domingo, 17 de julho de 2016

PERCURSO


Fui gazela livre
brincando com os sonhos,
ágil, perseguindo o futuro,
desenrolando a vida,
novelo fofo
de ternuras feito...

Fui ave solta
sonhando igualdade,
lúdicos devaneios
por um além só cor,
planura sem fim,
semeada de amor...

Fui vendaval
arrastando ideias,
vento de mudança
arrasando rotinas,
fui coragem,
fui força,
fui certeza...

Que é do horizonte
onde almejei o fim?
Porque passou a vida
sem esperar por mim?

Luís Machado

O TRIUNFO DOS PIGS

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Há dias que ficam gravados para sempre nos nossos corações. Ontem, dia 10 de Julho, será um desses dias, por um punhado de circunstâncias que se não repetirão e que trouxeram felicidade ao nosso coração. Desde logo, porque fui assistir ao baptizado de uma sobrinha-neta que trouxe muita felicidade aos pais, avós, irmãs, tios e demais familiares. Não foi um vulgar baptizado, sempre belo! Foi um acontecimento muito especial que encheu de júbilo o coração dos pais! Todas as mães merecem os filhos que Deus lhes dá, mas há algumas que merecem mais, porque são pessoas muito especiais que merecem ser felizes e realizar os seus sonhos! Às vezes, demora o seu tempo, é preciso lutar, procurar o caminho, perseverar, mas sempre se alcança o horizonte que almejamos e o sol brilha nos nossos corações.
Foi linda a festa que reuniu familiares e amigos, num convívio alegre e sereno, num lugar paradisíaco. O ar fresco do mar amenizava a canícula que se fazia sentir e as bebidas frescas atenuavam o mal estar que o calor provocava. Havia risos e abraços de quem há muito se não via, gentis corpos de jovens exibindo os seus vaporosos vestidos, velhos procurando as sombras e recordando tempos em que também eram assim, adultos ainda jovens mostrando a sua virilidade através dos copos que iam emborcando.

Acabada a cerimónia religiosa e iniciado o alegre convívio, esperava-se, com ansiedade, uma outra hora, a hora a que a Selecção Portuguesa de Futebol entrasse em campo, na capital francesa, para discutir com a equipa de França o jogo que iria atribuir o título de campeão da Europa. Ao fundo do salão estava montado o ecrã e, desde logo, os mais entusiastas tomavam posição para assistir à contenda. Havia um entusiasmo transbordante, de novos e velhos, homens e mulheres, muitos dos quais nunca se tinham interessado por futebol! Mas hoje, era diferente, estava em causa o titulo de campeão da Europa, o prestigio de um país que tinha sido vilipendiado ao longo da competição e tratado, com desdém, por uma imprensa xenófoba e retrógrada que nos considerava um povo menor que nem direito teria a participar numa competição desta envergadura, destinada aos eleitos, aos povos de elite, aos que aspiravam a ser os senhores do mundo.

Os jovens eram os mais entusiastas e barulhentos e o seu entusiasmo contagiava os mais velhos que participavam na festa. As senhoras emitiam opinião sobre a elegância e beleza dos nossos jogadores, enquanto os homens se debruçavam mais sobre aspectos técnicos e táticos, congeminando estratégias para ultrapassar a arrogância dos gálios que haviam de se ver gregos perante os humildes galos. Começada a contenda, logo os gálios encristaram a crista e tentaram atarantar os humildes galos, a bem ou a mal, com a conivência do juiz da partida que devia sofrer de miopia congénita ou de daltonismo, pois só via as faltas das cores mais claras e ficava, impávido e sereno, ante as entradas brutais dos gálios. E assim, passados poucos minutos do início da partida, Cristiano Ronaldo, em quem se depositavam as maiores esperanças, foi mandado para o balneário, atingido pela "meiguice" consentida pelo árbitro que continuava, impávido e sereno, à boa maneira britânica, esquecendo a velha aliança, porque, possivelmente, outros valores mais altos se alevantavam... Rejubilou o público afecto aos franceses, porque, pensaram, sem Cristiano Ronaldo, os pobres galos, atarantados sem o capitão que os galvanizava, seriam presa fácil para a sua soberba selecção que já havia, sabe Deus como, eliminado a arrogância germânica. Mas, como dizia Camões," Cale-se de Alexandre e de Trajano, a fama das vitórias que obtiveram, que outros valores mais altos se alevantam..." e foram esses valores mais altos, essa força interior que foram buscar ao mais intimo do seu âmago, a revolta contra a ignomínia que se tornava visível a cada instante, foram esses valores, repito, que tornaram gigantes vos pequenos galos evos catapultaram para uma vitória indiscutível e insofismável.

Foi triste a falta de fair-play manifestado por grande parte dos franceses perante a derrota das suas cores. Mas dos fracos não reza a história e temos de ser magnânimos, como aquela criança que aparece num vídeo no facebook, a consolar um adepto francês que, compreensivelmente, chorava a derrota da sua equipa. Um grande exemplo, dado por uma criança, descendente de portugueses, e que apoiava a equipa da pátria de seus pais.
E para que o mundo olhe para Portugal com outros olhos, também noutras modalidades desportivas mostramos o valor dos nossos atletas e na ciência, os nossos jovens foram brilhantemente premiados como os melhores.

Quando uma campanha orquestrada por quem não conhece a nossa cultura e o nosso povo, nos cataloga como um povo de mandriões que gosta de viver à custa dos outros, fruindo graciosamente aquilo que a natureza nos deu, o sol, o mar, a beleza impar desta terra bendita, esquecendo o muito que já demos ao mundo, é urgente que nos ergamos, que mostremos quem somos, o que podemos fazer, o que queremos, o caminho que queremos trilhar, os objectivos que queremos alcançar. Temos de mostrar a esta Europa sem alma, dominada pelo poder financeiro, pela ganância, pelo desprezo pelos que sofrem, pela ambição desmedida, que não somos os PIGS que querem submeter e escravizar, que sabemos ser grandes quando nos espicaçam o orgulho, que não vergamos a cerviz aos poderosos e que, em Portugal, mesmo depois de mortos, são precisos quatro para tirar um homem de casa. Que este exemplo do campeonato europeu de futebol, nos leve a refletir e a entender a dimensão do nosso valor e a perceber que quando queremos, podemos. Não podemos é tolerar Migueis de Vasconcelos, nem Judas que nos vendam por trinta dinheiros. E, infelizmente, há quem nos venda por menos. 

Porto, 13-07-2016

CORAÇÃO


Busquei nas águas do mar,
novas do meu coração
que anda perdido no mundo...
Respondeu-me o vento errante
que não sabia do dito
e aconselhou minha alma
a procurar nas estrelas,
que havia lá corações
presos na luz que irradia
um sol chamado ilusões...


Procurei na Via Láctea
e em outras formações,
encontrei as ilusões
dançando a valsa do adeus,
mas dos corações apresados
nenhum deles era o meu,
o meu andava perdido
e ninguém me dava novas..

Fui procurar nas saudades
que um dia também tivera,
busquei em todos os tempos,
no de hoje e noutra era,
rebusquei no pensamento,
vi meus poemas antigos
onde talvez estivesse
e nada me dava novas
do meu pobre coração...

Subi aquela ermidinha
onde em criança rezara
e lá estava ele rezando
como quando era criança,
rodeado dos amores
que já não tinham esperança,
aqueles que não quisera
e outros que o regeitaram,
unidos numa oração
para que fosse feliz....
Uns lhe chamam docemente,
com ternura, meu Luis,
e nenhum quer o seu mal...
Uns vivem já no passado,
outros buscam o futuro,
entre eles há um muro
que nenhum pode passar...
Sofre quem ama e quem não,
e o meu pobre coração
para encontrar o amor
tem de ultrapassar muita dor...

Luis Machado
05-07-2016

SE O FUTURO FOSSE HOJE

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

1 – Quando as águas de um rio passam sob a ponte, jamais voltarão ao ponto de partida. Seguem seu caminho, à procura do mar, sem nunca parar, levando mundos de ilusões, sonhos desfeitos, vidas por viver, tristezas, ambições, amores que foram, paixões sonhadas e não concretizadas… E os nossos olhos, vêem-nas correr e correm também atrás delas, abraçam-se na amplidão do mar, diluem-se no infinito e desaparecem tragadas pelo nada onde se quedam…
Regressado a Bragança após umas curtas férias em Oeiras vejo-me a braços com uma arreliadora constipação que me prostra e me inibe, consequência dos medicamentos que tenho de tomar. Lembro-me do mar e do rio que nele desagua, dos horizontes longínquos que albergaram meus sonhos, do retorno do meu barco de papel ao porto donde partira, do brilho das estrelas que deram luz à minha vida. E a ponte que eu olhava além, via passar as águas que jamais regressariam e seguiam a caminho do mar, esse mar onde moram as ilusões que o tempo desfez e se ouvem no pio triste das gaivotas. Cessou o canto sedutor das sereias, ouço apenas o marulhar das águas e o bater inclemente das ondas. São longas as praias onde passeio meus passos já cansados. Busco um outro alento que dê força à minha alma, busco-o com afinco, com a vontade de que meu barco encontre outras estrelas que do céu me caiam, que me leve a outras montanhas onde descanse e mitigue a minha sede de infinito. Quero encontrar a vida que me foge, construir um outro amanhã, pacificar um coração que se habituou a sofrer na imensa solidão que o tomou, encontrar uns olhos que saibam ler na minha alma a melancolia que nela se instalou e que eu quero banir para todo o sempre. Preciso de olhar o céu e ver o brilho intenso das estrelas, fulgurante, sereno, suave…
Perco-me em recordações e esqueço-me do hoje. Quando nestas noites cálidas de verão, me sento no sofá e procuro concentrar-me no presente, o meu pensamento perde-se e vagueia pelo tempo à procura de certezas que eliminem meus medos e me apontem caminhos que quero trilhar.
É difícil ser feliz! Construímos a vida pressupondo que baste querermos para alcançarmos aquilo por que lutamos e esquecemo-nos que nem todas as forças convergem para esse objetivo e se umas nos atraem para o centro dos nossos sonhos, outras nos afastam e nos lançam na maior das desilusões. E, por mais que lutemos, por mais que procuremos, por mais que nos esforcemos para encontrar a felicidade que almejamos, há sempre escolhos no caminho, há sempre dúvidas, incertezas, incompreensões, desamores que nos angustiam e nos ferem. E quando as pequenas feridas que vamos acumulando no decorrer da vida, se juntam e nos magoam, às vezes, quase sempre, os sonhos desabam com fragor e é grande a desilusão nas nossas vidas.
Tudo tem o seu tempo… E até a amargura se recicla… No meio do deserto, surge, por vezes, um oásis onde saciar a sede e descansar os nossos corações. Abrimo-nos à vida, mergulhamos nesse lago de esperança que o oásis nos oferece e procuramos acreditar que ainda é possível sobreviver à tristeza. Erguemo-nos e caminhamos na senda de novos sonhos, esperando que não sejam novas ilusões. A vida continua, o tempo passa, sob a ponte as águas do rio correm para o mar, imparáveis, apressadas, à procura do sal que tempere a sua ânsia de chegar além, ao horizonte, onde, novamente, os barquinhos de papel procuram as estrelas. E outra vez sonhamos… Se o futuro fosse hoje…

2 – Morreu Camilo de Oliveira, um Senhor na arte cénica portuguesa das últimas décadas, um colosso do humor, uma personagem inesquecível para quem acompanhou a sua carreira de tantos anos. Os Grandes também morrem, mas ficam sempre entre nós pela sua obra que servirá de exemplo aos que vêm a seguir. Estaremos sempre com Camilo porque ele soube conquistar os nossos corações e jamais sairá da nossa lembrança. Camilo será mais um dos que “ por obras valerosas se vão da lei da morte libertando “.

Bragança, 4/7/2016

sábado, 2 de julho de 2016

REFLEXÕES DE UMA TARDE DE VERÃO

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Hoje vou escrever uma crónica um pouco diferente e em vez de tratar e desenvolverum tema ou contar uma história, vou deixar deambular a mente, livremente , por ai , esquentada por este calor estival que nos convida às sombras e às bebidas frescas.
Uma das coisas que me ocorreu tratar, foi a beleza,não a beleza dos campos e jardins ,matizados das mais lindas flores ou do verde suave dos prados, do sussurrar sereno das águas dos rios e riachos , do trinado das aves canoras , do azul esplendoroso dos céus... Não, apetece-me falar da beleza feminina , rivalizando com a beleza da natureza , em harmonia e cor , na suavidade dos movimentos , quiçá na ternura da voz... 
Espectador insuspeito , sento-me numa qualquer esplanada e aprecio o movimento dos corpos , quase desnudos , de muitas beldades , realçando as formas , aprimorando os rostos , abrilhantando o olhar , estudando os gestos , calculando os passos... 
E dá gosto olhar e sonhar belezas ocultas que se adivinham , a juntas às que os nossos olhos vêem... 
E ali ficamos absortos no pensamento e na lembrança de outros tempos em que os nossos olhos brilhavam e os nossos corpos tremiam à passagem de uma mulher bonita que nos excitava os sentidos... Hoje, tudo é diferente... A quantidade e a qualidade aumentaram exponencialmente, a beleza feminina ,natural ou fabricada , é uma constante e a excitação que provocam nos jovens não tem paralelo com a que provocavam no " antigamente ", quando uma saia ou um vestido mais curtos nos levavam aos céus... 
Os jovens de hoje são uns felizardos , vivem no seio da beleza e nem se apercebem dela , tudo é natural ,tudo a natureza lhes oferece ...e há flores tão lindas...
Fico ali sentado , os olhos espraiando , os sonhos voando no tempo , pomba branca que já foi falcão , sonhando horizontes onde eles não vão... Fico ali sentado e,antes que o tempo passe e me tire o olhar, olho , discretamente , a beleza que passa e escrevo , na mente , poemas de amor que ninguém lerá... Depois, depois, vou dormir a sesta e descansar da excitação , a que não é alheio o tempo , arrumar os sonhos , descer ao real.. 
A sesta é quase uma instituição nacional. E sabe tão bem... Sento-me no sofá , manuseio o jornal , fecho o facebook e...durmo um pouco , não muito ... Às vezes dá-me para sonhar , coisas sem nexo , outras que gostaria fossem reais , outras ainda relacionadas com a vida e seus problemas.... 
Hoje na TV falava-se do ORPHEU e dos 100 anos da sua publicação. O entrevistado fez uma boa apresentação da assunto e mostrou a obra , os números publicados ( 2 ) e um terceiro que estaria pronto para publicação, mas que não o chegou a ser. Falou dos mentores do movimento : F. Pessoa , Mário Sá Carneiro e Almada Negreiros , das reações que provocou na época , do vanguardismo que inspirou toda a literatura portuguesa subsequente. Loucura criativa própria dos génios...
Na ordem do dia , está o problema da Grécia. Fala-se muito , diz-se pouco , esgrimam-se verdades e inverdades , omite-se , acrescenta-se , sofre-se e faz-se sofrer. Há os que sabem tudo e os que não sabem nada, os que emitem opiniões criticas fundamentadas e os que deturpam e insultam , como é apanágio dos ignorantes. 
Na Mitologia da Grécia Antiga havia alguns milhares de Deuses e Semi - Deuses. Depois de uma letargia de milénios, pode ser que acordem e intervenham a tempo de resolver a contenda...Bom seria... Deus sempre ajudou os necessitados, mas , às vezes , parece estar distraído. 
Por cá, não precisamos da intervenção dos Deuses. Não vivemos em pecado e temos pensadores experimentados e infalíveis que não têm quaisquer dúvidas. Sabemos que o Reino de Deus será dos pobres e , portanto , estamos descansados. Os ricos não precisam do céu e não farão concorrência à plebe. Só esperamos que não chova na festa... 
Quanto ao Olimpo, bem , esperemos que os milhares de Deuses se entendam e não arranjem algum empate técnico que transfira para os simples heróis a resolução do caso... Ou que CRONOS se irrite e arrase tudo com alguma tempestade.... 
Mas é tempo de férias e o mar está calmo... 
Proliferam as festas e romarias , por todo o lado há gigantones e cabeçudos , para lá do Minho onde se dança o vira.

REFLEXÕES DE UMA TARDE DE VERÃO

Crónicas do meu viver  // Por Luís Machado

Hoje é o primeiro dia de verão. O dia acordou sereno e o azul dos céus confunde-se com o azul das águas do mar que meus olhos miram, sentado na esplanada fresca onde me encontro. Ali se juntam as águas do rio que corre suavemente, com as águas do mar imenso que as recebe com amor e as junta a todas as outras águas que, apaixonadamente, caíram nos seus braços. Além vejo a ponte que se confunde com um desenho simples de criança, traços geométricos que parecem baloiçar ante meus olhos cansados e me fazem lembrar a passagem do sonho à realidade, anseios que se transportam, dia após dia, na procura de algo próximo da felicidade. Para muitos, a ponte é cada vez maior e do outro lado há apenas desilusões e tristezas. Os sonhos vão-se ficando no trajecto longo, trucidados pela realidade que lhes mostra sofrimento e dor e torna a felicidade uma miragem que vive no deserto sem fim das suas vidas. Volto à minha esplanada e contemplo as águas deste mar imenso. Liberto os meus sonhos lendo algumas páginas de Mia Couto. Miro-me nas águas serenas deste quase lago e vejo, nesse espelho, a minha alma intranquila, buscando, no horizonte, outros caminhos que me levem ao Éden que procuro. Há névoas que o ocultam, já vai alto o sol e apenas alguns barquinhos desenham piruetas nas águas, rumo ao seu destino. À minha volta há gente que passa, que fala alto e diz coisas que eu não ouço, porque eu estou só, pensando em todos, mas não sentindo ninguém. Às vezes, o meu pensamento voa para bem longe, para outros mundos onde a paisagem e os costumes são diferentes.

E eu que tenho no meu coração hábitos bem arreigados, para me fazer compreender, tenho, por vezes, de dizer o que não penso e de pensar o que não digo, buscando o equilíbrio. E há sonhos que me empolgam, desejos que persigo, anseios que espero, um dia, se tornem realidade E as águas vão correndo por baixo daquela ponte, olhando, com ansiedade, o mar, ao longe, aguardando o momento daquele abraço eterno, em que as vontades se fundem e a sua doçura acre absorva o gosto profundo do sal. Gostaria de viver esse momento, sentir o pulsar de um coração que desse vida ao meu, que adoçasse o sabor amargo das minhas lágrimas que não consigo evitar quando os meus olhos pensam. Talvez o meu futuro esteja no mar, esse mar em que as ondas rebentam em espuma rendilhada, na penedia da minha alma.

O sol vai subindo e está quase no seu apogeu. Aqui, no lugar em que me encontro, sopra uma brisa fresca, vinda do mar. Observo o semblante de quem passa ou de quem, ausente, me faz companhia. Há corpos esbeltos, cirandando, mostrando seus encantos, curvas bem delineadas, ondulando ao ritmo da brisa. As pupilas dos meus olhos alargam-se para melhor os ver e sinto-me Rembrant, pintando o belo. O azul forte das águas, parece alargar-se até ao infinito. Sinto a maresia e a maré baixa deixa a descoberto a penedia, onde miúdos e graúdos se entretém a apanhar mariscos. Um barco a motor, aqui bem perto, sulca as águas, deixando um rastro branco que se vai sumindo lentamente. Olho e vejo o longe. Imagino mais do que vejo e sei que há vida na outra margem, escondida atrás do arvoredo que vislumbro. Talvez alguém esteja feliz, enquanto outros sofrem. A vida é feita de alegria e sofrimento. O meu coração está calmo, sinto o pulsar da vida e sigo o meu caminho que não sei onde vai terminar. A vida também é procura e felizes dos que encontram. De sonho em sonho, como quem sobe uma escadaria, vamos trepando até encontramos o Éden...

Por vezes, há escolhos no caminho e não conseguimos subir mais do que alguns degraus. Será que há inferno? Ontem fomos dar um passei até ao Cabo da Roca e no regresso, paramos na Boca do Inferno. Um exemplo típico do belo horrível, embalado por uma lenda que fala de amores contrariados. Alguém disse, em voz alta, que o inferno tinha uma boca bem grande, ao que eu retorqui que não era suficientemente grande para abocanhar toda a maldade humana. Mas ao olharmos aquela boca horrenda, vem-nos à lembrança a lenda do amor que ali teve origem e isso nos sossega , porque ainda há amor no mundo e os romances acontecem e vivem-se, tantas vezes, em silêncio e no âmago dos nossos corações. E não se dizem porque impossíveis à partida, transforma-mo-los em sonhos e guarda-mo-los no baú das recordações, na prateleira das coisas belas que nos sucederam na vida. E voltamos à realidade, onde também há sonhos à espera da luz diáfana que os traga à ribalta. Porque também há honra nos sonhos, nos nossos e nos que induzimos no coração dos outros...Sempre a luz brilhará quando juntarmos os sonhos e procurarmos o Éden... Lá vai o barquinho à vela, sulcando as águas desse mar profundo, ouvindo o piar das gaivotas e levando os meus sonhos. Levantou a névoa, o horizonte está mais límpido, não há nuvens no céu azul que se confunde com o azul do mar...

São horas de ir almoçar. Levanto os olhos do caderno onde escrevo e observo o caminhar das gentes... Há tanta gente linda por aqui, com muitos anos de beleza interior...Procuro penetrar os seus corações e perceber... Há tantos olhos que olham para mim sem me ver, como a mim custa entender o que se refugia por trás do silêncio em que se escondem... 

Oeiras, 23-06-2016

NAVEGUEI NO TEU OLHAR


Naveguei no teu olhar,
teus doces beijos bebi,
quantos mais beijos bebia,
mais sede tinha de ti...

Percorri as tuas curvas,
ondulei no peito teu,
havia abismos profundos
onde meu estro desceu...

Aspirei os teus odores,
as fragrâncias que exalavas,
há rios nos vales profundos
onde meu estro levavas...

Deixo meu estro descer
nos meandros desse rio,
desliso nas tuas margens
onde nunca sinto frio...

Quando o rio se faz mar,
deito a cabeça em teu peito
olho as estrelas do céu,
descansando no teu leito...

É doce o meu descansar,
sentindo o teu coração
bater certinho em meu peito,
arfando com a emoção...

Sinto em mim crescer a vida,
passa em mim uma certeza,
nem só nas curvas do corpo
mora essa tua beleza...

Podes ondular ao vento
nas curvas que Deus te deu,
só há um rio que me afoga,
o brilho do olhar teu...

15-06-2016

Luís Machado

TIVE SAUDADES DO MAR


Tive saudades do mar,
ondas lavando meus pés
cansados de procurar...

Areais quase sem fim
afagados pelo vento,
tantos grãos se ali juntaram
ao meu pobre pensamento...

Das ideias que nasceram
na praia do esquecimento,
construi sonhos dourados,
fiz castelos de ilusões,
mandei-os num barco à vela
à procurado futuro,
navegando sobre as ondas
das tristezas que encontrou,
mundo vestido de escuro
onde Cristo não passou!

Espelho onde me mirei,
águas desse mar profundo,
vi minhas mágoas chorar
as mágoas desse outro mundo
onde não quero chegar...

E as ondas, devagarinho,
deixam passar meu barquinho,
levando os sonhos dourados
e os castelos de ilusões
para um outro mundo distante,
onde talvez haja um sol
que derreta o sofrimento...

E o mar da minha saudade
levará meu pensamento
para esse outro mundo sem dor
onde haja paz e amor...

15-06-2016

Luis Machado

O AMOR E O MUNDO

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Estava eu a pensar na escolha de um tema para escrever a minha crónica semanal, quando, folheando um caderno, deparei com o seguinte pensamento que escrevera numa das suas paginas : " Na dúvida entre dois amores, é sábio descartar os dois, pois se fosse amor não haveria dúvidas...". Não sei quem é o autor do pensamento, mas parece-me interessante refletir um pouco sobre ele, já que o tema do amor é um assunto inesgotável que a todos interessa e fascina. É óbvio que o pensamento se refere ao amor entre duas pessoas, porque em se tratando de outros amores, não faria sentido tal conclusão. Podemos amar, simultaneamente, a pintura, a literatura, o ballet, o teatro, o cinema, o desporto, e não há qualquer incompatibilidade entre esses amores diversos. Mas tratando-se de amor entre duas pessoas, o problema é mais complexo e daí a conclusão do pensamento referido.


E será mesmo assim? Em todas as circunstâncias? Será que um homem não pode amar duas mulheres, em simultâneo, ou uma mulher amar dois homens? Não haverá, pelo menos, um momento em que o coração se reparte entre um amor que se vive e outro que se adivinha? Não haverá um momento em que o sentimento e a razão se confundem e, perplexos será difícil a escolha? E não é legitima a dúvida que se instala, a um coração que tem de decidir qual o caminho a seguir? Será que a solução é descartar os dois?

E aqui se põe o problema do amor verdadeiro. O amor verdadeiro tem de estar preparado para resistir a tudo. Ele acontece quando dois seres humanos se amam e sabem resistir, em todas as circunstâncias, aos problemas que possam surgir, nada os abala, ultrapassam as dificuldades, unem-se nos momentos difíceis e cantam hossanas nos momentos de alegria. Será que existe o amor verdadeiro? A promiscuidade que existe na sociedade actual, com traições, desprezos, humilhações, mentiras, faz com que muitas pessoas não acreditem no amor verdadeiro que é confundido com paixão. Esta preocupa-se com as pequenas coisas, o prazer momentâneo, impetuoso, fútil, ao contrário do amor que vive de sentimentos profundos que perduram no tempo, mas que não é, necessariamente, eterno. Quando uma das partes quebra o compromisso assumido, trai, quebra-se a confiança e o amor soçobra, tantas vezes, com uma tristeza que avassala a alma. O amor verdadeiro implica, antes do mais, que cada uma das pessoas que ama, se ame a si própria, saiba ser integra consigo própria, cuide a beleza interior e exterior como um todo. Quem não se ama a si próprio, não pode amar os outros, quem não respeita os seus próprios valores, não pode respeitar o seu parceiro e os valores que assume. Daí que o amor verdadeiro implica trabalho, determinação, sacrifício, abnegação, um cuidado permanente com o outro, um saber assumir prioridades e cuidados. Não se limita às palavras românticas trocadas nos momentos de êxtase, nem aos momentos eróticos que sempre acontecem. Vai muito para além disso. Cada ser humano constrói o tipo de amor verdadeiro que o faz feliz e não há um tipo de amor padronizado, que a todos satisfaça. Cada um constrói o seu próprio amor, conforme a sua personalidade e o seu grau de exigência e vontade. Amor verdadeiro será, numa linguagem poética, " aquele que o vento não leva e a distância não separa". Mas há tantos que o vento leva e não resistem à separação que a distância impõe.." Longe da vista, longe do coração", assim diz o adágio popular. Só um amor verdadeiro, real, forte, determinado, alicerçado em valores e sentimentos muito profundos, resistirá aos ventos que o assolam e à distância que o enfraquece.

Num mundo em mutação acelerada, em que os valores se esvaem e campeia o egoísmo, em que se privilegia o supérfluo e o acessório e se esquece o essencial, em que as palavras adquirem um significado diferente conforme as circunstancias, em que a palavra amor se banaliza e se emprega sem o significado profundo que deveria ter, falar de amor verdadeiro é falar de algo complexo que talvez não exista, que talvez seja uma utopia, que talvez seja a ligo a que aspiramos, mas que a vida actual, promiscua, egoísta, dificilmente permite. E como os seres superiores, aqueles que mudaram o mundo e nos impuseram as suas ideias, aqueles que se vão da lei da morte libertando, também têm coração e amam, aqui lhes deixo um pensamento sublime de Albert Einstein: " Se um dia tiver de escolher entre o mundo e o amor, lembre-se: se escolher o mundo ficará caem amor, mas se escolher o amor, você com ele, conquistará o mundo ".

Lembrem-se mesmo, às vezes, pequenas decisões mal tomadas, levam às grandes rupturas...

Bragança,12-06-2016

TRISTEZA

Às vezes, apetece-me fugir,
sumir-me na vida,
não ser nada,
banir do coraçao
todos os anseios,
expulsar os sonhos
que em meu peito vivem...

Sinto vontade de procurar
na ternura das nuvens,
na imensidão dos céus,
lugar para a minha alma
descansar desta ilusão
em que vive meu triste
coração, magoado,só,
desolado,inconformado,
que procura e não acha,
que não compreende o amor...

Sinto,por vezes, a ilusão
de ser feliz e canto,
na minh' alma, canções,
de enternecer o coração...

Querubins sorriem,nos meus céus,
as estrelas brilham
com outro fulgor,
sinto no meu peito
o coraçao bater de um outro geito,
acredito, sonho, caminho
por veredas cheirando a alfazema,
ouço as águas dos rios murmurar
os nomes lindos que eu digo
sem cessar
e o sol, raiando em seu esplendor,
aquece minh'alma
com amor...

Mas tudo é efémero,
existe um só instante,
tudo volta à tristeza,
esvazia minh'alma ,
apago meu estro triunfante,
volto aos invios caminhos
que me levam à dor...
Depois...há sempre um antes e um depois,
tudo recomeça, tudo se repete...
Porque me fazes isso AMOR?

02-06-2016

Luís Machado

sábado, 28 de maio de 2016

AMOR E SAUDADE

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

"Esta palavra saudade, aquele que a inventou, a primeira vez que a disse, com certeza que chorou.". A minha mãe chamava-se Soledade, sinónimo de saudade, do latim solitate/ solidã. Quando se perde alguém que muito amávamos, mãe, esposa, filhos, netos, amigos, invade-nos uma grande tristeza, o nosso coração fica repleto de saudades e, em muitos casos, sentimo-nos sós, numa solidão que só o tempo conseguirá amenizar. Por vezes, pensamos que a vida fica sem sentido, que nada será igual nos nossos dias, que não mais teremos interesse em traçar objectivos que nos mobilizem, que todos os nossos sonhos se esfumam. É um período de luto que será mais ou menos prolongado, sendo, em alguns casos, eterno e levando à mais profunda solidão. Mas a vida tem de continuar, temos de reagir, sob pena de sermos mortos/vivos, vegetando, desistindo de tudo... Como dizia alguém "o luto tem apenas a duração necessária para você entender que precisa continuar de pé. " E reagimos, traçamos novos objectivos, construímos novos sonhos, fabricamos algumas ilusões que vamos alimentando com vontade e fé... Mas fica a saudade. E o que é a saudade? " A saudade é um sentimento causado pela distância ou ausência de alguém que amamos." e que é, ela própria, uma forma de solidão. Pode ter origem na ausência de alguém que já partiu ou de alguém que vive longe de nós, separados pela distância ou pelo desencontro, que não só a lonjura se mede em quilómetros, senão, também, pela ausência de afetos. E vem-me à lembrança um pequeno texto que me faz pensar e refletir sobre a verdade que encerra " Não encontramos ninguém por acaso.


Atravessamos o caminho uns dos outros por um motivo." E esse motivo é, às vezes, tão incompreensível que, pensamos, só Deus nos poderá ter levado a esse caminho. " Deus transforma choro em sorriso, dor em força, fraqueza em fé, sonho em realidade." A realidade que sonhamos, que perseguimos, que nos parece tangível e nos foge e regressa envolta em esperança, num jogo que nos cansa, vicia e desespera. E sempre que a realidade nos foge e volta a ser um sonho, sentimos saudades no nosso coração, sós num mundo de talvez, sem certezas, num mundo de procura e desencontro. Mas quando a realidade volta e o sonho se concretiza, é como se a vida sofresse um novo impulso, como se tudo começasse de novo, com o coração cheio de certezas, abolindo as saudades e o sofrimento que a solidão nos traz.
A minha mãe chamava-se Soledade, um outro nome da palavra saudade. Na minha sala de estar, recolhida num dos cantos mais belos, está um quadro pintado por um amigo, o retrato de minha mãe que bem parece o de N.ª Senhora das Dores, tal o ar de sofrimento que os seus longos anos lhe trouxeram. Olho-o, muitas vezes, com saudades dos meus tempos de menino e moço e vejo-a com aqueles olhos cavados pelo tempo, observando e sofrendo com a tristeza que, por vezes, me arrefecia a alma. Como ela compreendia a angústia que vivia no meu coração! Com o rodar dos tempos, habituei-me a vê-la com os olhos da saudade e a compreendê-la melhor!. O tempo nos ensina a valorizar o que perdemos!



Quando eu era adolescente ou jovem adulto, gostava de escrever cartas de amor às minhas ocasionais namoradas, amores que eram volúveis como o tempo que passa... Fui sempre um pouco teórico nessa área, ao contrário de alguns amigos que eram essencialmente práticos e cuja eficiência lhes trazia proveitos que eu apenas sonhava. Produto das minhas leituras de livros de cavalaria e outros de cariz romântica, eu sonhava com um amor ideal que buscava, encontrei e perdi... E era aí que a minha mãe compreendia o meu sofrimento e acho que sofria também. Mas a vida ensina-nos que é preciso permanecer de pé e continuar buscando outros caminhos, elaborando outros, quiçá quimeras, amanhãs que cantam nos nossos corações. Encontrei alguém a quem dediquei a minha vida, que foi a mãe dos meus filhos, cujo amor durou 52 anos e a quem escrevi centenas de cartas de amor, quando estava distante e o meu coração estava cheio de saudades. Eram cartas simples e românticas que escrevia no silêncio do meu quarto de solteiro, nas terras que percorria ou quando ela se ausentava para férias que eram muitas naquele tempo distante. Eram cartas simples, versando temas simples como, recordo-me, as deambulações de uma aranha, num canto da minha secretária, ou um raio de sol que penetrava, envergonhado, por uma frecha da janela fechada. Eram cartas que diziam da saudade pela ausência que a distância aumentava. Tudo na vida tem um princípio e um fim. Podemos escolher o princípio, mas não sabemos nunca quando chegará o fim.! Mas, um dia, ele chega e ao esplendor do sol sucede o negrume da noite, e logo a saudade, a interrogação " E agora?" Podemos escolher vários caminhos, buscar uma outra vida, desistir, viver no nada, refugiarmo-nos em pensamentos negativos...

E o tempo passa e com ele vem a serenidade do espírito!!
Cada um escolhe o seu caminho, a maneira de o trilhar, os meios para chegar ao termo da jornada. Cada um escolhe entre viver ou ver a vida passar. Eu escolhi viver e busco o meu destino. Dou passos para lá chegar, devagar, que tenho pressa e já não posso correr. Acho que ainda tenho tempo para lá chegar. Há vozes que eu ouço e me enviam saudades e eu escrevo poemas onde digo " se tu disseres que me amas, meus olhos serão, para sempre, teus." Hoje já quase se não escrevem cartas de amor, tudo é diferente e mais célere, as novas tecnologias tudo permitem. Mas a palavra saudade escreve-se com as mesmas letras e é o mesmo sentimento que as dita.
Mas ainda há quem escreva cartas de amor, talvez diferentes das de outrora, mais assertivas, mas, ainda assim, encantadoras. Vejam só...

Aviso do namorado novo Eu não admito que a minha namorada vá visitar um Amigo. Porque toda essa consideração, mimos, carinho, atenção, e etc, que o amigo lhe dá, foi o mesmo que eu usei para lhe conquistar. Até porque, antes de namorados, ela foi minha desconhecida, passou a ser conhecida, ficou Amiga e só depois passou a ser namorada. Portanto não me vem aqui com truques de meu Best, fiuto-fiuto, e o mais agravante é que os moços em Angola não gostam de receber as Amigas no solo ou no quintal, querem logo levar no quarto. Ah, porque é para conversar melhor, ter mais privacidade e tal. Com namorada do outro queres privacidade pra quê? Ham?
Epha, amor, fica já a saber, se você ir visitar um teu Amigo, nosso namoro termina, mesmo se o tal Amigo tá doente, você não pode ele ir visitar, você tem de esperar ele morra, pra poder ir no óbito. E eu como sou bom namorado até faço questão de te acompanhar e até ajudar chorar e a meter o cão no buraco."( com a devida vénia partilhado de Quero-te no meu Chat...Amor à distância... Distancia em que o Amor é saudade e desejo).
Amor e saudade dos nossos dias e de sempre. Digam lá que não é lindo!!!

Bragança, 26-05-2016

QUANDO A VIDA SORRI...


Quando a vida nos sorri
e os nossos olhos brilham
ao contemplar as estrelas,
quando o amor nos toca
e a nossa alma se eleva aos céus
e aquece os nossos corações,
tudo é belo,tudo são flores,
paraísos de rosas,vermelhas de sangue,
cascatas de sonhos descendo
do peito,nenúfares nadando
em beijos sonhados,lábios desenhados
cheirando a jasmim,
olhos que são luz de sois
cujos raios,descendo dos céus,
louram os trigais, ondeando ao vento,
ondas de ternura e doce carinho,
embalando a vida ,o nosso caminho...

Sem ódio, sem raiva, só paz,
campinas enormes por onde se espraia
o meu pensamento,
lagos de ternura onde nadam cisnes,
prados verdejantes onde nascem palavras
cantando o amor
e o mar cujas ondas
levam os meus sonhos
e me trazem, dolentes,
saudades sem fim,
de areais dourados,que vou percorrendo,
sonhando encontrar-te
à espera de mim...

Luís Machado

O QUE É A FELICIDADE?

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Quando li um pensamento de John Lennon sobre a felicidade, percebi que tinha encontrado o mote para a minha crónica de hoje. O insigne elemento dos Beatles, contava que, quando tinha 5 anos, a mãe lhe dizia que a felicidade era a chave da vida e que, quando fora para a escola, lhe perguntaram o que queria ser quando fosse grande, ao que ele respondeu que queria ser feliz. Na escola responderam-lhe que não tinha percebido o exercício. A sua resposta é brilhante, ao retorquir que " eles não entendiam a vida "

Na verdade, se nós pusermos a mesma pergunta de outro modo...queres ser feliz quando fores grande?... todos responderíamos afirmativamente, sendo que o conceito de felicidade seria diverso para cada um de nós. Porque, na verdade, o que é a felicidade? Será, em abstrato," um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio," " um bem estar espiritual ou paz interior " e é, no fundo, diferente para cada ser humano, uma questão individual que cada um resolve e sente a seu modo.

Quando eu era criança, tudo o que eu queria era que me deixassem brincar em liberdade, jogar a bola, correr, esfolar os joelhos, tomar banho no rio com os companheiros, subir às árvores à procura de ninhos, caçar grilos nas tocas no meio do mato, comer o gostoso creme que a minha mãe fazia nos dias de festa ou aniversários... E era feliz, sem saber que o era, sem precisar de definições filosóficas do conceito, era feliz porque o que fazia me dava prazer, satisfazia os meus anseios de criança...

Depois crescemos, vem a adolescência, começamos a olhar a vida com outros olhos, a sonhar, a relacionar-mo-nos com os outros de uma maneira diferente, surge o amor e o desamor, procuramos futuros...E, um dia, alguém nos pergunta " És feliz? " E custa-nos responder, porque não temos respostas. Quem pergunta? Porquê?

Lembro-me que, um dia, nessa longínqua adolescência, alguém me fez essa pergunta, e eu menti e disse que sim, mas não era e quem perguntava, sabia-o ! Tinha-se desfeito um dos meus sonhos, ruído uma das minhas ilusões... Era um tempo em que eu pensava que o mundo ia desabar sobre mim... Tudo era confuso, sem sentido, sem presente nem futuro, sem ambição, interessado apenas em esquecer o passado que me desiludira e magoara profundamente...E não só no amor.

Mas a vida sempre renasce pela primavera e o tempo cura todos os males, esquecemos e descobrimos outros caminhos que nos mostram outras paisagens... E o tempo passa, caímos e nos levantamos, vezes sem conta, nesse caminhar insano pela vida, à procura da resposta à pergunta da minha adolescência, resposta que nunca é definitiva, que varia como a brisa ou o vento que nos afaga ou agride...

Quando já muito se viveu, sabemos que a felicidade não é um conceito simplista que cabe numa definição em que as palavras mascaram, muitas vezes, a realidade. Para os meninos pobres dos bairros degradados das nossas maiores cidades, ser feliz é ter uma casa modesta para dormir, comer o que a escola lhes dá ou pouco mais, ter uma bola para dar uns pontapés. Para os meninos para quem o dinheiro não é problema, ser feliz é ter tudo e não ter nada, porque nada interessa a quem nada falta. O materialismo, o consumismo, tudo subverteram, o que sobra em meios falta, muitas vezes, em afetos. Num mundo em que o ter se tornou a coisa mais importante da vida das sociedades, não ter nem sempre é razão para a infelicidade, quando a fraternidade, a solidariedade, a amizade, o amor, superam as carências. Dar-se, compartilhar, servir, amar, levar-nos-ão, por certo, a um estado de alma que bem podemos chamar de felicidade... Ao egoísmo feroz que tudo destrói, contraponhamos o altruísmo, o amor ao outro, nosso próximo, a quem, em abstrato, tudo se oferece, mas nada se dá, em concreto. Honra aos que são felizes, dando-te em amor aos outros, seus irmãos, aos que, aliviando o sofrimento alheio, mitigam, muitas vezes, o próprio sofrimento.

E, no campo do amor, lembrem-se que só dando se recebe, se compreendendo se é compreendido, só distribuindo carinho se recebe ternura, só oferecendo lealmente o coração, se recebe outro em troca. A paixão é apenas um fogacho que o tempo extingue. O amor é um sentimento que perdura para além dos arroubos impetuosos da paixão. O amor leva felicidade aos corações, a paixão leva prazer e dor e sofrimento. Como dizia Albert Camus, escritor e filósofo existencialista, " ninguém será feliz se continuar a procurar em que consiste a felicidade". Mais do que se interrogar, construa-a, liberte-se, procure-a," hoje pode ser o melhor dia da sua vida. Talvez você só descubra isto amanhã e terá perdido a oportunidade de ser feliz hoje.". Não deixe passar o tempo, não se questione se é novo ou velho, tem sempre idade para ser feliz. Aja de modo a que se alguém lhe perguntar " És feliz?", possa dizer SIM, com outra convicção que não a minha em tempos de adolescência...

DEAMBULO PELO MUNDO, EM PENSAMENTO

Crónicas do meu viver.// Por Luís Machado

Hoje a primavera resolveu dar um ar da sua graça e o sol espreitou por entre algumas nuvens que ainda persistem. Mas, um vento frio obriga-nos a não prescindir de um agasalho, já que a temperatura ambiente é ainda relativamente baixa. A sala onde me encontro , com uma suave e harmoniosa música de fundo, está um pouco fria que aconselha a que me acautele e ligue o aquecimento , situação anormal em meados de Maio. Ainda não há cerejas e tardam a florescer as rosas nos jardins. E eu que amo as rosas, olho com ansiedade os pequenos botões que começam a despontar, esperando que o sol e o calor tragam beleza e perfume aos jardins que cuidamos. 

Hoje não houve aulas na Universidade Sénior que frequento, pelo que recolhi a casa mais cedo e aproveito o tempo para me deliciar com algumas das músicas que adoro e me ajudam a descansar o espírito. Neste momento ouço a Carmina Burana, pelo Coro Regina Coeli, de Lisboa. Selecionei ainda, para posterior audição, o Concerto de Aranjuez, de Rodrigo,Villa--Lobos, e algumas peças de Canto Gregoriano. Enquanto ouço, vou escrevendo, reflito e sonho...Deambulo pelo mundo, em pensamento, assistindo, pesaroso, às tragédias que sobre ele se abatem e extasiando-me com as coisas boas a que também vou assistindo. No facebook leio: " Era pastora de cabras , em pequena, em Marrocos ! De família humilde! É hoje a Ministra da Educação em Franca.! Não permitas que nada te diga que não podes! Quanto mais perto estás do caos absoluto, mais perto estás da solução. ". 

O poder do querer! Cada um de nós tem em si potencialidades que nos permitem saltar do caos para a ribalta, se nos empenharmos e soubermos encontrar o caminho que lá nos levará. Os mais humildes dos seres humanos, nascidos nas condições de maior carência, podem, se procurarem e lhes forem facultados meios , seguir caminhos que os levem a um outro patamar.Dentro de cada ser humano há tesouros extraordinários a sondar e explorar. As grandes mulheres e homens que, de quando em vez , emergem do anonimato, são disso exemplo. Tu podes, assim tu queiras.!

Às vezes, andamos perdidos na vida, à procura não sabemos de quê, nem de quem. Vagueamos na imensidão do tempo, consumimos os nossos dias com futilidades e pessoas menos interessantes, repetimos lugares comuns em vez de refletirmos e procurarmos soluções interessantes para os nossos problemas, aceitamos imposições em vez de , livremente , procurarmos caminhos ,recusamo-nos a aprender a voar , porque sonhar é coisa de poetas, acomodamo-nos ao consumo fácil de ilusões , procuramos o ter em vez do ser, impanturramo-nos de coisas que nos consolam , em vez de repartirmos o supérfluo com os que nada têm, cacarejamos em vez de apendermos a falar de coisas séria s...E um dia encontramos , por acaso? , alguém que nos acorda e nos mostra outros caminhos, que nos tira do torpor em que , inconscientemente, vivíamos e nos lança desafios e nos convida a outros fazeres que acordam saberes que nem já sabíamos que tínhamos e a nossa vida se transforma e adquire outra dimensão.

Na amizade e no amor , também assim sucede. Encontrar amigos , verdadeiros amigos , não é tarefa fácil. A amizade é um sentimento muito profundo que aquece o nosso coraçao e nos consola a alma. Aparece e cresce quando dois seres descobrem afinidades entre si e trocam afetos. É interessante um pequeno texto que alguém divulgou : " Se te faz sorrir é porque te faz bem.! Se te faz bem, não deixes escapar. ". Assim nasce, às vezes, uma grande amizade que se estenderá por toda a vida, um sorriso, uma palavra, um gesto ,uma atitude . E quando , para além de tudo isto , há olhares que se cruzam e um impulso enorme de abraçar alguém , então é o amor que desperta, que explode e se manifestará em declarações ternas e doces e em promessas de amor eterno. Tão ternas que o infinito será a sua dimensão.

Deambulo, em pensamento , pelo mundo e vejo as tragédias ,os ódios , is radicalismos, mas também as manifestações de amor ao próximo, de solidariedade , de fraternidade entre os homens, que , às vezes , se mostram em coisas bem simples , como o azulejo que alguém partilhou no facebook e que diz assim : " A minha casa é pequenina / é pequenina pouco importa /chega para mim e para os meus / e também graças a Deus /para quem me bater à porta ." . Grande e profundo e belo, tão belo como o coração de quem o escreveu com amor...

MARIA E OUTRAS FLORES


E se todas as flores
se chamassem MARIA?
Haveria outros exemplares
no meu jardim?
Perfumariam as rosas
meu espaço
e as primaveras ondulariam
nos meus ventos?
Cantariam as cores do arco-iris
minhas tulipas anãs
que tanto adoro?
E haveria os cravos vermelhos
do meu sangue?
E outras,tantas,tão belas,
agarradas aos canteiros como lapas,
sonhadoras,silentes...?
Mas há um cantinho,
só meu,
que só eu trato,
onde há Marias,
brancas de luar,
onde,quando estou triste,
vou chorar...
E se um sonho
ali pousa
para me consolar,
rego-o de perfumes
das flores tão belas
que só eu sei amar....

Luís Machado

sábado, 7 de maio de 2016

AS PALAVRAS E A VIDA

Crónicas do meu viver // Luís Machado

Vivemos numa sociedade de consumo em que, a cada segundo, se criam mais necessidades aos consumidores, ávidos de novidades e insaciáveis na procura permanente do que os satisfaça. O marketing e a publicidade se encarregam da tarefa de inculcar na mente de cada um a necessidade do que se vai fabricando, construindo ou organizando e poucos resistem à investida constante através dos media, em todas as suas formas,com especial relevância para a televisão. Poderíamos falar longamente sobre este tema ,tão rico ele é e tantas as vertentes que poderíamos abordar. Mas , hoje , queria debruçar-me sobre um consumo muito especial, o consumo das palavras. Nunca, em qualquer época, a palavra foi tão utilizada como nos nossos dias.Para alem do seu uso normal no quotidiano das nossas vidas e do uso especial que os profissionais da palavra lhe conferem, as novas tecnologias vieram acrescentar novas possibilidades de comunicação, usadas à saciedade pelas populações, com especial relevo para os jovens, que fazem do telemóvel, ipads, iPhones, smartphones e quejandos, uma companhia de todas as horas , com a utilização de muitos milhões de palavras.

Por outro lado , as redes sociais vieram permitir uma maior proximidade entre as pessoas que mal ou nem se conheciam, com a troca de mensagens e apreciação de textos , comentários, publicação de composições poéticas e em prosa , dando a conhecer valores que se perderiam , não fora a possibilidade que lhes é oferecida. E as palavras circulam à velocidade do pensamento, criando relações de amizade, amores, paixões que o tempo consolidará ou apagará para sempre. E tantas belas amizades se desenvolveram ao redor das palavras que se foram trocando no facebook, quantos amores descobertos na simples permuta de algumas palavras que apreciavam uns olhos lindos, escondidos por trás de uns óculos escuros que sugeriam todos os mistérios, quantas paixões as palavras incendiaram nos corações solitários que o amor agarrara e fizera crescer, em juras de amor eterno... E as palavras, que no amor se querem doces e ternas, perdem , por vezes , tal candura e tornam-se frias e distantes, como o coração de quem as pronuncia ou escreve. Como dizia alguém," se todos soubessem o peso das palavras, dariam mais valor ao silêncio. ". Mascas palavras são o doce alimento do amor, é com elas que se exprimem os sentimentos, tudo o que nos vai na alma, os sonhos, os anseios, as juras de amor eterno , as tristezas , a dor que nos consome , as saudades que sentimos ou a desilusão que nos arrasa. 
As palavras nem sempre são belas, como o silêncio nem sempre é de ouro. Às vezes, as palavras são punhais, como o silêncio é cúmplice de gestos menos edificantes ou quando calam comportamentos menos éticos. As palavras são tudo , o bem e o mal , veículos de actos heróicos ou de abnegação, tela de epopeias ou jardim de poemas que transcendem o belo... Mas são também o inferno da mentira e da traição, a ignomínia que aniquila o espírito, o insulto soez que destrói reputações e vidas, a sibilina jactância do medíocre que se arvora em génio , a fofoquice mísera que explora o boato, As palavras são o bem e o mal, o belo e o horrível, a ternura e a arrogância, a doce melodia de una ode ou o grito lancinante de una dor...

Eu amo as palavras e procuro usá-las com parcimónia e elegância, com probidade e lisura , sem ferir , antes fazer delas o veiculo dos meus afetos e dos meus anseios , da procura da justiça e da fraternidade... Admiro, com enlevo, os cultores da nossa língua, escultores da palavra e do pensamento, pintores da beleza do texto e do poema, cujo génio percorre o tempo e o espaço e chega aos confins do mundo que soubemos descobrir.
A vida é feita de encontros e desencontros e sempre a palavra surge como um dos seus elementos. Terminarei, transcrevendo a parte final de um dos meus poemas, intitulado " As palavras que não ouso "...E nesse momento ideal do nosso encontro, as palavras fluirão, fortes, puras, sem enigmas, melodiosas e doces, sem preconceitos, como a verdade que ambos procuramos ."... 
Como alguém disse, um dia, " algumas pessoas surgem nas nossas vidas como uma bênção, outras como lição ".São as palavras que pintam o cenário da vida que escolhemos.

ÍCARO


Como Ícaro,
quis chegar ao sol,
levando meus sonhos
para longe demais...
O que Dédalo fez
com seu filho amado,
construindo asas
para a liberdade,
assim eu fizera
com meu coraçao,
construindo sonhos
para ser feliz....
Voei, longamente ,
pelo céu azul,
sobre o mar imenso
que via s meus pés...
Minh'alma errante
deixou-se empolgar,
havia sóis , além ,
onde queria chegar
e guiei meus passos
nesse caminhar...
Minhas asas de sonhos
levam-me, voando,
por esse caminho
que me leva ao sol...
Mas as asas,frágeis,
derretem no tempo,
sonharam demais...
Qual Ícaro alado,
meus sonhos são penas
que o vento levou,
não chegam ao sol,
vão cair no mar,
sem que haja um Dédalo
para os apanhar...
Luis Machado

MÃE



MÃE

Olho o teu quadro, Mãe,
e vejo o teu olhar profundo e triste,
as rugas embelezando o rosto
macerado pelas agruras da vida...

As tuas mãos,
pálidas e longas como o tempo,
guardavam recordações
desse tempo em que,docemente,
me acariciavas a face,
me limpavas as lágrimas,
me ensinavas caminhos
qu' eu iria percorrer...

Lembro-me de ti,com emoção,
do teu grande ,enorme coraçao
sempre pronto a dar ,
muito mais que a receber
e os sonhos que tinhas
eram só de amor ,
polvilhados de muita, muita dor...

Cresci e só vte compreendi
quando outros sonhos
nasceram no meu peito
e percebi que Mãe
é um ser diferente
que vive no coração da gente,
adivinha o que sentimos,
percorre connosco
todos os caminhos
que temos de trilhar ,
ama e sabe perdoar,
vive as euforias
como chora as tristezas
que temos de enfrentar...

Mãe é sol e luz diáfana
que ilumina e aquece
o nosso coraçao,
é força , é sonho , é saudade,
é aquela que nos dá a mão
quando perdemos o pé
e quase nos afogamos
nas tempestades da vida...
É aquela que dá guarida
aos sonhos que vão morrendo,
nos abraça e nos conforta
quando morre uma ilusão,
é calmaria ,é bonança ,
quando nos acende a esperança
que vive no coração...

És tudo aquilo que sinto
quando me chega a saudade...
E quando olho o teu rosto,
enrugado , macerado ,
pelas agruras da vida,
queria regressar , no tempo ,
aos meus tempos de menino,
ser outra vez pequenino,
balouçar-me no teu colo,
reviver o teu amor ,
aquecer-me no teu peito,
banir para sempre esta dor
que ne ficou , ao teu jeito...

Luis Machado

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Visão


Caminhavas na praça, lentamente,
transportando ao colo o teu menino louro...
Eras linda, loura,de olhos azuis,
teus cabelos d' oiro,reflectindo o sol...

Passaste e teus olhos cruzaram os meus
e o meu pensamento se elevou aos céus,
agradecendo a Deus a tua beleza,
tão suave e profunda como a natureza...

O menino que ao colo levavas,
era , como tu , mais belo que o luar...
Lembrou-me um menino, um Jesus
que de tenra idade me habituei a amar...

Teus passos eram leves, dançando no ar ,
como a brisa que passa,
deixando um perfume de inebriar
que penetrou minh' alma e me fez sonhar...

Volátil, sumiste no tempo e do meu olhar,
com o teu menino , no peito colado,
e fiquei a pensar,se eras real ou tinha sonhado,
ou eras Maria com seu Cristo amado...

Eras linda e loira, de olhos azuis,
teus olhos brilhavam no azul dos céus,
rezei por ti uma breve oração,
cresceu no meu peito, em meu coração,

a certeza terna de tu seres Maria,
com este menino que ao teu colo ia,
trazendo paz a um mundo doente
e beleza e luz, doce, docemente...

Luis Machado

O 25 DE ABRIL E OUTROS SONHOS

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

1 - Após um interregno de algumas semanas em que não escrevi a crónica, por solidariedade para com o nosso diretor, incapacitado por uma arreliadora doença que, entretanto, debelou, eis-me de regresso ao agradável convívio daqueles que me honram com a sua leitura. Quando os amigos não estão bem, sentimos que as palavras e as ideias nos fogem e a inspiração nos falta. É nestes momentos que melhor entendemos o valor da amizade e vem ao de cima o nosso dever de solidariedade.
Hoje é o Dia Mundial do Amor e, em Portugal, comemoramos mais um aniversário do 25 de Abril. Que melhor dia para juntar amor e liberdade, solidariedade com afeto, igualdade com respeito por nós próprios e pelos outros? O 25 de Abril, mais que uma revolução, foi uma pedrada no charco da anestesiada sociedade portuguesa. Vivia-se um ambiente de passividade e tudo deixar correr e fazer, sem liberdade de expressão, num paternalismo que vinha de longe e que deixava às elites dirigentes a incumbência de tudo resolver. A guerra do ultramar deixava sequelas graves no tecido social, com centenas de milhares de jovens atirados para um cenário de guerra, na defesa de interesses que lhes vendiam como sendo os da Pátria. O esforço de guerra influenciava gravemente o desenvolvimento do país que se mantinha essencialmente rural e empregava a maioria da população na agricultura, com um poder de compra muito limitado, precárias condições de habitação, vias de acesso obsoletas, imensas dificuldades na educação e saúde. O 25 de Abril surgiu porque sempre há quem sonhe e aos valentes capitães que prepararam o golpe, juntou-se, espontaneamente, grande parte da população que sonhava com um Portugal melhor e mais desenvolvido, onde houvesse, como cantava Sérgio Godinho, saúde, pão e habitação para todos. Foi lindo o 25 de Abril, como foram lindos os dias e os tempos que se seguiram. Do torpor em que se vivia, passou-se à euforia, apareceram as canções de Abril, o povo cantava nas ruas, por todo o lado se criava e vivia um outro tempo. Os políticos foram aparecendo, de todos os quadrantes, tomando posição no assalto ao poder, quer os que se evidenciaram na luta contra o regime anterior, quer os que com ele colaboraram ou pactuaram e que, depressa, como convinha, vestiram o seu fato de democratas e cantaram também... 
Passaram 42 anos! Muito se fez e mais ficou por fazer. Houve avanços e recuos. Portugal transformou-se e sonhou com a Europa que lhe prometia liberdade, igualdade e fraternidade! Cometeram-se erros, desonestidades, corrupção, mas também se realizaram coisas importantes para o desenvolvimento do pais, sendo a joia da coroa , o Serviço Nacional de Saúde, levando a todos a possibilidade de tratarem os seus males...
A vida é como um escadório em que cada degrau é um dia da nossa existência. Degrau a degrau, vamos subindo até atingirmos o cimo. Pelo caminho, vamos doseando o esforço, descansando nos patamares, respirando fundo , observando o caminho percorrido , calculando o que falta percorrer , pensando, sonhando... E de sonho em sonho, " sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança", como dizia António Gedeão... O 25 de abril foi o sonho de várias gerações... Sonho frustrado? Sonho adiado ? O mundo pula e avança e, degrau a degrau, havemos de chegar ao cimo da escadaria, se todos dermos as mãos.... Hoje, foi um bom principio...


2- Num dos meus poemas, eu digo que passo a vida a pensar e também a sonhar com um mundo melhor e mais fraterno. E, às vezes, há pequenas coisas que nos enlevam e nos dão a certeza que ainda é possível... As palavras e os atos do Papa Francisco são disso um belo exemplo e fazem mais pela mudança do que todos os discursos hipócritas que vamos escutando... Um dia, o meu neto mais novo, disse-me: Avô, tu ainda não és velho, ainda não usas bengala "...Emocionei-me um pouco, dei-lhe um beijo e um sorriso e fiquei a pensar no assunto. Será que não sou já velho e fabrico ilusões nos sonhos que ainda tenho ? Ser velho é um estado de alma!. Se o corpo não responde, a mente corrige e suaviza os estragos do tempo. Não consigo deixar de pensar, logo, no dizer do filósofo, existo e se existo sonho , recordo , repito , crio, faço, iludo-me ,engano-me, corrijo , subo e Desço as escadas da vida, paro nos patamares, reflito e sigo... E é este querer, esta vontade de ser, de superar etapas e sonhar futuros, que me permite não usar bengala, nem me considerar velho. Desisti da idade, escrevi algures, a idade está no meu pensamento e, ora, acrescento, e no meu coração, cujos olhos percorrem os céus à procura de estrelas que iluminem a Minh ‘alma. Vejo-as e escuto, no silêncio da noite, as mensagens que dali me vêm, umas vezes tristes, outras mais de esperança. Sinto que a felicidade não tem tempo e que a vida tem de ser vivida com vontade e fé de que chegaremos ao fim da caminhada com brilho no olhar e amor no coração...

HÁ MELROS NO MEU JARDIM


Passeava um melro em meu jardim,
petiscando na relva os seus sabores...
Saltitava feliz, entre as flores
onde havia cravos, rosas e jasmim...

Era lindo o melro, seu bico amarelo
lembrava searas, ondulando ao vento,
e valsas que eu dançara num outro momento,
num amor precoce , mas , ainda assim , belo!

E havia no meu pensamento
um outro melro negro, madrugador , jovial,
cumprimentando o cura ao descer ao quintal,
lembrando-me tempos em que eu tinha alento !

Depois , noutras primaveras,
lembro-me de estrelas caídas dos céus,
enchendo de luz estes olhos meus,
tempo de sonhos, ilusões, quimeras...

A luz das estrelas se apagou um dia,
e vieram invernos, rigorosos, frios
e o meu coração que procurava estios,
encontrou solidão, ficou só , sofria...

Mas o tempo que ameniza a dor,
aqueceu a minh'alma com um sol radioso
que surgiu nos céus, brilhante, esplendoroso,
doce, sereno, cheio de luz e cor...

Chegou a primavera, com melros no jardim,
e os caminhos que eu trilhava
me mostraram oceanos que , de longe , mirava
e paisagens diferentes na lonjura sem fim...

Cantava o meu melro de bico amarelo,
na copa das árvores lá do meu jardim,
havia flores, rosas , amores, cheirava a jasmim,
a vida era verde, o tempo era rosa , o mundo era belo...

Havia gaivotas, voando nos mares,
levando meus sonhos para os horizontes
que eu sonhava aqui, no alto dos montes,
traziam esperanças, voando aos pares...

E o meu melro canta uma canção de amor,
trinados tão belos que fazem sonhar,
saudades que evoca que fazem chorar,
saudades que sinto que me trazem dor...

E ao vê-lo cantar assim , docemente,
ouvindo seus trinos que fazem vibrar,
o meu coração carente de amar,
grava na minh'alma a canção dolente...

Vai-se pondo o sol no meu horizonte,
meus passos são leves, já não tenho chão ,
mas há ainda esperança no meu coração
que o mar se levante e chegue ao meu monte...

Luis Machado

QUADRAS SOLTAS


Não sei o que têm teus olhos,
oh,como gostava de os ter
junto a mim, na hora certa
do dia em que irei morrer...

Não sei o que têm teus olhos,
só sei que o meu coração
anseia contigo ir
para o futuro, mão na mão...

O meu Café é de Ouro
e tem a Chave dos ceus,
vou viver a vida toda,
sonhando esses olhos teus

Desisti da minha idade,
o tempo está em meu pensamento,
vou viver a vida toda
como se fora um momento

Luís Machado

AMBIÇÃO


Quisera ser Luz
que não cometa
fulgurante e inútil...

Quisera ser a Voz
que não palavra
arrebatadora e fútil...

Quisera ser o Sonho
que não o pensamento
austero e frio...

Quisera ser o Amor
que não desejo
roído pelo cio...

Quisera ser Deus,
pobre de mim,
feito de terra , assim...

Luis Machado

ÊXTASE


Dos teus olhos lindos
eu bebo a esperança
de um dia seres luz
a iluminar minh' alma!

Sonho-te na alvorada
quando meus olhos abro
e a beleza que vejo
desperta o desejo
de voar para ti,
ir buscar-te à vida,
trazer-te em meu peito,
escrever contigo
quimeras de esperança,
amar-te em meus braços
dum geito só nosso,
subindo aos céus
no sabor tão doce
desses lábios teus...

Ondulas ao vento
nas curvas suaves
do teu corpo belo
e ao ver-te passar,
o vento segreda,baixinho,
no silêncio terno
do meu pensamento,
as palavras doces
que eu queria ouvir
da tua boca meiga
naquele momento...

É belo o luar
que do céu me chega,
queria ir contigo
procurar estrelas
nesse mar celeste
onde a dor esquece...
Queria ir contigo,
voando no vento,
ao encontro do sol
que meu peito aquece
e em meus olhos brilha
e os teus ilumina...

Dos teus olhos lindos
eu bebo a esperança
de um dia seres luz
a iluminar minh' alma...

Luis Machado

domingo, 10 de abril de 2016

SONHOS E QUIMERAS


Às vezes, quando a amargura
baila nos meus olhos,
apetece-me dormir o sono eterno
e acordar num outro mundo
mais humano...

Teço na minha alma
devaneios e doces ilusões,
sonho céus encantados
onde tudo é harmonia e paz,
vejo em tudo primaveras
onde as flores exalam
inebriantes perfumes sedutores...

Da miséria e da fome, esqueço
a fatalidade ingenita
e sonho igualdades
que jamais serão...
Do mal, da perversão,
desse viver corrupto
que avassala as mentes,
sonho arcanjos de espada em riste,
desafiando o tempo,
levando a justiça
a este mundo triste...

Sonho um mundo de amor
onde não falte o pão,
onde cada ser seja de outro ser
um ser irmão,
onde a amizade impere,
banindo a ambição,
onde haja abraços e não ódio,
com rosas vermelhas
em cada coração...

Mas a vida destrói
em cada instante,
os sonhos que sonhamos
e de quimera em quimera,
as ilusões se vão,
há apenas céus sem luz,
pintando de cinzento feio,
a nossa solidão...

Quisera , uma outra vez, sonhar
primaveras de luz e cor,
semeadas de estrelas e flores,
um mundo onde o amor
irradiado dos nossos corações,
fosse a alavanca, o raio
que mudassem o mundo,
banisse a amargura dos meus olhos...
me devolvesse a esperança
me encaminhasse os passos,
me ensinasse o caminho,
me iluminasse a mente,
e meu estro aquecesse docemente...

Luis Machado

HÁ UM OUTRO CAMINHO QUE VAMOS TRILHAR


Procuro-te na névoa
que há-de vir do tempo
e que em pensamento
eu espero encontrar...

Vens pela primavera,
coração florido,
cheirando a alfazema,
na brisa da noite ,
brilhando ao luar,
com olhos de luz
que fazem sonhar...

Na candura da alma,
virás terna e calma
e os beijos tão doces
que trazes para mim,
lembram o alecrim
que te trago aos molhos
e adoçam teus olhos...

Trarás o abraço
que eu tanto anseio,
porei uma rosa
junto do teu seio,
junto ao coração
e a minha mão
pegará na tua,
pedindo ao luar
que nos leve à lua...

E o melro negro
que além assobia,
cantará para nós
uma aleluia,
nasce um outro tempo,
há no céu mais luz,
há um outro caminho
que vamos trilhar
nesta primavera
que convida a amar...

Luis Machado

PRIMAVERA


Sinto na alma a primavera em flor
dando à natureza uma outra cor...
Da penumbra dos tempos em que vivo
renasce em mim a esperança
de encontrar outros caminhos
e a luz que o sol projeta nos meus dias,
guia meus passos, já cansados
de procurar, lá longe, no horizonte,
o oásis que sonho, dia-a-dia...

Já subi montanhas, atravessei desertos,
naveguei em mares encapelados,
andei perdido na lonjura do tempo,
caminhei e desisti muitas vezes,
na busca permanente da felicidade
que eu persegui sem parar um instante...

Sempre havia primaveras
e sempre o roseiral tinha rosas vermelhas
que animavam minh' alma...
E até os melros, bicando no relvado,
me faziam lembrar lutos do passado
e, ao mesmo tempo, mostravam
a esperança, no verde renovado...

Cheiravam a beijos, as copas do arvoredo,
alguns que ali dei e outros que sonhei
nos trinados do rouxinol cantor
que lembram velhas canções de amor...

Primaveras que foram e só voltam em sonhos,
já sem o céu azul d' outrora
e as estrelas distantes brilhando nos meus olhos....

Primaveras que cantam aleluias
nas flores amarelas que ornam meu jardim
e esperam tulipas e rosas vermelhas
que o Abril trará, em sinfonia de cor...

Primaveras que suspiram meus ais ,
quando, saudoso, te procuro , amor
e, triste, meus olhos te olham
nesse abstrato espaço feito só de sonhos...

Primaveras que o coração aquecem
quando , no vento que passa,
me chegam novas do que hei sonhado...

Primaveras que te mando em palavras,.
no silêncio do tempo e da distância,
que meu ser consomem...

E quando, nesta primavera em flor,
os céus se enchem do gorgeio das aves,
canta a minh' alma também,
num frémito de amor pela vida
e os caminhos que percorro são suaves
e o horizonte está perto dos meus olhos...

Luis Machado

VIDAS


Às vezes , logo pela manhã,
quando a madrugada
se recolhe, célere
e dá lugar à aurora,
dou comigo a pensar,
nesta tristeza instante
que não vai embora,
na incerteza da vida,
na nossa pequenez,
perdidos na imensidão
deste enorme cosmos
onde todos os sonhos
são mera ilusão ...

Um a um, perpassam
ante meus olhos tristes,
os sonhos que sonhei
e que o tempo levou,
ilusões, quimeras,
vontades, quereres
que a vida vergou
e que, nesta tristeza,
meu estro apagou...

Porque se eu sonho
uma simples ventura,
a candura de um amor real,
a ilusão de ter
alguém que ne abrace,
um beijo terno e doce
que minh'alma aqueça,
logo o vento passa
e desfaz meu sonho
e um fogo que abrasa
queima as ilusões
que minh' alma alentam...

E, mais uma vez, busco
e procuro, com a ternura
do meu coração,
no perpassar da vida ,
um suave caminho
que leve meus passos
a outro horizonte...

E nas águas revoltas
desse mar profundo,
navega meu barco,
percorrendo o mundo,
à procura de alguém...

Será que virá?
Peço ao vento que passa
que salve o meu barco,,
não o meta ao fundo...

Luis Machado 

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado


1 – E aqueles que por obras valerosas, se vão da Lei da morte libertando – morreu o Nico!

2 – Amor, paixão e ausência.

1 – A 30 de Julho de 1940, nascia em Serpa, Alentejo, aquele que viria a ser um dos mais talentosos atores e realizadores portugueses, repartindo o seu génio pelo teatro, cinema e televisão. A morte abraçou-o em 14 de março de 2016 e a frase com que a RTP noticiou a sua morte, diz muito do que foi a vida artística deste grande vulto das artes cénicas das ultimas décadas: “ um pilar da ficção televisiva portuguesa. “ Mas Nico, não foi só isso! O seu génio artístico multifacetado, levou-o a ser grande no teatro, no cinema e na televisão, como ator, realizador e produtor, sempre um nível muito elevado, tornando-o um dos personagens mais atraentes do cenário artístico em Portugal. Um dos programas que mais sucesso teve na televisão foi o “ Eu show Nico”, em que, contracenando com Herman José, criou os personagens inesquecíveis do Sr. Feliz e do Sr. Contente (1980) que ainda hoje vivem no imaginário das gerações de então. Foi uma perda incalculável para a cultura portuguesa, difícil de colmatar, tal a versatilidade e a grandeza do seu génio. Nico irá juntar-se àquele grupo de portugueses que, no dizer de Camões “ (…) por obras valerosas, se vão da Lei da morte libertando”. 

2 – E, no entanto sendo um génio, não deixou de ser homem, um homem de muitas mulheres que amou algumas com paixão e nos remete para outros vultos da nossa História, remota ou recente, que também muito amaram e que a nossa literatura trata com carinho e emoção. E, mais uma vez lembro Luís de Camões no canto terceiro de Os lusíadas com o episódio doa amores de Pedro e Inês, que, ternamente canta “ Estavas linda Inês posta em sossego, de teus anos colhendo o doce fruto, naquele engano de alma ledo e cego, que a Fortuna não deixa durar muito, nos saudosos campos do Mondego, de teus fermosos olhos nunca enxuto, aos montes ensinando e às ervinhas, o nome que no peito escrito tinhas”. É sublime a maneira como Camões nos canta este amor profundo, contrariado e trágico que atravessou gerações e faz ainda o enlevo dos apaixonados. E, saltando no tempo, o amor trágico de Camilo Castelo Branco e Ana Plácido que rompeu preconceitos para cumprir o amor, Camilo autor de um dos mais belos e mais lidos romances de amor da nossa literatura, O Amor de Perdição, rivalizando em popularidade com o Romeu e Julieta, de William Shakespeare, cujo trama se desenrola na cidade italiana de Verona e narra a história de amor entre dois jovens de famílias reais, contrariado e trágico.

Ao longa da história das literaturas, quantos romances e poemas de amores contrariados, terminados em tragédias, povoando o imaginário dos leitores: Marco António e Cleópatra, Capitu e Bentinho, no Dom Casmurro de Machado de Assis, Scarlett O´Hara e Rhett Butler, em E tudo o Vento Levou de Margaret Mitchell, Dante e Beatriz, em a Divina Comédia de Dante Alighieri, Liesel e Rudy em A menina que roubava livros de Markus Zusak, Penélope e Ulisses, em A Odisseia, de Homero, Lancelot e Genevieve, em As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley, Tristão e Isolda de Hannah Closs e muitos outros que seria enfadonho enumerar.

E no dia-a-dia de cada um? Será que tudo é um mar de rosas? Que género de amor se vive hoje, nas Praças e Cafés, nas redes sociais onde virtual impera, nas escolas e nas grandes empresas onde a promiscuidade é grande e os afetos surgem, nos locais públicos onde os olhares se cruzam? O que é hoje o amor? Cada geração terá a sua resposta e desde amores platónicos até à mais sensual das relações, de tudo se vê, tudo se experimenta, tudo se vive, tudo se sonha… E se a presença física alimenta a paixão, a ausência, a distância, a lonjura sem fim, alimenta o amor que sofre e dói… Apreciem este poema de Nuno Júdice e vejam como é belo e com tão bem define o amor ausente: “ Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma, mas que não deixa, por isso de deixar alguns sinais: um peso nos olhos, no lugar da tua imagem e uma vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes tivesse roubado o tacto. São estas as formas do amor, podia dizer-te e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa e as palavras ficam presas numa relação de instantes, quando a tua voz me chama de dentro de mim e me faz responder-te a uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói ( Ausência de Nuno Júdice ).

A ausência que dói e que nos faz sonhar, como digo num dos meus poemas: “E quando, virtual te sonho, um outro sonho eu tenho, que se torne real, o simples esboço que de ti desenho.”

sábado, 19 de março de 2016

PRIMAVERAS


Que é das primaveras
em que havia flores ,
cravos vermelhos, rosas
d'outras cores,
risos de criança, amor
em nossos corações,
em que as nossas vozes,
felizes , entoavam canções
que ecoavam nos céus
e havia gaivotas
voando , serenas ,nesse mar
imenso que foi nosso?
Que é dos sonhos
que Abril pariu,
igualdade,amor , fraternidade,
crianças felizes, pão,
cada ser do outro seu irmão,
velhos sorrindo, respeitados,
homens íntegros, honrados,
verticais, sem vergar a cerviz,
cumprindo o que hoje diz,
amanhã e sempre?
Onde está o Homem
que Abril e todos nós sonhamos?
Procura na tua alma,irmão,
faz das tuas tripas,coração,
mas segue em frente, não desistas,
nem que vejas coisas
nunca vistas...
Vai e diz que não ,
não queiras mais viver
nesta ilusão...
Indigna-te, reclama, cobra...
Um dia o sol há-de brilhar
e serás , uma vez mais ,
Homem e livre de sonhar..
Luis Machado