Crónicas do meu viver // Por Luís Machado
Entrou o Outono com ar prazenteiro, mais parecendo Verão. O sol continua a aquecer as nossas almas, enquanto as noites frias vão despindo as árvores da folhagem, atapetando as ruas e passeios. Morrem as flores dos nossos polícromos jardins e só as rosas resistem um pouco mais, suavizando a tristeza dos canteiros.
Os idosos reflectem e pensam na tristeza dos Invernos que se avizinham e vêem, nas imagens que os espelhos lhes mostram, o caminhar do tempo, os cabelos brancos, as rugas que surgem no seu rosto , o brilho baço dos seus olhos que tiveram já o esplendor do sol e das estrelas. Quis o destino que o Outono e eu celebrássemos no mesmo dia a entrada num outro tempo, ambos a caminho do Inverno , suavemente, festejando com hossanas e champanhe um dia diferente que não se repetirá, os meus 80 anos.
Foi lindo o que os meus filhos e netos prepararam para mim, enchendo de júbilo o meu coração e levando a que uma lágrima bailasse nos meus olhos e me embargasse a voz quando, em breves palavras, quis agradecer-lhes o carinho e o amor demonstrados.
Foram muitos os amigos(as) que quiseram demonstrar-me o seu afecto nessa data e alguns tocaram bem fundo no meu coração pelo teor e conteúdo das suas mensagens. Houve quem me fizesse poemas e dedicasse canções e músicas que acharam adequadas ao momento, com a ternura e o carinho de que necessita um amigo menos jovem.
Os meus amigos(as) brasileiros foram extraordinários e eu entendi porque nós estamos no Outono e eles na Primavera... Mas também entendi, do lado de cá, alguns simples " parabéns" que sintetizavam afectos que não sabemos ou queremos demonstrar, pela frieza circunspecta dos nossos costumes, cheios de " tabus " e de " parece mal "...
E quanto são diferentes as palavras e o tom utilizados pelos nossos irmãos brasileiros no simples contacto quotidiano em que as expressões " te amo " e " querido , entre outras, são vulgares no trato, não expressando, com extremo à vontade, senão carinho e ternura por aqueles com quem falamos. Nós somos diferentes, mais reservados e guardamos tais expressões para um contacto privado ou para as cartas de amor, em que o sentido das palavras tem uma conotação diversa. Ainda bem que nas gerações mais novas, certos tabus caíram e as relações são mais naturais e sinceras. As gerações mais velhas continuam cheias de pruridos e " parece mal ", nas coisas mais simples, dificultando o salutar convívio das pessoas e as relações mais sinceras, sem as habituais fofoquices em que a nossa sociedade é altamente especializada.
2 - Mas é Outono e o tempo muda a cada instante. Há árvores e arbustos verdes que vão adquirindo a coloração vermelha ou amarela e mudam a paisagem. Os nossos olhos seguem, extasiados, a mudança e a contemplação do belo sossega os nossos corações, angustiados pela miséria que grassa pelo mundo e pela inércia dos todo poderosos em arranjar soluções que a minorem, pese embora a voz cativante do Papa Francisco não cessar de apelar à fraternidade entre os homens.
Sento-me num banco da Praça Cavaleiro Ferreira e dali domino o pulsar da cidade, azafamada aquela hora, cada um procurando chegar mais cedo ao seu destino. Olho em volta e contemplo o chafariz espargindo água em geométricas formas, num efeito visual que nos encanta. À noite, iluminado, ainda é mais belo. Lá no fundo, do outro lado da rua, ergue-se, monumental, o Teatro, numa arquitectura moderna que a muitos encanta e outros detestam.
Subo com o olhar a escadaria e penetro no seu interior, confortável, airoso, equipado a preceito para as funções que exerce. E lembro-me de Shakespeare cujo olhar atravessou o tempo e chegou atual aos nossos dias..." na corrente corrupta da vida, a mão dourada do crime pode entravar a justiça... e quantas vezes vemos o próprio prémio do mal comprar a lei..."
Olho para o outro lado do local onde estou e lá está o edifício da " Domus Justitiae ", em pedra trabalhada , bonito, sóbrio, como convém à função, e lembro-me de tantos casos que fizeram a manchete dos jornais e revistas ou encantaram os " pivots " da televisão e cujo veredicto deixou no ar mais dúvidas do que as que resolveu , assistindo os cidadãos, perplexos, às prescrições que se vão sucedendo no tempo ou à demora infinita de processos que, dilatoriamente, quem tem dinheiro, sempre vai conseguindo.
No lado oposto, ergue-se o belo edifício que foi o BNU, integrado na CGD, símbolo de um poder que a crise abalou, à espera de melhores dias e de uma ideia salvadora que lhe dê utilidade. E há tantos belos edifícios em Bragança, nas mesmas condições.
Sigo com o olhar o que foi um belo passeio em calçada à portuguesa e admiro o edifício onde funcionaram a Segurança Social e o Tribunal de trabalho. E vêm-me à lembrança tempos em que os trabalhadores tinham direitos e os viam respeitados, sem sofismas que pretendem justificar todo o tipo de abusos, desde as remunerações vergonhosas, o trabalho precário, aos despedimentos sem justificação, aos cortes nos salários e pensões e mais, muito mais que seria fastidioso enumerar. E , como os pássaros, as pessoas migram e vão construir o ninho noutras bandas onde o clima seja mais ameno e respirem respeito.
Olho, por fim, para o Largo do Correio e para o edifício onde tenho um pedaço do meu coração. A estátua do Carteiro simboliza o trabalhador que, por montes e vales, chovesse ou fizesse sol, com frio ou calor, levava sempre a Carta a Garcia e entregava sempre as cartas, mesmo quando as direções eram do tipo..." para o António que é maneta e não tem mãe... Portugal..." e outras tão castiças que não deixavam de nos provocar um longo sorriso. Eram profissionais a sério, com longos anos de trabalho nos Correios e sabiam que essa era a sua função.
Os tempos mudaram e outros valores mais altos se alevantaram e....vamos sempre bater no mesmo... o dinheiro comanda a vida e já não o sonho, este adormeceu no colo dos poetas... Às vezes acorda e estremunhado, canta as belezas e a tristeza do Outono..." As árvores da minha rua, já estão perdendo a folha..." / " as árvores que foram belas, ficam tristes, pesarosas..." / "..de mansinho, o Outono avança..."
Fui procurar as cegonhas mas já tinham emigrado. Se ao menos houvesse melros a cantar no meu jardim... Só tem uma rosa vermelha que um dia vai desfolhar... e até os cravos vermelhos acabaram por secar...
Publicada no Correio Transmontano a 2 de Outubro de 2015
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