1 - Após um interregno de algumas semanas em que não escrevi a crónica, por solidariedade para com o nosso diretor, incapacitado por uma arreliadora doença que, entretanto, debelou, eis-me de regresso ao agradável convívio daqueles que me honram com a sua leitura. Quando os amigos não estão bem, sentimos que as palavras e as ideias nos fogem e a inspiração nos falta. É nestes momentos que melhor entendemos o valor da amizade e vem ao de cima o nosso dever de solidariedade.
Hoje é o Dia Mundial do Amor e, em Portugal, comemoramos mais um aniversário do 25 de Abril. Que melhor dia para juntar amor e liberdade, solidariedade com afeto, igualdade com respeito por nós próprios e pelos outros? O 25 de Abril, mais que uma revolução, foi uma pedrada no charco da anestesiada sociedade portuguesa. Vivia-se um ambiente de passividade e tudo deixar correr e fazer, sem liberdade de expressão, num paternalismo que vinha de longe e que deixava às elites dirigentes a incumbência de tudo resolver. A guerra do ultramar deixava sequelas graves no tecido social, com centenas de milhares de jovens atirados para um cenário de guerra, na defesa de interesses que lhes vendiam como sendo os da Pátria. O esforço de guerra influenciava gravemente o desenvolvimento do país que se mantinha essencialmente rural e empregava a maioria da população na agricultura, com um poder de compra muito limitado, precárias condições de habitação, vias de acesso obsoletas, imensas dificuldades na educação e saúde. O 25 de Abril surgiu porque sempre há quem sonhe e aos valentes capitães que prepararam o golpe, juntou-se, espontaneamente, grande parte da população que sonhava com um Portugal melhor e mais desenvolvido, onde houvesse, como cantava Sérgio Godinho, saúde, pão e habitação para todos. Foi lindo o 25 de Abril, como foram lindos os dias e os tempos que se seguiram. Do torpor em que se vivia, passou-se à euforia, apareceram as canções de Abril, o povo cantava nas ruas, por todo o lado se criava e vivia um outro tempo. Os políticos foram aparecendo, de todos os quadrantes, tomando posição no assalto ao poder, quer os que se evidenciaram na luta contra o regime anterior, quer os que com ele colaboraram ou pactuaram e que, depressa, como convinha, vestiram o seu fato de democratas e cantaram também...
Passaram 42 anos! Muito se fez e mais ficou por fazer. Houve avanços e recuos. Portugal transformou-se e sonhou com a Europa que lhe prometia liberdade, igualdade e fraternidade! Cometeram-se erros, desonestidades, corrupção, mas também se realizaram coisas importantes para o desenvolvimento do pais, sendo a joia da coroa , o Serviço Nacional de Saúde, levando a todos a possibilidade de tratarem os seus males...
A vida é como um escadório em que cada degrau é um dia da nossa existência. Degrau a degrau, vamos subindo até atingirmos o cimo. Pelo caminho, vamos doseando o esforço, descansando nos patamares, respirando fundo , observando o caminho percorrido , calculando o que falta percorrer , pensando, sonhando... E de sonho em sonho, " sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança", como dizia António Gedeão... O 25 de abril foi o sonho de várias gerações... Sonho frustrado? Sonho adiado ? O mundo pula e avança e, degrau a degrau, havemos de chegar ao cimo da escadaria, se todos dermos as mãos.... Hoje, foi um bom principio...
2- Num dos meus poemas, eu digo que passo a vida a pensar e também a sonhar com um mundo melhor e mais fraterno. E, às vezes, há pequenas coisas que nos enlevam e nos dão a certeza que ainda é possível... As palavras e os atos do Papa Francisco são disso um belo exemplo e fazem mais pela mudança do que todos os discursos hipócritas que vamos escutando... Um dia, o meu neto mais novo, disse-me: Avô, tu ainda não és velho, ainda não usas bengala "...Emocionei-me um pouco, dei-lhe um beijo e um sorriso e fiquei a pensar no assunto. Será que não sou já velho e fabrico ilusões nos sonhos que ainda tenho ? Ser velho é um estado de alma!. Se o corpo não responde, a mente corrige e suaviza os estragos do tempo. Não consigo deixar de pensar, logo, no dizer do filósofo, existo e se existo sonho , recordo , repito , crio, faço, iludo-me ,engano-me, corrijo , subo e Desço as escadas da vida, paro nos patamares, reflito e sigo... E é este querer, esta vontade de ser, de superar etapas e sonhar futuros, que me permite não usar bengala, nem me considerar velho. Desisti da idade, escrevi algures, a idade está no meu pensamento e, ora, acrescento, e no meu coração, cujos olhos percorrem os céus à procura de estrelas que iluminem a Minh ‘alma. Vejo-as e escuto, no silêncio da noite, as mensagens que dali me vêm, umas vezes tristes, outras mais de esperança. Sinto que a felicidade não tem tempo e que a vida tem de ser vivida com vontade e fé de que chegaremos ao fim da caminhada com brilho no olhar e amor no coração...
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