1 – E aqueles que por obras valerosas, se vão da Lei da morte libertando – morreu o Nico!
2 – Amor, paixão e ausência.
1 – A 30 de Julho de 1940, nascia em Serpa, Alentejo, aquele que viria a ser um dos mais talentosos atores e realizadores portugueses, repartindo o seu génio pelo teatro, cinema e televisão. A morte abraçou-o em 14 de março de 2016 e a frase com que a RTP noticiou a sua morte, diz muito do que foi a vida artística deste grande vulto das artes cénicas das ultimas décadas: “ um pilar da ficção televisiva portuguesa. “ Mas Nico, não foi só isso! O seu génio artístico multifacetado, levou-o a ser grande no teatro, no cinema e na televisão, como ator, realizador e produtor, sempre um nível muito elevado, tornando-o um dos personagens mais atraentes do cenário artístico em Portugal. Um dos programas que mais sucesso teve na televisão foi o “ Eu show Nico”, em que, contracenando com Herman José, criou os personagens inesquecíveis do Sr. Feliz e do Sr. Contente (1980) que ainda hoje vivem no imaginário das gerações de então. Foi uma perda incalculável para a cultura portuguesa, difícil de colmatar, tal a versatilidade e a grandeza do seu génio. Nico irá juntar-se àquele grupo de portugueses que, no dizer de Camões “ (…) por obras valerosas, se vão da Lei da morte libertando”.
2 – E, no entanto sendo um génio, não deixou de ser homem, um homem de muitas mulheres que amou algumas com paixão e nos remete para outros vultos da nossa História, remota ou recente, que também muito amaram e que a nossa literatura trata com carinho e emoção. E, mais uma vez lembro Luís de Camões no canto terceiro de Os lusíadas com o episódio doa amores de Pedro e Inês, que, ternamente canta “ Estavas linda Inês posta em sossego, de teus anos colhendo o doce fruto, naquele engano de alma ledo e cego, que a Fortuna não deixa durar muito, nos saudosos campos do Mondego, de teus fermosos olhos nunca enxuto, aos montes ensinando e às ervinhas, o nome que no peito escrito tinhas”. É sublime a maneira como Camões nos canta este amor profundo, contrariado e trágico que atravessou gerações e faz ainda o enlevo dos apaixonados. E, saltando no tempo, o amor trágico de Camilo Castelo Branco e Ana Plácido que rompeu preconceitos para cumprir o amor, Camilo autor de um dos mais belos e mais lidos romances de amor da nossa literatura, O Amor de Perdição, rivalizando em popularidade com o Romeu e Julieta, de William Shakespeare, cujo trama se desenrola na cidade italiana de Verona e narra a história de amor entre dois jovens de famílias reais, contrariado e trágico.
Ao longa da história das literaturas, quantos romances e poemas de amores contrariados, terminados em tragédias, povoando o imaginário dos leitores: Marco António e Cleópatra, Capitu e Bentinho, no Dom Casmurro de Machado de Assis, Scarlett O´Hara e Rhett Butler, em E tudo o Vento Levou de Margaret Mitchell, Dante e Beatriz, em a Divina Comédia de Dante Alighieri, Liesel e Rudy em A menina que roubava livros de Markus Zusak, Penélope e Ulisses, em A Odisseia, de Homero, Lancelot e Genevieve, em As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley, Tristão e Isolda de Hannah Closs e muitos outros que seria enfadonho enumerar.
E no dia-a-dia de cada um? Será que tudo é um mar de rosas? Que género de amor se vive hoje, nas Praças e Cafés, nas redes sociais onde virtual impera, nas escolas e nas grandes empresas onde a promiscuidade é grande e os afetos surgem, nos locais públicos onde os olhares se cruzam? O que é hoje o amor? Cada geração terá a sua resposta e desde amores platónicos até à mais sensual das relações, de tudo se vê, tudo se experimenta, tudo se vive, tudo se sonha… E se a presença física alimenta a paixão, a ausência, a distância, a lonjura sem fim, alimenta o amor que sofre e dói… Apreciem este poema de Nuno Júdice e vejam como é belo e com tão bem define o amor ausente: “ Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma, mas que não deixa, por isso de deixar alguns sinais: um peso nos olhos, no lugar da tua imagem e uma vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes tivesse roubado o tacto. São estas as formas do amor, podia dizer-te e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa e as palavras ficam presas numa relação de instantes, quando a tua voz me chama de dentro de mim e me faz responder-te a uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói ( Ausência de Nuno Júdice ).
A ausência que dói e que nos faz sonhar, como digo num dos meus poemas: “E quando, virtual te sonho, um outro sonho eu tenho, que se torne real, o simples esboço que de ti desenho.”
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