...

Penso em ti,
já num sem tempo ,
num espaço etéreo
onde os sonhos se apagam,
numa leveza de alma
onde os amores acabam
e onde o coração
serenamente acalma...

Luís Machado

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

OUVINDO SCHUBERT E LENDO " A BALADA DA NEVE"

Crónicas do meu viver // por LUÍS MACHADO

Estou sentado no " meu " sofá, ouvindo , muito baixinho , a "Avé Maria " de Schubert, enquanto a imagem da TV me mostra paisagens que fazem lembrar a Bragança de às vezes, nevando , os flocos caindo levemente , pintando de branco o arvoredo e os campos. Recordo, mentalmente, a Balada da Neve, de Augusto Gil e os versos finais " Cai neve na natureza e caí no meu coração" , transportam-me para a música que estava a ouvir " Ave Maria, gratia plena ..." , e o meu coração e os meus olhos elevam-se para o céu e repetem a pergunta do poeta " Mas as crianças, Senhor , porque lhes dais tanta dor..."...
Hoje é tempo de reflexão! Mas refletir sobre quê? Quase me apetece dizer que sobre nada, porque nada as pessoas sabem sobre o muito que o futuro poderá trazer. Quando esta crónica for publicada já saberemos o resultado da nossa reflexão e, por certo, a pergunta do poeta continuará sem resposta e as crianças, no mundo, continuarão a sofrer e o egoísmo continuará a sobrepor-se ao dever universal de fraternidade. Lá longe, palavras santas continuarão a apelar e a sua voz não terá eco em muitas consciências, corrompidas pela ambição desmedida ou pelo egoísmo mais feroz. O mar continuará a engolir vitimas inocentes, pátrias inteiras serão destruídas por poderosos interesses antagónicos, o dinheiro de uns versus o radicalismo de outros. Instala-se o medo que nos embota os sentidos e nos amarfanha o pensamento e ouvem-se vozes absurdas e pueris , apelando ao ódio .
Há dias mundiais de tudo... Porque não se cria o dia mundial do bom senso? Lá fora, a chuva cai , inclemente , em bátegas sucessivas , inundando as ruas. O vento , moderado , agita as árvores e as folhas voam sobre as nossas cabeças e vão pousar, docemente , aos nossos pés. Atapeta-se a paisagem de verdes, amarelos , vermelhos e as árvores vão ficando despidas como muitas das pessoas a quem austeridade afetou. Vão adormecer na esperança de nova primavera que lhes traga de volta a frondosidade perdida, onde os pássaros armavam os seus ninhos e ensaiavam melodias de encantar.
Vão viver de esperança, temendo as agruras de um inverno que terão ainda de ultrapassar, incólumes. Algumas morrerão de inação, sem força para suportar as tempestades... Outras dormirão o sono dos justos e aguardarão, serenamente, o desabrochar do tempo e a rebentação dos gomos que hão-de assumir-se em folhas e flores...
E a vida recomeça... Haverá novos sonhos e desilusões... e assim será para todo o sempre... Já há muto Schubert terminou a sua melodia e eu devo ter dormido a minha sesta , sonhando harmonias e também desencantos. E, mais uma vez recordo a Balada da Neve e as palavras finais do poema " mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor...":
- Corpos de duas crianças dão à costa na ilha grega de Kos;
-  Huíla: restituídas mais de 200 crianças que faziam trabalhos forçados na Namíbia;
- Mais de 500 crianças mortas e 1,7 milhões em risco no Iémene;
- Três mulheres são presas por usar fotos de crianças para...
- Em Portugal dois milhões vivem em risco de pobreza. Quase 500 mil são crianças;
- Milhares de crianças mineiras exploradas nas Filipinas;
-Crianças amputadas por causa de uma crença;
-Pedófilos roubam metade das fotos de crianças no Facebook;
-Prostituídas e exploradas: a dura realidade das crianças (BBC Brasil);
-Brasil: Fotógrafo regista crianças órfãs e de rua ao lado de seus cães;
-Brasil: sonho das crianças refugiadas sírias é frequentarem a Escola;
-BoKo Haram já desalojou mais de um milhão de crianças.
Esta é uma pequena amostra do que podemos ler diariamente nos órgãos de comunicação social. Para onde caminha a natureza humana? O que é que torna possível a miséria e degradação a que assistimos num mundo em que a ostentação de muitos é uma ofensa à pobreza de tantos? Dizia o Papa Francisco, na sua última visita aos Estados Unidos: " Temos de ter especial cuidado com as crianças e avós... ". Quem o ouve e segue? As palavras de circunstância que muitas vezes ouvimos, encobrem a maior das hipocrisias e os interesses inconfessáveis de muitos sobrepõem-se ao dever inalienável de solidariedade e fraternidade que deveria presidir à acção de quem pode e manda. " Temos de ter especial cuidado com as crianças e avós...".
E eu que tenho cinco filhos e oito netos, preocupo-me, não só com eles, mas também com todos os que precisam de esperança e de um carinho que lhes aqueça a alma. Perdoem-me os outros netos, mas não resisto à tentação de transcrever a mensagem que me deixou o neto mais novo, o Pedro Miguel, de 7 anos, aquando do meu aniversário natalício: " És o melhor avô do mundo. Adoro-te. " De que mais precisa um avô para se sentir feliz?
Luís Machado
Publicado no Correio Transmontano a 9 de outubro de 2015


sábado, 3 de outubro de 2015

OUTONO E OUTRAS ESTÓRIAS

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Entrou o Outono com ar prazenteiro, mais parecendo Verão. O sol continua a aquecer as nossas almas, enquanto as noites frias vão despindo as árvores da folhagem, atapetando as ruas e passeios. Morrem as flores dos nossos polícromos jardins e só as rosas resistem um pouco mais, suavizando a tristeza dos canteiros. 
Os idosos reflectem e pensam na tristeza dos Invernos que se avizinham e vêem, nas imagens que os espelhos lhes mostram, o caminhar do tempo, os cabelos brancos, as rugas que surgem no seu rosto , o brilho baço dos seus olhos que tiveram já o esplendor do sol e das estrelas. Quis o destino que o Outono e eu celebrássemos no mesmo dia a entrada num outro tempo, ambos a caminho do Inverno , suavemente, festejando com hossanas e champanhe um dia diferente que não se repetirá, os meus 80 anos.
Foi lindo o que os meus filhos e netos prepararam para mim, enchendo de júbilo o meu coração e levando a que uma lágrima bailasse nos meus olhos e me embargasse a voz quando, em breves palavras, quis agradecer-lhes o carinho e o amor demonstrados.
Foram muitos os amigos(as) que quiseram demonstrar-me o seu afecto nessa data e alguns tocaram bem fundo no meu coração pelo teor e conteúdo das suas mensagens. Houve quem me fizesse poemas e dedicasse canções e músicas que acharam adequadas ao momento, com a ternura e o carinho de que necessita um amigo menos jovem.
Os meus amigos(as) brasileiros foram extraordinários e eu entendi porque nós estamos no Outono e eles na Primavera... Mas também entendi, do lado de cá, alguns simples " parabéns" que sintetizavam afectos que não sabemos ou queremos demonstrar, pela frieza circunspecta dos nossos costumes, cheios de " tabus " e de " parece mal "...
E quanto são diferentes as palavras e o tom utilizados pelos nossos irmãos brasileiros no simples contacto quotidiano em que as expressões " te amo " e " querido , entre outras, são vulgares no trato, não expressando, com extremo à vontade, senão carinho e ternura por aqueles com quem falamos. Nós somos diferentes, mais reservados e guardamos tais expressões para um contacto privado ou para as cartas de amor, em que o sentido das palavras tem uma conotação diversa. Ainda bem que nas gerações mais novas, certos tabus caíram e as relações são mais naturais e sinceras. As gerações mais velhas continuam cheias de pruridos e " parece mal ", nas coisas mais simples, dificultando o salutar convívio das pessoas e as relações mais sinceras, sem as habituais fofoquices em que a nossa sociedade é altamente especializada.

2 - Mas é Outono e o tempo muda a cada instante. Há árvores e arbustos verdes que vão adquirindo a coloração vermelha ou amarela e mudam a paisagem. Os nossos olhos seguem, extasiados, a mudança e a contemplação do belo sossega os nossos corações, angustiados pela miséria que grassa pelo mundo e pela inércia dos todo poderosos em arranjar soluções que a minorem, pese embora a voz cativante do Papa Francisco não cessar de apelar à fraternidade entre os homens.
Sento-me num banco da Praça Cavaleiro Ferreira e dali domino o pulsar da cidade, azafamada aquela hora, cada um procurando chegar mais cedo ao seu destino. Olho em volta e contemplo o chafariz espargindo água em geométricas formas, num efeito visual que nos encanta. À noite, iluminado, ainda é mais belo. Lá no fundo, do outro lado da rua, ergue-se, monumental, o Teatro, numa arquitectura moderna que a muitos encanta e outros detestam.
Subo com o olhar a escadaria e penetro no seu interior, confortável, airoso, equipado a preceito para as funções que exerce. E lembro-me de Shakespeare cujo olhar atravessou o tempo e chegou atual aos nossos dias..." na corrente corrupta da vida, a mão dourada do crime pode entravar a justiça... e quantas vezes vemos o próprio prémio do mal comprar a lei..."
Olho para o outro lado do local onde estou e lá está o edifício da " Domus Justitiae ", em pedra trabalhada , bonito, sóbrio, como convém à função, e lembro-me de tantos casos que fizeram a manchete dos jornais e revistas ou encantaram os " pivots " da televisão e cujo veredicto deixou no ar mais dúvidas do que as que resolveu , assistindo os cidadãos, perplexos, às prescrições que se vão sucedendo no tempo ou à demora infinita de processos que, dilatoriamente, quem tem dinheiro, sempre vai conseguindo.
No lado oposto, ergue-se o belo edifício que foi o BNU, integrado na CGD, símbolo de um poder que a crise abalou, à espera de melhores dias e de uma ideia salvadora que lhe dê utilidade. E há tantos belos edifícios em Bragança, nas mesmas condições.
Sigo com o olhar o que foi um belo passeio em calçada à portuguesa e admiro o edifício onde funcionaram a Segurança Social e o Tribunal de trabalho. E vêm-me à lembrança tempos em que os trabalhadores tinham direitos e os viam respeitados, sem sofismas que pretendem justificar todo o tipo de abusos, desde as remunerações vergonhosas, o trabalho precário, aos despedimentos sem justificação, aos cortes nos salários e pensões e mais, muito mais que seria fastidioso enumerar. E , como os pássaros, as pessoas migram e vão construir o ninho noutras bandas onde o clima seja mais ameno e respirem respeito.
Olho, por fim, para o Largo do Correio e para o edifício onde tenho um pedaço do meu coração. A estátua do Carteiro simboliza o trabalhador que, por montes e vales, chovesse ou fizesse sol, com frio ou calor, levava sempre a Carta a Garcia e entregava sempre as cartas, mesmo quando as direções eram do tipo..." para o António que é maneta e não tem mãe... Portugal..." e outras tão castiças que não deixavam de nos provocar um longo sorriso. Eram profissionais a sério, com longos anos de trabalho nos Correios e sabiam que essa era a sua função.
Os tempos mudaram e outros valores mais altos se alevantaram e....vamos sempre bater no mesmo... o dinheiro comanda a vida e já não o sonho, este adormeceu no colo dos poetas... Às vezes acorda e estremunhado, canta as belezas e a tristeza do Outono..." As árvores da minha rua, já estão perdendo a folha..." / " as árvores que foram belas, ficam tristes, pesarosas..." / "..de mansinho, o Outono avança..." 
Fui procurar as cegonhas mas já tinham emigrado. Se ao menos houvesse melros a cantar no meu jardim... Só tem uma rosa vermelha que um dia vai desfolhar... e até os cravos vermelhos acabaram por secar...

Publicada no Correio Transmontano a 2 de Outubro de 2015

https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/

DANÇA COMIGO À CHUVA


Vem dançar comigo
à chuva , com os sonhos
Que lancei no tempo...
Vem , enquanto é dia,
entre o trigo loiro
e por entre as flores...

Vem dançar comigo
por entre os amores
perfeitos ou não...
Deixa-me pegar
nessa tua mão,
banir a tristeza
do meu coração...

Vem dançar comigo
à chuva , com os sonhos
que lancei no tempo...
Se a noite chegar,
não vamos parar,
temos as estrelas
para iluminar
e a lua cheia
para nós a olhar...

Vem dançar comigo
à chuva ,com os sonhos
que lancei no tempo...
E se o tempo acabar,
ainda mesmo assim,
nós vamos dançar,
a dança da vida,
a dança do amor ,
dançando nas nuvens
em arrebois de cor...

Vem dançar comigo
à chuva, com os sonhos
que lancei no tempo...
Sem corpo, só alma,
dançando nas nuvens,
nesta noite calma...

Vem dançar comigo,
além é o céu,
quero ir contigo
contar as estrelas ,
metade e outras tantas
e ainda mais algumas
das que tu plantas...

Vem dançar comigo
à chuva ,com os sonhos
que lancei no tempo...
Dança docemente,
encosta o teu peito
ao meu peito ardente,
dá-me a tua mão,
apaga esta dor
do meu coração,
quero enchê-lo todo
de sonhos de amor...

Luís Machado

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

OUTONO


As árvores da minha rua
já estão perdendo a folha,
tudo já perdeu o viço,
vem o vento e espalha tudo,
a tudo dando sumiço...

As árvores que foram belas,
ficam tristes, pesarosas ,
as folhas estão amarelas,
árvores que foram frondosas
estão agora desfolhadas...
Até já os pássaros migram,
vão juntos , em debandadas,
sem passarões que os persigam,
na busca de um novo lar
onde possam procriar...

De mansinho, o Outono avança,
traz ventos, leva cansaços,
leva pedaços de esperança,
traz o frio , rompe laços,
leva saudades do Verão,
lembranças de Primaveras,
deixa em cada coração
pedaços de vãs quimeras,
sonhos lindos de outras eras...

E as folhas que vão caindo,
o vento as vai levando,
varre também ilusões
e os sonhos lá vão fugindo
varridos dos corações...

Vem a chuva , vem o vento ,
vêm também vendavais...
Talvez lá pela Primavera
venha , enfim , uma bonança
que nos traga uma outra esperança...

As árvores da minha rua
já estão perdendo a folha,
há já muita árvore nua ,
ainda há rosas nos rosais,
fugiram as andorinhas,
mas há ninhos nos beirais,
das belas aves que eu via
já só ficaram pardais...

De mansinho o Outono avança,
passos leves de quem dança
num compasso de tristeza,
fria e leve, sem esperança,
vai dormir a natureza,
os sonhos vão hibernar
esperando a Primavera
que um dia há-de voltar...

LUIS MACHADO

sábado, 26 de setembro de 2015

Quem tem uma mãe tem tudo // O meu herói

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Quem tem uma mãe tem tudo

A minha mãe Soledade


A minha mãe chamava-se Soledade que é sinónimo de solidão, estado de tristeza de quem se sente só. Nada mais errado, pois teve oito filhos e uma caterva de netos que não lhe permitiam ter um momento livre nunca a deixando só. 
A Senhora Soledadinha, como carinhosamente lhe chamavamos, não tinha grande cultura livresca, nem muitos anos de estudo, mas era um repositório do saber popular, acumulado ao longo de gerações e que se consubstanciava nos ditos e máximas que usava com mestria. Não tinha nascido num folinho, como ela dizia, antes tinha comido o pão que o Diabo amassou, com uma infância que não fora feliz.
Era inteligente, observadora, perspicaz e comentava com graça os acontecimentos políticos do seu tempo, sem subterfúgios ou palavras dúbias, pedindo meças aos nossos actuais comentadores, pagos a peso de ouro.
À medida que ia somando filhos, ia perdendo um pouco da paciência que era necessária para aturar a prole e não eram raros os tabefes que ia distribuindo para desconsolo de alguns e gáudio de outros.
Criar oito filhos, numa época de pouca abastança e de trabalho mal remunerado, era mais difícil do que gerir uma creche, já que a mãe acumulava as funções de empregada doméstica, ama, cozinheira, administrativa, educadora, gestora dos poucos fundos entrados pelo trabalho do pai e sei lá que mais funções que o governo de uma casa implica. E tudo sem um queixume, assumindo o destino como um dever irrevogável e irreversível, porque Deus assim quisera e ela e o pai assim assumiram.
Quantas vezes ela teve de fazer o milagre de multiplicação dos pães, que as bocas eram muitas e os proventos poucos, mas com um pouco de nada ela fazia maravilhas na cozinha e os seus cozinhados tinham o sabor das iguarias mais cantadas. E até o caldo de farinha milha com uma chouriça sanguinha, se transformava num manjar dos deuses. Era de lamber os beiços, como então se dizia. E com um pouco mais de presigo, das iguarias que a mãe inventava com génio, lá se iam criando os oito filhos, sãos e escorreitos, preparados para enfrentar a vida, sem grandes luxos, mas com uma visão da vida e do mundo que lhes permitiu encontrar o seu caminho.
Eu era o mais velho dos oito irmãos e como tal gozei de alguns privilégios que aos outros não foram permitidos. Fui o único que, ao sair da primária, pude continuar os estudos. Os restantes fa-lo-iam mais tarde, subindo na vida a pulso. E agora, quando completo oitenta anos, olho e vejo-os a todos, saudáveis, fruindo a vida, contemplando os filhos e netos que perpetuarão o nome dos Machados.
Mas a vida é um caminhar no tempo e este trouxe à Senhora Soledadinha melhores condições de vida e a alegria de ver os filhos conquistarem a sua independência, com alguns acidentes de percurso que foram resolvendo.
Não sei se há alguma Santa com o nome de Soledade, mas se não há, eu elejo a minha mãe com o coração e rezarei perante o quadro com a sua imagem, pintado pelo meu amigo Manuel Barreira, que, orgulhosamente tenho exposto na minha sala de estar. Os seus olhos tristes refletem os sacrificios que fez para nos criar, mas eu sei que, no céu, ela está orgulhosa de todos nós tanto quanto nós nos orgulhamos dela.

A minha mãe Soledade





O meu herói


Este conto foi escrito há cerca de trinta anos e dedico-o a todos os pais.
Recordo-o ainda com saudade, embora os anos vão desfazendo os profundos laços de amizade e ternura que nos uniam.
Mas ele foi sempre para mim um ser muito especial, movimentando-se num mundo que não era real, flutuando entre o céu e a terra entre o sonho e as duras certezas do quotidiano.
Naquele dia, eu acordara cedo. Pouco dormira, preocupado com as responsabilidades que me esperavam. Levantei-me, lavei-me, vesti-me, tomei o pequeno-almoço e quando chegou a hora de partir, peguei na sacola com os livros e lá fomos os dois, eu e o meu pai calcorreando as longas ruas que nos separavam da escola.
Havia poucos carros, mas as ruas estavam pejadas de transeuntes que caminhavam rápido para os empregos. De vez em quando via-se um carro, puxado por pachorrentos bois, transportando as coisas mais diversas, guiados por homens possantes de aspecto austero e rude, tez tisnada pelo sol, faces enrugadas pelo frio de muitos invernos.
No caminho encontramos outros iniciados nestas coisas da escola igualmente preocupados e apreensivos.
Contavam-se histórias de longas réguas, pesadas como o tempo, brandidas pela mão de professoras sem dó, de olhares furibundos, que não perdoavam a ignorância ingénua da pequenada. E eu ia pensando nos bolos que me esperavam, nas histórias contadas pelos mais velhos, de tudo dando conta ao meu pai, na longa caminhada pelas ruas estreitas, com o seu sorriso complacente e bondoso, animador e camarada.
Eram oito e meia quando chegamos à escola. O velho convento infundia respeito. Viam-se ainda os claustros em ruínas, onde, à noite, dizia-se, as almas dos velhos frades vinham rezar as suas orações!
Gaiatos traquinas e barulhentos animavam a malta e havia risos e gargalhadas, misturadas com as lágrimas furtivas dos mais novos.
E, então, chegou a professora: nova e bonita, inspirou-me alguma confiança e dissipou alguns dos medos que me atormentavam. O meu pai abraçou -me, disse-me que era preciso estudar para ser um homem de bem, mas eu percebi que uma lágrima bailava nos seus olhos bons, quando me deixou, com a promessa de que, no fim das aulas, me viria buscar.
E agora ele ali estava, passados tantos anos, a olhar-me como nesse primeiro dia de escola da minha infância, compreendendo os meus sonhos de adolescente, animando-me com as suas palavras, sonhando comigo um mundo mais fraterno! E lá íamos nós percorrendo outros caminhos, conversando sem fim, sem medo que as palavras não chegassem para dizermos, um ao outro, tudo o que nos ia na alma. Aprendi com ele a amar a vida nas coisas mais simples e a respeitar os outros como irmãos, o companheirismo e a amizade!
Lembro-me que passeávamos pelos campos, alheados do tempo, insensíveis ao cansaço, falando de tudo, cheios de certezas, corações sem ódio, fruindo a vida, poetas anónimos, fazedores de ilusões!
E veio-me, então, à lembrança um dia em que tudo foi diferente. Era o pós-guerra e a crise tudo avassalava e destruía. Os sonhos num mundo melhor e mais fraterno confrontavam-se com a dura realidade da miséria e até os poetas tinham fome... Nesse dia ficou desempregado, chegou a casa sem dinheiro e sem brilho no olhar... Indiferentes a tudo, as crianças corriam e brincavam. Dali a pouco, iriam querer comer!... E comeram, porque a solidariedade humana funcionou em pleno e aquele olhar voltou a recuperar o brilho!
Quando, anos mais tarde, eu parti para longe, foi como se partisse um pedaço de si mesmo! Mas os nossos corações mantiveram-se unidos e sempre que o visitava, havia montes de notícias a relatar, recordações a avivar, planos a gizar, como se a vida recomeçasse em cada reencontro!
E quando um dia, já muito doente, se despediu de mim, com lágrimas nos olhos e a garganta embargada pela comoção, eu senti que o Meu Herói se aprestava para a longa viagem sem regresso e temia que o seu "menino" não voltasse a tempo de o apertar nos braços como naquele primeiro dia de escola da minha infância!
Voltarei sempre... enquanto capaz de sonhar e de me sentir camarada e irmão de toda a gente! Enquanto, Meu Herói, acreditar que vale a pena ser " um homem de bem" como quiseste que eu fosse! Simplesmente!

Luís Machado

Os meus pais Emílio e Soledade

Eu na Primeira Comunhão

sábado, 19 de setembro de 2015

O TEU CORPO


Vejo no teu corpo
a ondulação das searas
quando o trigo loiro
brilha à luz do sol

Sinto no teu corpo
as curvas do tempo
desenhando desejos
que ne dão alento

Bebo nos teus olhos
o brilho do luar
esses olhos lindos
que lembram o mar

Esse mar profundo
que é meu fetiche
e espelha teus olhos
da cor do azeviche

Ponho nos teus lábios
meus beijos de mel
não são como outros beijos
que sabem a fel...

De veludo feita
pego em tua mão
tão terna , serena , tão meiga
que afaga meu coração

Eu queria conjugar
contigo o verbo amar
e nos meandros do tempo
ao futuro , então , chegar


Luis Machado

Reflexões e Memórias DO AMOR, DA AMIZADE E DA VIDA

Crónicas do meu viver // POR LUIS MACHADO

1 - No último fim-de-semana, desloquei-me a Viana do Castelo para assistir às Bodas de Ouro de um irmão. Foi uma festa linda, para o casal, para os filhos e netos, para todos os convidados presentes. No copo de água que se seguiu à missa houve tempo para trazer ao presente recordações de muitos anos, actualizar conversas há muito adiadas, rever velhos amigos, cantar e dançar ao som de belas melodias, seleccionadas a preceito por quem sabe do ofício e conhece os gostos de quem ouve.
Novos e velhos dançaram alegremente, esquecendo reumatismos e dores nas articulações, que a alegria é a melhor terapia para muitas das moléstias que afligem os mais idosos. E porque me recordei de bodas semelhantes celebradas há anos, a vontade recusou-se a entrar na dança e fiquei ali, comovido, a olhar os pares que rodopiavam na sala, as lembranças ensombrando este momento feliz.
Celebrar 50 anos de casamento é um momento de felicidade que muitos não alcançam. Só o amor ajuda a ultrapassar o tempo, somando, ano após ano, bons e maus momentos, vitórias e desaires, momentos de euforia e tristeza, nascimento de filhos e netos, morte de entes queridos que ficarão, para sempre, na nossa saudade.
O que há de mais belo no amor de um homem e de uma mulher durante tantos anos, é a capacidade de ultrapassarem, em conjunto, as agruras que a vida vai trazendo, de arranjarem soluções para as dificuldades que têm de enfrentar, terem tempo, disposição, carinho para educarem os filhos e mimarem os netos e, muitas vezes, se esquecerem de si próprios e dos prazeres que podiam fruir. Mas na hora de fazer o balanço, sentimos que valeu a pena e que as rugas e os cabelos brancos são apenas mimos que a vida nos deu por tanto termos vivido. E só o amor que sentimos é o prémio de todas as lutas e canseiras que a vida nos trouxe.

2 - Quando calcorreava ruas e avenidas da minha terra natal, quantas lembranças me vieram à mente, sonhos, amores e desamores, amigos que partiram, lugares onde fomos felizes e deixamos um pouco de nós próprios, ilusões que alimentamos e se desfizeram no tempo, quimeras que perseguimos, utopias que sonhamos. E vejo-me, menino e moço , deambulando pelas ruas da urbe , catrapiscando as moçoilas , que as havia bonitas , sonhando aventuras que eram apenas desejos , imaginando-me um galã desses filmes melosos que o cinema americano nos dava , imitando bigodes e penteados poupudos, alindados por uma boa camada de brilhantina. O meu herói era o Clarc Gable que aprimorava um sorriso que derretia corações...
E de sonho em sonho, já que não havia divas , lá acabávamos por conquistar uma colega estudante ou uma costureirinha simpática das modistas da terra. E havia algumas muito bonitas que nos faziam arregalar os olhos de cobiça e nos atraíam quais sereias cantando no mar que ali bem perto estava. Mas não quero entrar na minha própria privacidade e por aqui me fico. Todavia, lembro com saudade esses tempos da minha mocidade em que o sonho comandava , realmente , a vida...
E alguns sonhos ficaram pairando no azul dos céus daquele verde Minho... E falando ainda de amor, ficou-me , das minhas leituras de algum dia , um poema de D.Berta Bento Colaço (?) que dizia assim : " O flirt é um fio dourado/ sobre um rio pendurado, todo luz/ Amor é o nome desse rio/ quem não sabe andar no fio, catrapuz. " Confesso que, embora alertado, e porque sempre achei graça ao flirt, algumas vezes me desequilibrei no fio e catrapus, mergulhei nas águas do rio. Nalguns casos foi agradável a queda, havia uns braços suaves que nos amparavam e , ternamente , nos colocavam na margem. Outras, não era assim e de amores desgraçados estão os romances cheios...
Cuidado com o fio, o rio continua correndo por aí e nem sempre as ninfas nos estendem os braços com ternura. Mas amem, amem sempre, o amor torna diferente a vida, suaviza as dificuldades do caminho, inebria os sentidos, perfuma o ar que respiramos, leva-nos a alems onde tudo é azul e o sol eterno...
E quando alguém celebrar 50 anos de casados, cantem hossanas ao amor e acendam uma vela do tamanho da esperança... O mundo bem precisa de amor e de esperança...

3- Há dias fui agradavelmente surpreendido com a visita de um velho amigo e colega, António Joaquim Canedo de seu nome, que , no pós 25 de Abril , comigo enfrentou , profissionalmente , as dificuldades do momento. Há muitos anos que não o via pelo que recordamos peripécias do passado, falamos do presente e admirei a frescura de espírito deste jovem de 84 anos quando nos falava do futuro. Descobri nele um poeta de mérito quando teve a gentileza de me oferecer um exemplar do seu livro " Transmontano de Gema ".E o conteúdo do livro mostra-nos mesmo a fibra de um transmontano de gema e de um cidadão atento ao que se passa no seu país. São sublimes alguns dos seus poemas que nos recitou e que sabia de cor. Bem haja, bom amigo.

4 -  Queria ainda fazer referência a um livro do meu bom amigo Prof. Afonso Maria de Castro, com o título " Doces Recordações ". É um livro despretensioso, com histórias que nos encantam e recordações que, muitas vezes, nos comovem, escrito com a graça e o saber de um cultor da língua. Será um manancial de boas ideias e inspiração para algumas das minhas crónicas. Um muito obrigado pela gentileza da oferta. Do céu alguém lhe agradecerá a dedicatória verbal que nos foi transmitida.

Publicada no Correio Transmontano a 19 de setembro de 2015

https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/