sábado, 28 de maio de 2016

AMOR E SAUDADE

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

"Esta palavra saudade, aquele que a inventou, a primeira vez que a disse, com certeza que chorou.". A minha mãe chamava-se Soledade, sinónimo de saudade, do latim solitate/ solidã. Quando se perde alguém que muito amávamos, mãe, esposa, filhos, netos, amigos, invade-nos uma grande tristeza, o nosso coração fica repleto de saudades e, em muitos casos, sentimo-nos sós, numa solidão que só o tempo conseguirá amenizar. Por vezes, pensamos que a vida fica sem sentido, que nada será igual nos nossos dias, que não mais teremos interesse em traçar objectivos que nos mobilizem, que todos os nossos sonhos se esfumam. É um período de luto que será mais ou menos prolongado, sendo, em alguns casos, eterno e levando à mais profunda solidão. Mas a vida tem de continuar, temos de reagir, sob pena de sermos mortos/vivos, vegetando, desistindo de tudo... Como dizia alguém "o luto tem apenas a duração necessária para você entender que precisa continuar de pé. " E reagimos, traçamos novos objectivos, construímos novos sonhos, fabricamos algumas ilusões que vamos alimentando com vontade e fé... Mas fica a saudade. E o que é a saudade? " A saudade é um sentimento causado pela distância ou ausência de alguém que amamos." e que é, ela própria, uma forma de solidão. Pode ter origem na ausência de alguém que já partiu ou de alguém que vive longe de nós, separados pela distância ou pelo desencontro, que não só a lonjura se mede em quilómetros, senão, também, pela ausência de afetos. E vem-me à lembrança um pequeno texto que me faz pensar e refletir sobre a verdade que encerra " Não encontramos ninguém por acaso.


Atravessamos o caminho uns dos outros por um motivo." E esse motivo é, às vezes, tão incompreensível que, pensamos, só Deus nos poderá ter levado a esse caminho. " Deus transforma choro em sorriso, dor em força, fraqueza em fé, sonho em realidade." A realidade que sonhamos, que perseguimos, que nos parece tangível e nos foge e regressa envolta em esperança, num jogo que nos cansa, vicia e desespera. E sempre que a realidade nos foge e volta a ser um sonho, sentimos saudades no nosso coração, sós num mundo de talvez, sem certezas, num mundo de procura e desencontro. Mas quando a realidade volta e o sonho se concretiza, é como se a vida sofresse um novo impulso, como se tudo começasse de novo, com o coração cheio de certezas, abolindo as saudades e o sofrimento que a solidão nos traz.
A minha mãe chamava-se Soledade, um outro nome da palavra saudade. Na minha sala de estar, recolhida num dos cantos mais belos, está um quadro pintado por um amigo, o retrato de minha mãe que bem parece o de N.ª Senhora das Dores, tal o ar de sofrimento que os seus longos anos lhe trouxeram. Olho-o, muitas vezes, com saudades dos meus tempos de menino e moço e vejo-a com aqueles olhos cavados pelo tempo, observando e sofrendo com a tristeza que, por vezes, me arrefecia a alma. Como ela compreendia a angústia que vivia no meu coração! Com o rodar dos tempos, habituei-me a vê-la com os olhos da saudade e a compreendê-la melhor!. O tempo nos ensina a valorizar o que perdemos!



Quando eu era adolescente ou jovem adulto, gostava de escrever cartas de amor às minhas ocasionais namoradas, amores que eram volúveis como o tempo que passa... Fui sempre um pouco teórico nessa área, ao contrário de alguns amigos que eram essencialmente práticos e cuja eficiência lhes trazia proveitos que eu apenas sonhava. Produto das minhas leituras de livros de cavalaria e outros de cariz romântica, eu sonhava com um amor ideal que buscava, encontrei e perdi... E era aí que a minha mãe compreendia o meu sofrimento e acho que sofria também. Mas a vida ensina-nos que é preciso permanecer de pé e continuar buscando outros caminhos, elaborando outros, quiçá quimeras, amanhãs que cantam nos nossos corações. Encontrei alguém a quem dediquei a minha vida, que foi a mãe dos meus filhos, cujo amor durou 52 anos e a quem escrevi centenas de cartas de amor, quando estava distante e o meu coração estava cheio de saudades. Eram cartas simples e românticas que escrevia no silêncio do meu quarto de solteiro, nas terras que percorria ou quando ela se ausentava para férias que eram muitas naquele tempo distante. Eram cartas simples, versando temas simples como, recordo-me, as deambulações de uma aranha, num canto da minha secretária, ou um raio de sol que penetrava, envergonhado, por uma frecha da janela fechada. Eram cartas que diziam da saudade pela ausência que a distância aumentava. Tudo na vida tem um princípio e um fim. Podemos escolher o princípio, mas não sabemos nunca quando chegará o fim.! Mas, um dia, ele chega e ao esplendor do sol sucede o negrume da noite, e logo a saudade, a interrogação " E agora?" Podemos escolher vários caminhos, buscar uma outra vida, desistir, viver no nada, refugiarmo-nos em pensamentos negativos...

E o tempo passa e com ele vem a serenidade do espírito!!
Cada um escolhe o seu caminho, a maneira de o trilhar, os meios para chegar ao termo da jornada. Cada um escolhe entre viver ou ver a vida passar. Eu escolhi viver e busco o meu destino. Dou passos para lá chegar, devagar, que tenho pressa e já não posso correr. Acho que ainda tenho tempo para lá chegar. Há vozes que eu ouço e me enviam saudades e eu escrevo poemas onde digo " se tu disseres que me amas, meus olhos serão, para sempre, teus." Hoje já quase se não escrevem cartas de amor, tudo é diferente e mais célere, as novas tecnologias tudo permitem. Mas a palavra saudade escreve-se com as mesmas letras e é o mesmo sentimento que as dita.
Mas ainda há quem escreva cartas de amor, talvez diferentes das de outrora, mais assertivas, mas, ainda assim, encantadoras. Vejam só...

Aviso do namorado novo Eu não admito que a minha namorada vá visitar um Amigo. Porque toda essa consideração, mimos, carinho, atenção, e etc, que o amigo lhe dá, foi o mesmo que eu usei para lhe conquistar. Até porque, antes de namorados, ela foi minha desconhecida, passou a ser conhecida, ficou Amiga e só depois passou a ser namorada. Portanto não me vem aqui com truques de meu Best, fiuto-fiuto, e o mais agravante é que os moços em Angola não gostam de receber as Amigas no solo ou no quintal, querem logo levar no quarto. Ah, porque é para conversar melhor, ter mais privacidade e tal. Com namorada do outro queres privacidade pra quê? Ham?
Epha, amor, fica já a saber, se você ir visitar um teu Amigo, nosso namoro termina, mesmo se o tal Amigo tá doente, você não pode ele ir visitar, você tem de esperar ele morra, pra poder ir no óbito. E eu como sou bom namorado até faço questão de te acompanhar e até ajudar chorar e a meter o cão no buraco."( com a devida vénia partilhado de Quero-te no meu Chat...Amor à distância... Distancia em que o Amor é saudade e desejo).
Amor e saudade dos nossos dias e de sempre. Digam lá que não é lindo!!!

Bragança, 26-05-2016

QUANDO A VIDA SORRI...


Quando a vida nos sorri
e os nossos olhos brilham
ao contemplar as estrelas,
quando o amor nos toca
e a nossa alma se eleva aos céus
e aquece os nossos corações,
tudo é belo,tudo são flores,
paraísos de rosas,vermelhas de sangue,
cascatas de sonhos descendo
do peito,nenúfares nadando
em beijos sonhados,lábios desenhados
cheirando a jasmim,
olhos que são luz de sois
cujos raios,descendo dos céus,
louram os trigais, ondeando ao vento,
ondas de ternura e doce carinho,
embalando a vida ,o nosso caminho...

Sem ódio, sem raiva, só paz,
campinas enormes por onde se espraia
o meu pensamento,
lagos de ternura onde nadam cisnes,
prados verdejantes onde nascem palavras
cantando o amor
e o mar cujas ondas
levam os meus sonhos
e me trazem, dolentes,
saudades sem fim,
de areais dourados,que vou percorrendo,
sonhando encontrar-te
à espera de mim...

Luís Machado

O QUE É A FELICIDADE?

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Quando li um pensamento de John Lennon sobre a felicidade, percebi que tinha encontrado o mote para a minha crónica de hoje. O insigne elemento dos Beatles, contava que, quando tinha 5 anos, a mãe lhe dizia que a felicidade era a chave da vida e que, quando fora para a escola, lhe perguntaram o que queria ser quando fosse grande, ao que ele respondeu que queria ser feliz. Na escola responderam-lhe que não tinha percebido o exercício. A sua resposta é brilhante, ao retorquir que " eles não entendiam a vida "

Na verdade, se nós pusermos a mesma pergunta de outro modo...queres ser feliz quando fores grande?... todos responderíamos afirmativamente, sendo que o conceito de felicidade seria diverso para cada um de nós. Porque, na verdade, o que é a felicidade? Será, em abstrato," um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio," " um bem estar espiritual ou paz interior " e é, no fundo, diferente para cada ser humano, uma questão individual que cada um resolve e sente a seu modo.

Quando eu era criança, tudo o que eu queria era que me deixassem brincar em liberdade, jogar a bola, correr, esfolar os joelhos, tomar banho no rio com os companheiros, subir às árvores à procura de ninhos, caçar grilos nas tocas no meio do mato, comer o gostoso creme que a minha mãe fazia nos dias de festa ou aniversários... E era feliz, sem saber que o era, sem precisar de definições filosóficas do conceito, era feliz porque o que fazia me dava prazer, satisfazia os meus anseios de criança...

Depois crescemos, vem a adolescência, começamos a olhar a vida com outros olhos, a sonhar, a relacionar-mo-nos com os outros de uma maneira diferente, surge o amor e o desamor, procuramos futuros...E, um dia, alguém nos pergunta " És feliz? " E custa-nos responder, porque não temos respostas. Quem pergunta? Porquê?

Lembro-me que, um dia, nessa longínqua adolescência, alguém me fez essa pergunta, e eu menti e disse que sim, mas não era e quem perguntava, sabia-o ! Tinha-se desfeito um dos meus sonhos, ruído uma das minhas ilusões... Era um tempo em que eu pensava que o mundo ia desabar sobre mim... Tudo era confuso, sem sentido, sem presente nem futuro, sem ambição, interessado apenas em esquecer o passado que me desiludira e magoara profundamente...E não só no amor.

Mas a vida sempre renasce pela primavera e o tempo cura todos os males, esquecemos e descobrimos outros caminhos que nos mostram outras paisagens... E o tempo passa, caímos e nos levantamos, vezes sem conta, nesse caminhar insano pela vida, à procura da resposta à pergunta da minha adolescência, resposta que nunca é definitiva, que varia como a brisa ou o vento que nos afaga ou agride...

Quando já muito se viveu, sabemos que a felicidade não é um conceito simplista que cabe numa definição em que as palavras mascaram, muitas vezes, a realidade. Para os meninos pobres dos bairros degradados das nossas maiores cidades, ser feliz é ter uma casa modesta para dormir, comer o que a escola lhes dá ou pouco mais, ter uma bola para dar uns pontapés. Para os meninos para quem o dinheiro não é problema, ser feliz é ter tudo e não ter nada, porque nada interessa a quem nada falta. O materialismo, o consumismo, tudo subverteram, o que sobra em meios falta, muitas vezes, em afetos. Num mundo em que o ter se tornou a coisa mais importante da vida das sociedades, não ter nem sempre é razão para a infelicidade, quando a fraternidade, a solidariedade, a amizade, o amor, superam as carências. Dar-se, compartilhar, servir, amar, levar-nos-ão, por certo, a um estado de alma que bem podemos chamar de felicidade... Ao egoísmo feroz que tudo destrói, contraponhamos o altruísmo, o amor ao outro, nosso próximo, a quem, em abstrato, tudo se oferece, mas nada se dá, em concreto. Honra aos que são felizes, dando-te em amor aos outros, seus irmãos, aos que, aliviando o sofrimento alheio, mitigam, muitas vezes, o próprio sofrimento.

E, no campo do amor, lembrem-se que só dando se recebe, se compreendendo se é compreendido, só distribuindo carinho se recebe ternura, só oferecendo lealmente o coração, se recebe outro em troca. A paixão é apenas um fogacho que o tempo extingue. O amor é um sentimento que perdura para além dos arroubos impetuosos da paixão. O amor leva felicidade aos corações, a paixão leva prazer e dor e sofrimento. Como dizia Albert Camus, escritor e filósofo existencialista, " ninguém será feliz se continuar a procurar em que consiste a felicidade". Mais do que se interrogar, construa-a, liberte-se, procure-a," hoje pode ser o melhor dia da sua vida. Talvez você só descubra isto amanhã e terá perdido a oportunidade de ser feliz hoje.". Não deixe passar o tempo, não se questione se é novo ou velho, tem sempre idade para ser feliz. Aja de modo a que se alguém lhe perguntar " És feliz?", possa dizer SIM, com outra convicção que não a minha em tempos de adolescência...

DEAMBULO PELO MUNDO, EM PENSAMENTO

Crónicas do meu viver.// Por Luís Machado

Hoje a primavera resolveu dar um ar da sua graça e o sol espreitou por entre algumas nuvens que ainda persistem. Mas, um vento frio obriga-nos a não prescindir de um agasalho, já que a temperatura ambiente é ainda relativamente baixa. A sala onde me encontro , com uma suave e harmoniosa música de fundo, está um pouco fria que aconselha a que me acautele e ligue o aquecimento , situação anormal em meados de Maio. Ainda não há cerejas e tardam a florescer as rosas nos jardins. E eu que amo as rosas, olho com ansiedade os pequenos botões que começam a despontar, esperando que o sol e o calor tragam beleza e perfume aos jardins que cuidamos. 

Hoje não houve aulas na Universidade Sénior que frequento, pelo que recolhi a casa mais cedo e aproveito o tempo para me deliciar com algumas das músicas que adoro e me ajudam a descansar o espírito. Neste momento ouço a Carmina Burana, pelo Coro Regina Coeli, de Lisboa. Selecionei ainda, para posterior audição, o Concerto de Aranjuez, de Rodrigo,Villa--Lobos, e algumas peças de Canto Gregoriano. Enquanto ouço, vou escrevendo, reflito e sonho...Deambulo pelo mundo, em pensamento, assistindo, pesaroso, às tragédias que sobre ele se abatem e extasiando-me com as coisas boas a que também vou assistindo. No facebook leio: " Era pastora de cabras , em pequena, em Marrocos ! De família humilde! É hoje a Ministra da Educação em Franca.! Não permitas que nada te diga que não podes! Quanto mais perto estás do caos absoluto, mais perto estás da solução. ". 

O poder do querer! Cada um de nós tem em si potencialidades que nos permitem saltar do caos para a ribalta, se nos empenharmos e soubermos encontrar o caminho que lá nos levará. Os mais humildes dos seres humanos, nascidos nas condições de maior carência, podem, se procurarem e lhes forem facultados meios , seguir caminhos que os levem a um outro patamar.Dentro de cada ser humano há tesouros extraordinários a sondar e explorar. As grandes mulheres e homens que, de quando em vez , emergem do anonimato, são disso exemplo. Tu podes, assim tu queiras.!

Às vezes, andamos perdidos na vida, à procura não sabemos de quê, nem de quem. Vagueamos na imensidão do tempo, consumimos os nossos dias com futilidades e pessoas menos interessantes, repetimos lugares comuns em vez de refletirmos e procurarmos soluções interessantes para os nossos problemas, aceitamos imposições em vez de , livremente , procurarmos caminhos ,recusamo-nos a aprender a voar , porque sonhar é coisa de poetas, acomodamo-nos ao consumo fácil de ilusões , procuramos o ter em vez do ser, impanturramo-nos de coisas que nos consolam , em vez de repartirmos o supérfluo com os que nada têm, cacarejamos em vez de apendermos a falar de coisas séria s...E um dia encontramos , por acaso? , alguém que nos acorda e nos mostra outros caminhos, que nos tira do torpor em que , inconscientemente, vivíamos e nos lança desafios e nos convida a outros fazeres que acordam saberes que nem já sabíamos que tínhamos e a nossa vida se transforma e adquire outra dimensão.

Na amizade e no amor , também assim sucede. Encontrar amigos , verdadeiros amigos , não é tarefa fácil. A amizade é um sentimento muito profundo que aquece o nosso coraçao e nos consola a alma. Aparece e cresce quando dois seres descobrem afinidades entre si e trocam afetos. É interessante um pequeno texto que alguém divulgou : " Se te faz sorrir é porque te faz bem.! Se te faz bem, não deixes escapar. ". Assim nasce, às vezes, uma grande amizade que se estenderá por toda a vida, um sorriso, uma palavra, um gesto ,uma atitude . E quando , para além de tudo isto , há olhares que se cruzam e um impulso enorme de abraçar alguém , então é o amor que desperta, que explode e se manifestará em declarações ternas e doces e em promessas de amor eterno. Tão ternas que o infinito será a sua dimensão.

Deambulo, em pensamento , pelo mundo e vejo as tragédias ,os ódios , is radicalismos, mas também as manifestações de amor ao próximo, de solidariedade , de fraternidade entre os homens, que , às vezes , se mostram em coisas bem simples , como o azulejo que alguém partilhou no facebook e que diz assim : " A minha casa é pequenina / é pequenina pouco importa /chega para mim e para os meus / e também graças a Deus /para quem me bater à porta ." . Grande e profundo e belo, tão belo como o coração de quem o escreveu com amor...

MARIA E OUTRAS FLORES


E se todas as flores
se chamassem MARIA?
Haveria outros exemplares
no meu jardim?
Perfumariam as rosas
meu espaço
e as primaveras ondulariam
nos meus ventos?
Cantariam as cores do arco-iris
minhas tulipas anãs
que tanto adoro?
E haveria os cravos vermelhos
do meu sangue?
E outras,tantas,tão belas,
agarradas aos canteiros como lapas,
sonhadoras,silentes...?
Mas há um cantinho,
só meu,
que só eu trato,
onde há Marias,
brancas de luar,
onde,quando estou triste,
vou chorar...
E se um sonho
ali pousa
para me consolar,
rego-o de perfumes
das flores tão belas
que só eu sei amar....

Luís Machado

sábado, 7 de maio de 2016

AS PALAVRAS E A VIDA

Crónicas do meu viver // Luís Machado

Vivemos numa sociedade de consumo em que, a cada segundo, se criam mais necessidades aos consumidores, ávidos de novidades e insaciáveis na procura permanente do que os satisfaça. O marketing e a publicidade se encarregam da tarefa de inculcar na mente de cada um a necessidade do que se vai fabricando, construindo ou organizando e poucos resistem à investida constante através dos media, em todas as suas formas,com especial relevância para a televisão. Poderíamos falar longamente sobre este tema ,tão rico ele é e tantas as vertentes que poderíamos abordar. Mas , hoje , queria debruçar-me sobre um consumo muito especial, o consumo das palavras. Nunca, em qualquer época, a palavra foi tão utilizada como nos nossos dias.Para alem do seu uso normal no quotidiano das nossas vidas e do uso especial que os profissionais da palavra lhe conferem, as novas tecnologias vieram acrescentar novas possibilidades de comunicação, usadas à saciedade pelas populações, com especial relevo para os jovens, que fazem do telemóvel, ipads, iPhones, smartphones e quejandos, uma companhia de todas as horas , com a utilização de muitos milhões de palavras.

Por outro lado , as redes sociais vieram permitir uma maior proximidade entre as pessoas que mal ou nem se conheciam, com a troca de mensagens e apreciação de textos , comentários, publicação de composições poéticas e em prosa , dando a conhecer valores que se perderiam , não fora a possibilidade que lhes é oferecida. E as palavras circulam à velocidade do pensamento, criando relações de amizade, amores, paixões que o tempo consolidará ou apagará para sempre. E tantas belas amizades se desenvolveram ao redor das palavras que se foram trocando no facebook, quantos amores descobertos na simples permuta de algumas palavras que apreciavam uns olhos lindos, escondidos por trás de uns óculos escuros que sugeriam todos os mistérios, quantas paixões as palavras incendiaram nos corações solitários que o amor agarrara e fizera crescer, em juras de amor eterno... E as palavras, que no amor se querem doces e ternas, perdem , por vezes , tal candura e tornam-se frias e distantes, como o coração de quem as pronuncia ou escreve. Como dizia alguém," se todos soubessem o peso das palavras, dariam mais valor ao silêncio. ". Mascas palavras são o doce alimento do amor, é com elas que se exprimem os sentimentos, tudo o que nos vai na alma, os sonhos, os anseios, as juras de amor eterno , as tristezas , a dor que nos consome , as saudades que sentimos ou a desilusão que nos arrasa. 
As palavras nem sempre são belas, como o silêncio nem sempre é de ouro. Às vezes, as palavras são punhais, como o silêncio é cúmplice de gestos menos edificantes ou quando calam comportamentos menos éticos. As palavras são tudo , o bem e o mal , veículos de actos heróicos ou de abnegação, tela de epopeias ou jardim de poemas que transcendem o belo... Mas são também o inferno da mentira e da traição, a ignomínia que aniquila o espírito, o insulto soez que destrói reputações e vidas, a sibilina jactância do medíocre que se arvora em génio , a fofoquice mísera que explora o boato, As palavras são o bem e o mal, o belo e o horrível, a ternura e a arrogância, a doce melodia de una ode ou o grito lancinante de una dor...

Eu amo as palavras e procuro usá-las com parcimónia e elegância, com probidade e lisura , sem ferir , antes fazer delas o veiculo dos meus afetos e dos meus anseios , da procura da justiça e da fraternidade... Admiro, com enlevo, os cultores da nossa língua, escultores da palavra e do pensamento, pintores da beleza do texto e do poema, cujo génio percorre o tempo e o espaço e chega aos confins do mundo que soubemos descobrir.
A vida é feita de encontros e desencontros e sempre a palavra surge como um dos seus elementos. Terminarei, transcrevendo a parte final de um dos meus poemas, intitulado " As palavras que não ouso "...E nesse momento ideal do nosso encontro, as palavras fluirão, fortes, puras, sem enigmas, melodiosas e doces, sem preconceitos, como a verdade que ambos procuramos ."... 
Como alguém disse, um dia, " algumas pessoas surgem nas nossas vidas como uma bênção, outras como lição ".São as palavras que pintam o cenário da vida que escolhemos.

ÍCARO


Como Ícaro,
quis chegar ao sol,
levando meus sonhos
para longe demais...
O que Dédalo fez
com seu filho amado,
construindo asas
para a liberdade,
assim eu fizera
com meu coraçao,
construindo sonhos
para ser feliz....
Voei, longamente ,
pelo céu azul,
sobre o mar imenso
que via s meus pés...
Minh'alma errante
deixou-se empolgar,
havia sóis , além ,
onde queria chegar
e guiei meus passos
nesse caminhar...
Minhas asas de sonhos
levam-me, voando,
por esse caminho
que me leva ao sol...
Mas as asas,frágeis,
derretem no tempo,
sonharam demais...
Qual Ícaro alado,
meus sonhos são penas
que o vento levou,
não chegam ao sol,
vão cair no mar,
sem que haja um Dédalo
para os apanhar...
Luis Machado

MÃE



MÃE

Olho o teu quadro, Mãe,
e vejo o teu olhar profundo e triste,
as rugas embelezando o rosto
macerado pelas agruras da vida...

As tuas mãos,
pálidas e longas como o tempo,
guardavam recordações
desse tempo em que,docemente,
me acariciavas a face,
me limpavas as lágrimas,
me ensinavas caminhos
qu' eu iria percorrer...

Lembro-me de ti,com emoção,
do teu grande ,enorme coraçao
sempre pronto a dar ,
muito mais que a receber
e os sonhos que tinhas
eram só de amor ,
polvilhados de muita, muita dor...

Cresci e só vte compreendi
quando outros sonhos
nasceram no meu peito
e percebi que Mãe
é um ser diferente
que vive no coração da gente,
adivinha o que sentimos,
percorre connosco
todos os caminhos
que temos de trilhar ,
ama e sabe perdoar,
vive as euforias
como chora as tristezas
que temos de enfrentar...

Mãe é sol e luz diáfana
que ilumina e aquece
o nosso coraçao,
é força , é sonho , é saudade,
é aquela que nos dá a mão
quando perdemos o pé
e quase nos afogamos
nas tempestades da vida...
É aquela que dá guarida
aos sonhos que vão morrendo,
nos abraça e nos conforta
quando morre uma ilusão,
é calmaria ,é bonança ,
quando nos acende a esperança
que vive no coração...

És tudo aquilo que sinto
quando me chega a saudade...
E quando olho o teu rosto,
enrugado , macerado ,
pelas agruras da vida,
queria regressar , no tempo ,
aos meus tempos de menino,
ser outra vez pequenino,
balouçar-me no teu colo,
reviver o teu amor ,
aquecer-me no teu peito,
banir para sempre esta dor
que ne ficou , ao teu jeito...

Luis Machado