Crónicas do meu viver // Por Luís Machado
Pesquisando, numa das minhas estantes, alguns livros que queria consultar, vieram-me à mão dois exemplares de obras de autores transmontanos : " Bragança , Coimbra em miniatura " , de José Santa Rita Xisto e " Bragançanismo - Tentativas Históricas e Literárias " , de Eduardo Carvalho. São livros que li há mais de 20 ou 30 anos e que, do seu interesse literário e histórico , está na hora de reler e reaprender o seu excelente conteúdo. E como na ocasião manuseava uma edição de Os Lusíadas, lembrei-me dos versos de Luís de Camões: " E aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando / cantando espalharei por toda a parte / se a tanto me ajudar o engenho e arte. " Não faltou a Camões engenho e arte , como ele próprio reconhece, "Não me falta na vida honesto estudo / de longa experiência misturado / nem engenho que aqui vereis presente /coisas que juntas se acham raramente ". E cantou como ninguém jamais cantou ou cantaria , as virtudes de um povo a quem o destino encomendou grandes feitos e que , a golpes de génio e coragem, " passou ainda além da Taprobana " e alargou o mundo e chegou até onde era possível alcançar...
E assim , por obras valerosas, se foi da lei da morte libertando, levando até aos confins dos mares, a Fé e o saber de antanho. Perdoe-nos a História alguns males que também fizemos, ante a grandeza do que fizemos bem. E quando " o Mostrengo que está no fim do mar " , no dizer de Fernando Pessoa, se ergueu e disse " Quem é que ousou entrar nas minhas cavernas que não desvendo / meus tetos negros do fim do mundo " , o homem do leme respondeu " Aqui ao leme sou mais do que eu / sou um povo que quer o mar que é teu / e mais que o Mostrengo que me a alma teme / e roda nas trevas do fim do mundo / manda a vontade que me ata ao leme / de el-Rei D.João ll ".
E sempre assim foi: em Ourique, em Aljubarrota, nas Invasões Francesas, quiçá noutras ocasiões em que fomos postos à prova como povo. Sempre soubemos ser grandes na nossa pequenez e alijar a albarda quando nos quiseram tratar como burros. Como dizia o Marquês de Pombal ao embaixador espanhol " Diga lá ao seu Rei que em Portugal , mesmo depois de mortos , ainda são precisos quatro para nos tirar de casa " , respondendo a uma ameaça de invasão. E o povo anónimo que construiu os Jerónimos e a Batalha, fortes e castelos, palácios e igrejas de uma beleza ímpar, faz parte dos que" por obras valerosas se vão da lei da morte libertando " e não só aqueles a quem se erguem estátuas. "Heróis do mar, nobre povo , nação valente e imortal..." e não terra de PIGS, de pobretanas e ignorantes, de mandriões e pedintes, como, por vezes, nos querem rotular.
Terra de poetas e artistas, de guerreiros e Santos , de gente de bem que dá a camisa por uma boa causa, Portugal será sempre terra de gente valerosa a quem Deus concedeu uma Pátria linda , onde o sol brilha no azul dos céus e onde as estrelas se miram , cintilantes , no mar imenso que , um dia , já foi nosso, pese embora, como dizia Camões, "... dos portugueses / alguns traidores houve algumas vezes".
E vêm-me à lembrança os nomes do Conde Andeiro. Miguel de Vasconcelos e outros que a História regista. Os vendilhões do Templo terão sempre uma chibata para os expulsar , assim como os que " por obras valerosas se vão da lei da morte libertando " , terão sempre um Camões para os cantar e um povo para os seguir e homenagear. E porque uma das homenagens mais simples e baratas para os cofres municipais é a que se presta através da toponímia, não será despiciendo lembrar que, talvez, fosse possível rever os critérios de atribuição de nomes de ruas, praças e avenidas aos que lutaram pela sua terra com o seu trabalho, pela projeção social alcançada, pela valia da sua arte, das suas produções literárias e poéticas, pela bondade das suas vidas, pelo seu saber compartilhado durante décadas e décadas. E que as rotundas que se forem construindo exibam as tradições e costumes desta terra tão bela. Como seria interessante a coexistência, nos mesmos espaços, do moderno e do tradicional, num país cada vez mais velho...
Publicado no Correio Transmontano a 22/10/2015
Publicado no Correio Transmontano a 22/10/2015
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