segunda-feira, 9 de novembro de 2015

DO SONHO E DA VIDA

Crónicas do meu viver// Por Luís Machado

Para amenizar um pouco a secura das palavras que tratam assuntos sérios que nos entristecem, hoje vou começar por transcrever um esboço de conto que escrevi, em que a realidade se mistura com o sonho e produz uma saudade que não morre e nos leva às raízes de uma vida longa... Então, é assim: 
" É apenas um sonho de criança, dos tempos em que tu eras ainda um botão de rosa e eu aguardava que crescesses para aspirar o teu perfume. O roseiral era o caminho dos meus passos e eu regava, com o meu amor ingénuo, o pé da roseira em que crescias...
Cresceu o tempo em muitos luares e sóis e tu abriste em flor, rosa tão perfumada e bela, que o roseiral passou a contemplar outros olhares que cobiçavam seu tesouro. E eu continuava a regar o pé da roseira que , orgulhosa , te mostrava , com o meu amor ingénuo, contemplando o belo... 
Um dia passou um cavaleiro e levou-te no seu corcel veloz e eu fiquei a olhar a estrada que guardou teu perfume para sempre... Os meus olhos procuravam, na imensidão da vida ,a rosa perfumada que com tanto desvelo eu regara....Apenas aquela estrada conservava o teu perfume e , lentamente , o meu amor ingénuo foi morrendo e ficou apenas a saudade... E quando na rua vejo belas rosas caminhando, imagino-te, esplendorosa e linda, a alimentar os meus sonhos de criança ...". 
É apenas um esboço dum conto muito maior que atravessa o tempo e não tem fim, um conto que se chama Vida... E é nesse tempo que eu caminho e me perco e me embrenho em recordações e saudades e navego em barcos de papel que atravessam os mares à procura do horizonte que não alcanço e Miro as estrelas à procura dos céus e caminho pelos campos onde colho flores e descanso nas areias douradas ouvindo o marulhar das ondas...
E o meu barco à vela tem pressa de chegar que já perdeu muito tempo e não pode voltar... Procuro futuros , mas nos meus poemas tudo em mim é pretérito, rodeado de brumas, cheio de silêncios... Distribuo optimismo e palavras lindas, mas, às vezes, está bem cinzento o meu coração... Queria pintar o arco-íris, mas não tenho cores para o alegrar... E vem-me à lembrança uma frase de Martin Luther King que vi citada : " Subi o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo....". 
Felizes os que vêem toda a escada e não hesitam , nem procuram e sabem que a felicidade está além no horizonte que vislumbram... Sobre o mar , os meus barcos de papel , os meus barcos à vela e os sonhos que lá moram, vão navegando, à procura de um horizonte e de uma enseada onde possam aportar. Quem sabe se vão voltar carregados de ilusões , se de quimeras que o vento desfaz num sopro... Talvez me tragam a esperança de um novo mundo a crescer para lá do horizonte.
Talvez, se o vento mudar, ainda haja primavera e nos jardins da quimera os sonhos possam medrar... Talvez o amor que sonhei com eles possa chegar e dos confins do abstracto, real se possa tornar...
Foi no mundo do sonho que escrevi esta crónica que se quereria versasse assuntos mais reais e de interesse. Mas neste mundo que poucas alegrias nos dá e nos mostra quadros de miséria material e moral de estarrecer, um pouco de sonho e poesia faz bem à alma...
E se , como dizia o poeta , " o sonho comanda a vida.." , deixe-mo-nos embalar nesta onda poética e também sonhemos com um amanhã diferente , mais humano , mais solidário , mais livre , em que sejamos irmãos e não rivais , homens verticais , sem medo , enfrentando a vida com determinação e amor... Talvez ainda haja esperança.

Publicado no Correio Transmontano a 6 de novembro de 2015

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