quarta-feira, 28 de outubro de 2015

E AQUELES QUE POR OBRAS VALEROSAS, SE VÃO DA LEI DA MORTE LIBERTANDO

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Pesquisando, numa das minhas estantes, alguns livros que queria consultar, vieram-me à mão dois exemplares de obras de autores transmontanos : " Bragança , Coimbra em miniatura " , de José Santa Rita Xisto e " Bragançanismo - Tentativas Históricas e Literárias " , de Eduardo Carvalho. São livros que li há mais de 20 ou 30 anos e que, do seu interesse literário e histórico , está na hora de reler e reaprender o seu excelente conteúdo. E como na ocasião manuseava uma edição de Os Lusíadas, lembrei-me dos versos de Luís de Camões: " E aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando / cantando espalharei por toda a parte / se a tanto me ajudar o engenho e arte. " Não faltou a Camões engenho e arte , como ele próprio reconhece, "Não me falta na vida honesto estudo / de longa experiência misturado / nem engenho que aqui vereis presente /coisas que juntas se acham raramente ". E cantou como ninguém jamais cantou ou cantaria , as virtudes de um povo a quem o destino encomendou grandes feitos e que , a golpes de génio e coragem, " passou ainda além da Taprobana " e alargou o mundo e chegou até onde era possível alcançar... 
E assim , por obras valerosas, se foi da lei da morte libertando, levando até aos confins dos mares, a Fé e o saber de antanho. Perdoe-nos a História alguns males que também fizemos, ante a grandeza do que fizemos bem. E quando " o Mostrengo que está no fim do mar " , no dizer de Fernando Pessoa, se ergueu e disse " Quem é que ousou entrar nas minhas cavernas que não desvendo / meus tetos negros do fim do mundo " , o homem do leme respondeu " Aqui ao leme sou mais do que eu / sou um povo que quer o mar que é teu / e mais que o Mostrengo que me a alma teme / e roda nas trevas do fim do mundo / manda a vontade que me ata ao leme / de el-Rei D.João ll ". 
E sempre assim foi: em Ourique, em Aljubarrota, nas Invasões Francesas, quiçá noutras ocasiões em que fomos postos à prova como povo. Sempre soubemos ser grandes na nossa pequenez e alijar a albarda quando nos quiseram tratar como burros. Como dizia o Marquês de Pombal ao embaixador espanhol " Diga lá ao seu Rei que em Portugal , mesmo depois de mortos , ainda são precisos quatro para nos tirar de casa " , respondendo a uma ameaça de invasão. E o povo anónimo que construiu os Jerónimos e a Batalha, fortes e castelos, palácios e igrejas de uma beleza ímpar, faz parte dos que" por obras valerosas se vão da lei da morte libertando " e não só aqueles a quem se erguem estátuas. "Heróis do mar, nobre povo , nação valente e imortal..." e não terra de PIGS, de pobretanas e ignorantes, de mandriões e pedintes, como, por vezes, nos querem rotular. 
Terra de poetas e artistas, de guerreiros e Santos , de gente de bem que dá a camisa por uma boa causa, Portugal será sempre terra de gente valerosa a quem Deus concedeu uma Pátria linda , onde o sol brilha no azul dos céus e onde as estrelas se miram , cintilantes , no mar imenso que , um dia , já foi nosso, pese embora, como dizia Camões, "... dos portugueses / alguns traidores houve algumas vezes".
E vêm-me à lembrança os nomes do Conde Andeiro. Miguel de Vasconcelos e outros que a História regista. Os vendilhões do Templo terão sempre uma chibata para os expulsar , assim como os que " por obras valerosas se vão da lei da morte libertando " , terão sempre um Camões para os cantar e um povo para os seguir e homenagear. E porque uma das homenagens mais simples e baratas para os cofres municipais é a que se presta através da toponímia, não será despiciendo lembrar que, talvez, fosse possível rever os critérios de atribuição de nomes de ruas, praças e avenidas aos que lutaram pela sua terra com o seu trabalho, pela projeção social alcançada, pela valia da sua arte, das suas produções literárias e poéticas, pela bondade das suas vidas, pelo seu saber compartilhado durante décadas e décadas. E que as rotundas que se forem construindo exibam as tradições e costumes desta terra tão bela. Como seria interessante a coexistência, nos mesmos espaços, do moderno e do tradicional, num país cada vez mais velho...

Publicado no Correio Transmontano a 22/10/2015

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

REFLEXÕES DE OUTONO

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Há dias em que a vida nos parece complexa e triste, sem que haja uma razão plausível para o nosso estado de espírito. Olhamos em nosso redor e vemos o sol brilhar no azul dos céus, enquanto uma brisa fresca embala as folhas das árvores que vão caindo neste início de Outono. Fica bela a paisagem matizada de mil cores, adoçando os sentidos, lembrando arco-íris que em seu arco perfeito, vai beber a água que depois vai ser chuva ( era assim que sonhávamos na longínqua infância). Mas é um belo triste o deste Outono que nos faz lembrar a nossa caminhada para Invernos que hão-de ser frios, tingindo de branco os nossos cabelos, recordando neves que já achamos belas. 
Não me apetece deambular pelas ruas da cidade , animadas por grupos de estudantes que se iniciam nas praxes académicas. Sinto uma sonolência que me convida à sesta, mas resisto ouvindo os acordes suaves de melodias de sempre que me mantêm desperto. Recolho-me ouvindo e revendo um vídeo maravilhoso produzido por Caves Estúdios de Vídeo, poetas do som e da imagem, sobre o Nordeste Transmontano, tão belo e sedutor que nem Torga seria capaz de cantar melhor as belezas deste Reino Maravilhoso. Fiquei encantado e isso me ajudou a levantar o astral e a pisar tempos idos em que percorria, por dever de ofício, todo o distrito de Bragança e tinha o ensejo de observar a natureza em toda a sua beleza e mirar as montanhas que , altaneiras, se perfilavam no meu trajeto.
Às vezes parava, ali para os lados de Vimioso, a observar um vale profundo onde se viam águias voando e planando naquele vasto espaço. E como era belo vê-las evolucionar nos céus, observando presas ou apenas exercitando competências. Outras aves o vídeo me mostrou, como as cegonhas que adoro e visitava amiúde, nos campos que ladeiam o IP4 , em frente a Castro de Avelãs.
Era um prazer imenso vê-las, ao fim da tarde , passearem-se nos campos, procurando o alimento para levar para o ninho onde os filhotes, com o outro membro do casal ,esperavam ansiosos. E quando chegava o tempo, eu espiava, com tristeza, o momento de as ver partir para outras paragens mais amenas , fugindo ao rigor do Inverno transmontano. Bons tempos em que as cegonhas vinham de Paris, transportando os bebés que haviam de ser crianças e homens e mulheres para alegria das gentes. 
Em todas as localidades havia crianças que enchiam as escolas e professores dedicados que lhes ensinavam os primeiros saberes. Havia risos e choros , cabeças rachadas e joelhos esfolados e cantos de alegria que ecoavam na aldeia. E havia pais que respeitavam o/a professor/a dos filhos e lhes agradeciam o desvelo com que os tratavam e lhes abriam os caminhos da vida.
Hoje é confrangedor percorrer essas aldeias que regurgitavam de crianças, adultos e idosos e ver o estado de abandono a que foram votadas. As cidades, o litoral e a emigração todos levaram e ficaram os edifícios, como fantasmas dançando no tempo. As escolas fecharam, as poucas crianças que havia foram levadas para os Mega Agrupamentos e os Professores, muitos deles, atirados para o desemprego ou para escolas bem longe dos seus lares. E a alegria que ecoava nos vales e montes desta terra abençoada, deu lugar ao silêncio que alimenta as saudades. 
Vejam, quem puder, as fotos publicadas por Orlando Nascimento no Facebook , sobre a aldeia de Palas-Vinhais e ficarão em choque ao contemplar tal desolação. Os sinos da Igreja já não chamam os fiéis e talvez já nem cobras ou lagartos embelezem a paisagem... E vieram-me à lembrança outros tempos em que se cantava a liberdade e a esperança e " uma gaivota voava, voava..." e Zeca Afonso cantava o futuro que sonhávamos e Sérgio Godinho pedia pão, saúde, educação... Outros pediam igualdade e fraternidade e muitos sonhavam, sonhavam apenas... 
Recordo-me de, num parque de campismo do verdejante Minho, termos reunido um orfeão improvisado e entoarmos as canções de Abril. Foi lindo e empolgante e houve lágrimas nos olhos de muitos dos que assistiam. Depois, depois o tempo seguiu o seu caminho...Saltos e recuos, esperança e desilusões... Chegado o Outono, murcham as flores e calam-se os pássaros... Há dias em que a vida nos parece complexa e triste...

terça-feira, 13 de outubro de 2015

PENSO EM TI

Penso em ti
como uma estrela distante
lá nos confins do mundo,
nessas galáxias sem fim
onde vives sem mim,
um sol em extinção
cuja luz mal atinge
já teu coração...

Penso em ti ,
no brilho dos teus olhos,
na luz com que iluminas
os céus com que ainda sonho.

Penso em ti
como um anjo alado
que acompanha meus passos
e me leva pela estrada fora
até ao fim do tempo...

Penso em ti
como se o pensamento
fosse, apenas, um momento
e a luz iluminasse os ceus
na procura da galáxia
onde, intensamente, brilhas...

Penso em ti,
já num sem tempo ,
num espaço etéreo
onde os sonhos se apagam,
numa leveza de alma
onde os amores acabam
e onde o coração
serenamente acalma...

Luís Machado

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

OUVINDO SCHUBERT E LENDO " A BALADA DA NEVE"

Crónicas do meu viver // por LUÍS MACHADO

Estou sentado no " meu " sofá, ouvindo , muito baixinho , a "Avé Maria " de Schubert, enquanto a imagem da TV me mostra paisagens que fazem lembrar a Bragança de às vezes, nevando , os flocos caindo levemente , pintando de branco o arvoredo e os campos. Recordo, mentalmente, a Balada da Neve, de Augusto Gil e os versos finais " Cai neve na natureza e caí no meu coração" , transportam-me para a música que estava a ouvir " Ave Maria, gratia plena ..." , e o meu coração e os meus olhos elevam-se para o céu e repetem a pergunta do poeta " Mas as crianças, Senhor , porque lhes dais tanta dor..."...
Hoje é tempo de reflexão! Mas refletir sobre quê? Quase me apetece dizer que sobre nada, porque nada as pessoas sabem sobre o muito que o futuro poderá trazer. Quando esta crónica for publicada já saberemos o resultado da nossa reflexão e, por certo, a pergunta do poeta continuará sem resposta e as crianças, no mundo, continuarão a sofrer e o egoísmo continuará a sobrepor-se ao dever universal de fraternidade. Lá longe, palavras santas continuarão a apelar e a sua voz não terá eco em muitas consciências, corrompidas pela ambição desmedida ou pelo egoísmo mais feroz. O mar continuará a engolir vitimas inocentes, pátrias inteiras serão destruídas por poderosos interesses antagónicos, o dinheiro de uns versus o radicalismo de outros. Instala-se o medo que nos embota os sentidos e nos amarfanha o pensamento e ouvem-se vozes absurdas e pueris , apelando ao ódio .
Há dias mundiais de tudo... Porque não se cria o dia mundial do bom senso? Lá fora, a chuva cai , inclemente , em bátegas sucessivas , inundando as ruas. O vento , moderado , agita as árvores e as folhas voam sobre as nossas cabeças e vão pousar, docemente , aos nossos pés. Atapeta-se a paisagem de verdes, amarelos , vermelhos e as árvores vão ficando despidas como muitas das pessoas a quem austeridade afetou. Vão adormecer na esperança de nova primavera que lhes traga de volta a frondosidade perdida, onde os pássaros armavam os seus ninhos e ensaiavam melodias de encantar.
Vão viver de esperança, temendo as agruras de um inverno que terão ainda de ultrapassar, incólumes. Algumas morrerão de inação, sem força para suportar as tempestades... Outras dormirão o sono dos justos e aguardarão, serenamente, o desabrochar do tempo e a rebentação dos gomos que hão-de assumir-se em folhas e flores...
E a vida recomeça... Haverá novos sonhos e desilusões... e assim será para todo o sempre... Já há muto Schubert terminou a sua melodia e eu devo ter dormido a minha sesta , sonhando harmonias e também desencantos. E, mais uma vez recordo a Balada da Neve e as palavras finais do poema " mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor...":
- Corpos de duas crianças dão à costa na ilha grega de Kos;
-  Huíla: restituídas mais de 200 crianças que faziam trabalhos forçados na Namíbia;
- Mais de 500 crianças mortas e 1,7 milhões em risco no Iémene;
- Três mulheres são presas por usar fotos de crianças para...
- Em Portugal dois milhões vivem em risco de pobreza. Quase 500 mil são crianças;
- Milhares de crianças mineiras exploradas nas Filipinas;
-Crianças amputadas por causa de uma crença;
-Pedófilos roubam metade das fotos de crianças no Facebook;
-Prostituídas e exploradas: a dura realidade das crianças (BBC Brasil);
-Brasil: Fotógrafo regista crianças órfãs e de rua ao lado de seus cães;
-Brasil: sonho das crianças refugiadas sírias é frequentarem a Escola;
-BoKo Haram já desalojou mais de um milhão de crianças.
Esta é uma pequena amostra do que podemos ler diariamente nos órgãos de comunicação social. Para onde caminha a natureza humana? O que é que torna possível a miséria e degradação a que assistimos num mundo em que a ostentação de muitos é uma ofensa à pobreza de tantos? Dizia o Papa Francisco, na sua última visita aos Estados Unidos: " Temos de ter especial cuidado com as crianças e avós... ". Quem o ouve e segue? As palavras de circunstância que muitas vezes ouvimos, encobrem a maior das hipocrisias e os interesses inconfessáveis de muitos sobrepõem-se ao dever inalienável de solidariedade e fraternidade que deveria presidir à acção de quem pode e manda. " Temos de ter especial cuidado com as crianças e avós...".
E eu que tenho cinco filhos e oito netos, preocupo-me, não só com eles, mas também com todos os que precisam de esperança e de um carinho que lhes aqueça a alma. Perdoem-me os outros netos, mas não resisto à tentação de transcrever a mensagem que me deixou o neto mais novo, o Pedro Miguel, de 7 anos, aquando do meu aniversário natalício: " És o melhor avô do mundo. Adoro-te. " De que mais precisa um avô para se sentir feliz?
Luís Machado
Publicado no Correio Transmontano a 9 de outubro de 2015


sábado, 3 de outubro de 2015

OUTONO E OUTRAS ESTÓRIAS

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Entrou o Outono com ar prazenteiro, mais parecendo Verão. O sol continua a aquecer as nossas almas, enquanto as noites frias vão despindo as árvores da folhagem, atapetando as ruas e passeios. Morrem as flores dos nossos polícromos jardins e só as rosas resistem um pouco mais, suavizando a tristeza dos canteiros. 
Os idosos reflectem e pensam na tristeza dos Invernos que se avizinham e vêem, nas imagens que os espelhos lhes mostram, o caminhar do tempo, os cabelos brancos, as rugas que surgem no seu rosto , o brilho baço dos seus olhos que tiveram já o esplendor do sol e das estrelas. Quis o destino que o Outono e eu celebrássemos no mesmo dia a entrada num outro tempo, ambos a caminho do Inverno , suavemente, festejando com hossanas e champanhe um dia diferente que não se repetirá, os meus 80 anos.
Foi lindo o que os meus filhos e netos prepararam para mim, enchendo de júbilo o meu coração e levando a que uma lágrima bailasse nos meus olhos e me embargasse a voz quando, em breves palavras, quis agradecer-lhes o carinho e o amor demonstrados.
Foram muitos os amigos(as) que quiseram demonstrar-me o seu afecto nessa data e alguns tocaram bem fundo no meu coração pelo teor e conteúdo das suas mensagens. Houve quem me fizesse poemas e dedicasse canções e músicas que acharam adequadas ao momento, com a ternura e o carinho de que necessita um amigo menos jovem.
Os meus amigos(as) brasileiros foram extraordinários e eu entendi porque nós estamos no Outono e eles na Primavera... Mas também entendi, do lado de cá, alguns simples " parabéns" que sintetizavam afectos que não sabemos ou queremos demonstrar, pela frieza circunspecta dos nossos costumes, cheios de " tabus " e de " parece mal "...
E quanto são diferentes as palavras e o tom utilizados pelos nossos irmãos brasileiros no simples contacto quotidiano em que as expressões " te amo " e " querido , entre outras, são vulgares no trato, não expressando, com extremo à vontade, senão carinho e ternura por aqueles com quem falamos. Nós somos diferentes, mais reservados e guardamos tais expressões para um contacto privado ou para as cartas de amor, em que o sentido das palavras tem uma conotação diversa. Ainda bem que nas gerações mais novas, certos tabus caíram e as relações são mais naturais e sinceras. As gerações mais velhas continuam cheias de pruridos e " parece mal ", nas coisas mais simples, dificultando o salutar convívio das pessoas e as relações mais sinceras, sem as habituais fofoquices em que a nossa sociedade é altamente especializada.

2 - Mas é Outono e o tempo muda a cada instante. Há árvores e arbustos verdes que vão adquirindo a coloração vermelha ou amarela e mudam a paisagem. Os nossos olhos seguem, extasiados, a mudança e a contemplação do belo sossega os nossos corações, angustiados pela miséria que grassa pelo mundo e pela inércia dos todo poderosos em arranjar soluções que a minorem, pese embora a voz cativante do Papa Francisco não cessar de apelar à fraternidade entre os homens.
Sento-me num banco da Praça Cavaleiro Ferreira e dali domino o pulsar da cidade, azafamada aquela hora, cada um procurando chegar mais cedo ao seu destino. Olho em volta e contemplo o chafariz espargindo água em geométricas formas, num efeito visual que nos encanta. À noite, iluminado, ainda é mais belo. Lá no fundo, do outro lado da rua, ergue-se, monumental, o Teatro, numa arquitectura moderna que a muitos encanta e outros detestam.
Subo com o olhar a escadaria e penetro no seu interior, confortável, airoso, equipado a preceito para as funções que exerce. E lembro-me de Shakespeare cujo olhar atravessou o tempo e chegou atual aos nossos dias..." na corrente corrupta da vida, a mão dourada do crime pode entravar a justiça... e quantas vezes vemos o próprio prémio do mal comprar a lei..."
Olho para o outro lado do local onde estou e lá está o edifício da " Domus Justitiae ", em pedra trabalhada , bonito, sóbrio, como convém à função, e lembro-me de tantos casos que fizeram a manchete dos jornais e revistas ou encantaram os " pivots " da televisão e cujo veredicto deixou no ar mais dúvidas do que as que resolveu , assistindo os cidadãos, perplexos, às prescrições que se vão sucedendo no tempo ou à demora infinita de processos que, dilatoriamente, quem tem dinheiro, sempre vai conseguindo.
No lado oposto, ergue-se o belo edifício que foi o BNU, integrado na CGD, símbolo de um poder que a crise abalou, à espera de melhores dias e de uma ideia salvadora que lhe dê utilidade. E há tantos belos edifícios em Bragança, nas mesmas condições.
Sigo com o olhar o que foi um belo passeio em calçada à portuguesa e admiro o edifício onde funcionaram a Segurança Social e o Tribunal de trabalho. E vêm-me à lembrança tempos em que os trabalhadores tinham direitos e os viam respeitados, sem sofismas que pretendem justificar todo o tipo de abusos, desde as remunerações vergonhosas, o trabalho precário, aos despedimentos sem justificação, aos cortes nos salários e pensões e mais, muito mais que seria fastidioso enumerar. E , como os pássaros, as pessoas migram e vão construir o ninho noutras bandas onde o clima seja mais ameno e respirem respeito.
Olho, por fim, para o Largo do Correio e para o edifício onde tenho um pedaço do meu coração. A estátua do Carteiro simboliza o trabalhador que, por montes e vales, chovesse ou fizesse sol, com frio ou calor, levava sempre a Carta a Garcia e entregava sempre as cartas, mesmo quando as direções eram do tipo..." para o António que é maneta e não tem mãe... Portugal..." e outras tão castiças que não deixavam de nos provocar um longo sorriso. Eram profissionais a sério, com longos anos de trabalho nos Correios e sabiam que essa era a sua função.
Os tempos mudaram e outros valores mais altos se alevantaram e....vamos sempre bater no mesmo... o dinheiro comanda a vida e já não o sonho, este adormeceu no colo dos poetas... Às vezes acorda e estremunhado, canta as belezas e a tristeza do Outono..." As árvores da minha rua, já estão perdendo a folha..." / " as árvores que foram belas, ficam tristes, pesarosas..." / "..de mansinho, o Outono avança..." 
Fui procurar as cegonhas mas já tinham emigrado. Se ao menos houvesse melros a cantar no meu jardim... Só tem uma rosa vermelha que um dia vai desfolhar... e até os cravos vermelhos acabaram por secar...

Publicada no Correio Transmontano a 2 de Outubro de 2015

https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/

DANÇA COMIGO À CHUVA


Vem dançar comigo
à chuva , com os sonhos
Que lancei no tempo...
Vem , enquanto é dia,
entre o trigo loiro
e por entre as flores...

Vem dançar comigo
por entre os amores
perfeitos ou não...
Deixa-me pegar
nessa tua mão,
banir a tristeza
do meu coração...

Vem dançar comigo
à chuva , com os sonhos
que lancei no tempo...
Se a noite chegar,
não vamos parar,
temos as estrelas
para iluminar
e a lua cheia
para nós a olhar...

Vem dançar comigo
à chuva ,com os sonhos
que lancei no tempo...
E se o tempo acabar,
ainda mesmo assim,
nós vamos dançar,
a dança da vida,
a dança do amor ,
dançando nas nuvens
em arrebois de cor...

Vem dançar comigo
à chuva, com os sonhos
que lancei no tempo...
Sem corpo, só alma,
dançando nas nuvens,
nesta noite calma...

Vem dançar comigo,
além é o céu,
quero ir contigo
contar as estrelas ,
metade e outras tantas
e ainda mais algumas
das que tu plantas...

Vem dançar comigo
à chuva ,com os sonhos
que lancei no tempo...
Dança docemente,
encosta o teu peito
ao meu peito ardente,
dá-me a tua mão,
apaga esta dor
do meu coração,
quero enchê-lo todo
de sonhos de amor...

Luís Machado