sexta-feira, 20 de novembro de 2015

RICOS E POBRES E OUTRAS ESTÓRIAS // HUMOR COM HUMOR SE PAGA

Crónicas do meu viver // Luís Machado


Um dos problemas que, como cidadão, mais me preocupa, é o da pobreza em Portugal. E ando tanto mais preocupado, quanto é certo que o problema já ultrapassou os limites daquele extrato da população que nunca conheceu situação diferente e invadiu áreas onde era impensável que isso acontecesse há uns anos atrás. 
Todos sabemos, por experiência própria ou pelas notícias que nos chegam através da comunicação social , que a classe média foi completamente arrasada e há já casos de miséria a atingi-la. Mas o que mais me preocupa é o facto de os ordenados auferidos pelos nossos políticos estarem de tal nodo degradados que há deputados que nem sequer ganham para almoçarem diariamente no Tavares Rico e ate o próprio Presidente se queixa de não ganhar para as despesas. 
Quando a situação chega a este ponto, algo de muito mal se passa na sociedade portuguesa e há que arranjar soluções urgentes. Não é fácil, mas estou em crer, contas feitas por alto, que se aumentássemos uns mil euros por mês aos governantes e deputados, uns seis ou sete milhões de euros haviam de chegar. Mas se aumentássemos uns simples dois euros por mês aos 1,7 milhões de pensionistas que recebem menos de 600 euros por mês, o aumento da despesa rondaria os 48 milhões de euros, o que seria incomportável para o erário público. Daí que a solução é simples, não há aumentos para os pensionistas, mas nada obsta a que se aumentem os mil euros aos políticos porque, no fundo, o acréscimo da despesa seria uma bagatela. Não sei se este pequeno aumento de mil euros seria suficiente para almoçar diariamente no Tavares Rico ou resolveria o défice doméstico do Presidente. Mas a crise tem de ser suportada por todos e em vez de almoçarem todos os dias no dito restaurante, podiam os deputados fazê-lo apenas nos dias em que comparecessem às sessões da Assembleia da Republica.
Quanto aos pensionistas, teriam de continuar a comer a sopinha mal adubada e ,se o dinheiro não chegasse , há sempre a possibilidade de recorrerem à Misericórdia ou à Caritas, porque , felizmente , a caridade ainda é uma das grandes virtudes do nosso povo. É que isto de aumentos ou divisões de lucros é um problema já antigo e que, por vezes, se resolve com alguma imaginação.
Soube, há muitos anos, de uma empresa pública que, a partir de certa altura, passou a distribuir pelos seus empregados uma parte dos lucros apurados. Nos primeiros anos, a distribuição de lucros concedia aos trabalhadores qualquer coisa como o equivalente a, entre 1/2 e um vencimento mensal. Num dos anos subsequentes os lucros diminuíram drasticamente e cifraram-se em apenas cerca de 100 contos , o que daria a cada trabalhador uma participação de apenas 2,50 escudos( moeda antiga) , uma moedinha pequenina que daria para dois ou três cafés. 
O Conselho de Administração resolveu, e bem, não fazer a normal distribuição de lucros e dividiu, assim constou então, os lucros entre os membros do conselho.Sempre alguém ficou satisfeito. Para que serviriam os 2,5 escudos? 
O problema não é muito diferente do que agora se faz, quando, quem manda , se aumenta a si próprio. É apenas uma bagatela. Mas é a crise e há que tomar medidas drásticas, não vá o povo habituar-se a viver indefinidamente acima das suas possibilidades.
Quanto à pobreza, no fundo, não deixa de ter os seus benefícios. Os mais velhos devem lembrar-se da historia do Sapateiro que sabia tocar rabecão, incluída nos textos do livro de leitura do , então , ensino primário.: um rico deu ao sapateiro uma grande quantia, em troca do silêncio do sapateiro que alegrava os seus dias de trabalho tocando rabecão. Ao fim de alguns dias sem poder tocar, a tristeza invadiu o coração do sapateiro que resolveu devolver o dinheiro ao rico, pois era mais feliz sendo pobre, mas com a liberdade de poder tocar o seu rabecão.
Daí que, meus caros, toquem qualquer coisa que lhes alivie a dor pelas dificuldades em que vivem, bombo, gaita de foles , acordeão ou simplesmente ferrinhos , mas toquem , toquem a vida para a frente , que o que importa é que haja alegria. 
É que, nesse tempo, ainda havia a FNAT( Fundação Nacional para Alegria no Trabalho) , mas como agora muitos nem trabalho têm, para que serviria a Fundação?
Olhem, folclorem-se, arranjem um Rancho e vamos ao vira. Cantando e bailando, castanhas assadas e uma boa pinga, não há crise que nos afete, nem governo que nos faça falta. Sempre se poupa algum.

Publicado no Correio Transmontano 20 de novembro de 2015

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