segunda-feira, 2 de novembro de 2015

DOS PROBLEMAS DA VIDA ÀS POLÉMICAS ENTRE O PORTO E O NORTE

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Há dias em que temos necessidade de parar e fazer um balanço às nossas vidas. Que pretendemos fazer? Fizemos tudo certo até aqui ou andamos perdidos em deambulações sem nexo, procurando sem sabermos o rumo, inflectindo, às vezes, para caminhos ínvios que nos levam à tristeza e à amargura? E, então, um dia há uma palavra, uma frase, uma atitude que nos faz pensar e refletir profundamente sobre a vida : o que fomos, o que queremos, o que podemos ou devemos fazer...
Dormimos sobre este momento e deixamos ao subconsciente o trabalho de procurar respostas. E, então, no dia seguinte, acordamos ou desolados e tristes ou apaixonados pela vida e com as respostas que ansiávamos...
Então, é hora de decisões, de iniciar caminhos não trilhados ou consolidar posições e amar a vida com o coração lavado das angústias que nos atormentavam...
E lá vamos nós viver outra aventura, sentir outros sentires, caminhar em direção ao oásis onde brotam águas que nos saciam as sedes, percorrer mares que nos levam a horizontes onde o sol se recolhe e põe serenamente, lá vamos nós perseguindo utopias, à espera de céus onde tudo é paz e harmonia, onde os homens são irmãos, onde a solidariedade não é uma palavra vã, onde as palavras têm um sentido e não escondem montanhas de hipocrisia e falsas fés... E depois, meu Deus, como é triste a realidade que encontramos além no horizonte que almejamos. E o nosso coração volta a duvidar e a sentir a negridão da vida e a falácia das soluções que julgávamos encontrar no fim do caminho que trilhamos... 
Quanta hipocrisia e desamor, quantas palavras fúteis gastas em discursos lindos onde o verbo amar se conjuga em tons de rosa, quantos caminhos ínvios travestidos de alamedas, quantos céus cinzentos onde o azul já raiou...
Lemos os jornais, olhamos as imagens da TV, seguimos, curiosos, as mensagens das redes sociais, percorremos as ruas depois do anoitecer e vemos miséria e mais miséria , degradação, ódio, violência e sentimo-nos pequenos, impotentes, quiçá com um pedaço de culpa do que se passa no mundo, pela inércia, pelo deixar correr, pelo nosso egoísmo, pela cegueira demonstrada em tantos momentos cruciais. Regresso ao inicio desta crónica e pergunto a mim próprio " o que devemos ou podemos fazer? " E sinto-me impotente para encontrar respostas e continuo refletir, a pensar, a sentir na alma a angústia de tantos que o destino lançou para a vida em condições degradantes, impróprias de um ser humano, sem direito a nada, nem sequer um sorriso...
Vou à janela, são 18 horas, a noite já desceu sobre o casario, choveu, ouço o vento assobiando no arvoredo...Lá longe, as luzes já há muito se acenderam, parece um arraial, a névoa desce lentamente, embaciando o negrume da noite... Não há estrelas no céu...
As ruas, nesta zona onde moro, estão quase desertas, todos regressam a casa, que o tempo não convida a permanecer lá fora… Estou no Porto. Ontem fui tomar m café ao shopping, onde há um café airoso de que gosto. Estava quase cheio... muitas pessoas de idade que ali gastam o tempo que lhes vai sobrando.... Enquanto esperava, olhei à minha volta contemplei o espaço, bem concebido, belo, com um toque de bom gosto ao harmonizar um recanto com plantas verdes cujos galhos subiam para os céus. Gostei de ver, assim como uma feira do livro, quase deserta, e, lá mais ao fundo, repuxos de água refrescando o ambiente.
Gosto do Porto. É uma cidade bonita e airosa, cheia de História, que soube combinar o antigo com o moderno e tirar proveito da beleza com que a natureza a dotou... E gosto, essencialmente, do seu povo, da sua sinceridade congénita, da leveza do seu falar brejeiro, do seu " Carago " sonante, do apego às suas coisas, da sua capacidade de dizer presente quando as circunstâncias o impõem. E gosto também da sua Francesinha e duma boa tripalhada à moda do Porto, regada com um bom vinho verde. Mas não gostei das palavras que a imprensa põe na boca do seu Presidente de Câmara, quando se recusou a misturar o Galo de Barcelos e os chouriços de Trás-os-Montes, com a sua marca Porto. Se assim o disse, foi mau e expôs-se a reações desabridas de quem se sentiu ofendido naquilo que tem de mais querido, o seu artesanato ou a sua gastronomia, conhecidas em todo o mundo e apreciadas por muitos e muitos portuenses.
O Galo de Barcelos é o símbolo de um artesanato encantador que teve como seu expoente máximo Rosa Ramalho e seus seguidores e é conhecido além-fronteiras como representante de uma cultura popular que permanece bem viva na região de Barcelos, como os bordados e a louça o são em Viana do Castelo. Os enchidos, alheiras, salpicão, chouriços/as fazem parte da riqueza gastronómica de Trás-os-Montes, muito contribuem para a economia da região e fazem as delicias de nacionais e estrangeiros que nos visitam... Não ficam mal ao lado do Vinho do Porto, produzido nas arribas do Douro, nessa antiquíssima província de Trás-os-Montes e Alto Douro...
Foi um mau serviço prestado à causa da regionalização, pois vem pôr a nu aquilo que muitos temiam: o Porto e o Norte são coisas distintas. o Porto é uma nação, como gostam de dizer, e o resto é paisagem, como já há muito se dizia para os lados de Lisboa.
Pessoalmente, recuso-me a acreditar que fossem essas as palavras e a intenção do Sr. Presidente, até pela simpatia que por ele nutro. E seria bom que isso fosse esclarecido porque o Porto sem o Norte pouco é e o Norte sem o Porto fica ainda mais pobre. E já lhe basta o abandono a que o interior foi votado!

Publicado no Correio Transmontano a 30/10/2015

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