Crónicas do meu viver // Por Luis Machado
Costumo navegar na internet e percorrer o Facebook , diariamente, durante parte das minhas horas de ócio . É um exercício interessante que me dá prazer, mas me preocupa também e me induz a uma reflexão sobre a vida, as relações entre as pessoas, o valor da amizade, o amor, a solidariedade, a partilha de saberes, o exibicionismo de muitos, a mentira, a hipocrisia, a traição. De tudo se encontra um pouco nas redes sociais.
É necessário separar, com cuidado, o trigo do joio, as sãs amizades daquelas que o não são e se entregam a esconsas fofoquices, quiçá com dúbias intenções e propósitos menos sérios. Chegam ao nosso conhecimento, amiúde, casos da indevida utilização deste espaço de convívio, com consequências desagradáveis para as pessoas que as sentem. É preciso desmascarar e reparar os estragos causados e, às vezes, não é fácil consegui-lo. A acrescentar a estes casos, temos a introdução abusiva de vídeos, com vírus, reproduzindo cenas explicitas de sexo, a que associam alguns dos nossos amigos/as e a nós próprios, sem que disso tenhamos conhecimento.
A maioria dos nossos amigos sabe que nada temos a ver com tais atos criminosos e avisam-nos, mas outros há, menos avisados, nos passam a olhar com desconfiança e isso nos magoa. No meu caso pessoal, tenho, pelo menos, o caso de uma amiga de longa data que apreciava as minhas produções literárias e sempre me incentivava, que, a partir da publicação de um desses vídeos, em que o seu e talvez o meu nome apareciam envolvidos, me deixou quase de falar, supondo, talvez, que eu poderia ser o autor de tais atos criminosos. Confesso que sofri um pouco com essa situação, pois prezo muito a verticalidade com que sempre atuo nas minhas relações com os outros.
Os meus amigos, virtuais ou reais, sabem-no e demonstram-no, com atos ou palavras que muito me sensibilizam. Mas há também muita hipocrisia, mentira e traição no que se lê e escreve. Há muito lobo a querer passar por cordeiro e muitos comportamentos condenáveis. Respeito é coisa que muitos não têm pela sua própria família e exibem-se de maneira pouco recomendável, quer expondo-se demasiado, insinuando-se, quer comportando-se como predadores à espera da sua presa.
Como diz o ditado popular, quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele.
Mas há muito de positivo nas redes sociais: a partilha de saberes, a difusão da cultura , os actos solidários , o culto da amizade virtual que , muitas vezes , se verifica mais sincera e profunda do que muitas reais, a informação atual e imediata e outras valências que quem está habituado a lidar com as novas tecnologias, bem conhece.
Costumo ler e ver, com frequência, a página inicial do facebook: posts com frases e imagens interessantes, vídeos, poesias, crónicas ou textos literários e outros assuntos que trato como pescador trata o peixe que vem à linha, seleciona e devolve ao rio ou mar o que não interessa pelo tamanho ou qualidade. Assim eu faço com o que me vem à vista e sigo em frente quando o assunto não tem grande interesse. Mas há sempre algo de interessante a ler, ver ou ouvir. Não tenho muitos amigos no Facebook, apenas algumas dezenas, alguns dos quais visito com regularidade e sigo na pagina inicial ou na sua cronologia. Um dos exercícios que gosto de fazer, é ler e comentar frases ou textos postados na página inicial e, muitas vezes, estabelecer alguma conexão entre eles.
Nos últimos dias vi e li alguns vídeos e posts que ne agradaram sobremaneira, que partilhei, e sobre os quais fiz alguma reflexão. Um deles dizia: " A distância entre querer e poder se resume a uma única palavra: TENTAR. " Se queremos muito uma coisa, temos de lutar por ela, não aceitar o inevitável, o impossível, mas estudar soluções, procurar possibilidades e meios, desviar escolhos, arranjar alavancas. Isto é tentar. Parafraseando Descartes, dir-se-ia "Quero, logo posso ".Não há querer que se não possa concretizar se pusermos todo o nosso empenho na realização de um sonho, de um empreendimento, de uma causa. Não há tempo que não regrida, nem distância que não encurte. O importante é querermos, porque sempre podemos, tentando. Moisés conseguiu, com a ajuda de Deus, dividir o Mar Vermelho em duas muralhas de água, por entre as quais, em terra seca, os hebreus fugiram do Egipto, onde eram escravizados, para Israel, a Terra Prometida. Não há promessas que se não cumpram, nem muros que se não derrubem, se quisermos. Querer é poder!
Num vídeo que também partilhei, de Clau Duarte , dizia-se : " Amor exigente...é porque eu te amo que não aceito qualquer coisa de você: pais que amam, exigem; amigos que amam, exigem; cônjuges que amam exigem". Tão elementar e tão profundo, este pensamento. Hoje, numa cultura em que tudo se facilita e pouco se exige, será oportuno refletir sobre o pensamento citado, porque nos atinge a todos, no comportamento dos cônjuges, na educação dos filhos, nas nossas relações com os outros e, principalmente, com os nossos amigos. Exigir com responsabilidade, sem autoritarismo, com amor. No fundo, é o amor a comandar a vida.
E para terminar, um texto de F. Pessoa " Enquanto não ultrapassarmos a dor da nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um.". É, muitas vezes, difícil ultrapassarmos a dor da nossa própria solidão. Mas é um esforço que vale a pena fazer, uma luta que vale a pena lutar, se queremos partilhar a nossa vida com amor.