Crónicas do meu viver // Por Luís Machado
Há dias em que a vida nos parece complexa e triste, sem que haja uma razão plausível para o nosso estado de espírito. Olhamos em nosso redor e vemos o sol brilhar no azul dos céus, enquanto uma brisa fresca embala as folhas das árvores que vão caindo neste início de Outono. Fica bela a paisagem matizada de mil cores, adoçando os sentidos, lembrando arco-íris que em seu arco perfeito, vai beber a água que depois vai ser chuva ( era assim que sonhávamos na longínqua infância). Mas é um belo triste o deste Outono que nos faz lembrar a nossa caminhada para Invernos que hão-de ser frios, tingindo de branco os nossos cabelos, recordando neves que já achamos belas.
Não me apetece deambular pelas ruas da cidade , animadas por grupos de estudantes que se iniciam nas praxes académicas. Sinto uma sonolência que me convida à sesta, mas resisto ouvindo os acordes suaves de melodias de sempre que me mantêm desperto. Recolho-me ouvindo e revendo um vídeo maravilhoso produzido por Caves Estúdios de Vídeo, poetas do som e da imagem, sobre o Nordeste Transmontano, tão belo e sedutor que nem Torga seria capaz de cantar melhor as belezas deste Reino Maravilhoso. Fiquei encantado e isso me ajudou a levantar o astral e a pisar tempos idos em que percorria, por dever de ofício, todo o distrito de Bragança e tinha o ensejo de observar a natureza em toda a sua beleza e mirar as montanhas que , altaneiras, se perfilavam no meu trajeto.
Às vezes parava, ali para os lados de Vimioso, a observar um vale profundo onde se viam águias voando e planando naquele vasto espaço. E como era belo vê-las evolucionar nos céus, observando presas ou apenas exercitando competências. Outras aves o vídeo me mostrou, como as cegonhas que adoro e visitava amiúde, nos campos que ladeiam o IP4 , em frente a Castro de Avelãs.
Era um prazer imenso vê-las, ao fim da tarde , passearem-se nos campos, procurando o alimento para levar para o ninho onde os filhotes, com o outro membro do casal ,esperavam ansiosos. E quando chegava o tempo, eu espiava, com tristeza, o momento de as ver partir para outras paragens mais amenas , fugindo ao rigor do Inverno transmontano. Bons tempos em que as cegonhas vinham de Paris, transportando os bebés que haviam de ser crianças e homens e mulheres para alegria das gentes.
Em todas as localidades havia crianças que enchiam as escolas e professores dedicados que lhes ensinavam os primeiros saberes. Havia risos e choros , cabeças rachadas e joelhos esfolados e cantos de alegria que ecoavam na aldeia. E havia pais que respeitavam o/a professor/a dos filhos e lhes agradeciam o desvelo com que os tratavam e lhes abriam os caminhos da vida.
Hoje é confrangedor percorrer essas aldeias que regurgitavam de crianças, adultos e idosos e ver o estado de abandono a que foram votadas. As cidades, o litoral e a emigração todos levaram e ficaram os edifícios, como fantasmas dançando no tempo. As escolas fecharam, as poucas crianças que havia foram levadas para os Mega Agrupamentos e os Professores, muitos deles, atirados para o desemprego ou para escolas bem longe dos seus lares. E a alegria que ecoava nos vales e montes desta terra abençoada, deu lugar ao silêncio que alimenta as saudades.
Vejam, quem puder, as fotos publicadas por Orlando Nascimento no Facebook , sobre a aldeia de Palas-Vinhais e ficarão em choque ao contemplar tal desolação. Os sinos da Igreja já não chamam os fiéis e talvez já nem cobras ou lagartos embelezem a paisagem... E vieram-me à lembrança outros tempos em que se cantava a liberdade e a esperança e " uma gaivota voava, voava..." e Zeca Afonso cantava o futuro que sonhávamos e Sérgio Godinho pedia pão, saúde, educação... Outros pediam igualdade e fraternidade e muitos sonhavam, sonhavam apenas...
Recordo-me de, num parque de campismo do verdejante Minho, termos reunido um orfeão improvisado e entoarmos as canções de Abril. Foi lindo e empolgante e houve lágrimas nos olhos de muitos dos que assistiam. Depois, depois o tempo seguiu o seu caminho...Saltos e recuos, esperança e desilusões... Chegado o Outono, murcham as flores e calam-se os pássaros... Há dias em que a vida nos parece complexa e triste...

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