sábado, 19 de março de 2016

PRIMAVERAS


Que é das primaveras
em que havia flores ,
cravos vermelhos, rosas
d'outras cores,
risos de criança, amor
em nossos corações,
em que as nossas vozes,
felizes , entoavam canções
que ecoavam nos céus
e havia gaivotas
voando , serenas ,nesse mar
imenso que foi nosso?
Que é dos sonhos
que Abril pariu,
igualdade,amor , fraternidade,
crianças felizes, pão,
cada ser do outro seu irmão,
velhos sorrindo, respeitados,
homens íntegros, honrados,
verticais, sem vergar a cerviz,
cumprindo o que hoje diz,
amanhã e sempre?
Onde está o Homem
que Abril e todos nós sonhamos?
Procura na tua alma,irmão,
faz das tuas tripas,coração,
mas segue em frente, não desistas,
nem que vejas coisas
nunca vistas...
Vai e diz que não ,
não queiras mais viver
nesta ilusão...
Indigna-te, reclama, cobra...
Um dia o sol há-de brilhar
e serás , uma vez mais ,
Homem e livre de sonhar..
Luis Machado

sábado, 12 de março de 2016

LUA CHEIA


Sobre o arvoredo ,
a lua vai cheia
como o meu coração...
" Mãe , o que é aquilo?
É a lua , meu filho!
Quero ir lá morar! "
Eu também queria ir ,
meu amor ,
se tu lá estivesses,
dormir no teu colo
banhado de luz ,
serenar minh' alma
saída da cruz
de julgar-te perdida
no mar de luar ,
esse mar imenso
por onde navega
meu sonho de ter-te...
Faz-me sede a noite,
queria ir lá beber-te
nos raios de luz ,
já sem minha cruz...
Beber-te dum trago,
saciar meu corpo
com o teu afago
e depois dormir
nesse teu regaço ,
serenar minh' alma
morta de cansaço...
Sobre o arvoredo ,
a lua vai cheia
como o meu coração...
Se tu lá estivesses ,
meu amor sereno ,
como aquela criança,
queria ir lá morar
meu amor eterno
te iria levar...

Luis Machado

PAIXÕES - DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Crónicas do meu viver // Luís Machado

Faz hoje um ano que publiquei no facebook a seguinte mensagem: " Acho que estou apaixonado por alguém. O que devo fazer? " Recebi muitos likes e comentários, incitando-me a declarar essa paixão à minha amada , pois ela poderia , quem sabe , ficar muito feliz ! Era apenas um jogo que tive de jogar, não correspondia à realidade, não me declarei a ninguém, nem houve interessadas em protagonizar essa paixão. Arrependi-me de ter entrado no jogo, mas, na altura, não quis ser descortês para com uma amiga que mo propusera. O tempo passou e hoje, ao consultar no facebook as minhas memórias, lá estava a mensagem, perdida no tempo, esquecida como as promessas que se fazem e que o vento leva... E no entanto, num outro tempo, noutras circunstâncias, num cenário de verdade e não lúdico, o amor pode acontecer no coração de qualquer ser humano, independentemente da idade e do género. Uns olhos que se cruzam, uma palavra que se diz, um comentário que se faz , um sorriso que se esboça e o amor pode surgir , como um relâmpago , cruzando os céus, e as palavras surgem, espontâneas, nos lábios dos namorados, doces, ternos , comoventes , promessas , juras de amor eterno , de amor para sempre. Às vezes, tudo começa com um simples piropo , dos muitos e belos piropos que se dizem e escrevem , com imensa graça... Lembro-me de um poema de Berta Bento Colaço, sobre o flirt , que dizia assim : " O flirt é um fio dourado, sobre um rio pendurado , todo luz . Amor é o nome desse rio, quem não sabe andar no fio, catrapuz ! ". Quem nunca flirtou, qualquer que seja a sua idade? As palavras são a arma de quem aprecia o flirt e , trabalhadas com harmonia e destreza, inebriam os sentidos e enlouquecem a mente de teenagers e senhoras maduras. Mas, como dizia a insigne poetisa, " quem não sabe andar no fio, catrapuz! " e quantas paixões, quantos amores duradouros, não tiveram origem no flirt que se cultivava. Quando o catrapuz é grande , não raras vezes , só acaba nos altares , onde as juras são sérias, mas nem sempre eternas. Se, catrapuz , caiu no rio , honre os seus compromissos , saiba amar quem se sentiu atraído, não seja dissimulado, abra o seu coração , seja sincero , respeite ! O amor é o mais puro dos sentimentos, fonte de felicidade e alegria de viver, mas também manancial de tristezas e desilusões... Respeite quem o ama, faça dele o centro das suas atenções, a coisa mais importante da sua vida, o sol que o/ a ilumina e aquece a sua alma, a prioridade de tudo quanto faz e pensa. A paixão passa, mas o amor permanece e manifesta-se nos gestos de ternura, nas palavras doces que se dizem , no trato gentil para com o outro , nas mãos que se dão , no carinho dos atos mais simples , na conversa amena ao fim do dia, quando o cansaço chega , nos beijos de despedida que se dão, quando o dia começa, nas mensagens carinhosas que se trocam, quando a saudade chega... 
Hoje , dia 8/3 , é o Dia Internacional da Mulher. Respeito profundamente a mulher, no seu todo, especialmente como esposa e mãe. Vejo nela a obra maior da criação, quase perfeita, fonte de todos os amores , da beleza que nos inebria , da ternura maternal que nos emociona, da sensualidade que nos empolga. Não resisto à tentação de citar um pensamento de um autor desconhecido , postado no facebook : " A beleza de uma mulher não está na marca das suas roupas , no tamanho da sua cintura ou no número do sutiã que ela usa. A beleza de uma mulher está no seu sorriso ,na sua personalidade , na sua simplicidade. A beleza de uma mulher está dentro dela...". Nada mais verdadeiro , nada mais real ! A beleza física , o tamanho da anca. , o volume dos peitos , a volúpia das roupas , a elegância do seu caminhar, são efémeros , só as suas qualidades permanecerão, só a sua personalidade se imporá. Num tempo em que a idade não conta , um abraço amigo a todas as mulheres , novas ou idosas , pela sua luta permanente , instante , pela felicidade dos outros , por um mundo melhor e mais fraterno. Sejam felizes.
E como dizia Diana Gaspar, num texto que partilhei no facebook :" Hoje não é o nosso dia , porque o nosso dia são todos os dias..... Somos mulheres, somos bonitas , somos vida, somos únicas , temos em nós toda a sabedoria para vivermos em sintonia com o nosso interior, com o nosso corpo e com a nossa história... Hoje é dia de reflexão e de encontrar respostas, dentro de nós , centradas na nossa essência de mulher, na certeza de que temos todas necessidades diferentes e que o amor já vive em nós , basta descobri-lo. ". Leiam o texto completo , podem encontrá - lo na minha página, é sublime e vai de encontro ao meu conceito de mulher. E , para terminar , uma frase muito bela sobre a mulher/mãe , de autor desconhecido : " Mãe é um ser tão especial que até Deus quis ter uma.." Parabéns Mulheres, com muito amor...!

domingo, 6 de março de 2016

ROSA VERMELHA


Era uma rosa vermelha
a que te mandei...
Tu chegaste, fugidia e doce,
olhando meus olhos
com teu terno olhar,
caminhando altiva
para outro lugar...
Segui os teus passos...
Teu corpo , com curvas
que fazem sonhar,
ondulava ao vento...
Um raio de sol
brilha em teus cabelos,
faiscando delícias
no meu coração...
Negros de azeviche,
teus lindos cabelos
lembram azeitonas
da cor de teus olhos...
Um andar suave
Leva os teus pés
por esses caminhos
dum outro lugar...
Eu queria te amar,
contigo dançar
à noite ao luar ,
queria dar-te a mão,
com todo o carinho
caminhar contigo
por esse caminho...
Mandaste-me beijos,
dei-te uma flor,
uma rosa vermelha,
símbolo do amor...
Tu me deste a mão,
são teus os meus olhos,
meu o teu coração...

Luís Machado

UM QUASE DIÁRIO, IDOSOS, PÃO ARTESANAL E CONFISSÕES TARDIAS

Crónicas do meu viver // Luís Machado

1-Sei que um dia vou morrer ! Essa é a única certeza que me resta, tudo o mais é falível, tudo o mais é incerto, tudo o mais pode mudar com o tempo e as circunstâncias, promessas, juras, anseios, sonhos que ainda temos, rumos que trilhamos, desejos, vontades que, às vezes, partilhamos. Num instante, tudo o que o que sonhávamos para um futuro incerto, pode ruir como um baralho de cartas e todas as certezas que tínhamos se esfumam e cavam, tantas vezes, um vazio difícil de preencher e que só o tempo se encarregará de colmatar. E a vida parece-nos um mar de nada, onde todas as quimeras desaguam e onde todos os sonhos se esfumam, todas as ilusões se dissipam, toda a vontade se apaga. Reagimos, procuramos novos caminhos, construir novas certezas, perscrutar novos horizontes, beber outras verdades, fruir de outros amores e amizades, sentir, de novo, a beleza que a vida encerra.
O tempo passa e a vida se esvai, nesta procura instante, neste caminhar apressado, nesta busca do novo. Por vezes, estabilizamos e, docemente, caminhamos, de mãos dadas, com os dias felizes que o amor, a amizade, o sucesso nos oferecem. Noutras, novamente, caímos e nos levantamos, outra vez tentamos e outra vez percorremos as etapas da vida, num caminhar permanente. Até que, um dia, tudo regressa ao nada, as luzes apagam-se, o espetáculo termina, o público atira-nos as últimas flores, alguém se lembra de dizer que éramos bons rapazes. E fica a saudade de quem vai continuar a vida, com novos ciclos, novas etapas, novos sonhos e quimeras. De vez em quando, alguém se lembra de nós e vai colocar um ramo de flores na última morada, um cravo, uma rosa vermelha, como nos tempos em que o amor nos tocava.

2- Há dias, um texto no facebook, de autor desconhecido, dizia, sobre os idosos : " Idoso é quem tem o privilégio de viver uma longa vida... Velho é quem perdeu a jovialidade...Você é idoso quando sonha,...Você é velho quando apenas dorme... Você é idoso quando ainda aprende... Você é velho quando já nem ensina... Você é idoso quando tem planos...Você é velho quando só tem saudade... Para o idoso a vida se renova a cada dia que começa... Para o velho a vida acaba a cada noite que termina... Que você, quando idoso, viva uma vida longa, mas que nunca fique velho...".
Quando, deambulando pela cidade, observamos a vida, deparamos com muitos idosos/velhos, calcorreando as ruas, agarrados aos seus males, contando os dias e as horas, absortos nos seus pensamentos, procurando uma razão para continuar a viver. E há muitas e boas razões para o fazer e cada um procura o seu caminho, o seu hobi , a realização de um sonho. Outros rezam por si e por aqueles que o não fazem, e refugiam-se na penumbra das igrejas, à procura de Deus...
Há já algum tempo que tinha decidido frequentar a Universidade Sénior de Bragança, onde um grupo de idosos (não de velhos), se reúne diariamente para frequentar as aulas, num salutar convívio que permite o aparecimento de novas amizades e onde a boa disposição é uma constante.
Realizada a matricula, eis-me a iniciar a frequência, onde um grupo de professores bem selecionados, ministra as mais diversas cadeiras. Gostei da experiência que me proporciona a aquisição de novos conhecimentos e, acima de tudo, me permite o aprofundar de amizades, num são convívio em que as horas correm céleres... E ao pensar nesta nova experiência, lembro o texto sobre o idoso e o velho e sinto que sou idoso porque ainda sonho, ainda tento aprender, no dia a dia, ainda tenho planos para a vida, ainda sinto um coração jovem batendo no meu peito, ainda penso e tento fazer coisas novas e transmitir os parcos conhecimentos e saber acumulados ao longo da minha já extensa vida…
Sei que um dia vou morrer, essa é a minha única certeza, dizia no inicio desta crónica. Mas anseio ainda percorrer alguns caminhos, realizar alguns sonhos , abraçar horizontes onde queria chegar... Quero que os meus 40+40 me permitam ainda recuperar alguns sonhos e reviver momentos em que, euforicamente, a vida me sorriu. Não quero ser velho, vou somando tempos, nas sempre pensando que ainda tenho tempo para ser feliz ! 

3- Passou a SIC Bragança uma reportagem sobre o fabrico do pão artesanal numa das nossas aldeias, uma atividade cada vez mais rara, mas que tem ainda os seus seguidores, já que, para além do consumo próprio, tem também uma grande procura. Na citada aldeia, assistimos, no vídeo disponibilizado pela SIC Bragança no facebook, a uma interessante conversa entre o repórter e o artesão responsável pela feitura do pão que conta todos os passos necessários à sua elaboração, prática que já é seguida há cerca de 60 anos, sem alterações. O fabrico do pão artesanal, com o amasso do pão à mão e a sua cozedura em fornos de lenha, é ainda uma prática seguida em muitas das nossas aldeias. O consumo de pão foi, desde sempre, a base da alimentação dos povos transmontanos. Não há transmontano que se prese que não tenha à mesa o belo pão que aqui se fabrica, seja ele artesanal ou já elaborado por processos mais industriais, nas ainda assim de muito boa qualidade. Mas o pão artesanal, outrora a base da alimentação das nossas aldeias, é agora quase um luxo e vão rareando as pessoas que se dedicam ao seu fabrico, já que o segredo da sua qualidade está no modo de o amassar, nos produtos utilizados, na lenha, muito cara, utilizada nos fornos vê até nas benzeduras e rezas com que o artesão solicita a bênção dos céus para a qualidade do seu produto. Um bom pão artesanal mantém-se fresco e apetitoso durante cerca de uma semana. Que delícia una torradinha com manteiga deste belo pão transmontano, nesta Bragança linda onde, como canta Amália, " numa casa portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa. E se à porta, humildemente, bate alguém, senta-se à mesa... "...à boa maneira transmontana, onde a hospitalidade ainda é uma característica deste povo bom...
E para os que são crentes, deixo-lhes uma meditação sobre o Pai Nosso...." o pão nosso de cada dia nos dai hoje...". Nesta parte da crónica onde se fala do pão, lembrem-se, governantes e governados, de que, em muitas casas, não há pão e o fado de Amália Rodrigues que sirva de apelo , os que podem aos que precisam...". Numa casa portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa...". 

4 - E para terminar, uma confissão tardia de Junker , presidente da Comissão Europeia, sobre a Troika..." Pecamos contra a dignidade de Portugal e a Grécia...". Bem nos parecia e nem todas as confissões merecem a absolvição.

DEVIR


Às vezes, ao entardecer ,
quando certas flores
se recolhem e guardam
para um outro amanhã,
vagueio pelos corredores escuros
da minha casa vazia
e busco-me
nos retratos felizes
da minha meninice
que olham
este outro eu ,
olhos pisados pelo tempo,
a alvura singular
dos meus cabelos raros...

Perguntam-me quem sou
e eu não sei responder
porque este eu que sou,
busca ainda respostas
sobre o seu devir
e vive só
na angústia de se conhecer

Já não sou menino,
mas sonho
como as flores que se fecham
para um outro amanhã
e se abrem, radiosas ,
quando a aurora chega...

Ao entardecer,
quando a luz se esvai,
nesta penumbra triste,
sonho esse amanhã,
esse devir que espero
e regresso a mim,
ao menino que fui,
cavalgo quimeras,
ternas ilusões
que se vão sumindo
no tempo que passa...

Vagueio pelos corredores escuros
da minha casa vazia...
Sinto o tempo fugir...
Que importa o devir,
esse amanhã que espero,
se jamais terei
aquilo que quero?

E uma outra ilusão,
um sonho , se esvai
neste rio que corre
do meu coração...

Luis Machado

REFLEXÕES

Crónicas do meu viver // Por Luis Machado

Costumo navegar na internet e percorrer o Facebook , diariamente, durante parte das minhas horas de ócio . É um exercício interessante que me dá prazer, mas me preocupa também e me induz a uma reflexão sobre a vida, as relações entre as pessoas, o valor da amizade, o amor, a solidariedade, a partilha de saberes, o exibicionismo de muitos, a mentira, a hipocrisia, a traição. De tudo se encontra um pouco nas redes sociais. 
É necessário separar, com cuidado, o trigo do joio, as sãs amizades daquelas que o não são e se entregam a esconsas fofoquices, quiçá com dúbias intenções e propósitos menos sérios. Chegam ao nosso conhecimento, amiúde, casos da indevida utilização deste espaço de convívio, com consequências desagradáveis para as pessoas que as sentem. É preciso desmascarar e reparar os estragos causados e, às vezes, não é fácil consegui-lo. A acrescentar a estes casos, temos a introdução abusiva de vídeos, com vírus, reproduzindo cenas explicitas de sexo, a que associam alguns dos nossos amigos/as e a nós próprios, sem que disso tenhamos conhecimento.
A maioria dos nossos amigos sabe que nada temos a ver com tais atos criminosos e avisam-nos, mas outros há, menos avisados, nos passam a olhar com desconfiança e isso nos magoa. No meu caso pessoal, tenho, pelo menos, o caso de uma amiga de longa data que apreciava as minhas produções literárias e sempre me incentivava, que, a partir da publicação de um desses vídeos, em que o seu e talvez o meu nome apareciam envolvidos, me deixou quase de falar, supondo, talvez, que eu poderia ser o autor de tais atos criminosos. Confesso que sofri um pouco com essa situação, pois prezo muito a verticalidade com que sempre atuo nas minhas relações com os outros.
Os meus amigos, virtuais ou reais, sabem-no e demonstram-no, com atos ou palavras que muito me sensibilizam. Mas há também muita hipocrisia, mentira e traição no que se lê e escreve. Há muito lobo a querer passar por cordeiro e muitos comportamentos condenáveis. Respeito é coisa que muitos não têm pela sua própria família e exibem-se de maneira pouco recomendável, quer expondo-se demasiado, insinuando-se, quer comportando-se como predadores à espera da sua presa.
Como diz o ditado popular, quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele.
Mas há muito de positivo nas redes sociais: a partilha de saberes, a difusão da cultura , os actos solidários , o culto da amizade virtual que , muitas vezes , se verifica mais sincera e profunda do que muitas reais, a informação atual e imediata e outras valências que quem está habituado a lidar com as novas tecnologias, bem conhece.
Costumo ler e ver, com frequência, a página inicial do facebook: posts com frases e imagens interessantes, vídeos, poesias, crónicas ou textos literários e outros assuntos que trato como pescador trata o peixe que vem à linha, seleciona e devolve ao rio ou mar o que não interessa pelo tamanho ou qualidade. Assim eu faço com o que me vem à vista e sigo em frente quando o assunto não tem grande interesse. Mas há sempre algo de interessante a ler, ver ou ouvir. Não tenho muitos amigos no Facebook, apenas algumas dezenas, alguns dos quais visito com regularidade e sigo na pagina inicial ou na sua cronologia. Um dos exercícios que gosto de fazer, é ler e comentar frases ou textos postados na página inicial e, muitas vezes, estabelecer alguma conexão entre eles.
Nos últimos dias vi e li alguns vídeos e posts que ne agradaram sobremaneira, que partilhei, e sobre os quais fiz alguma reflexão. Um deles dizia: " A distância entre querer e poder se resume a uma única palavra: TENTAR. " Se queremos muito uma coisa, temos de lutar por ela, não aceitar o inevitável, o impossível, mas estudar soluções, procurar possibilidades e meios, desviar escolhos, arranjar alavancas. Isto é tentar. Parafraseando Descartes, dir-se-ia "Quero, logo posso ".Não há querer que se não possa concretizar se pusermos todo o nosso empenho na realização de um sonho, de um empreendimento, de uma causa. Não há tempo que não regrida, nem distância que não encurte. O importante é querermos, porque sempre podemos, tentando. Moisés conseguiu, com a ajuda de Deus, dividir o Mar Vermelho em duas muralhas de água, por entre as quais, em terra seca, os hebreus fugiram do Egipto, onde eram escravizados, para Israel, a Terra Prometida. Não há promessas que se não cumpram, nem muros que se não derrubem, se quisermos. Querer é poder!
Num vídeo que também partilhei, de Clau Duarte , dizia-se : " Amor exigente...é porque eu te amo que não aceito qualquer coisa de você: pais que amam, exigem; amigos que amam, exigem; cônjuges que amam exigem". Tão elementar e tão profundo, este pensamento. Hoje, numa cultura em que tudo se facilita e pouco se exige, será oportuno refletir sobre o pensamento citado, porque nos atinge a todos, no comportamento dos cônjuges, na educação dos filhos, nas nossas relações com os outros e, principalmente, com os nossos amigos. Exigir com responsabilidade, sem autoritarismo, com amor. No fundo, é o amor a comandar a vida.
E para terminar, um texto de F. Pessoa " Enquanto não ultrapassarmos a dor da nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um.". É, muitas vezes, difícil ultrapassarmos a dor da nossa própria solidão. Mas é um esforço que vale a pena fazer, uma luta que vale a pena lutar, se queremos partilhar a nossa vida com amor.

HÁ PALAVRAS QUE RIEM , HÁ PALAVRAS QUE CHORAM


Refugio-me no silêncio
dos meus pensamentos,
burilando as palavras
que vivem
nos meus sonhos,
dou-lhes vida e cor
e polvilho-as de amor...

Fogem-me
e eu persigo-as
no além para onde vão,
sonhos dourados e ternos
que empolgam
meu triste coração...

Fogem deste nada
onde tudo acontece
e nada existe,
deste deserto de ideias
em que pensar
é um mal,
meu triste e doce Portugal !

Fogem e procuram
a tua alma ardente,
no seio de outra gente,
nesse além distante
onde as ilusões acampam
em sonhos sem esperança...

E eu fujo também
e vou ter com elas,
desassossegar teu ser,
pedir-te que venhas
para eu renascer
deste nada em que vivo,
neste silêncio morno
em que a saudade dorme
e , triste , nos consome...

Refugio-me no silêncio
dos meus pensamentos,
donde as palavras brotam
como a água cristalina
dum rio imaginário
que o mar acolhe
com amor e dor...

Há palavras que riem,
há palavras que choram
e moram no silêncio
daquelas que não digo...

Luis Machado

O VOO DA ÁGUIA

Era uma vez uma águia
que descera da montanha,
voando sobre o além,
buscando uma alma gémea...

Era lindo o seu voo,
asas ao vento, planando
sobre a imensidão do vale,
seus olhos procurando
na lonjura do tempo...

Sobre o mar, fugiam gaivotas,
farejando o perigo
e os peixes espreitavam,
quebrando a solidão das águas...

O sol raiava o dia
com seus fios dourados,
o vento segredava beijos
no coração dos namorados...

Voando sobre o tempo
que fugia veloz,
a águia, tenaz , buscava...
Mas os seus olhos não viam
para além do mar...
e sofria numa tristeza atroz...

De asas abertas, planando
sobre o vale imenso,
perscrutava o horizonte
onde mora a esperança...
Há sonhos que voam
sobre o mar sereno,
barcos que se cruzam
transportando o amor,
sereias que cantam
espalhando a dor...

D' além horizonte
há vozes gritando
promessas ardentes...

A águia se empolga,
seus olhos profundos
alcançam as vozes
que vêm d'outros mundos..

Há asas voando
vindas d'outro tempo,
ninhos esperando
os frutos do amor,
pios d'outras vidas
nascidas com dor...

Era uma vez uma águia
que desceu da montanha
e olhou o mundo...
A sua voz era estranha ,
o seu olhar profundo...
Sua alma gémea
descera dos céus,
atravessara o mar,
trouxera seus sonhos,
viera para amar...
Eram mundos diferentes,
igual as gentes...

Luis Machado