Crónicas do meu viver // Por Luís Machado
Há dias que ficam gravados para sempre nos nossos corações. Ontem, dia 10 de Julho, será um desses dias, por um punhado de circunstâncias que se não repetirão e que trouxeram felicidade ao nosso coração. Desde logo, porque fui assistir ao baptizado de uma sobrinha-neta que trouxe muita felicidade aos pais, avós, irmãs, tios e demais familiares. Não foi um vulgar baptizado, sempre belo! Foi um acontecimento muito especial que encheu de júbilo o coração dos pais! Todas as mães merecem os filhos que Deus lhes dá, mas há algumas que merecem mais, porque são pessoas muito especiais que merecem ser felizes e realizar os seus sonhos! Às vezes, demora o seu tempo, é preciso lutar, procurar o caminho, perseverar, mas sempre se alcança o horizonte que almejamos e o sol brilha nos nossos corações.
Foi linda a festa que reuniu familiares e amigos, num convívio alegre e sereno, num lugar paradisíaco. O ar fresco do mar amenizava a canícula que se fazia sentir e as bebidas frescas atenuavam o mal estar que o calor provocava. Havia risos e abraços de quem há muito se não via, gentis corpos de jovens exibindo os seus vaporosos vestidos, velhos procurando as sombras e recordando tempos em que também eram assim, adultos ainda jovens mostrando a sua virilidade através dos copos que iam emborcando.
Acabada a cerimónia religiosa e iniciado o alegre convívio, esperava-se, com ansiedade, uma outra hora, a hora a que a Selecção Portuguesa de Futebol entrasse em campo, na capital francesa, para discutir com a equipa de França o jogo que iria atribuir o título de campeão da Europa. Ao fundo do salão estava montado o ecrã e, desde logo, os mais entusiastas tomavam posição para assistir à contenda. Havia um entusiasmo transbordante, de novos e velhos, homens e mulheres, muitos dos quais nunca se tinham interessado por futebol! Mas hoje, era diferente, estava em causa o titulo de campeão da Europa, o prestigio de um país que tinha sido vilipendiado ao longo da competição e tratado, com desdém, por uma imprensa xenófoba e retrógrada que nos considerava um povo menor que nem direito teria a participar numa competição desta envergadura, destinada aos eleitos, aos povos de elite, aos que aspiravam a ser os senhores do mundo.
Os jovens eram os mais entusiastas e barulhentos e o seu entusiasmo contagiava os mais velhos que participavam na festa. As senhoras emitiam opinião sobre a elegância e beleza dos nossos jogadores, enquanto os homens se debruçavam mais sobre aspectos técnicos e táticos, congeminando estratégias para ultrapassar a arrogância dos gálios que haviam de se ver gregos perante os humildes galos. Começada a contenda, logo os gálios encristaram a crista e tentaram atarantar os humildes galos, a bem ou a mal, com a conivência do juiz da partida que devia sofrer de miopia congénita ou de daltonismo, pois só via as faltas das cores mais claras e ficava, impávido e sereno, ante as entradas brutais dos gálios. E assim, passados poucos minutos do início da partida, Cristiano Ronaldo, em quem se depositavam as maiores esperanças, foi mandado para o balneário, atingido pela "meiguice" consentida pelo árbitro que continuava, impávido e sereno, à boa maneira britânica, esquecendo a velha aliança, porque, possivelmente, outros valores mais altos se alevantavam... Rejubilou o público afecto aos franceses, porque, pensaram, sem Cristiano Ronaldo, os pobres galos, atarantados sem o capitão que os galvanizava, seriam presa fácil para a sua soberba selecção que já havia, sabe Deus como, eliminado a arrogância germânica. Mas, como dizia Camões," Cale-se de Alexandre e de Trajano, a fama das vitórias que obtiveram, que outros valores mais altos se alevantam..." e foram esses valores mais altos, essa força interior que foram buscar ao mais intimo do seu âmago, a revolta contra a ignomínia que se tornava visível a cada instante, foram esses valores, repito, que tornaram gigantes vos pequenos galos evos catapultaram para uma vitória indiscutível e insofismável.
Foi triste a falta de fair-play manifestado por grande parte dos franceses perante a derrota das suas cores. Mas dos fracos não reza a história e temos de ser magnânimos, como aquela criança que aparece num vídeo no facebook, a consolar um adepto francês que, compreensivelmente, chorava a derrota da sua equipa. Um grande exemplo, dado por uma criança, descendente de portugueses, e que apoiava a equipa da pátria de seus pais.
E para que o mundo olhe para Portugal com outros olhos, também noutras modalidades desportivas mostramos o valor dos nossos atletas e na ciência, os nossos jovens foram brilhantemente premiados como os melhores.
Quando uma campanha orquestrada por quem não conhece a nossa cultura e o nosso povo, nos cataloga como um povo de mandriões que gosta de viver à custa dos outros, fruindo graciosamente aquilo que a natureza nos deu, o sol, o mar, a beleza impar desta terra bendita, esquecendo o muito que já demos ao mundo, é urgente que nos ergamos, que mostremos quem somos, o que podemos fazer, o que queremos, o caminho que queremos trilhar, os objectivos que queremos alcançar. Temos de mostrar a esta Europa sem alma, dominada pelo poder financeiro, pela ganância, pelo desprezo pelos que sofrem, pela ambição desmedida, que não somos os PIGS que querem submeter e escravizar, que sabemos ser grandes quando nos espicaçam o orgulho, que não vergamos a cerviz aos poderosos e que, em Portugal, mesmo depois de mortos, são precisos quatro para tirar um homem de casa. Que este exemplo do campeonato europeu de futebol, nos leve a refletir e a entender a dimensão do nosso valor e a perceber que quando queremos, podemos. Não podemos é tolerar Migueis de Vasconcelos, nem Judas que nos vendam por trinta dinheiros. E, infelizmente, há quem nos venda por menos.
Porto, 13-07-2016