sexta-feira, 9 de outubro de 2015

OUVINDO SCHUBERT E LENDO " A BALADA DA NEVE"

Crónicas do meu viver // por LUÍS MACHADO

Estou sentado no " meu " sofá, ouvindo , muito baixinho , a "Avé Maria " de Schubert, enquanto a imagem da TV me mostra paisagens que fazem lembrar a Bragança de às vezes, nevando , os flocos caindo levemente , pintando de branco o arvoredo e os campos. Recordo, mentalmente, a Balada da Neve, de Augusto Gil e os versos finais " Cai neve na natureza e caí no meu coração" , transportam-me para a música que estava a ouvir " Ave Maria, gratia plena ..." , e o meu coração e os meus olhos elevam-se para o céu e repetem a pergunta do poeta " Mas as crianças, Senhor , porque lhes dais tanta dor..."...
Hoje é tempo de reflexão! Mas refletir sobre quê? Quase me apetece dizer que sobre nada, porque nada as pessoas sabem sobre o muito que o futuro poderá trazer. Quando esta crónica for publicada já saberemos o resultado da nossa reflexão e, por certo, a pergunta do poeta continuará sem resposta e as crianças, no mundo, continuarão a sofrer e o egoísmo continuará a sobrepor-se ao dever universal de fraternidade. Lá longe, palavras santas continuarão a apelar e a sua voz não terá eco em muitas consciências, corrompidas pela ambição desmedida ou pelo egoísmo mais feroz. O mar continuará a engolir vitimas inocentes, pátrias inteiras serão destruídas por poderosos interesses antagónicos, o dinheiro de uns versus o radicalismo de outros. Instala-se o medo que nos embota os sentidos e nos amarfanha o pensamento e ouvem-se vozes absurdas e pueris , apelando ao ódio .
Há dias mundiais de tudo... Porque não se cria o dia mundial do bom senso? Lá fora, a chuva cai , inclemente , em bátegas sucessivas , inundando as ruas. O vento , moderado , agita as árvores e as folhas voam sobre as nossas cabeças e vão pousar, docemente , aos nossos pés. Atapeta-se a paisagem de verdes, amarelos , vermelhos e as árvores vão ficando despidas como muitas das pessoas a quem austeridade afetou. Vão adormecer na esperança de nova primavera que lhes traga de volta a frondosidade perdida, onde os pássaros armavam os seus ninhos e ensaiavam melodias de encantar.
Vão viver de esperança, temendo as agruras de um inverno que terão ainda de ultrapassar, incólumes. Algumas morrerão de inação, sem força para suportar as tempestades... Outras dormirão o sono dos justos e aguardarão, serenamente, o desabrochar do tempo e a rebentação dos gomos que hão-de assumir-se em folhas e flores...
E a vida recomeça... Haverá novos sonhos e desilusões... e assim será para todo o sempre... Já há muto Schubert terminou a sua melodia e eu devo ter dormido a minha sesta , sonhando harmonias e também desencantos. E, mais uma vez recordo a Balada da Neve e as palavras finais do poema " mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor...":
- Corpos de duas crianças dão à costa na ilha grega de Kos;
-  Huíla: restituídas mais de 200 crianças que faziam trabalhos forçados na Namíbia;
- Mais de 500 crianças mortas e 1,7 milhões em risco no Iémene;
- Três mulheres são presas por usar fotos de crianças para...
- Em Portugal dois milhões vivem em risco de pobreza. Quase 500 mil são crianças;
- Milhares de crianças mineiras exploradas nas Filipinas;
-Crianças amputadas por causa de uma crença;
-Pedófilos roubam metade das fotos de crianças no Facebook;
-Prostituídas e exploradas: a dura realidade das crianças (BBC Brasil);
-Brasil: Fotógrafo regista crianças órfãs e de rua ao lado de seus cães;
-Brasil: sonho das crianças refugiadas sírias é frequentarem a Escola;
-BoKo Haram já desalojou mais de um milhão de crianças.
Esta é uma pequena amostra do que podemos ler diariamente nos órgãos de comunicação social. Para onde caminha a natureza humana? O que é que torna possível a miséria e degradação a que assistimos num mundo em que a ostentação de muitos é uma ofensa à pobreza de tantos? Dizia o Papa Francisco, na sua última visita aos Estados Unidos: " Temos de ter especial cuidado com as crianças e avós... ". Quem o ouve e segue? As palavras de circunstância que muitas vezes ouvimos, encobrem a maior das hipocrisias e os interesses inconfessáveis de muitos sobrepõem-se ao dever inalienável de solidariedade e fraternidade que deveria presidir à acção de quem pode e manda. " Temos de ter especial cuidado com as crianças e avós...".
E eu que tenho cinco filhos e oito netos, preocupo-me, não só com eles, mas também com todos os que precisam de esperança e de um carinho que lhes aqueça a alma. Perdoem-me os outros netos, mas não resisto à tentação de transcrever a mensagem que me deixou o neto mais novo, o Pedro Miguel, de 7 anos, aquando do meu aniversário natalício: " És o melhor avô do mundo. Adoro-te. " De que mais precisa um avô para se sentir feliz?
Luís Machado
Publicado no Correio Transmontano a 9 de outubro de 2015


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