Crónicas do meu viver // Por Luís Machado
Como tantos outros seres humanos, na minha infância e adolescência, eu tive um sonho: queria ser advogado para que, com a fluência do meu verbo e o meu saber , pudesse ajudar os que não tinham quem os defendesse.
É um tempo em que o sonho comanda a vida, o coração repleto de ilusões, a vontade de modificar o mundo, tempo de " make love , not war " , dos suspiros de amor , das flores no cabelo , da rebeldia contra o " status quo " , da procura do diferente...
É vivermos num mundo de fantasia, perseguindo quimeras, sonhos que o vento leva e a realidade trai, amores platónicos que o destino contraria e destrói...
E sonhamos ser tudo e mais, cavaleiro andante, heróis, poetas, aventureiros, ascetas, religiosos, defensores dos pobres e oprimidos... É uma idade linda, cheia de força e contradições, na procura dum caminho que, às vezes , não será o melhor... Vive-se com sofreguidão, o tempo é pouco e o mundo pequeno para os nossos sonhos...
É o tempo das grandes paixões, da adoção das utopias, do empolamento do ego , dos amores de perdição ou salvação , do nascer das grandes amizades que hão-de perdurar ao longo da vida...
Recordo , com saudade , as amizades desenvolvidas nesse tempo de procura de horizontes e caminhos, muitos deles já partidos , outros perdidos no turbilhão da vida , poucos ainda presentes nesta luta por um amanhã incerto... E revejo, como um filme, imagens guardadas no meu coração, aventuras que vivemos juntos, quimeras que perseguimos com esse entusiasmo jovem, amores que procuramos com a ternura e a ingenuidade da idade.
Lembras-te, Carlos , quando , numa só bicicleta , íamos para os lados de Outeiro e Perre , à procura do amor, com o entusiasmo dos nossos verdes anos? Como era belo esse tempo! Tu consomaste esse amor, eu não , assim o quis o destino , e parti para outros horizontes e um outro amor que durou cinco décadas... Quando eu me juntar a ti , nesse céu onde estás , havemos de recordar esses tempos áureos da nossa juventude ,com a alegria de então e o entusiasmo que púnhamos em tudo o que fazíamos...
Havemos de fazer uma farra, se S.Pedro deixar, e convidaremos o Magalhães, o Jeremias, o Armando e outros que for possível juntar... Sabes, lembro-me, agora que estou velho,, dos nossos passeios noturnos no jardim , junto ao Rio Lima , onde ouvíamos a Banda do Orfanato que o maestro Zé Pedro(?) dirigia com mestria e nos deliciava com partituras de encantar... E íamos olhando as moças , respirando o ar puro do rio com a sua beleza e o murmurar das águas correndo para o mar...
Quantas estórias aqueles bancos poderiam contar , quando , nas noites luarentas, trocávamos confidências , deixando deslizar o tempo,, sem angústias , sem dor , antecipando a fruição dum futuro que sonhávamos...
E o tempo, esse tempo que vamos somando, dia a dia, levou-nos para horizontes diferentes e formatou as nossas vidas… Anos passaram sem que as noites luarentas, no velho jardim , à beira-rio , nos juntassem , e tu partiste sem que eu o soubesse... A vida havia-nos separado e a velha amizade de quase irmãos foi-se esbatendo e ficou a saudade...
E aquele sonho da minha infância, de querer ser advogado, não foi mais do que um sonho de criança que a vida contrariou quando me levou para outros destinos. Mas o meu pendor e a visão romântica da vida sempre me acompanharam, nada mudou com o tempo...
Mas outro tempo chegou, um tempo de egoísmo e ambição e eu fiquei fora do tempo...
Luís Machado
Publicado no Correio Transmontano a 28/11/2015

