Crónicas do meu viver // Luís Machado
1-Sei que um dia vou morrer ! Essa é a única certeza que me resta, tudo o mais é falível, tudo o mais é incerto, tudo o mais pode mudar com o tempo e as circunstâncias, promessas, juras, anseios, sonhos que ainda temos, rumos que trilhamos, desejos, vontades que, às vezes, partilhamos. Num instante, tudo o que o que sonhávamos para um futuro incerto, pode ruir como um baralho de cartas e todas as certezas que tínhamos se esfumam e cavam, tantas vezes, um vazio difícil de preencher e que só o tempo se encarregará de colmatar. E a vida parece-nos um mar de nada, onde todas as quimeras desaguam e onde todos os sonhos se esfumam, todas as ilusões se dissipam, toda a vontade se apaga. Reagimos, procuramos novos caminhos, construir novas certezas, perscrutar novos horizontes, beber outras verdades, fruir de outros amores e amizades, sentir, de novo, a beleza que a vida encerra.
O tempo passa e a vida se esvai, nesta procura instante, neste caminhar apressado, nesta busca do novo. Por vezes, estabilizamos e, docemente, caminhamos, de mãos dadas, com os dias felizes que o amor, a amizade, o sucesso nos oferecem. Noutras, novamente, caímos e nos levantamos, outra vez tentamos e outra vez percorremos as etapas da vida, num caminhar permanente. Até que, um dia, tudo regressa ao nada, as luzes apagam-se, o espetáculo termina, o público atira-nos as últimas flores, alguém se lembra de dizer que éramos bons rapazes. E fica a saudade de quem vai continuar a vida, com novos ciclos, novas etapas, novos sonhos e quimeras. De vez em quando, alguém se lembra de nós e vai colocar um ramo de flores na última morada, um cravo, uma rosa vermelha, como nos tempos em que o amor nos tocava.
2- Há dias, um texto no facebook, de autor desconhecido, dizia, sobre os idosos : " Idoso é quem tem o privilégio de viver uma longa vida... Velho é quem perdeu a jovialidade...Você é idoso quando sonha,...Você é velho quando apenas dorme... Você é idoso quando ainda aprende... Você é velho quando já nem ensina... Você é idoso quando tem planos...Você é velho quando só tem saudade... Para o idoso a vida se renova a cada dia que começa... Para o velho a vida acaba a cada noite que termina... Que você, quando idoso, viva uma vida longa, mas que nunca fique velho...".
Quando, deambulando pela cidade, observamos a vida, deparamos com muitos idosos/velhos, calcorreando as ruas, agarrados aos seus males, contando os dias e as horas, absortos nos seus pensamentos, procurando uma razão para continuar a viver. E há muitas e boas razões para o fazer e cada um procura o seu caminho, o seu hobi , a realização de um sonho. Outros rezam por si e por aqueles que o não fazem, e refugiam-se na penumbra das igrejas, à procura de Deus...
Há já algum tempo que tinha decidido frequentar a Universidade Sénior de Bragança, onde um grupo de idosos (não de velhos), se reúne diariamente para frequentar as aulas, num salutar convívio que permite o aparecimento de novas amizades e onde a boa disposição é uma constante.
Realizada a matricula, eis-me a iniciar a frequência, onde um grupo de professores bem selecionados, ministra as mais diversas cadeiras. Gostei da experiência que me proporciona a aquisição de novos conhecimentos e, acima de tudo, me permite o aprofundar de amizades, num são convívio em que as horas correm céleres... E ao pensar nesta nova experiência, lembro o texto sobre o idoso e o velho e sinto que sou idoso porque ainda sonho, ainda tento aprender, no dia a dia, ainda tenho planos para a vida, ainda sinto um coração jovem batendo no meu peito, ainda penso e tento fazer coisas novas e transmitir os parcos conhecimentos e saber acumulados ao longo da minha já extensa vida…
Sei que um dia vou morrer, essa é a minha única certeza, dizia no inicio desta crónica. Mas anseio ainda percorrer alguns caminhos, realizar alguns sonhos , abraçar horizontes onde queria chegar... Quero que os meus 40+40 me permitam ainda recuperar alguns sonhos e reviver momentos em que, euforicamente, a vida me sorriu. Não quero ser velho, vou somando tempos, nas sempre pensando que ainda tenho tempo para ser feliz !
3- Passou a SIC Bragança uma reportagem sobre o fabrico do pão artesanal numa das nossas aldeias, uma atividade cada vez mais rara, mas que tem ainda os seus seguidores, já que, para além do consumo próprio, tem também uma grande procura. Na citada aldeia, assistimos, no vídeo disponibilizado pela SIC Bragança no facebook, a uma interessante conversa entre o repórter e o artesão responsável pela feitura do pão que conta todos os passos necessários à sua elaboração, prática que já é seguida há cerca de 60 anos, sem alterações. O fabrico do pão artesanal, com o amasso do pão à mão e a sua cozedura em fornos de lenha, é ainda uma prática seguida em muitas das nossas aldeias. O consumo de pão foi, desde sempre, a base da alimentação dos povos transmontanos. Não há transmontano que se prese que não tenha à mesa o belo pão que aqui se fabrica, seja ele artesanal ou já elaborado por processos mais industriais, nas ainda assim de muito boa qualidade. Mas o pão artesanal, outrora a base da alimentação das nossas aldeias, é agora quase um luxo e vão rareando as pessoas que se dedicam ao seu fabrico, já que o segredo da sua qualidade está no modo de o amassar, nos produtos utilizados, na lenha, muito cara, utilizada nos fornos vê até nas benzeduras e rezas com que o artesão solicita a bênção dos céus para a qualidade do seu produto. Um bom pão artesanal mantém-se fresco e apetitoso durante cerca de uma semana. Que delícia una torradinha com manteiga deste belo pão transmontano, nesta Bragança linda onde, como canta Amália, " numa casa portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa. E se à porta, humildemente, bate alguém, senta-se à mesa... "...à boa maneira transmontana, onde a hospitalidade ainda é uma característica deste povo bom...
E para os que são crentes, deixo-lhes uma meditação sobre o Pai Nosso...." o pão nosso de cada dia nos dai hoje...". Nesta parte da crónica onde se fala do pão, lembrem-se, governantes e governados, de que, em muitas casas, não há pão e o fado de Amália Rodrigues que sirva de apelo , os que podem aos que precisam...". Numa casa portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa...".
4 - E para terminar, uma confissão tardia de Junker , presidente da Comissão Europeia, sobre a Troika..." Pecamos contra a dignidade de Portugal e a Grécia...". Bem nos parecia e nem todas as confissões merecem a absolvição.
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