domingo, 17 de julho de 2016

PERCURSO


Fui gazela livre
brincando com os sonhos,
ágil, perseguindo o futuro,
desenrolando a vida,
novelo fofo
de ternuras feito...

Fui ave solta
sonhando igualdade,
lúdicos devaneios
por um além só cor,
planura sem fim,
semeada de amor...

Fui vendaval
arrastando ideias,
vento de mudança
arrasando rotinas,
fui coragem,
fui força,
fui certeza...

Que é do horizonte
onde almejei o fim?
Porque passou a vida
sem esperar por mim?

Luís Machado

O TRIUNFO DOS PIGS

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Há dias que ficam gravados para sempre nos nossos corações. Ontem, dia 10 de Julho, será um desses dias, por um punhado de circunstâncias que se não repetirão e que trouxeram felicidade ao nosso coração. Desde logo, porque fui assistir ao baptizado de uma sobrinha-neta que trouxe muita felicidade aos pais, avós, irmãs, tios e demais familiares. Não foi um vulgar baptizado, sempre belo! Foi um acontecimento muito especial que encheu de júbilo o coração dos pais! Todas as mães merecem os filhos que Deus lhes dá, mas há algumas que merecem mais, porque são pessoas muito especiais que merecem ser felizes e realizar os seus sonhos! Às vezes, demora o seu tempo, é preciso lutar, procurar o caminho, perseverar, mas sempre se alcança o horizonte que almejamos e o sol brilha nos nossos corações.
Foi linda a festa que reuniu familiares e amigos, num convívio alegre e sereno, num lugar paradisíaco. O ar fresco do mar amenizava a canícula que se fazia sentir e as bebidas frescas atenuavam o mal estar que o calor provocava. Havia risos e abraços de quem há muito se não via, gentis corpos de jovens exibindo os seus vaporosos vestidos, velhos procurando as sombras e recordando tempos em que também eram assim, adultos ainda jovens mostrando a sua virilidade através dos copos que iam emborcando.

Acabada a cerimónia religiosa e iniciado o alegre convívio, esperava-se, com ansiedade, uma outra hora, a hora a que a Selecção Portuguesa de Futebol entrasse em campo, na capital francesa, para discutir com a equipa de França o jogo que iria atribuir o título de campeão da Europa. Ao fundo do salão estava montado o ecrã e, desde logo, os mais entusiastas tomavam posição para assistir à contenda. Havia um entusiasmo transbordante, de novos e velhos, homens e mulheres, muitos dos quais nunca se tinham interessado por futebol! Mas hoje, era diferente, estava em causa o titulo de campeão da Europa, o prestigio de um país que tinha sido vilipendiado ao longo da competição e tratado, com desdém, por uma imprensa xenófoba e retrógrada que nos considerava um povo menor que nem direito teria a participar numa competição desta envergadura, destinada aos eleitos, aos povos de elite, aos que aspiravam a ser os senhores do mundo.

Os jovens eram os mais entusiastas e barulhentos e o seu entusiasmo contagiava os mais velhos que participavam na festa. As senhoras emitiam opinião sobre a elegância e beleza dos nossos jogadores, enquanto os homens se debruçavam mais sobre aspectos técnicos e táticos, congeminando estratégias para ultrapassar a arrogância dos gálios que haviam de se ver gregos perante os humildes galos. Começada a contenda, logo os gálios encristaram a crista e tentaram atarantar os humildes galos, a bem ou a mal, com a conivência do juiz da partida que devia sofrer de miopia congénita ou de daltonismo, pois só via as faltas das cores mais claras e ficava, impávido e sereno, ante as entradas brutais dos gálios. E assim, passados poucos minutos do início da partida, Cristiano Ronaldo, em quem se depositavam as maiores esperanças, foi mandado para o balneário, atingido pela "meiguice" consentida pelo árbitro que continuava, impávido e sereno, à boa maneira britânica, esquecendo a velha aliança, porque, possivelmente, outros valores mais altos se alevantavam... Rejubilou o público afecto aos franceses, porque, pensaram, sem Cristiano Ronaldo, os pobres galos, atarantados sem o capitão que os galvanizava, seriam presa fácil para a sua soberba selecção que já havia, sabe Deus como, eliminado a arrogância germânica. Mas, como dizia Camões," Cale-se de Alexandre e de Trajano, a fama das vitórias que obtiveram, que outros valores mais altos se alevantam..." e foram esses valores mais altos, essa força interior que foram buscar ao mais intimo do seu âmago, a revolta contra a ignomínia que se tornava visível a cada instante, foram esses valores, repito, que tornaram gigantes vos pequenos galos evos catapultaram para uma vitória indiscutível e insofismável.

Foi triste a falta de fair-play manifestado por grande parte dos franceses perante a derrota das suas cores. Mas dos fracos não reza a história e temos de ser magnânimos, como aquela criança que aparece num vídeo no facebook, a consolar um adepto francês que, compreensivelmente, chorava a derrota da sua equipa. Um grande exemplo, dado por uma criança, descendente de portugueses, e que apoiava a equipa da pátria de seus pais.
E para que o mundo olhe para Portugal com outros olhos, também noutras modalidades desportivas mostramos o valor dos nossos atletas e na ciência, os nossos jovens foram brilhantemente premiados como os melhores.

Quando uma campanha orquestrada por quem não conhece a nossa cultura e o nosso povo, nos cataloga como um povo de mandriões que gosta de viver à custa dos outros, fruindo graciosamente aquilo que a natureza nos deu, o sol, o mar, a beleza impar desta terra bendita, esquecendo o muito que já demos ao mundo, é urgente que nos ergamos, que mostremos quem somos, o que podemos fazer, o que queremos, o caminho que queremos trilhar, os objectivos que queremos alcançar. Temos de mostrar a esta Europa sem alma, dominada pelo poder financeiro, pela ganância, pelo desprezo pelos que sofrem, pela ambição desmedida, que não somos os PIGS que querem submeter e escravizar, que sabemos ser grandes quando nos espicaçam o orgulho, que não vergamos a cerviz aos poderosos e que, em Portugal, mesmo depois de mortos, são precisos quatro para tirar um homem de casa. Que este exemplo do campeonato europeu de futebol, nos leve a refletir e a entender a dimensão do nosso valor e a perceber que quando queremos, podemos. Não podemos é tolerar Migueis de Vasconcelos, nem Judas que nos vendam por trinta dinheiros. E, infelizmente, há quem nos venda por menos. 

Porto, 13-07-2016

CORAÇÃO


Busquei nas águas do mar,
novas do meu coração
que anda perdido no mundo...
Respondeu-me o vento errante
que não sabia do dito
e aconselhou minha alma
a procurar nas estrelas,
que havia lá corações
presos na luz que irradia
um sol chamado ilusões...


Procurei na Via Láctea
e em outras formações,
encontrei as ilusões
dançando a valsa do adeus,
mas dos corações apresados
nenhum deles era o meu,
o meu andava perdido
e ninguém me dava novas..

Fui procurar nas saudades
que um dia também tivera,
busquei em todos os tempos,
no de hoje e noutra era,
rebusquei no pensamento,
vi meus poemas antigos
onde talvez estivesse
e nada me dava novas
do meu pobre coração...

Subi aquela ermidinha
onde em criança rezara
e lá estava ele rezando
como quando era criança,
rodeado dos amores
que já não tinham esperança,
aqueles que não quisera
e outros que o regeitaram,
unidos numa oração
para que fosse feliz....
Uns lhe chamam docemente,
com ternura, meu Luis,
e nenhum quer o seu mal...
Uns vivem já no passado,
outros buscam o futuro,
entre eles há um muro
que nenhum pode passar...
Sofre quem ama e quem não,
e o meu pobre coração
para encontrar o amor
tem de ultrapassar muita dor...

Luis Machado
05-07-2016

SE O FUTURO FOSSE HOJE

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

1 – Quando as águas de um rio passam sob a ponte, jamais voltarão ao ponto de partida. Seguem seu caminho, à procura do mar, sem nunca parar, levando mundos de ilusões, sonhos desfeitos, vidas por viver, tristezas, ambições, amores que foram, paixões sonhadas e não concretizadas… E os nossos olhos, vêem-nas correr e correm também atrás delas, abraçam-se na amplidão do mar, diluem-se no infinito e desaparecem tragadas pelo nada onde se quedam…
Regressado a Bragança após umas curtas férias em Oeiras vejo-me a braços com uma arreliadora constipação que me prostra e me inibe, consequência dos medicamentos que tenho de tomar. Lembro-me do mar e do rio que nele desagua, dos horizontes longínquos que albergaram meus sonhos, do retorno do meu barco de papel ao porto donde partira, do brilho das estrelas que deram luz à minha vida. E a ponte que eu olhava além, via passar as águas que jamais regressariam e seguiam a caminho do mar, esse mar onde moram as ilusões que o tempo desfez e se ouvem no pio triste das gaivotas. Cessou o canto sedutor das sereias, ouço apenas o marulhar das águas e o bater inclemente das ondas. São longas as praias onde passeio meus passos já cansados. Busco um outro alento que dê força à minha alma, busco-o com afinco, com a vontade de que meu barco encontre outras estrelas que do céu me caiam, que me leve a outras montanhas onde descanse e mitigue a minha sede de infinito. Quero encontrar a vida que me foge, construir um outro amanhã, pacificar um coração que se habituou a sofrer na imensa solidão que o tomou, encontrar uns olhos que saibam ler na minha alma a melancolia que nela se instalou e que eu quero banir para todo o sempre. Preciso de olhar o céu e ver o brilho intenso das estrelas, fulgurante, sereno, suave…
Perco-me em recordações e esqueço-me do hoje. Quando nestas noites cálidas de verão, me sento no sofá e procuro concentrar-me no presente, o meu pensamento perde-se e vagueia pelo tempo à procura de certezas que eliminem meus medos e me apontem caminhos que quero trilhar.
É difícil ser feliz! Construímos a vida pressupondo que baste querermos para alcançarmos aquilo por que lutamos e esquecemo-nos que nem todas as forças convergem para esse objetivo e se umas nos atraem para o centro dos nossos sonhos, outras nos afastam e nos lançam na maior das desilusões. E, por mais que lutemos, por mais que procuremos, por mais que nos esforcemos para encontrar a felicidade que almejamos, há sempre escolhos no caminho, há sempre dúvidas, incertezas, incompreensões, desamores que nos angustiam e nos ferem. E quando as pequenas feridas que vamos acumulando no decorrer da vida, se juntam e nos magoam, às vezes, quase sempre, os sonhos desabam com fragor e é grande a desilusão nas nossas vidas.
Tudo tem o seu tempo… E até a amargura se recicla… No meio do deserto, surge, por vezes, um oásis onde saciar a sede e descansar os nossos corações. Abrimo-nos à vida, mergulhamos nesse lago de esperança que o oásis nos oferece e procuramos acreditar que ainda é possível sobreviver à tristeza. Erguemo-nos e caminhamos na senda de novos sonhos, esperando que não sejam novas ilusões. A vida continua, o tempo passa, sob a ponte as águas do rio correm para o mar, imparáveis, apressadas, à procura do sal que tempere a sua ânsia de chegar além, ao horizonte, onde, novamente, os barquinhos de papel procuram as estrelas. E outra vez sonhamos… Se o futuro fosse hoje…

2 – Morreu Camilo de Oliveira, um Senhor na arte cénica portuguesa das últimas décadas, um colosso do humor, uma personagem inesquecível para quem acompanhou a sua carreira de tantos anos. Os Grandes também morrem, mas ficam sempre entre nós pela sua obra que servirá de exemplo aos que vêm a seguir. Estaremos sempre com Camilo porque ele soube conquistar os nossos corações e jamais sairá da nossa lembrança. Camilo será mais um dos que “ por obras valerosas se vão da lei da morte libertando “.

Bragança, 4/7/2016

sábado, 2 de julho de 2016

REFLEXÕES DE UMA TARDE DE VERÃO

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Hoje vou escrever uma crónica um pouco diferente e em vez de tratar e desenvolverum tema ou contar uma história, vou deixar deambular a mente, livremente , por ai , esquentada por este calor estival que nos convida às sombras e às bebidas frescas.
Uma das coisas que me ocorreu tratar, foi a beleza,não a beleza dos campos e jardins ,matizados das mais lindas flores ou do verde suave dos prados, do sussurrar sereno das águas dos rios e riachos , do trinado das aves canoras , do azul esplendoroso dos céus... Não, apetece-me falar da beleza feminina , rivalizando com a beleza da natureza , em harmonia e cor , na suavidade dos movimentos , quiçá na ternura da voz... 
Espectador insuspeito , sento-me numa qualquer esplanada e aprecio o movimento dos corpos , quase desnudos , de muitas beldades , realçando as formas , aprimorando os rostos , abrilhantando o olhar , estudando os gestos , calculando os passos... 
E dá gosto olhar e sonhar belezas ocultas que se adivinham , a juntas às que os nossos olhos vêem... 
E ali ficamos absortos no pensamento e na lembrança de outros tempos em que os nossos olhos brilhavam e os nossos corpos tremiam à passagem de uma mulher bonita que nos excitava os sentidos... Hoje, tudo é diferente... A quantidade e a qualidade aumentaram exponencialmente, a beleza feminina ,natural ou fabricada , é uma constante e a excitação que provocam nos jovens não tem paralelo com a que provocavam no " antigamente ", quando uma saia ou um vestido mais curtos nos levavam aos céus... 
Os jovens de hoje são uns felizardos , vivem no seio da beleza e nem se apercebem dela , tudo é natural ,tudo a natureza lhes oferece ...e há flores tão lindas...
Fico ali sentado , os olhos espraiando , os sonhos voando no tempo , pomba branca que já foi falcão , sonhando horizontes onde eles não vão... Fico ali sentado e,antes que o tempo passe e me tire o olhar, olho , discretamente , a beleza que passa e escrevo , na mente , poemas de amor que ninguém lerá... Depois, depois, vou dormir a sesta e descansar da excitação , a que não é alheio o tempo , arrumar os sonhos , descer ao real.. 
A sesta é quase uma instituição nacional. E sabe tão bem... Sento-me no sofá , manuseio o jornal , fecho o facebook e...durmo um pouco , não muito ... Às vezes dá-me para sonhar , coisas sem nexo , outras que gostaria fossem reais , outras ainda relacionadas com a vida e seus problemas.... 
Hoje na TV falava-se do ORPHEU e dos 100 anos da sua publicação. O entrevistado fez uma boa apresentação da assunto e mostrou a obra , os números publicados ( 2 ) e um terceiro que estaria pronto para publicação, mas que não o chegou a ser. Falou dos mentores do movimento : F. Pessoa , Mário Sá Carneiro e Almada Negreiros , das reações que provocou na época , do vanguardismo que inspirou toda a literatura portuguesa subsequente. Loucura criativa própria dos génios...
Na ordem do dia , está o problema da Grécia. Fala-se muito , diz-se pouco , esgrimam-se verdades e inverdades , omite-se , acrescenta-se , sofre-se e faz-se sofrer. Há os que sabem tudo e os que não sabem nada, os que emitem opiniões criticas fundamentadas e os que deturpam e insultam , como é apanágio dos ignorantes. 
Na Mitologia da Grécia Antiga havia alguns milhares de Deuses e Semi - Deuses. Depois de uma letargia de milénios, pode ser que acordem e intervenham a tempo de resolver a contenda...Bom seria... Deus sempre ajudou os necessitados, mas , às vezes , parece estar distraído. 
Por cá, não precisamos da intervenção dos Deuses. Não vivemos em pecado e temos pensadores experimentados e infalíveis que não têm quaisquer dúvidas. Sabemos que o Reino de Deus será dos pobres e , portanto , estamos descansados. Os ricos não precisam do céu e não farão concorrência à plebe. Só esperamos que não chova na festa... 
Quanto ao Olimpo, bem , esperemos que os milhares de Deuses se entendam e não arranjem algum empate técnico que transfira para os simples heróis a resolução do caso... Ou que CRONOS se irrite e arrase tudo com alguma tempestade.... 
Mas é tempo de férias e o mar está calmo... 
Proliferam as festas e romarias , por todo o lado há gigantones e cabeçudos , para lá do Minho onde se dança o vira.

REFLEXÕES DE UMA TARDE DE VERÃO

Crónicas do meu viver  // Por Luís Machado

Hoje é o primeiro dia de verão. O dia acordou sereno e o azul dos céus confunde-se com o azul das águas do mar que meus olhos miram, sentado na esplanada fresca onde me encontro. Ali se juntam as águas do rio que corre suavemente, com as águas do mar imenso que as recebe com amor e as junta a todas as outras águas que, apaixonadamente, caíram nos seus braços. Além vejo a ponte que se confunde com um desenho simples de criança, traços geométricos que parecem baloiçar ante meus olhos cansados e me fazem lembrar a passagem do sonho à realidade, anseios que se transportam, dia após dia, na procura de algo próximo da felicidade. Para muitos, a ponte é cada vez maior e do outro lado há apenas desilusões e tristezas. Os sonhos vão-se ficando no trajecto longo, trucidados pela realidade que lhes mostra sofrimento e dor e torna a felicidade uma miragem que vive no deserto sem fim das suas vidas. Volto à minha esplanada e contemplo as águas deste mar imenso. Liberto os meus sonhos lendo algumas páginas de Mia Couto. Miro-me nas águas serenas deste quase lago e vejo, nesse espelho, a minha alma intranquila, buscando, no horizonte, outros caminhos que me levem ao Éden que procuro. Há névoas que o ocultam, já vai alto o sol e apenas alguns barquinhos desenham piruetas nas águas, rumo ao seu destino. À minha volta há gente que passa, que fala alto e diz coisas que eu não ouço, porque eu estou só, pensando em todos, mas não sentindo ninguém. Às vezes, o meu pensamento voa para bem longe, para outros mundos onde a paisagem e os costumes são diferentes.

E eu que tenho no meu coração hábitos bem arreigados, para me fazer compreender, tenho, por vezes, de dizer o que não penso e de pensar o que não digo, buscando o equilíbrio. E há sonhos que me empolgam, desejos que persigo, anseios que espero, um dia, se tornem realidade E as águas vão correndo por baixo daquela ponte, olhando, com ansiedade, o mar, ao longe, aguardando o momento daquele abraço eterno, em que as vontades se fundem e a sua doçura acre absorva o gosto profundo do sal. Gostaria de viver esse momento, sentir o pulsar de um coração que desse vida ao meu, que adoçasse o sabor amargo das minhas lágrimas que não consigo evitar quando os meus olhos pensam. Talvez o meu futuro esteja no mar, esse mar em que as ondas rebentam em espuma rendilhada, na penedia da minha alma.

O sol vai subindo e está quase no seu apogeu. Aqui, no lugar em que me encontro, sopra uma brisa fresca, vinda do mar. Observo o semblante de quem passa ou de quem, ausente, me faz companhia. Há corpos esbeltos, cirandando, mostrando seus encantos, curvas bem delineadas, ondulando ao ritmo da brisa. As pupilas dos meus olhos alargam-se para melhor os ver e sinto-me Rembrant, pintando o belo. O azul forte das águas, parece alargar-se até ao infinito. Sinto a maresia e a maré baixa deixa a descoberto a penedia, onde miúdos e graúdos se entretém a apanhar mariscos. Um barco a motor, aqui bem perto, sulca as águas, deixando um rastro branco que se vai sumindo lentamente. Olho e vejo o longe. Imagino mais do que vejo e sei que há vida na outra margem, escondida atrás do arvoredo que vislumbro. Talvez alguém esteja feliz, enquanto outros sofrem. A vida é feita de alegria e sofrimento. O meu coração está calmo, sinto o pulsar da vida e sigo o meu caminho que não sei onde vai terminar. A vida também é procura e felizes dos que encontram. De sonho em sonho, como quem sobe uma escadaria, vamos trepando até encontramos o Éden...

Por vezes, há escolhos no caminho e não conseguimos subir mais do que alguns degraus. Será que há inferno? Ontem fomos dar um passei até ao Cabo da Roca e no regresso, paramos na Boca do Inferno. Um exemplo típico do belo horrível, embalado por uma lenda que fala de amores contrariados. Alguém disse, em voz alta, que o inferno tinha uma boca bem grande, ao que eu retorqui que não era suficientemente grande para abocanhar toda a maldade humana. Mas ao olharmos aquela boca horrenda, vem-nos à lembrança a lenda do amor que ali teve origem e isso nos sossega , porque ainda há amor no mundo e os romances acontecem e vivem-se, tantas vezes, em silêncio e no âmago dos nossos corações. E não se dizem porque impossíveis à partida, transforma-mo-los em sonhos e guarda-mo-los no baú das recordações, na prateleira das coisas belas que nos sucederam na vida. E voltamos à realidade, onde também há sonhos à espera da luz diáfana que os traga à ribalta. Porque também há honra nos sonhos, nos nossos e nos que induzimos no coração dos outros...Sempre a luz brilhará quando juntarmos os sonhos e procurarmos o Éden... Lá vai o barquinho à vela, sulcando as águas desse mar profundo, ouvindo o piar das gaivotas e levando os meus sonhos. Levantou a névoa, o horizonte está mais límpido, não há nuvens no céu azul que se confunde com o azul do mar...

São horas de ir almoçar. Levanto os olhos do caderno onde escrevo e observo o caminhar das gentes... Há tanta gente linda por aqui, com muitos anos de beleza interior...Procuro penetrar os seus corações e perceber... Há tantos olhos que olham para mim sem me ver, como a mim custa entender o que se refugia por trás do silêncio em que se escondem... 

Oeiras, 23-06-2016

NAVEGUEI NO TEU OLHAR


Naveguei no teu olhar,
teus doces beijos bebi,
quantos mais beijos bebia,
mais sede tinha de ti...

Percorri as tuas curvas,
ondulei no peito teu,
havia abismos profundos
onde meu estro desceu...

Aspirei os teus odores,
as fragrâncias que exalavas,
há rios nos vales profundos
onde meu estro levavas...

Deixo meu estro descer
nos meandros desse rio,
desliso nas tuas margens
onde nunca sinto frio...

Quando o rio se faz mar,
deito a cabeça em teu peito
olho as estrelas do céu,
descansando no teu leito...

É doce o meu descansar,
sentindo o teu coração
bater certinho em meu peito,
arfando com a emoção...

Sinto em mim crescer a vida,
passa em mim uma certeza,
nem só nas curvas do corpo
mora essa tua beleza...

Podes ondular ao vento
nas curvas que Deus te deu,
só há um rio que me afoga,
o brilho do olhar teu...

15-06-2016

Luís Machado

TIVE SAUDADES DO MAR


Tive saudades do mar,
ondas lavando meus pés
cansados de procurar...

Areais quase sem fim
afagados pelo vento,
tantos grãos se ali juntaram
ao meu pobre pensamento...

Das ideias que nasceram
na praia do esquecimento,
construi sonhos dourados,
fiz castelos de ilusões,
mandei-os num barco à vela
à procurado futuro,
navegando sobre as ondas
das tristezas que encontrou,
mundo vestido de escuro
onde Cristo não passou!

Espelho onde me mirei,
águas desse mar profundo,
vi minhas mágoas chorar
as mágoas desse outro mundo
onde não quero chegar...

E as ondas, devagarinho,
deixam passar meu barquinho,
levando os sonhos dourados
e os castelos de ilusões
para um outro mundo distante,
onde talvez haja um sol
que derreta o sofrimento...

E o mar da minha saudade
levará meu pensamento
para esse outro mundo sem dor
onde haja paz e amor...

15-06-2016

Luis Machado

O AMOR E O MUNDO

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Estava eu a pensar na escolha de um tema para escrever a minha crónica semanal, quando, folheando um caderno, deparei com o seguinte pensamento que escrevera numa das suas paginas : " Na dúvida entre dois amores, é sábio descartar os dois, pois se fosse amor não haveria dúvidas...". Não sei quem é o autor do pensamento, mas parece-me interessante refletir um pouco sobre ele, já que o tema do amor é um assunto inesgotável que a todos interessa e fascina. É óbvio que o pensamento se refere ao amor entre duas pessoas, porque em se tratando de outros amores, não faria sentido tal conclusão. Podemos amar, simultaneamente, a pintura, a literatura, o ballet, o teatro, o cinema, o desporto, e não há qualquer incompatibilidade entre esses amores diversos. Mas tratando-se de amor entre duas pessoas, o problema é mais complexo e daí a conclusão do pensamento referido.


E será mesmo assim? Em todas as circunstâncias? Será que um homem não pode amar duas mulheres, em simultâneo, ou uma mulher amar dois homens? Não haverá, pelo menos, um momento em que o coração se reparte entre um amor que se vive e outro que se adivinha? Não haverá um momento em que o sentimento e a razão se confundem e, perplexos será difícil a escolha? E não é legitima a dúvida que se instala, a um coração que tem de decidir qual o caminho a seguir? Será que a solução é descartar os dois?

E aqui se põe o problema do amor verdadeiro. O amor verdadeiro tem de estar preparado para resistir a tudo. Ele acontece quando dois seres humanos se amam e sabem resistir, em todas as circunstâncias, aos problemas que possam surgir, nada os abala, ultrapassam as dificuldades, unem-se nos momentos difíceis e cantam hossanas nos momentos de alegria. Será que existe o amor verdadeiro? A promiscuidade que existe na sociedade actual, com traições, desprezos, humilhações, mentiras, faz com que muitas pessoas não acreditem no amor verdadeiro que é confundido com paixão. Esta preocupa-se com as pequenas coisas, o prazer momentâneo, impetuoso, fútil, ao contrário do amor que vive de sentimentos profundos que perduram no tempo, mas que não é, necessariamente, eterno. Quando uma das partes quebra o compromisso assumido, trai, quebra-se a confiança e o amor soçobra, tantas vezes, com uma tristeza que avassala a alma. O amor verdadeiro implica, antes do mais, que cada uma das pessoas que ama, se ame a si própria, saiba ser integra consigo própria, cuide a beleza interior e exterior como um todo. Quem não se ama a si próprio, não pode amar os outros, quem não respeita os seus próprios valores, não pode respeitar o seu parceiro e os valores que assume. Daí que o amor verdadeiro implica trabalho, determinação, sacrifício, abnegação, um cuidado permanente com o outro, um saber assumir prioridades e cuidados. Não se limita às palavras românticas trocadas nos momentos de êxtase, nem aos momentos eróticos que sempre acontecem. Vai muito para além disso. Cada ser humano constrói o tipo de amor verdadeiro que o faz feliz e não há um tipo de amor padronizado, que a todos satisfaça. Cada um constrói o seu próprio amor, conforme a sua personalidade e o seu grau de exigência e vontade. Amor verdadeiro será, numa linguagem poética, " aquele que o vento não leva e a distância não separa". Mas há tantos que o vento leva e não resistem à separação que a distância impõe.." Longe da vista, longe do coração", assim diz o adágio popular. Só um amor verdadeiro, real, forte, determinado, alicerçado em valores e sentimentos muito profundos, resistirá aos ventos que o assolam e à distância que o enfraquece.

Num mundo em mutação acelerada, em que os valores se esvaem e campeia o egoísmo, em que se privilegia o supérfluo e o acessório e se esquece o essencial, em que as palavras adquirem um significado diferente conforme as circunstancias, em que a palavra amor se banaliza e se emprega sem o significado profundo que deveria ter, falar de amor verdadeiro é falar de algo complexo que talvez não exista, que talvez seja uma utopia, que talvez seja a ligo a que aspiramos, mas que a vida actual, promiscua, egoísta, dificilmente permite. E como os seres superiores, aqueles que mudaram o mundo e nos impuseram as suas ideias, aqueles que se vão da lei da morte libertando, também têm coração e amam, aqui lhes deixo um pensamento sublime de Albert Einstein: " Se um dia tiver de escolher entre o mundo e o amor, lembre-se: se escolher o mundo ficará caem amor, mas se escolher o amor, você com ele, conquistará o mundo ".

Lembrem-se mesmo, às vezes, pequenas decisões mal tomadas, levam às grandes rupturas...

Bragança,12-06-2016

TRISTEZA

Às vezes, apetece-me fugir,
sumir-me na vida,
não ser nada,
banir do coraçao
todos os anseios,
expulsar os sonhos
que em meu peito vivem...

Sinto vontade de procurar
na ternura das nuvens,
na imensidão dos céus,
lugar para a minha alma
descansar desta ilusão
em que vive meu triste
coração, magoado,só,
desolado,inconformado,
que procura e não acha,
que não compreende o amor...

Sinto,por vezes, a ilusão
de ser feliz e canto,
na minh' alma, canções,
de enternecer o coração...

Querubins sorriem,nos meus céus,
as estrelas brilham
com outro fulgor,
sinto no meu peito
o coraçao bater de um outro geito,
acredito, sonho, caminho
por veredas cheirando a alfazema,
ouço as águas dos rios murmurar
os nomes lindos que eu digo
sem cessar
e o sol, raiando em seu esplendor,
aquece minh'alma
com amor...

Mas tudo é efémero,
existe um só instante,
tudo volta à tristeza,
esvazia minh'alma ,
apago meu estro triunfante,
volto aos invios caminhos
que me levam à dor...
Depois...há sempre um antes e um depois,
tudo recomeça, tudo se repete...
Porque me fazes isso AMOR?

02-06-2016

Luís Machado