sexta-feira, 29 de abril de 2016

Visão


Caminhavas na praça, lentamente,
transportando ao colo o teu menino louro...
Eras linda, loura,de olhos azuis,
teus cabelos d' oiro,reflectindo o sol...

Passaste e teus olhos cruzaram os meus
e o meu pensamento se elevou aos céus,
agradecendo a Deus a tua beleza,
tão suave e profunda como a natureza...

O menino que ao colo levavas,
era , como tu , mais belo que o luar...
Lembrou-me um menino, um Jesus
que de tenra idade me habituei a amar...

Teus passos eram leves, dançando no ar ,
como a brisa que passa,
deixando um perfume de inebriar
que penetrou minh' alma e me fez sonhar...

Volátil, sumiste no tempo e do meu olhar,
com o teu menino , no peito colado,
e fiquei a pensar,se eras real ou tinha sonhado,
ou eras Maria com seu Cristo amado...

Eras linda e loira, de olhos azuis,
teus olhos brilhavam no azul dos céus,
rezei por ti uma breve oração,
cresceu no meu peito, em meu coração,

a certeza terna de tu seres Maria,
com este menino que ao teu colo ia,
trazendo paz a um mundo doente
e beleza e luz, doce, docemente...

Luis Machado

O 25 DE ABRIL E OUTROS SONHOS

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

1 - Após um interregno de algumas semanas em que não escrevi a crónica, por solidariedade para com o nosso diretor, incapacitado por uma arreliadora doença que, entretanto, debelou, eis-me de regresso ao agradável convívio daqueles que me honram com a sua leitura. Quando os amigos não estão bem, sentimos que as palavras e as ideias nos fogem e a inspiração nos falta. É nestes momentos que melhor entendemos o valor da amizade e vem ao de cima o nosso dever de solidariedade.
Hoje é o Dia Mundial do Amor e, em Portugal, comemoramos mais um aniversário do 25 de Abril. Que melhor dia para juntar amor e liberdade, solidariedade com afeto, igualdade com respeito por nós próprios e pelos outros? O 25 de Abril, mais que uma revolução, foi uma pedrada no charco da anestesiada sociedade portuguesa. Vivia-se um ambiente de passividade e tudo deixar correr e fazer, sem liberdade de expressão, num paternalismo que vinha de longe e que deixava às elites dirigentes a incumbência de tudo resolver. A guerra do ultramar deixava sequelas graves no tecido social, com centenas de milhares de jovens atirados para um cenário de guerra, na defesa de interesses que lhes vendiam como sendo os da Pátria. O esforço de guerra influenciava gravemente o desenvolvimento do país que se mantinha essencialmente rural e empregava a maioria da população na agricultura, com um poder de compra muito limitado, precárias condições de habitação, vias de acesso obsoletas, imensas dificuldades na educação e saúde. O 25 de Abril surgiu porque sempre há quem sonhe e aos valentes capitães que prepararam o golpe, juntou-se, espontaneamente, grande parte da população que sonhava com um Portugal melhor e mais desenvolvido, onde houvesse, como cantava Sérgio Godinho, saúde, pão e habitação para todos. Foi lindo o 25 de Abril, como foram lindos os dias e os tempos que se seguiram. Do torpor em que se vivia, passou-se à euforia, apareceram as canções de Abril, o povo cantava nas ruas, por todo o lado se criava e vivia um outro tempo. Os políticos foram aparecendo, de todos os quadrantes, tomando posição no assalto ao poder, quer os que se evidenciaram na luta contra o regime anterior, quer os que com ele colaboraram ou pactuaram e que, depressa, como convinha, vestiram o seu fato de democratas e cantaram também... 
Passaram 42 anos! Muito se fez e mais ficou por fazer. Houve avanços e recuos. Portugal transformou-se e sonhou com a Europa que lhe prometia liberdade, igualdade e fraternidade! Cometeram-se erros, desonestidades, corrupção, mas também se realizaram coisas importantes para o desenvolvimento do pais, sendo a joia da coroa , o Serviço Nacional de Saúde, levando a todos a possibilidade de tratarem os seus males...
A vida é como um escadório em que cada degrau é um dia da nossa existência. Degrau a degrau, vamos subindo até atingirmos o cimo. Pelo caminho, vamos doseando o esforço, descansando nos patamares, respirando fundo , observando o caminho percorrido , calculando o que falta percorrer , pensando, sonhando... E de sonho em sonho, " sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança", como dizia António Gedeão... O 25 de abril foi o sonho de várias gerações... Sonho frustrado? Sonho adiado ? O mundo pula e avança e, degrau a degrau, havemos de chegar ao cimo da escadaria, se todos dermos as mãos.... Hoje, foi um bom principio...


2- Num dos meus poemas, eu digo que passo a vida a pensar e também a sonhar com um mundo melhor e mais fraterno. E, às vezes, há pequenas coisas que nos enlevam e nos dão a certeza que ainda é possível... As palavras e os atos do Papa Francisco são disso um belo exemplo e fazem mais pela mudança do que todos os discursos hipócritas que vamos escutando... Um dia, o meu neto mais novo, disse-me: Avô, tu ainda não és velho, ainda não usas bengala "...Emocionei-me um pouco, dei-lhe um beijo e um sorriso e fiquei a pensar no assunto. Será que não sou já velho e fabrico ilusões nos sonhos que ainda tenho ? Ser velho é um estado de alma!. Se o corpo não responde, a mente corrige e suaviza os estragos do tempo. Não consigo deixar de pensar, logo, no dizer do filósofo, existo e se existo sonho , recordo , repito , crio, faço, iludo-me ,engano-me, corrijo , subo e Desço as escadas da vida, paro nos patamares, reflito e sigo... E é este querer, esta vontade de ser, de superar etapas e sonhar futuros, que me permite não usar bengala, nem me considerar velho. Desisti da idade, escrevi algures, a idade está no meu pensamento e, ora, acrescento, e no meu coração, cujos olhos percorrem os céus à procura de estrelas que iluminem a Minh ‘alma. Vejo-as e escuto, no silêncio da noite, as mensagens que dali me vêm, umas vezes tristes, outras mais de esperança. Sinto que a felicidade não tem tempo e que a vida tem de ser vivida com vontade e fé de que chegaremos ao fim da caminhada com brilho no olhar e amor no coração...

HÁ MELROS NO MEU JARDIM


Passeava um melro em meu jardim,
petiscando na relva os seus sabores...
Saltitava feliz, entre as flores
onde havia cravos, rosas e jasmim...

Era lindo o melro, seu bico amarelo
lembrava searas, ondulando ao vento,
e valsas que eu dançara num outro momento,
num amor precoce , mas , ainda assim , belo!

E havia no meu pensamento
um outro melro negro, madrugador , jovial,
cumprimentando o cura ao descer ao quintal,
lembrando-me tempos em que eu tinha alento !

Depois , noutras primaveras,
lembro-me de estrelas caídas dos céus,
enchendo de luz estes olhos meus,
tempo de sonhos, ilusões, quimeras...

A luz das estrelas se apagou um dia,
e vieram invernos, rigorosos, frios
e o meu coração que procurava estios,
encontrou solidão, ficou só , sofria...

Mas o tempo que ameniza a dor,
aqueceu a minh'alma com um sol radioso
que surgiu nos céus, brilhante, esplendoroso,
doce, sereno, cheio de luz e cor...

Chegou a primavera, com melros no jardim,
e os caminhos que eu trilhava
me mostraram oceanos que , de longe , mirava
e paisagens diferentes na lonjura sem fim...

Cantava o meu melro de bico amarelo,
na copa das árvores lá do meu jardim,
havia flores, rosas , amores, cheirava a jasmim,
a vida era verde, o tempo era rosa , o mundo era belo...

Havia gaivotas, voando nos mares,
levando meus sonhos para os horizontes
que eu sonhava aqui, no alto dos montes,
traziam esperanças, voando aos pares...

E o meu melro canta uma canção de amor,
trinados tão belos que fazem sonhar,
saudades que evoca que fazem chorar,
saudades que sinto que me trazem dor...

E ao vê-lo cantar assim , docemente,
ouvindo seus trinos que fazem vibrar,
o meu coração carente de amar,
grava na minh'alma a canção dolente...

Vai-se pondo o sol no meu horizonte,
meus passos são leves, já não tenho chão ,
mas há ainda esperança no meu coração
que o mar se levante e chegue ao meu monte...

Luis Machado

QUADRAS SOLTAS


Não sei o que têm teus olhos,
oh,como gostava de os ter
junto a mim, na hora certa
do dia em que irei morrer...

Não sei o que têm teus olhos,
só sei que o meu coração
anseia contigo ir
para o futuro, mão na mão...

O meu Café é de Ouro
e tem a Chave dos ceus,
vou viver a vida toda,
sonhando esses olhos teus

Desisti da minha idade,
o tempo está em meu pensamento,
vou viver a vida toda
como se fora um momento

Luís Machado

AMBIÇÃO


Quisera ser Luz
que não cometa
fulgurante e inútil...

Quisera ser a Voz
que não palavra
arrebatadora e fútil...

Quisera ser o Sonho
que não o pensamento
austero e frio...

Quisera ser o Amor
que não desejo
roído pelo cio...

Quisera ser Deus,
pobre de mim,
feito de terra , assim...

Luis Machado

ÊXTASE


Dos teus olhos lindos
eu bebo a esperança
de um dia seres luz
a iluminar minh' alma!

Sonho-te na alvorada
quando meus olhos abro
e a beleza que vejo
desperta o desejo
de voar para ti,
ir buscar-te à vida,
trazer-te em meu peito,
escrever contigo
quimeras de esperança,
amar-te em meus braços
dum geito só nosso,
subindo aos céus
no sabor tão doce
desses lábios teus...

Ondulas ao vento
nas curvas suaves
do teu corpo belo
e ao ver-te passar,
o vento segreda,baixinho,
no silêncio terno
do meu pensamento,
as palavras doces
que eu queria ouvir
da tua boca meiga
naquele momento...

É belo o luar
que do céu me chega,
queria ir contigo
procurar estrelas
nesse mar celeste
onde a dor esquece...
Queria ir contigo,
voando no vento,
ao encontro do sol
que meu peito aquece
e em meus olhos brilha
e os teus ilumina...

Dos teus olhos lindos
eu bebo a esperança
de um dia seres luz
a iluminar minh' alma...

Luis Machado

domingo, 10 de abril de 2016

SONHOS E QUIMERAS


Às vezes, quando a amargura
baila nos meus olhos,
apetece-me dormir o sono eterno
e acordar num outro mundo
mais humano...

Teço na minha alma
devaneios e doces ilusões,
sonho céus encantados
onde tudo é harmonia e paz,
vejo em tudo primaveras
onde as flores exalam
inebriantes perfumes sedutores...

Da miséria e da fome, esqueço
a fatalidade ingenita
e sonho igualdades
que jamais serão...
Do mal, da perversão,
desse viver corrupto
que avassala as mentes,
sonho arcanjos de espada em riste,
desafiando o tempo,
levando a justiça
a este mundo triste...

Sonho um mundo de amor
onde não falte o pão,
onde cada ser seja de outro ser
um ser irmão,
onde a amizade impere,
banindo a ambição,
onde haja abraços e não ódio,
com rosas vermelhas
em cada coração...

Mas a vida destrói
em cada instante,
os sonhos que sonhamos
e de quimera em quimera,
as ilusões se vão,
há apenas céus sem luz,
pintando de cinzento feio,
a nossa solidão...

Quisera , uma outra vez, sonhar
primaveras de luz e cor,
semeadas de estrelas e flores,
um mundo onde o amor
irradiado dos nossos corações,
fosse a alavanca, o raio
que mudassem o mundo,
banisse a amargura dos meus olhos...
me devolvesse a esperança
me encaminhasse os passos,
me ensinasse o caminho,
me iluminasse a mente,
e meu estro aquecesse docemente...

Luis Machado

HÁ UM OUTRO CAMINHO QUE VAMOS TRILHAR


Procuro-te na névoa
que há-de vir do tempo
e que em pensamento
eu espero encontrar...

Vens pela primavera,
coração florido,
cheirando a alfazema,
na brisa da noite ,
brilhando ao luar,
com olhos de luz
que fazem sonhar...

Na candura da alma,
virás terna e calma
e os beijos tão doces
que trazes para mim,
lembram o alecrim
que te trago aos molhos
e adoçam teus olhos...

Trarás o abraço
que eu tanto anseio,
porei uma rosa
junto do teu seio,
junto ao coração
e a minha mão
pegará na tua,
pedindo ao luar
que nos leve à lua...

E o melro negro
que além assobia,
cantará para nós
uma aleluia,
nasce um outro tempo,
há no céu mais luz,
há um outro caminho
que vamos trilhar
nesta primavera
que convida a amar...

Luis Machado

PRIMAVERA


Sinto na alma a primavera em flor
dando à natureza uma outra cor...
Da penumbra dos tempos em que vivo
renasce em mim a esperança
de encontrar outros caminhos
e a luz que o sol projeta nos meus dias,
guia meus passos, já cansados
de procurar, lá longe, no horizonte,
o oásis que sonho, dia-a-dia...

Já subi montanhas, atravessei desertos,
naveguei em mares encapelados,
andei perdido na lonjura do tempo,
caminhei e desisti muitas vezes,
na busca permanente da felicidade
que eu persegui sem parar um instante...

Sempre havia primaveras
e sempre o roseiral tinha rosas vermelhas
que animavam minh' alma...
E até os melros, bicando no relvado,
me faziam lembrar lutos do passado
e, ao mesmo tempo, mostravam
a esperança, no verde renovado...

Cheiravam a beijos, as copas do arvoredo,
alguns que ali dei e outros que sonhei
nos trinados do rouxinol cantor
que lembram velhas canções de amor...

Primaveras que foram e só voltam em sonhos,
já sem o céu azul d' outrora
e as estrelas distantes brilhando nos meus olhos....

Primaveras que cantam aleluias
nas flores amarelas que ornam meu jardim
e esperam tulipas e rosas vermelhas
que o Abril trará, em sinfonia de cor...

Primaveras que suspiram meus ais ,
quando, saudoso, te procuro , amor
e, triste, meus olhos te olham
nesse abstrato espaço feito só de sonhos...

Primaveras que o coração aquecem
quando , no vento que passa,
me chegam novas do que hei sonhado...

Primaveras que te mando em palavras,.
no silêncio do tempo e da distância,
que meu ser consomem...

E quando, nesta primavera em flor,
os céus se enchem do gorgeio das aves,
canta a minh' alma também,
num frémito de amor pela vida
e os caminhos que percorro são suaves
e o horizonte está perto dos meus olhos...

Luis Machado

VIDAS


Às vezes , logo pela manhã,
quando a madrugada
se recolhe, célere
e dá lugar à aurora,
dou comigo a pensar,
nesta tristeza instante
que não vai embora,
na incerteza da vida,
na nossa pequenez,
perdidos na imensidão
deste enorme cosmos
onde todos os sonhos
são mera ilusão ...

Um a um, perpassam
ante meus olhos tristes,
os sonhos que sonhei
e que o tempo levou,
ilusões, quimeras,
vontades, quereres
que a vida vergou
e que, nesta tristeza,
meu estro apagou...

Porque se eu sonho
uma simples ventura,
a candura de um amor real,
a ilusão de ter
alguém que ne abrace,
um beijo terno e doce
que minh'alma aqueça,
logo o vento passa
e desfaz meu sonho
e um fogo que abrasa
queima as ilusões
que minh' alma alentam...

E, mais uma vez, busco
e procuro, com a ternura
do meu coração,
no perpassar da vida ,
um suave caminho
que leve meus passos
a outro horizonte...

E nas águas revoltas
desse mar profundo,
navega meu barco,
percorrendo o mundo,
à procura de alguém...

Será que virá?
Peço ao vento que passa
que salve o meu barco,,
não o meta ao fundo...

Luis Machado 

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado


1 – E aqueles que por obras valerosas, se vão da Lei da morte libertando – morreu o Nico!

2 – Amor, paixão e ausência.

1 – A 30 de Julho de 1940, nascia em Serpa, Alentejo, aquele que viria a ser um dos mais talentosos atores e realizadores portugueses, repartindo o seu génio pelo teatro, cinema e televisão. A morte abraçou-o em 14 de março de 2016 e a frase com que a RTP noticiou a sua morte, diz muito do que foi a vida artística deste grande vulto das artes cénicas das ultimas décadas: “ um pilar da ficção televisiva portuguesa. “ Mas Nico, não foi só isso! O seu génio artístico multifacetado, levou-o a ser grande no teatro, no cinema e na televisão, como ator, realizador e produtor, sempre um nível muito elevado, tornando-o um dos personagens mais atraentes do cenário artístico em Portugal. Um dos programas que mais sucesso teve na televisão foi o “ Eu show Nico”, em que, contracenando com Herman José, criou os personagens inesquecíveis do Sr. Feliz e do Sr. Contente (1980) que ainda hoje vivem no imaginário das gerações de então. Foi uma perda incalculável para a cultura portuguesa, difícil de colmatar, tal a versatilidade e a grandeza do seu génio. Nico irá juntar-se àquele grupo de portugueses que, no dizer de Camões “ (…) por obras valerosas, se vão da Lei da morte libertando”. 

2 – E, no entanto sendo um génio, não deixou de ser homem, um homem de muitas mulheres que amou algumas com paixão e nos remete para outros vultos da nossa História, remota ou recente, que também muito amaram e que a nossa literatura trata com carinho e emoção. E, mais uma vez lembro Luís de Camões no canto terceiro de Os lusíadas com o episódio doa amores de Pedro e Inês, que, ternamente canta “ Estavas linda Inês posta em sossego, de teus anos colhendo o doce fruto, naquele engano de alma ledo e cego, que a Fortuna não deixa durar muito, nos saudosos campos do Mondego, de teus fermosos olhos nunca enxuto, aos montes ensinando e às ervinhas, o nome que no peito escrito tinhas”. É sublime a maneira como Camões nos canta este amor profundo, contrariado e trágico que atravessou gerações e faz ainda o enlevo dos apaixonados. E, saltando no tempo, o amor trágico de Camilo Castelo Branco e Ana Plácido que rompeu preconceitos para cumprir o amor, Camilo autor de um dos mais belos e mais lidos romances de amor da nossa literatura, O Amor de Perdição, rivalizando em popularidade com o Romeu e Julieta, de William Shakespeare, cujo trama se desenrola na cidade italiana de Verona e narra a história de amor entre dois jovens de famílias reais, contrariado e trágico.

Ao longa da história das literaturas, quantos romances e poemas de amores contrariados, terminados em tragédias, povoando o imaginário dos leitores: Marco António e Cleópatra, Capitu e Bentinho, no Dom Casmurro de Machado de Assis, Scarlett O´Hara e Rhett Butler, em E tudo o Vento Levou de Margaret Mitchell, Dante e Beatriz, em a Divina Comédia de Dante Alighieri, Liesel e Rudy em A menina que roubava livros de Markus Zusak, Penélope e Ulisses, em A Odisseia, de Homero, Lancelot e Genevieve, em As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley, Tristão e Isolda de Hannah Closs e muitos outros que seria enfadonho enumerar.

E no dia-a-dia de cada um? Será que tudo é um mar de rosas? Que género de amor se vive hoje, nas Praças e Cafés, nas redes sociais onde virtual impera, nas escolas e nas grandes empresas onde a promiscuidade é grande e os afetos surgem, nos locais públicos onde os olhares se cruzam? O que é hoje o amor? Cada geração terá a sua resposta e desde amores platónicos até à mais sensual das relações, de tudo se vê, tudo se experimenta, tudo se vive, tudo se sonha… E se a presença física alimenta a paixão, a ausência, a distância, a lonjura sem fim, alimenta o amor que sofre e dói… Apreciem este poema de Nuno Júdice e vejam como é belo e com tão bem define o amor ausente: “ Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma, mas que não deixa, por isso de deixar alguns sinais: um peso nos olhos, no lugar da tua imagem e uma vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes tivesse roubado o tacto. São estas as formas do amor, podia dizer-te e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa e as palavras ficam presas numa relação de instantes, quando a tua voz me chama de dentro de mim e me faz responder-te a uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói ( Ausência de Nuno Júdice ).

A ausência que dói e que nos faz sonhar, como digo num dos meus poemas: “E quando, virtual te sonho, um outro sonho eu tenho, que se torne real, o simples esboço que de ti desenho.”