sábado, 28 de novembro de 2015

JUVENTUDE, TEMPO DE SONHOS

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado


Como tantos outros seres humanos, na minha infância e adolescência, eu tive um sonho: queria ser advogado para que, com a fluência do meu verbo e o meu saber , pudesse ajudar os que não tinham quem os defendesse.
É um tempo em que o sonho comanda a vida, o coração repleto de ilusões, a vontade de modificar o mundo, tempo de " make love , not war " , dos suspiros de amor , das flores no cabelo , da rebeldia contra o " status quo " , da procura do diferente...
É vivermos num mundo de fantasia, perseguindo quimeras, sonhos que o vento leva e a realidade trai, amores platónicos que o destino contraria e destrói... 
E sonhamos ser tudo e mais, cavaleiro andante, heróis, poetas, aventureiros, ascetas, religiosos, defensores dos pobres e oprimidos... É uma idade linda, cheia de força e contradições, na procura dum caminho que, às vezes , não será o melhor... Vive-se com sofreguidão, o tempo é pouco e o mundo pequeno para os nossos sonhos... 
É o tempo das grandes paixões, da adoção das utopias, do empolamento do ego , dos amores de perdição ou salvação , do nascer das grandes amizades que hão-de perdurar ao longo da vida...
Recordo , com saudade , as amizades desenvolvidas nesse tempo de procura de horizontes e caminhos, muitos deles já partidos , outros perdidos no turbilhão da vida , poucos ainda presentes nesta luta por um amanhã incerto... E revejo, como um filme, imagens guardadas no meu coração, aventuras que vivemos juntos, quimeras que perseguimos com esse entusiasmo jovem, amores que procuramos com a ternura e a ingenuidade da idade. 
Lembras-te, Carlos , quando , numa só bicicleta , íamos para os lados de Outeiro e Perre , à procura do amor, com o entusiasmo dos nossos verdes anos? Como era belo esse tempo! Tu consomaste esse amor, eu não , assim o quis o destino , e parti para outros horizontes e um outro amor que durou cinco décadas... Quando eu me juntar a ti , nesse céu onde estás , havemos de recordar esses tempos áureos da nossa juventude ,com a alegria de então e o entusiasmo que púnhamos em tudo o que fazíamos... 
Havemos de fazer uma farra, se S.Pedro deixar, e convidaremos o Magalhães, o Jeremias, o Armando e outros que for possível juntar... Sabes, lembro-me, agora que estou velho,, dos nossos passeios noturnos no jardim , junto ao Rio Lima , onde ouvíamos a Banda do Orfanato que o maestro Zé Pedro(?) dirigia com mestria e nos deliciava com partituras de encantar... E íamos olhando as moças , respirando o ar puro do rio com a sua beleza e o murmurar das águas correndo para o mar...
Quantas estórias aqueles bancos poderiam contar , quando , nas noites luarentas, trocávamos confidências , deixando deslizar o tempo,, sem angústias , sem dor , antecipando a fruição dum futuro que sonhávamos... 
E o tempo, esse tempo que vamos somando, dia a dia, levou-nos para horizontes diferentes e formatou as nossas vidas… Anos passaram sem que as noites luarentas, no velho jardim , à beira-rio , nos juntassem , e tu partiste sem que eu o soubesse... A vida havia-nos separado e a velha amizade de quase irmãos foi-se esbatendo e ficou a saudade... 
E aquele sonho da minha infância, de querer ser advogado, não foi mais do que um sonho de criança que a vida contrariou quando me levou para outros destinos. Mas o meu pendor e a visão romântica da vida sempre me acompanharam, nada mudou com o tempo...
Mas outro tempo chegou, um tempo de egoísmo e ambição e eu fiquei fora do tempo...

Luís Machado

Publicado no Correio Transmontano a 28/11/2015

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

RICOS E POBRES E OUTRAS ESTÓRIAS // HUMOR COM HUMOR SE PAGA

Crónicas do meu viver // Luís Machado


Um dos problemas que, como cidadão, mais me preocupa, é o da pobreza em Portugal. E ando tanto mais preocupado, quanto é certo que o problema já ultrapassou os limites daquele extrato da população que nunca conheceu situação diferente e invadiu áreas onde era impensável que isso acontecesse há uns anos atrás. 
Todos sabemos, por experiência própria ou pelas notícias que nos chegam através da comunicação social , que a classe média foi completamente arrasada e há já casos de miséria a atingi-la. Mas o que mais me preocupa é o facto de os ordenados auferidos pelos nossos políticos estarem de tal nodo degradados que há deputados que nem sequer ganham para almoçarem diariamente no Tavares Rico e ate o próprio Presidente se queixa de não ganhar para as despesas. 
Quando a situação chega a este ponto, algo de muito mal se passa na sociedade portuguesa e há que arranjar soluções urgentes. Não é fácil, mas estou em crer, contas feitas por alto, que se aumentássemos uns mil euros por mês aos governantes e deputados, uns seis ou sete milhões de euros haviam de chegar. Mas se aumentássemos uns simples dois euros por mês aos 1,7 milhões de pensionistas que recebem menos de 600 euros por mês, o aumento da despesa rondaria os 48 milhões de euros, o que seria incomportável para o erário público. Daí que a solução é simples, não há aumentos para os pensionistas, mas nada obsta a que se aumentem os mil euros aos políticos porque, no fundo, o acréscimo da despesa seria uma bagatela. Não sei se este pequeno aumento de mil euros seria suficiente para almoçar diariamente no Tavares Rico ou resolveria o défice doméstico do Presidente. Mas a crise tem de ser suportada por todos e em vez de almoçarem todos os dias no dito restaurante, podiam os deputados fazê-lo apenas nos dias em que comparecessem às sessões da Assembleia da Republica.
Quanto aos pensionistas, teriam de continuar a comer a sopinha mal adubada e ,se o dinheiro não chegasse , há sempre a possibilidade de recorrerem à Misericórdia ou à Caritas, porque , felizmente , a caridade ainda é uma das grandes virtudes do nosso povo. É que isto de aumentos ou divisões de lucros é um problema já antigo e que, por vezes, se resolve com alguma imaginação.
Soube, há muitos anos, de uma empresa pública que, a partir de certa altura, passou a distribuir pelos seus empregados uma parte dos lucros apurados. Nos primeiros anos, a distribuição de lucros concedia aos trabalhadores qualquer coisa como o equivalente a, entre 1/2 e um vencimento mensal. Num dos anos subsequentes os lucros diminuíram drasticamente e cifraram-se em apenas cerca de 100 contos , o que daria a cada trabalhador uma participação de apenas 2,50 escudos( moeda antiga) , uma moedinha pequenina que daria para dois ou três cafés. 
O Conselho de Administração resolveu, e bem, não fazer a normal distribuição de lucros e dividiu, assim constou então, os lucros entre os membros do conselho.Sempre alguém ficou satisfeito. Para que serviriam os 2,5 escudos? 
O problema não é muito diferente do que agora se faz, quando, quem manda , se aumenta a si próprio. É apenas uma bagatela. Mas é a crise e há que tomar medidas drásticas, não vá o povo habituar-se a viver indefinidamente acima das suas possibilidades.
Quanto à pobreza, no fundo, não deixa de ter os seus benefícios. Os mais velhos devem lembrar-se da historia do Sapateiro que sabia tocar rabecão, incluída nos textos do livro de leitura do , então , ensino primário.: um rico deu ao sapateiro uma grande quantia, em troca do silêncio do sapateiro que alegrava os seus dias de trabalho tocando rabecão. Ao fim de alguns dias sem poder tocar, a tristeza invadiu o coração do sapateiro que resolveu devolver o dinheiro ao rico, pois era mais feliz sendo pobre, mas com a liberdade de poder tocar o seu rabecão.
Daí que, meus caros, toquem qualquer coisa que lhes alivie a dor pelas dificuldades em que vivem, bombo, gaita de foles , acordeão ou simplesmente ferrinhos , mas toquem , toquem a vida para a frente , que o que importa é que haja alegria. 
É que, nesse tempo, ainda havia a FNAT( Fundação Nacional para Alegria no Trabalho) , mas como agora muitos nem trabalho têm, para que serviria a Fundação?
Olhem, folclorem-se, arranjem um Rancho e vamos ao vira. Cantando e bailando, castanhas assadas e uma boa pinga, não há crise que nos afete, nem governo que nos faça falta. Sempre se poupa algum.

Publicado no Correio Transmontano 20 de novembro de 2015

domingo, 15 de novembro de 2015

SOLIDÃO

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Gosto de me isolar na minha salinha fofa, rodeado de um quase silêncio, selecionar uma música suave que me descansa o espírito, baixinho, quase em surdina, e ali ficar a pensar, a ler , a escrever, a navegar na internet, ligando-me ao mundo que , lá fora , discute o óbvio e permanece ,inflexível , na admiração do complexo. 
Sinto que, às vezes, me dá vontade de cultivar um certo alheamento em relação ao que se ouve e diz e esquecer-me dos comentários de tantas cabeças pensantes que peroram um pouco por toda a parte, desde as mesas dos cafés, jornais, rádio , televisões, onde poses estudadas e treinadas procuram criar , em muitos casos ,uma falsa imagem de competência..... E assim se criam mitos , se constroem heróis , se preparam profetas , se omite ,se engana , se mente , se criam factos ,ser travestem informações , se diz e desdiz , numa cadência tal que o comum dos mortais se deixa enlear por esta onda informativa que não informa nada , antes baralha o difícil discernimento das coisas... 
E há poses que, pela sua imponência , amedrontam quem as vê e ouve. Outras deixam escapar a necessidade de serem simpáticas para quem lhes paga o pão nosso de cada dia. Desde o apocalipse até ao paraíso, há vaticínios para tudo, transmitidos com arrogância intelectual ou sorrisos de circunstancia.! E eu que até sou uma pessoa compreensiva e me aflijo com o mal dos outros , sinto uma grande tristeza com o enorme número de manetas que por aí há no campo da informação... 
Regresso ao meu quase silencio, só , extasiado com a música que ouço , em surdina , e penso como a mentira é atroz ! Destrói todas as certezas que fomos construindo ao longo da nossa existência e torna-nos cépticos em relação a tantas coisas que nos podiam fazer felizes! E a mentira é prolixa e está patente em todo o lado e em muitas das coisas em que acreditávamos quase como um dogma. Apetece alhearmo-nos de tudo e. não pensar e refugiarmo-nos neste " laissez faire ", já que o nosso esforço é inglório , incompreendido e maltratado. 
E este só ,esta solidão em que a vida nos coloca , leva-nos até António Nobre e ao seu SÓ " ouvi estes carmes que eu compus no exílio / ouvi-os vós todos, bons portugueses/pelo cair das folhas, o melhor dos meses/mas tende cautela , não vos faça mal/que é o livro mais triste em Portugal. " 
António Nobre morreu em 1900 , na cidade do Porto ,com 33 anos , tuberculoso ,depois de um exílio voluntário , em Paris , durante alguns anos.. 
SÓ é o único livro que publicou em vida, nas suas palavras , o livro mais triste que há em Portugal. E lembrei-me de outros exilados , igualmente voluntários, que a vida obrigou a deixar a sua família , o seu país , os seus sonhos , na procura de outros sonhos , de outras pátrias onde pudessem sonhar com uma vida decente e melhor , levando consigo esta palavra saudade que os nossos vates cantam e outros entoam, como " Zé brasileiro, português de Braga .." , outras sobre o Minho e o seu vinho verde e tantas que ecoam por esse Portugal fora...
E esta palavra Saudade que ensinamos a Cabo Verde e ao mundo, tão portuguesa, tão nossa, vive, mãos dadas com a solidão, com a Soledade que Amália nos canta e que tanto sentimos no fundo da nossa alma... E no quase silêncio da minha sala fofinha, ouço o trinado dolente das guitarras, envolvente e triste, cantando a saudade que o vento leva àqueles que na solidão do mundo, suspiram por um amanhã que lhes permita aspirar o doce ar da sua aldeia distante! "
" Pergunto ao vento que passa, noticias do meu pais..." , assim dizia Manuel Alegre, quando no exílio, este involuntário... O que me responderá o vento, se eu lho perguntar agora?

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

NÃO CHORES MAIS , TERNA GUIDA OU DIÁLOGO COM A ALMA



Não chores mais, terna Guida.
O que é que te fez a vida?
Estás só? É solidão?
Vem cá e fala comigo,
abre-me o teu coração,
talvez que falando os dois,
encontremos solução...
Sabes, às vezes,eu também choro
quando me chega a saudade,
como tu ausculto a vida,
não percebo esta vontade
de nos fazer tanto mal...
Mas sabes, o principal
é pensar que outros sofrem,
estão sós , na solidão,
há dor no seu coração,
Tristeza, Sem Esperança, Stone, Estátua, Esculturacomo tu buscam respostas
que a vida lhes não dá...
Todo aquilo que não gostas,
eles não gostam também,
cada um vive o que tem,
numa procura constante,
todos querem ser felizes,
ninguém quer a solidão...
Não chores mais, terna Guida,
estende-me a tua mão,
anda caminhar comigo,
abre-me o teu coração,
vamos conversar baixinho,
talvez haja solução...
Dou-te todo o meu carinho
e quem sabe se essa mão
nos mostra outro caminho,
bem longe da solidão
Não chores mais, terna Guida...
Vamos enfrentar a vida...
Às vezes ,começa em dor
o que termina em amor...

Luís Machado

DO SONHO E DA VIDA

Crónicas do meu viver// Por Luís Machado

Para amenizar um pouco a secura das palavras que tratam assuntos sérios que nos entristecem, hoje vou começar por transcrever um esboço de conto que escrevi, em que a realidade se mistura com o sonho e produz uma saudade que não morre e nos leva às raízes de uma vida longa... Então, é assim: 
" É apenas um sonho de criança, dos tempos em que tu eras ainda um botão de rosa e eu aguardava que crescesses para aspirar o teu perfume. O roseiral era o caminho dos meus passos e eu regava, com o meu amor ingénuo, o pé da roseira em que crescias...
Cresceu o tempo em muitos luares e sóis e tu abriste em flor, rosa tão perfumada e bela, que o roseiral passou a contemplar outros olhares que cobiçavam seu tesouro. E eu continuava a regar o pé da roseira que , orgulhosa , te mostrava , com o meu amor ingénuo, contemplando o belo... 
Um dia passou um cavaleiro e levou-te no seu corcel veloz e eu fiquei a olhar a estrada que guardou teu perfume para sempre... Os meus olhos procuravam, na imensidão da vida ,a rosa perfumada que com tanto desvelo eu regara....Apenas aquela estrada conservava o teu perfume e , lentamente , o meu amor ingénuo foi morrendo e ficou apenas a saudade... E quando na rua vejo belas rosas caminhando, imagino-te, esplendorosa e linda, a alimentar os meus sonhos de criança ...". 
É apenas um esboço dum conto muito maior que atravessa o tempo e não tem fim, um conto que se chama Vida... E é nesse tempo que eu caminho e me perco e me embrenho em recordações e saudades e navego em barcos de papel que atravessam os mares à procura do horizonte que não alcanço e Miro as estrelas à procura dos céus e caminho pelos campos onde colho flores e descanso nas areias douradas ouvindo o marulhar das ondas...
E o meu barco à vela tem pressa de chegar que já perdeu muito tempo e não pode voltar... Procuro futuros , mas nos meus poemas tudo em mim é pretérito, rodeado de brumas, cheio de silêncios... Distribuo optimismo e palavras lindas, mas, às vezes, está bem cinzento o meu coração... Queria pintar o arco-íris, mas não tenho cores para o alegrar... E vem-me à lembrança uma frase de Martin Luther King que vi citada : " Subi o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo....". 
Felizes os que vêem toda a escada e não hesitam , nem procuram e sabem que a felicidade está além no horizonte que vislumbram... Sobre o mar , os meus barcos de papel , os meus barcos à vela e os sonhos que lá moram, vão navegando, à procura de um horizonte e de uma enseada onde possam aportar. Quem sabe se vão voltar carregados de ilusões , se de quimeras que o vento desfaz num sopro... Talvez me tragam a esperança de um novo mundo a crescer para lá do horizonte.
Talvez, se o vento mudar, ainda haja primavera e nos jardins da quimera os sonhos possam medrar... Talvez o amor que sonhei com eles possa chegar e dos confins do abstracto, real se possa tornar...
Foi no mundo do sonho que escrevi esta crónica que se quereria versasse assuntos mais reais e de interesse. Mas neste mundo que poucas alegrias nos dá e nos mostra quadros de miséria material e moral de estarrecer, um pouco de sonho e poesia faz bem à alma...
E se , como dizia o poeta , " o sonho comanda a vida.." , deixe-mo-nos embalar nesta onda poética e também sonhemos com um amanhã diferente , mais humano , mais solidário , mais livre , em que sejamos irmãos e não rivais , homens verticais , sem medo , enfrentando a vida com determinação e amor... Talvez ainda haja esperança.

Publicado no Correio Transmontano a 6 de novembro de 2015

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

SE EU PUDESSE ESTAR ONDE TU ESTÁS


Se eu pudesse estar onde tu estás
dar-me-ias a mão
e caminhariamos sobre as águas do mar
até ao horizonte...
Regressariamos no tempo até eu ser jovem
e tu donzela....
Amar-te-ia como o fruto ama a flor
e os nossos corpos fundir-se-iam
como a água do rio se funde com o mar...
Seríamos só um, procurando os céus ,
tu serias eu e eu serias tu,
nesse amplexo perdido no infinito...
A minha vida percorreria o teu ventre
e o teu perfume penetraria no meu ser...
E haveria jardins à espera de sementes
que germinassem e florissem
pela Primavera...
Quando o sol nascesse,
o horizonte seria só vermelho
e o nosso sangue beberia dele
a cor e o fogo que alimenta o amor...
Quando o tempo acabasse,
serenamente , beijaria os teus lábios
e acariciava o teu rosto,
esperávamos pela madrugada que surgia
e sobre o mar regressavamos ao nada...
Havia rugas nos teus olhos
e a sombra dos meus cabelos brancos
recebia das tuas mãos macias
a doce carícia dum adeus...
Se eu pudesse estar onde tu estás!!!

Luis Machado

DOS PROBLEMAS DA VIDA ÀS POLÉMICAS ENTRE O PORTO E O NORTE

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Há dias em que temos necessidade de parar e fazer um balanço às nossas vidas. Que pretendemos fazer? Fizemos tudo certo até aqui ou andamos perdidos em deambulações sem nexo, procurando sem sabermos o rumo, inflectindo, às vezes, para caminhos ínvios que nos levam à tristeza e à amargura? E, então, um dia há uma palavra, uma frase, uma atitude que nos faz pensar e refletir profundamente sobre a vida : o que fomos, o que queremos, o que podemos ou devemos fazer...
Dormimos sobre este momento e deixamos ao subconsciente o trabalho de procurar respostas. E, então, no dia seguinte, acordamos ou desolados e tristes ou apaixonados pela vida e com as respostas que ansiávamos...
Então, é hora de decisões, de iniciar caminhos não trilhados ou consolidar posições e amar a vida com o coração lavado das angústias que nos atormentavam...
E lá vamos nós viver outra aventura, sentir outros sentires, caminhar em direção ao oásis onde brotam águas que nos saciam as sedes, percorrer mares que nos levam a horizontes onde o sol se recolhe e põe serenamente, lá vamos nós perseguindo utopias, à espera de céus onde tudo é paz e harmonia, onde os homens são irmãos, onde a solidariedade não é uma palavra vã, onde as palavras têm um sentido e não escondem montanhas de hipocrisia e falsas fés... E depois, meu Deus, como é triste a realidade que encontramos além no horizonte que almejamos. E o nosso coração volta a duvidar e a sentir a negridão da vida e a falácia das soluções que julgávamos encontrar no fim do caminho que trilhamos... 
Quanta hipocrisia e desamor, quantas palavras fúteis gastas em discursos lindos onde o verbo amar se conjuga em tons de rosa, quantos caminhos ínvios travestidos de alamedas, quantos céus cinzentos onde o azul já raiou...
Lemos os jornais, olhamos as imagens da TV, seguimos, curiosos, as mensagens das redes sociais, percorremos as ruas depois do anoitecer e vemos miséria e mais miséria , degradação, ódio, violência e sentimo-nos pequenos, impotentes, quiçá com um pedaço de culpa do que se passa no mundo, pela inércia, pelo deixar correr, pelo nosso egoísmo, pela cegueira demonstrada em tantos momentos cruciais. Regresso ao inicio desta crónica e pergunto a mim próprio " o que devemos ou podemos fazer? " E sinto-me impotente para encontrar respostas e continuo refletir, a pensar, a sentir na alma a angústia de tantos que o destino lançou para a vida em condições degradantes, impróprias de um ser humano, sem direito a nada, nem sequer um sorriso...
Vou à janela, são 18 horas, a noite já desceu sobre o casario, choveu, ouço o vento assobiando no arvoredo...Lá longe, as luzes já há muito se acenderam, parece um arraial, a névoa desce lentamente, embaciando o negrume da noite... Não há estrelas no céu...
As ruas, nesta zona onde moro, estão quase desertas, todos regressam a casa, que o tempo não convida a permanecer lá fora… Estou no Porto. Ontem fui tomar m café ao shopping, onde há um café airoso de que gosto. Estava quase cheio... muitas pessoas de idade que ali gastam o tempo que lhes vai sobrando.... Enquanto esperava, olhei à minha volta contemplei o espaço, bem concebido, belo, com um toque de bom gosto ao harmonizar um recanto com plantas verdes cujos galhos subiam para os céus. Gostei de ver, assim como uma feira do livro, quase deserta, e, lá mais ao fundo, repuxos de água refrescando o ambiente.
Gosto do Porto. É uma cidade bonita e airosa, cheia de História, que soube combinar o antigo com o moderno e tirar proveito da beleza com que a natureza a dotou... E gosto, essencialmente, do seu povo, da sua sinceridade congénita, da leveza do seu falar brejeiro, do seu " Carago " sonante, do apego às suas coisas, da sua capacidade de dizer presente quando as circunstâncias o impõem. E gosto também da sua Francesinha e duma boa tripalhada à moda do Porto, regada com um bom vinho verde. Mas não gostei das palavras que a imprensa põe na boca do seu Presidente de Câmara, quando se recusou a misturar o Galo de Barcelos e os chouriços de Trás-os-Montes, com a sua marca Porto. Se assim o disse, foi mau e expôs-se a reações desabridas de quem se sentiu ofendido naquilo que tem de mais querido, o seu artesanato ou a sua gastronomia, conhecidas em todo o mundo e apreciadas por muitos e muitos portuenses.
O Galo de Barcelos é o símbolo de um artesanato encantador que teve como seu expoente máximo Rosa Ramalho e seus seguidores e é conhecido além-fronteiras como representante de uma cultura popular que permanece bem viva na região de Barcelos, como os bordados e a louça o são em Viana do Castelo. Os enchidos, alheiras, salpicão, chouriços/as fazem parte da riqueza gastronómica de Trás-os-Montes, muito contribuem para a economia da região e fazem as delicias de nacionais e estrangeiros que nos visitam... Não ficam mal ao lado do Vinho do Porto, produzido nas arribas do Douro, nessa antiquíssima província de Trás-os-Montes e Alto Douro...
Foi um mau serviço prestado à causa da regionalização, pois vem pôr a nu aquilo que muitos temiam: o Porto e o Norte são coisas distintas. o Porto é uma nação, como gostam de dizer, e o resto é paisagem, como já há muito se dizia para os lados de Lisboa.
Pessoalmente, recuso-me a acreditar que fossem essas as palavras e a intenção do Sr. Presidente, até pela simpatia que por ele nutro. E seria bom que isso fosse esclarecido porque o Porto sem o Norte pouco é e o Norte sem o Porto fica ainda mais pobre. E já lhe basta o abandono a que o interior foi votado!

Publicado no Correio Transmontano a 30/10/2015