Crónicas do meu viver // Por Luís Machado
Gosto de me isolar na minha salinha fofa, rodeado de um quase silêncio, selecionar uma música suave que me descansa o espírito, baixinho, quase em surdina, e ali ficar a pensar, a ler , a escrever, a navegar na internet, ligando-me ao mundo que , lá fora , discute o óbvio e permanece ,inflexível , na admiração do complexo.
Sinto que, às vezes, me dá vontade de cultivar um certo alheamento em relação ao que se ouve e diz e esquecer-me dos comentários de tantas cabeças pensantes que peroram um pouco por toda a parte, desde as mesas dos cafés, jornais, rádio , televisões, onde poses estudadas e treinadas procuram criar , em muitos casos ,uma falsa imagem de competência..... E assim se criam mitos , se constroem heróis , se preparam profetas , se omite ,se engana , se mente , se criam factos ,ser travestem informações , se diz e desdiz , numa cadência tal que o comum dos mortais se deixa enlear por esta onda informativa que não informa nada , antes baralha o difícil discernimento das coisas...
E há poses que, pela sua imponência , amedrontam quem as vê e ouve. Outras deixam escapar a necessidade de serem simpáticas para quem lhes paga o pão nosso de cada dia. Desde o apocalipse até ao paraíso, há vaticínios para tudo, transmitidos com arrogância intelectual ou sorrisos de circunstancia.! E eu que até sou uma pessoa compreensiva e me aflijo com o mal dos outros , sinto uma grande tristeza com o enorme número de manetas que por aí há no campo da informação...
Regresso ao meu quase silencio, só , extasiado com a música que ouço , em surdina , e penso como a mentira é atroz ! Destrói todas as certezas que fomos construindo ao longo da nossa existência e torna-nos cépticos em relação a tantas coisas que nos podiam fazer felizes! E a mentira é prolixa e está patente em todo o lado e em muitas das coisas em que acreditávamos quase como um dogma. Apetece alhearmo-nos de tudo e. não pensar e refugiarmo-nos neste " laissez faire ", já que o nosso esforço é inglório , incompreendido e maltratado.
E este só ,esta solidão em que a vida nos coloca , leva-nos até António Nobre e ao seu SÓ " ouvi estes carmes que eu compus no exílio / ouvi-os vós todos, bons portugueses/pelo cair das folhas, o melhor dos meses/mas tende cautela , não vos faça mal/que é o livro mais triste em Portugal. "
António Nobre morreu em 1900 , na cidade do Porto ,com 33 anos , tuberculoso ,depois de um exílio voluntário , em Paris , durante alguns anos..
SÓ é o único livro que publicou em vida, nas suas palavras , o livro mais triste que há em Portugal. E lembrei-me de outros exilados , igualmente voluntários, que a vida obrigou a deixar a sua família , o seu país , os seus sonhos , na procura de outros sonhos , de outras pátrias onde pudessem sonhar com uma vida decente e melhor , levando consigo esta palavra saudade que os nossos vates cantam e outros entoam, como " Zé brasileiro, português de Braga .." , outras sobre o Minho e o seu vinho verde e tantas que ecoam por esse Portugal fora...
E esta palavra Saudade que ensinamos a Cabo Verde e ao mundo, tão portuguesa, tão nossa, vive, mãos dadas com a solidão, com a Soledade que Amália nos canta e que tanto sentimos no fundo da nossa alma... E no quase silêncio da minha sala fofinha, ouço o trinado dolente das guitarras, envolvente e triste, cantando a saudade que o vento leva àqueles que na solidão do mundo, suspiram por um amanhã que lhes permita aspirar o doce ar da sua aldeia distante! "
" Pergunto ao vento que passa, noticias do meu pais..." , assim dizia Manuel Alegre, quando no exílio, este involuntário... O que me responderá o vento, se eu lho perguntar agora?
Sem comentários:
Enviar um comentário