sábado, 21 de janeiro de 2017

PERCURSO


Fui gazela livre
brincando com os sonhos,
ágil, perseguindo o futuro,
desenrolando a vida,
novelo fofo
de ternuras feito...
Fui ave solta
sonhando igualdade,
lúdicos devaneios
por um além só cor,
planura sem fim,
semeada de amor...
Fui vendaval
arrastando ideias,
vento de mudança
arrasando rotinas,
fui coragem,
fui força,
fui certeza...
Que é do horizonte
onde almejei o fim?
Porque passou a vida
sem esperar por mim?
Luis Machado

Crónicas do meu viver // Havemos de ir a Viana


Uma arreliadora lesão tem-me impedido de dar os pequenos passeios que preenchiam o meu tempo nas manhãs da permanência no Porto. Ouço, no entanto, o barulho da cidade que se move, em permanência, o passar dos carros, o vozear das gentes, o ladrar dos cães em defesa do seu território e, às vezes, o silêncio que se abate, por momentos, sobre mim e onde observo, da varanda, o casario ao longe, e as montanhas para além das quais está o meu mundo, um mundo diferente, mais sereno e onde ainda é possível conhecer os vizinhos e encontrar os amigos, sem esforço. E há bons lugares sagrados do nosso dia a dia, por onde passaram e passam muitos dos nossos sonhos, onde observamos a beleza ondulante que aproveita o sol ou descontrai, placidamente nas esplanadas, cruzando as pernas com à vontade...

Mesmo com a ligeira lesão que me condiciona os passos, não deixo de aproveitar o tempo e, com a ajuda da minha filha, lá vou tomar o meu café, rever alguns amigos, passear, de carro, onde nos leva a vontade. Mas é o mar que mais nos atrai e o marulhar das ondas enche o meu coração de saudades e leva-nos aos locais onde fomos felizes. À medida que os anos passam, os acontecimentos passados assumem, para nós, uma importância crescente e os olhos da saudade ampliam a sua importância e fazem deles momentos impares. Viana do Castelo a Vila Praia de Âncora, são dois desses lugares mágicos que povoam o nosso imaginário. Foi para lá que nos encaminhamos no último fim-de-semana,para, num pequeno restaurante, com vista para o mar, saborearmos um peixinho fresco e delicioso. Deleitado o estômago, foi tempo de encantar o espírito, dando um longo passeio de carro pela estrada interior, junto ao mar, apreciando a paradisíaca paisagem. O rio que corria ao nosso lado, parecia um lago onde se espelhavam os nossos sonhos ou recordações de outros tempos que por ali passamos, amando e sendo amados ,gizando futuros, vivendo impetuosamente, a idade, crescendo na compreensão da vida, desbravando os caminhos que nos conduziriam ao hoje.E não havia lesões que nos parassem o animo, nem medos que nos retraíssem a sede de aventura, a vontade de chegar mais longe, de fruir intensamente as coisas boas da vida,de viver os prazeres que a juventude nos proporciona, a ânsia de chegar aos horizontes onde morava o desconhecido que sonhávamos. E tínhamos a força física e anímica para tudo buscar e acreditar, num tempo em que, qual cabrito montês, trepávamos, com vigor, as encostas da vida. Quando o tempo passa, uma parte da nossa vida já passou também. E resta a saudade do que foi bom e a vontade de esquecer o que nos magoou.

Como é lindo o mar que, a espaços, avisto! É como se admirasse o infinito, a imensidão da vida onde todos os dias mergulhamos e refrescamos as ideias que, tumultuosamente, perturbam os nossos sonhos. O rendilhado da espuma das ondas que se desfazem nas rochas, inebria o meu olhar e sonho caramujas e lapas dos meus tempos de menino.Como o tempo passou! Lembro corpos deitados nas areias escaldantes, refrescando os olhos nas curvas que passavam a caminho do mar ! Hoje, já poucos ligam à beleza das curvas, mais preocupados com a infinita lonjura das retas por onde passeiam os seus bólides. Mas os meus olhos cansados, ainda conservam a pureza de então e apreciam a policromia simples dos corpos que se mostram na plenitude do belo. Coisas de velhos que ainda associam a arte e a poesia num corpo de mulher!

Ao chegarmos a V.N. de Cerveira, invertemos a marcha e regressamos pela mesma estrada, reapreciando a paisagem e alguns pormenores que sempre nos escapam. As praias regurgitavam de gente que buscava a frescura das águas para suavizar o calor intenso que se fazia sentir. O mar estava calmo, como se ele próprio estivesse cansado das batalhas da semana que findava. No regresso ao Porto, atravessamos Viana do Castelo, passamos a velha ponte Eiffel que tantas recordações nos suscitava. Desviarmos para a praia do Cabedelo e aí nos retemperamos, na bela esplanada de um café, bebendo umas águas que nos ajudassem a combater a desidratação que o calor provocava. Está diferente o local, bem diferente dos tempos da minha adolescência. Nesse tempo, era uma praia selvagem onde se fruía a natureza. Hoje, os pinhais estão pejados de vivendas e o turismo fez o resto...

Quando chegamos ao Porto era já noite. Fora um passeio maravilhoso, mas cheguei cansado e acalorado. Adormeci, sentado no sofá e entrei no reino dos sonhos, o que me acontece muitas vezes. Sonhei " contigo "...e vi-me a cantar o " Havemos de ir a Viana ", de Pedro Homem de Melo, que Amália tão bem interpretava. E eu dizia " Havemos de ir a Viana, ao monte de Santa Luzia e do alto da montanha havemos de ver o mar...". E repetia, repetia...à espera que tu ouvisses... 

Porto,22-07-2016

Luís Machado

RUBICÃO


Sinto o desconforto
de te sentir distante
e sonho compensar a tua ausência,
desenhando,para ti,a cada instante,
beijos que te mando
vestidos de ternura e amor...
E se no retorno
que tu sempre mandas
eu sinto o teu calor,
pleno de saudades,
há céus que se vislumbram,
distâncias que se encurtam
quereres que nos consolam,
porque é de desejos
que se aquece a alma
e,com ternura,se esfria a dor...
Se a solidão nos dói,
se a ausência consome
o nosso coração,
porque não passar
depressa o Rubicão,
gritar,firmemente,"
" Álea jacta est",livremente
saltar os altos muros
que o preconceito ergue,
intransponíveis, feros...?
Sinto a tua ausência
quando a solidão nos dói,
nos consome,nos fere,
mas quando o Rubicão passarmos,
não haverá distâncias
e a luz dos teus olhos
será o farol
que nos mostra o caminho!
Luis Machado
05-09-2016

NO CANTO DO MEU CAFÉ


Leio o jornal,calmamente,
no meu canto do café...
Ouço o bulício da urbe,
pressinto a desventura
de muitos dos que passam,
os sonhos impossíveis
de muitos, mal amados,
vejo o riso sereno e doce
de quem muito ama,
de quem muito sonha,
a alegria de quem caminha,
firme,resoluto,com fé,
por caminhos de esperança
e quer ser feliz...
Calmamente,leio o meu jornal,
na mesa solitária do café,
onde sonho e vivo
e recordo e espero
e quero alcançar, firmemente,
o paraíso que almejo
e que já pressinto e vejo...
Os meus olhos estão tristes
porque a solidão me doi,
mas sinto o calor e a luz
que de ti vem...
Espero alcançar o fim
do caminho que ainda trilho
e beber dos teus olhos lindos
a beleza terna do seu brilho!
20-09-2016
Luis Machado

O OUTONO E A VIDA


Sente-se a brisa fresca
que anuncia o Outono...
As folhas agarram-se
num apego à vida,
sentindo que o tempo se esvai
e que,brevemente,
abandonarão a árvore-mãe
e irão alimentar o nada...
Antecipo,em pensamento,
esse momento , breve ,
em que,doentes,as folhas cairão
e serão mal tratadas,pisadas,
pelos pés de quem passa
e ficarão esquecidas nas sarjetas...
O vento as levará
para um sem destino
e ali apodrecerão, inertes,
completando o seu breve ciclo...
Adubarão as terras,serão seiva
que alimentará outras vidas
que renascerão pela primavera...
A se lado nascerão flores e frutos,
pintando a natureza das cores do arco iris...
Contemplativos,olhamos a paisagem,
vemos a vida passar
e o Outono que chega
lembra cabelos brancos
que o tempo nos foi pintando,
que jamais renascerão
nas cores belas do passado...
Também nós somos pisados
e esquecidos,muitas vezes...
Serenos,nós esperamos
que a vida nos vá poupando,
que vá renovando a esperança
em futuras primaveras,
não penses no que ontem eras,
senão no qu'inda podes ser
e que este Outono que passa
seja apenas um caminho
para um outro renascer...
22-09-2016.
Luis Machado.

Contos do Antigamente / Amor Eterno



António não era propriamente um D. Juan, mas exibia alguns tiques de sedutor que muito agradavam às raparigas do burgo. A começar pelo penteado impecável, um pouco à imagem de Clark Gabel com uma poupa enrolada, bem untada com brilhantina e fixador da moda. A face exibia aquele sorriso estereotipado dos galãs de Hollywood e os modos eram estudados para que a pose parecesse natural na sua elegância. Num tempo em que os homens usavam fatos, casaco e calça, de um bom tecido e a ganga era para os fatos macaco dos operários, António primava pela sobriedade e o seu calçado, sempre bem limpo, completava a apresentação cuidada com que se mostrava nas tertúlias de amigos que frequentava. Não variava muito a indumentária pois a capacidade económica não lhe permitia ter um guarda-roupa variado e extenso. O pai era bombeiro e a mãe doméstica, a criar uma prole numerosa que não permitia luxos, nem perder tempo com salamaleques nas roupas dos filhos. António aprendera a passar as suas próprias calças e camisas, com requinte de profissional. E isso lhe permitia uma apresentação impecável, com o pouco que tinha. Quando António se passeava na Praça Central ou percorria a longa Alameda do Jardim, nas noites de concerto da banda local, não eram poucos os olhos femininos que o seguiam, apreciando a sua elegância e o sorriso fácil com que brindava as meninas. Namorava e desnamorava com facilidade, não que quisesse colecionar troféus, mas porque era inconstante e depressa se cansava e desiludia com as mulheres que amava. Dizia-se que quando era muito jovem, tivera um desgosto de amor e que nunca conseguira esquecer essa paixão. Daí que parecia não acreditar no amor e os namoros eram para ele um mero exercício de masculinidade que desempenhava a preceito. Tinha sempre uma namorada que não apresentava aos amigos, não porque tivesse ciúmes dos seus olhares mas porque queria manter uma separação e independência total entre o amor e a amizade. Somente uma vez ele se associara a um amigo para namorar uma de duas irmãs que andavam sempre juntas, Mariana e Rosália. Ele estava interessado em Mariana e pediu ao seu amigo Júlio para fazer companhia a Rosália que era ainda mais bonita e viva que a irmã. Não foi difícil o amigo aceitar o desafio e depressa se viu os dois pares de namorados se passearem na Alameda Marginal ou nas longas ruas do centro histórico que levavam ao outro lado da cidade e ao mar.

Corria o mês de Agosto e Viana era palco permanente de ranchos folclóricos, grupos de bombos, concertinas e acordeões, cabeçudos e gigantones, moçoilas trajadas à vianesa, cantares e danças que a todos encantavam e eram a delícia dos turistas, portugueses e estrangeiros que, aos milhares, visitavam o burgo. António e Mariana e Rosália e Júlio, passeavam, de mãos dadas pelo centro histórico, enlevados, embriagados pelo amor nascente, trocavam fugidios beijos, abraçavam-se de quando em vez, absortos, no meio da multidão que, alheia ao amor dos jovens, cumpria o seu ritual de tudo visitar, com ar cansado que o calor provocava. Ouvia-se o bruaá das gentes, caminhando ao ritmo das concertinas e do ribombar dos bombos dos Zés Pereiras. Havia bandos de crianças acompanhando os Gigantones e os Cabeçudos que percorriam as ruas. António e Mariana sorriam e as suas mãos, entrelaçadas, diziam do muito que continuava crescendo nos seus corações. Júlio e Rosália perdiam-se na multidão, escondidos nos beijos fugidios que trocavam e nas carícias breves das suas mãos delicadas.

A Praça da República, com a beleza dos seus monumentos e a sobriedade artística de alguns dos seus edifícios, era o palco preferencial da alegria esfuziante que se espalhava por toda a cidade e era lindo assistir à concentração das lavradeiras, ao ribombar estonteante dos zabumbas, à harmonia prazerosa das concertinas e acordeões , à alegria contagiante dos Cabeçudos e Gigantones, ídolos da pequenada.
António e Mariana, abstraindo-se do ruído melodioso de toda a azáfama que envolvia a Praça, curtiam o seu amor, passeando de mãos dadas, bebendo reciprocamente os seus olhares de mel, sonhando aleluias em amanhãs de esperança. Mariana era uma ternura, linda, morena, o cabelo negro caindo-lhe sobre os ombros, estatura média, elegante, pernas bem torneadas, os pés guardados em sapatos rasos, cor de vinho. Tinha o sorriso belo de uma adolescente feliz e os seus dentes alvos brilhavam nuns lábios de carmim que sonhavam beijos que os seus olhos negros sugeriam a António. Este, enlevado, olhava-a com ternura e as suas mãos apertavam-se num convite secreto a caminhos futuros. Sentia um estranho torpor que o inibia de agir e, contemplativo, os seus olhos bebiam os olhares de Mariana e afogavam o seu coração num amor reverente que, docemente Mariana retribuía. E assim, dia após dia, nasceu entre eles um amor profundo que o tempo ia fazendo crescer. Tornaram-se companheiros de todas as horas naquele verão quente. António ia abandonando as tertúlias de amigos, dedicando todo o seu tempo ao amor a Mariana com quem passeava à beira rio e ao longo da extensa Alameda que atravessava o Jardim onde cresciam as mais belas flores, tratadas pelo Sr. João, chefe jardineiro. Na esplanada do café havia sempre pares de namorados, amando-se languidamente e as suas mãos desenhavam romances de enternecer. António gostava de tomar o seu café e por ali se quedavam, olhando o movimento da Alameda muito frequentado neste período de verão. Do outro lado, erguia-se o coreto onde, nas noites cálidas, o maestro José Pedro exibia a sua banda, quase uma orquestra, tocando, afinadamente, música clássica e rapsódias várias. Os mais velhos ocupavam os lugares da frente, quer porque tinham o ouvido mais duro, quer porque eram os maiores apreciadores do repertório do maestro. E exibiam os seus conhecimentos musicais, discutindo minúcias e afinações e tecendo as suas críticas à execução. Os mais novos iam ouvindo os acordes, espantavam-se com a afinação dos instrumentistas e contavam, entre si anedotas jocosas. As meninas reuniam-se em grupos, deliciando-se com os olhares marotos dos rapazes e soltavam risadinhas que rivalizavam com os acordes doces que do coreto chegavam. As estrelas espiavam dos céus e sorriam ante a ternura dos jovens. Corria uma brisa fresca vinda do rio onde deslizavam pequenos barcos que se dedicavam à pesca ou outras atividades lúdicas. António e Mariana olhavam-se ternamente. Tinham tomado o café e passeavam na Alameda, repleta de gente que fugia ao calor das casas e se refrescava com a brisa serena que crescia do rio. Tinham vontade de fugir daquele bulício e esconder-se na escuridão da noite, embriagar-se de beijos, sentir o calor intenso dos seus corpos jovens, procurando-se, sair do mundo e atingir os céus. Naquela noite, o luar, cúmplice, escondeu-se e só o brilho dos seus olhos iluminava a negridão do espaço. Foi fácil encontrar o caminho do céu e para lá caminharam docemente.

No dia seguinte, António levantou-se cedo. O Sol raiava no firmamento, as flores e arrebitavam as suas lindas pétalas, a passarada ensaiava os seus voos matinais, gente apressada seguia o seu caminho, o rio corria apressadamente para o mar, ao encontro doutras águas que dessem sal à sua vida. Chegou à janela do seu quarto e olhou a azáfama que se instalava. Além, dois cães engalfinhavam-se e lutavam, sabe-se lá porquê. Um gato miava no telhado, chamando a sua fêmea com que serenatando ao amanhecer. António pensava em Mariana. Lembrava a noite anterior em que se entregaram pela primeira vez, na doçura dos seus olhos castanhos rivalizando com o brilho das estrelas na serenidade dos seus gestos, na doçura das suas mãos, na sua pele de veludo, na meiguice dos seus beijos. Além, na Avenida, ouviu-se estridente, a sirene de uma ambulância. Ouviu alguém dizer que houvera um grande acidente, dois carros que haviam batido de frente. Sentiu o coração bater mais forte, era a hora a que Mariana saía de casa a caminho do estabelecimento do pai. Saiu a correr à procura de notícias, como um louco, pressentindo o pior…

No dia seguinte, no cemitério, António chorava em silêncio. Deus não quisera que ele fosse feliz e levara Mariana para junto de si, para o Céu que eles haviam sonhado naquela noite tão linda. 
António andou por aí, triste e cabisbaixo, consumindo na sua dor…

Era outra vez verão! Bandos de andorinhas animavam os beirais e os jardins engalanavam-se das mais belas flores. Estava lindo o rio e o mar espreitava ao longe. António escolheu esse dia e partiu ao encontro de Mariana, um cancro minara a pouca vida que lhe havia restado.

Bragança, 21/9/2016

Luís Machado

PRECE A DEUS


Analiso a vida
que passa ao meu lado
e sinto um frio estranho
na minha alma...
Ouço e leio palavras lindas
de amor,misericórdia, esperança,
mas são só palavras
que ecoam no vazio
triste da realidade...
Lá fora passeia-se a pobreza,
a miséria encapotada
de milhões de seres
que choram em silêncio...
Sabemos que Deus é grande
e estranhos seus desígnios,
que presa a nossa liberdade
e que tudo é amor...
Mas grassa no mundo
a violência mais abjecta,
a antropofagia dos simples,
o desdém pelo próximo,
a ambição sem freio...
Oh Deus,omnisciente e omnipotente,
que liberdade é esta que nos deste
que mais não é que cativeiro?
Onde está o amor no holocausto,
nas chacinas que vemos dia a dia,
na fome infame que aniquila,
no roubo sistemático de tantos,
ns corrupção que mata
a vontade de ser íntegro?
Que inferno espera
os que sugam o sangue
dos seus irmãos mais débeis?
Porquê os miseráveis choram
e os poderosos riem
desafiando o Teu poder?
Faz descer sobre nós
a Tua mão poderosa e justa,
ilumina as mentes,
sossega os corações,
não deixes mais
que em nome da liberdade
se escravize e mate,
a cada instante...
05-10-2016
Luis Machado

SER POETA


Correm ,céleres, os anos
e a vida se vai,
consumindo sonhos,
acalentando outros...
Percorremos caminhos
que nos levam longe,
na procura dos sonhos
que consolem nossa alma...
E quando,num feliz momento,
o coração vislumbra
O sonho que buscamos,
num olhar,numa palavra,
num tango que se dança,
temos de o viver,com fervor,
agarrá-lo com amor
e construir futuros,
em céus que desejamos,
selados,tantas vezes,
por um beijo profundo
que ilumina a alma
e humaniza o mundo...
Poeta,eu sonho em permanência,
aprecio e crio a beleza dos momentos,
carrego em mim alegria e tristeza,
sinto o mal do mundo,
e vibro com a doçura da inocência.
Ser poeta,é isso,
criar,interpretar o mundo,
fruir,com amor, a natureza,
B. viver,por vezes,na ilusão
de que o vai mudar
com o coração...
Se os teus olhos, amor,
me virem assim,
quero que saibas que é por ti
que anseio um mundo melhor!
20-10-2016
Luis Machado

Contos do Antigamente // EUNICE

Naquele tempo a vida era serena e calma na pacata cidade de Viana do Castelo. O mar e o rio davam-lhe um encanto ímpar e só a azáfama que se vivia para o lado dos estaleiros navais, perturbava o ar bucólico que a natureza lhe emprestara. Os estaleiros navais empregavam para cima de dois mil operários e eram a única entidade empregadora com alguma expressão, já que não havia outras indústrias significativas. De relevo apenas a frota pesqueira, dedicada à pesca do bacalhau e as fábricas de pirotecnia que levavam o nome da cidade a todo o mundo.

No Verão, principalmente no mês de agosto, Viana era inundada de turistas que deliravam com a excelência do seu folclore, com a policromia dos trajes das lavradeiras, com a alegria das suas danças e cantares, com a participação activa das suas gentes no saltitar do vira e da chula. Viana era a capital da alegria e na sua Praça da República desaguava um mundo de gente que a procurava para fruir a beleza ímpar deste verde Minho.

Pedro era um vianense de gema e nada se comparava à sua Viana. Revia-se na paisagem, na alegria das gentes, na sua gastronomia gostosa, no borbulhar do seu vinho verde, nas amizades que lhe aqueciam a alma. Os amigos sempre o procuravam e as noites de Verão eram alegres e barulhentas, acabando nas margens do Lima, sentados nos bancos de pedra que ali existiam, contando histórias e anedotas, discutindo o viver quotidiano da urbe, assistindo a cenas caricatas que, por vezes, se desenrolavam nas margens do rio. Uma vez, numa noite, uma mulher de aspecto humilde, abeirou-se deles e começou a gritar, agarrem- me que me vou deitar a afogar. Não se deitou, porque Pedro a agarrou e, com carinho, a convenceu a ir para casa, metendo-lhe, discretamente, na mão, uma nota, dizendo-lhe ser para um chá.

Era assim o coração de Pedro, generoso, magnânimo sempre pronto a ajudar os que sofriam. Os amigos conheciam-no bem, apreciavam as suas qualidades, tentando segui-lo. Era capaz de dar o último escudo que tivesse no bolso a um mendigo que dele se abeirasse, deixando de tomar o seu café ou emprestar o único par de sapatos que tinha, a um amigo, para ir a um baile. Sempre respondia aos apelos dos que dele precisavam. Procurava construir um mundo menos cinzento em que não houvesse miséria, mais solidário, fraterno, um mundo em que a hipocrisia das palavras não encobrisse o egoísmo das acções, um mundo em que reinasse a paz entre os povos e a ganância desse lugar à partilha. Pedro era um sonhador e acreditava que todos os homens eram iguais em direitos.

No liceu, Pedro conhecera Eunice e sentia por ela uma certa atração. Os seus olhos brilhavam mais quando a via e falar com ela era para ele o prazer supremo. Pouco a pouco foi desenvolvendo em si um sentimento próximo do amor e a sua mente não conseguia apagar a sua imagem quando a via subir as escadas da Universidade, airosa e doce, no seu sapato raso, já que Eunice era alta e esbelta. Mas ela não correspondia aos seus olhares porque o seu coração pertencia já a outro. As suas conversas com Pedro eram triviais e simples, fruto da camaradagem que reinava entre todos e não havia um laivo de amor nas suas palavras ou nos seus olhares. Pedro sofria em silêncio esta apatia e pouco a pouco, foi-se afastando, fechando-se em si mesmo, desconsolado e triste.

Começou então a ressurgir na sua mente uma ideia que, em tempos, tivera, dedicar-se à vida religiosa. Sem Eunice, a vida mundana não lhe dava qualquer prazer e o bem que praticava parecia-lhe um gesto insignificante, frente às misérias que observava ou lia. A ideia foi-se avolumando e ganhando corpo, até que um dia se decidiu a entrar para a Ordem do Carmo, solicitando que fosse mandado para as colónias, em missão. Queria afastar-se de Eunice e da vida mundana que levava. Mandaram-no para Moçambique e, quando embarcou, havia lágrimas no seu rosto, imagem das muitas saudades que deixava. Por lá ficou durante muitos anos dedicando-se, de alma e coração, à prática do bem, amenizando carências, educando, sarando as feridas dos que sofriam, ensinando a sua fé aos naturais. 
Eunice casara e desaparecera da sua vida. Era como se houvesse um antes e um depois da sua profissão de fé. Esquecera e abraçara um outro amor, a dedicação aos pobres e oprimidos que preenchiam toda a sua vida. Num dia em que se deslocava na selva, encontrou um pretinho, de dois ou três anos, só, abandonado, apavorado e chorando. Recolheu-o e levou-o para a missão, tratou dele e por lá ficou, educando-o, dando-lhe o carinho que perdera. Mais tarde soube que a aldeia em que o menino vivia, tinha sido atacada por forças militares portuguesas e a sua mãe morrera no ataque. Perdera-se na mato tivera a sorte de ser encontrado por Frei Pedro. Quando, anos depois regressou à metrópole Frei Pedro trouxe-o consigo, preparou-o para a vida e largou-o quando entendou que já tinha asas para voar.
Os anos correram. Frei Pedro encheu-se de cabelos brancos e as suas pernas foram perdendo a destreza doutros tempos.

Percorrera, várias vezes, o país, mas nunca regressou à sua terra. Não queria reviver ou recordar o seu passado, incompatível com a vida austera que escolhera. Mas, por vezes, não evitava que lhe viessem à lembrança alguns momentos que o haviam marcado, como o amor que tivera por Eunice e que estiveram na origem do seu percurso como missionário.

Um dia, sentindo que a velhice se aproximava, pensou que devia ir visitar a sua Viana que nunca mais vira desde os tempos em que renunciara à vida mundana. E lá foi...Chegou num dos comboios que ligavam o Porto a Viana. E quando, ao saír da estação do caminho de ferro, contemplou a larga avenida que leva até ao rio, sentiu que o seu coração acelarava e recordou o seu viver de então e tudo o que deixara para trás. Talvez Eunice ainda fosse viva, cheia de filhos e netos que, um dia sonhou pudessem ser seus. Procurou informar-se e soube que ainda era viva, viúva, a residir em Viana, muito perto do local onde a conhecera outrora. Percorreu a cidade, revendo-a e apreciando os progressos. Alguma coisa mudara e continuava linda. Era Verão. Havia muita gente nas ruas e a sua presença, com o hábito de missionário, passava despercebida no meio da multidão. Já não conhecia ninguém, nem sabia dos amigos do seu tempo. O jardim público continuava belo e os seus canteiros exibiam as mais variadas flores, numa policromia que o encantava. As suas árvores haviam crescido e formavam uma alameda cuja sombra amenizava o calor que se fazia sentir. Mais ao fundo, o rio corria mansamente para o mar, despedindo-se da velha ponte que o afagava à passagem.

Frei Pedro, inconscientemente, dirigiu-se para a esplanada do café que servia o jardim. Espraiou o olhar pelas mesas que se alinhavam, repletas de pessoas de todas as idades. Lá ao fundo, os seus olhos cruzaram-se com outros olhos que o fitavam curiosos. Era uma senhora de idade, os cabelos alvos como a neve, com uma criança a seu lado. Vestia de escuro, era magra, mas, embora sentada adivinhava-se nela ainda uma certa elegância. Frei Pedro abriu-se num sorriso e dirigiu-se para a sua mesa. Era Eunice:
- Ainda me conheces? perguntou. 
- Sim, conheci-te logo, embora ficasse um pouco confusa com esse hábito. Não sabia que eras missionário. Nunca soube mais nada de ti em todos estes anos.
Frei Pedro pegou-lhe na mão, com respeito, e beijou-a carinhosamente. Havia algumas lágrimas nos seus olhos e nos de Eunice. Falaram longamente. Narraram as suas vidas. O marido de Eunice falecera há sete anos. Não fora totalmente feliz. Tivera três filhos.Tinha dois netos. Sentia-se só e a solidão magoa. Fora casada quarenta e cinco anos. Vivia só, por opção. Não quisera ir viver com nenhum dos filhos.
Frei Pedro contou-lhe o que foi a sua vida de missionário e confidenciou-lhe que já há algum tempo tencionava abandonar o hábito.

Estava cansado e, de certo modo, desencantado. Tanto trabalhar em prol dos outros e o mundo estava cada vez pior. Pensava que poderia ser mais útil noutras funções, como leigo.
O dia ia longo. Entardecia. Ouvia-se o riso das crianças brincando no jardim. Pairava no ar uma serenidade que Frei Pedro há muito não sentia. Olhou Eunice e viu que os seus olhos brilhavam como no seu tempo de adolescente. Sentiu o coração bater mais forte. Pensou que seria a hora de partir ou ficar para sempre. Ficou...
No outro dia foi procurar Eunice, já sem o hábito, como um simples homem que queria ser feliz. Não havia idade que os impedisse de o ser, nem cabelos brancos que os demovesse do seu propósito. Pedro pegou na mão de Eunice e acariciou-a e os seus olhares disseram o que as palavras não necessitaram dizer.

Bragança, 28/10/2016

Luís Machado

Contos do Antigamente // Rómulo/


Rómulo! O seu nome fazia-me lembrar impérios que avassalaram o mundo de então. Tinha um ar dominador que ficaria bem a qualquer imperador romano, mas, ao mesmo tempo, era camarada e amigo, dotado de uma energia invulgar que o levava a procurar futuros que ultrapassavam em muito a modorra da vila em que vivia. Sonhava grande e o presente era, para ele, apenas um lugar de passagem, uma situação transitória, um tempo de espera, por um comboio rápido que o levasse a outras paragens. Vestia impecavelmente, o seu fato cinzento que lhe assentava como uma luva, produto de uns dos excelentes alfaiates que havia na vila. Os seus sapatos brilhavam como verniz e completavam a apresentação cuidada que sempre mostrava. Trabalhava incansavelmente e ainda lhe sobrava tempo para se dedicar à pesca subaquática no rio caudaloso que banhava a vila. Pobre barbo que caísse na mira do seu arpão. Fazia gala da sua pontaria e as pescas eram sempre fartas e variadas.

Rómulo tinha o dom de fazer amigos com facilidade, mas o seu sonho era apanhar o comboio rápido que o levasse ao futuro com que sonhava. Um dia, apaixonou-se e o objeto da sua paixão só podia ser alguém com o porte de uma princesa, no garbo e nas qualidades. Foi isso que viu na mulher que provocou essa paixão. Rómulo era filho dum modesto funcionário que só lhe pudera proporcionar um curso secundário, já que não tinha condições económicas para o levar mais longe, embora ele tivesse qualidades e ambição de muito mais. A mulher dos seus sonhos pertencia a um outro mundo. Frequentara a universidade, os pais eram ricos e pertenciam a um meio social diferente. Rómulo amava Teresa e tinha consciência do muito que os separava. Seria difícil Teresa descer ao nível social de Rómulo, mas também o amava e não queria perdê-lo. Como trazê-lo para um nível social semelhante ao seu? Rómulo tinha a resposta e fazendo uso da energia e vontade que o caracterizava, resolveu concorrer a um banco na cidade da sua amada e inscrever-se na universidade na mesma cidade. Trabalharia e estudaria e haveria de conseguir. Nunca aceitaria viver na dependência económica da família de Teresa, nem sentir-se subalterno em relação à mesma. Queria subir a pulso na vida, atingir o patamar cimeiro, com o seu esforço e as suas qualidades de homem, com a sua inteligência e o seu querer. Os amigos e os colegas de trabalho incitavam-no e ajudavam-no na caminhada sublime que empreendera.

Rómulo subia a escadaria da vida com vigor, percorria etapas com sucesso, mostrava as suas qualidades de líder e depressa se viu alcandorado aos lugares cimeiros da sua profissão. Enquanto isso, Teresa não lhe regateava o seu amor e isso era o melhor incentivo para o seu esforço hercúleo. Enquanto ele se desdobrava em trabalho e estudo, ela multiplicava-se em gestos de ternura e esperava-o com carinho quando, ao fim do dia, ele tinha um pouco de tempo para lhe dedicar. Os olhos dela tinham o brilho das estrelas quando ele subia a escadaria da sua casa senhorial e assomava à porta. O esforço de um dia cansativo era amplamente compensado pela ternura de Teresa que o mimava com gestos de carinho. Incitava-o a continuar e confessava-lhe o seu amor que ele retribuía com paixão. Eram momentos belos. Havia primaveras nos seus olhos, futuros em céus que adivinhavam.

Até que um dia, Rómulo pôde exibir o seu canudo e o competente Rómulo passou a ser o magnífico Dr. Rómulo. Houve festa rija na tertúlia dos amigos. Não faltaram votos e augúrios de uma ascensão meteórica a nível profissional e devaneios a nível do amor. Rómulo estava muito feliz. Falara com Teresa e partilhara com ela a sua felicidade. A escadaria da casa senhorial de Teresa, parecia-lhe agora menos íngreme e sentiu-se mais próximo dos valores que a família dela cultivava. Era agora um deles e, por certo, outras portas se lhe abririam e tornariam mais radioso o seu futuro. Poderia começar a pensar em casamento. Era tudo o que ambos ansiavam. Já namoravam havia vários anos e esperavam, com ansiedade por este dia feliz. As portas da casa senhorial abriram-se com júbilo e Rómulo preparava-se para as franquear pela mão de Teresa que, apaixonadamente, o esperava.

Lá longe, na sua vila raiana, os pais de Rómulo seguiam com orgulho a escalada na vida do seu filho querido. Desde que fora para a cidade, na procura de um sonho, nunca deixara de os visitar, assiduamente, degustando com carinho os petiscos da mãe, enlevando-se com o carinho que os seus olhos lhe manifestavam, bebendo ternamente os conselhos avisados do pai, fruindo a amizade profunda dos irmãos. Ao amor profundo de Teresa, juntava-se o amor terno da família e Rómulo sentia-se realizado e feliz. Os pais eram pessoas simples, habituados a lutar na vida para que nada faltasse aos seus filhos. Mas este nada, era muito pouco para o muito que Rómulo sonhava desde que conhecera Teresa. Sonhava com um nível de vida elevado, um meio social diferente, uma vida requintada nada semelhante à que levava na casa de seus pais. Teresa vivia na alta sociedade, como uma princesa, numa casa senhorial onde o luxo se misturava com a grandeza dos aposentos. Era ali que queria viver com Rómulo, era ali que queria construir com ele a sua felicidade. Ele deixava-se embalar pelas palavras e pela ternura de Teresa e ficava extasiado ante a vida de fausto que o esperava.

Até que chegou o dia marcado para o casamento. Tudo estava organizado para uma cerimónia com pompa e circunstância. Teresa levava um longo e vaporoso vestido branco, belo como a candura da sua alma. Rómulo vestia um fato preto, costurado pelo seu alfaiate de sempre. Os pais não puderam ir, porque o pai adoecera gravemente havia uns meses e não podia deslocar-se. Representou-os um irmão mais novo. Os seus olhos deixaram aflorar algumas lágrimas quando o abraçou efusivamente. Aquelas lágrimas eram os beijos que desejava dar aos pais naquele dia feliz.

E o tempo correu! Rómulo era muito feliz com Teresa, mas cedo reconheceu que não era a vida de fausto que contribuiria para essa felicidade. Perante os pratos requintados que lhe apresentavam, lembrou-se muitas vezes dos petiscos simples da mãe, na maravilhosa sopa que fazia, das sobremesas gostosas que preparava nos fins de semana. E aquelas batatas à espanhola que fazia, eram bem mais saborosas que os pratos gourmet que degustava. E o vinho simples da adega da sua terra, parecia-lhe agora mais saboroso que os afamados vinhos franceses que serviam. Até o sol da sua terra tinha outro brilho e as águas do seu rio Minho lembravam e guardavam os mais belos barbos que pescara na sua juventude. Lembrou os amigos e a família e sentiu quão mais sinceros e quentes eram as suas manifestações de amizade e amor, quão mais solidárias eram as pessoas com quem convivia. E teve saudades desses tempos em que também era simples e a sobremesa mais saborosa era o leite-creme da mãe.

Como a vida nos ensina! Quando subimos o vale até ao cimo da montanha, notamos que lá em cima está mais frio e só de lá vislumbramos a beleza das veigas e dos rios serpenteando no vale.

Bragança 18/11/2016

Recordações


Todos os dias subo aos ceus
e fruo a beleza dos teus olhos
e desco, enleado, por esse amor ardente
que queima minh'alma,docemente...
No quebranto que sinto na minh'alma,
meu estro encontra em ti certezas,
há estrelas polvilhando os céus
que são os beijos doces que são teus...
O frio que me traz a tua ausência
dilui -se na certeza de te ter,
a paixão que leio nos teus olhos
torna um velho ser,num outro ser...
Se o amor é fogo, é paixão,
se um mero gesto teu é doce
melopeia que me encanta
sê a sereia que me canta
neste mar da vida encapelado,
trepando as ondas com vigor,
sê a fonte de esperança que procuro,
sê fonte de vida,sê amor...
19-11-2016

Contos do Antigamente // A Paixão de Teolinda


Quando ao fim da tarde, desciam a escadaria dos serviços onde estagiavam, era como se recuperassem a liberdade e enfrentassem a vida com a alegria esfuziante dos seus verdes anos. Era Dezembro. As noites eram frias e o vento cortante e o homem das castanhas que estacionava o seu carrito em frente ao majestoso prédio donde vinham, não tinha mãos a medir para satisfazer os pedidos que lhe chegavam. O pequeno cartucho feito em papel de jornal, bem cheio de castanhas assadas, custava um escudo. Era um hábito que todos seguiam e que ajudava a atenuar o frio. Comidas as castanhas, as conversas prosseguiam ao longo da avenida que percorriam e só terminavam quando o último entrava em casa, no lar ou na pensão em que se hospedavam.

Teolinda era natural da cidade e era a primeira a despedir-se, seguindo para a casa onde vivia com os pais e um irmão mais velho. Havia dois rapazes no grupo e mais três raparigas: Leopoldo e Carlos, Maria da Luz, Maria Amália e Odete. Era um grupo unido que, com Teolinda percorria a cidade, agitando ideias, humorando a horas, sentindo a vida com a alegria própria dos verdes anos. Teolinda era linda, não só de nome. Era esbelta, nobre de sentimentos, um coração puro, serena como as águas de um lago. Os seus olhos eram ternos e irradiavam candura. Era a bem amada do grupo. Todos a respeitavam e lhe dedicavam uma amizade profunda e queriam o melhor para ela. Nas suas andanças pela cidade, o grupo apercebia-se do bom e do mal que ela continha. Autênticos palácios, rivalizando com barracas de madeira onde vivia gente, restaurantes e cafés de luxo contrastando com a miséria de quem estendia a mão, pedindo uma c`roínha para comprar um pão. E o homem das castanhas, indiferente, ia vendendo prazer a quem tinha um escudo para comprar um cartucho. E muitos cartuchos vendia, como quem vende ilusões. Tão doces e quentinhas que comer as suas castanhas era penetrar num mundo de sonho, era fugir dum antro de papelada e descobrir a vida. Apenas um escudo separava os que tinham fome e pediam uma c`roínha para comprar um pão, dos que, por prazer, saboreavam as castanhas que lhes adoçavam a vida. Sempre o grupo comprava castanhas ao fim da tarde e sempre os olhos de Teolinda brilhavam no negrume da noite e incendiavam o coração de Leopoldo. Este era um artista que admirava o belo. O seu hobby era a pintura. Gostava de pintar o busto de mulheres e sonhava encontrar, um dia, alguém que lhe proporcionasse pintar o sorriso de Gioconda. Quando conheceu Teolinda, olhou os seus olhos e o seu sorriso deixou-o paralisado, era a sua Gioconda.

Dia após dia, mais admirava o seu sorriso e já não era apenas um modelo que procurava, mas um farol para a sua vida. E aqueles olhos eram tão expressivos e belos que o perturbavam sempre que a olhava. E um dia, falou a Teolinda no amor que nele despontava e pediu-lhe que o amasse também. Teolinda olhou-o ternamente, com carinho, e disse-lhe que já tinha um outro amor pelo que não podia corresponder ao seu. Mas pediu-lhe que conservasse a amizade antiga e visse nela a amiga que muito o estimava. Leopoldo deixou que uma lágrima rolasse dos seus olhos e estendeu-lhe a mão, meigamente, e nesse gesto ia toda a doçura do sentimento que por ela nutria. A tristeza invadiu o coração de Leopoldo que deixou de sorrir. Todos notaram esta mudança e a compreenderam. E à tarde, quando chegava a hora das castanhas, era o momento de apaziguar paixões, misturando risos com a doçura das mesmas. Maria Amália era a mais expansiva e o seu coração magoado não a impedia de sorrir com gosto nestes momentos de boa disposição. Teolinda refugiava-se no silêncio e pouco se sabia da sua vida amorosa. Era uma excelente colega, inteligente, hábil, participativa, integrante no grupo em todos os momentos. O momento das castanhas, quentes e doces, ao anoitecer, quando o frio começava a apertar, era o momento chave daquela amizade que os unia. O gargalhar feliz ecoava na noite e merecia dos transeuntes um sorriso aprovador e camarada. Carlos sorria e Maria da Luz e Odete participavam na alegria do grupo com as suas conversas bem-dispostas. Leopoldo exibia o seu sorriso triste e contemplava o nada, sem o sorriso de Gioconda que sonhara. Não conseguia esquecer Teolinda e, discretamente, olhava-a, sofria e perguntava-se a si próprio porque chegava sempre tarde! O destino podia ter antecipado o seu encontro e mudado o rumo da sua vida. Mas só a conhecera quando iniciara o estágio, quando Teolinda já tinha descoberto o amor. Sentia-se perdido, sem vontade de procurar novos caminhos. Refugiava-se na sua arte e pintava mulheres de sorriso enigmático, curvilíneas e belas, mas nenhuma delas conseguia reproduzir o sorriso de Teolinda, a sua Gioconda. O mistério daquele olhar profundo, vivia no fundo da sua alma, na ternura do seu coração e esse pertencia a um outro há muito tempo. Leopoldo pintava e sofria e sentia que os seus retratos eram belos mas sem vida.

Teolinda conhecera em tempos, um homem mais velho que a seduzira com as suas palavras e a sua experiência. Dizia-lhe coisas belas que ela gostava de ouvir e prometia-lhe o céu se o amasse. De inicio Teolinda apenas ficou perturbada e tinha muitas dúvidas. Nunca experimentara namorar com alguém, nunca alguém tocara o seu coração e a sua ingenuidade roçava o sentir de uma criança que, no fundo, era. Mas, como água mole em pedra dura, João conseguiu penetrar no coração de Teolinda e encetaram uma relação amorosa. Era muito nova e irradiava beleza e simpatia. Quando começou o estágio, juntamente com os restantes colegas, tinha dezoito anos. Namorava há dois e, a pouco e pouco, fora-se afeiçoando a João que se mostrava muito apaixonado. A sua experiência de vida, já tinha trinta anos, fora crucial para o desenvolvimento da relação entre ambos. Teolinda não estava apaixonada por João mas nutria por ele um sentimento próximo do amor. Apreciava a ternura de João, era cúmplice nos carinhos que trocavam, sentia prazer quando ele a beijava docemente. Mas não conseguia apaixonar-se por ele. A diferença de idade era um óbice que não conseguia transpor.

Leopoldo nada sabia da vida de Teolinda, a não ser que entregara o coração a outro homem. Não imiscuir-se na sua vida, por uma questão de decência. Sentia que a amava e que lhe era difícil esquece-la mas não tencionava perturbá-la. Mas sempre que com ela falava, no âmbito da camaradagem que reinava no grupo, percebia que Teolinda o olhava com alguma ternura e via como os seus olhos eram lindos e brilhantes.

Quase no fim do estágio, Teolinda casou-se com João e todas as ténues esperanças de Leopoldo ruíram e este afastou-se, com o coração dolorido e triste.

Passaram muitos anos. Nunca mais Teolinda e Leopoldo se encontraram os falaram. Leopoldo tornou-se um celebrado pintor e Teolinda reformou-se da sua profissão e passou a ajudar João no seu restaurante. Continuava linda, com o seu enigmático sorriso e a leveza dos seus gestos. Leopoldo continuou sempre a pintar bustos de mulheres, mas eram sempre tristes os seus incaracterísticos olhares. Jamais encontrara a sua Gioconda e considerava incompleta a sua obra. Lembrava-se de Teolinda, nunca a esquecera, sempre a guardara no seu coração.
Até que um dia, Leopoldo entrou num restaurante plantado na margem da estrada em que seguia. Dirigia-se a Moncorvo para apreciar as amendoeiras em flor. Ao entrar, os seus olhos depararam com Teolinda ainda linda e com o mesmo olhar de sempre. O seu coração bateu mais forte e não pôde, num impulso, deixar de a abraçar. Algumas lágrimas bailavam nos seus olhos, ali estava a sua Gioconda, a mulher que nunca deixara de amar. E foi paixão o que sentiu. Teolinda contou-lhe que o marido morrera havia um ano e os seus olhos diziam tudo o que guardara durante muitos anos, um segredo bem fechado no seu coração, o amor apaixonado por Leopoldo, desde os verdes anos do seu estágio distante.

Havia castanhas no belo assado que lhe foi servido. Lembrou-se do homem das castanhas e teve saudades… Como o tempo passara… Mas havia ainda o futuro para viver…

8/12/2106

Luís Machado

NATAL


Em todo o lado
há luzes de Natal,
alegria no olhar das gentes
e as canções dolentes
dão lugar à harmonia
dos cânticos vibrantes
que lembram Deus-Menino,
prestes a chegar...
É tempo de amor,tempo de dar
e os nossos corações
sentem o apelo da amizade,
a saudade dos que estão longe,
de quem não pode vir,
dos netinhos distantes
que nos fazem sorrir
e sonham comer filhós
adoçados, ternamente,
com beijos dos avós...
E como a saudade nos toca,
bem no fundo da alma,
com filhos pequeninos
na nossa lembrança...
Muitos sonhos caíram,
arrefecendo a esperança
que o peso dos anos
vai levando...
Mas no Natal,Senhor,
traz até nós
a alegria de viver,
renova em nossos corações,
tantos sonhos,tantas ilusões
que o tempo fizera fenecer
e que ao canto doce das aleluias,
sentimos novamente renascer...
E vós, meus pequeninos,doces,lindos,
que penais na miséria e na tristeza,
pedi, ternamente, a Deus,nosso Senhor,
que acabe no mundo com esta avareza
e nele plante mais amor...
20-12-2016
Luis Machado

Contos do Antigamente // Era Natal


Basílio gostava de vaguear junto às margens do rio e apreciar a azáfama dos pescadores da lampreia. Apanhavam-na com redes ou à fisga, e quando a safra era abundante e de boa qualidade, toda a gente comia lampreia, pois os preços eram acessíveis para as bolsas dos menos abastados. Quando havia poucas, tornavam-se disputadas e o preço subia, ficando apenas ao alcance dos mais abonados.Era o manjar dos deuses, no dizer dos apreciadores do ciclóstomo. Basílio era um desses apreciadores e não deixava passar a oportunidade de a degustar, várias vezes, no decorrer do período em que se podia pescar.

Era dezembro. Aquele frio húmido parecia entranhar-se nos ossos, mas mesmo assim, Basílio percorria a margem do rio, quase até ao mar e ali ficava a contemplar o encontro das duas águas, beijando-se, nesse beijo agridoce, espumando ternura. Depois, voltava lentamente até ao seu jardim, virava para a avenida e ia sentar-se no seu café, onde, por vezes, encontrava os amigos de sempre. Saboreava a sua chávena de café, um hábito antigo que lhe vinha dos seus tempos de menino, lia o jornal, conversava com os amigos, ouvia o noticiário na tv. Da mesa onde se sentava, via o edifício em frente, do outro lado da avenida, com seis andares. No último andar, via-se uma varanda que dava para um aposento onde morava uma jovem escultural e bela. Por vezes, distraía-se e assomava à varanda ,como Deus a deu ao mundo, talvez pensando que ninguém a via... ou talvez não. Basílio várias vezes a viu nesse propósito, até que, um dia, resolveu subir as escadas do prédio, com a intenção de a avisar de que estava a ser objeto de observação de muitos olhares indiscretos e que deveria evitar essas aparições provocatórias. Tocou a campaínha e quando a porta se abriu, apareceu-lhe uma jovem, muito jovem, com uma beleza invulgar e um sorriso encantador, vestida com elegância, que o interpelou:
- Bom dia, o que deseja?
- Bom dia! Eu sou o Basílio e tenho o prazer de falar com...
- Eu sou a Rebeca. A que devo a sua visita?
Basílio contou-lhe que era objeto de observação dos homens quando aparecia nua na varanda e aconselhou-a a evitar essas aparições, pois os comentários que gerava, não eram muito abonatórios para ela. Rebeca corou, agradeceu e promoteu não mais aparecer na varanda. Convidou-o a entrar e tomar um café, mas Basílio recusou e convidou-a, por sua vez, a tomar um café com ele, quando estivesse disponível. Deixou-lhe um cartão com o seu nome e número de telefone e retirou-se, beijando- - lhe, cerimoniosamente a mão.

Decorridos uns dias, o telefone tocou. Era Rebeca que lhe perguntava se podia tomar um café com ele, nessa tarde, por volta das dezassete horas. Basílio prometeu ir buscá- - la e assim fez.

Era dezembro. O dia estava lindo e a temperatura amena. Tomaram o café e foram passear na alameda do jardim, junto ao rio que corria, mansamente, para o mar. Equipas de remo deslizavam velozmente nas águas, no treino que sempre faziam à tarde. Um ou outro barco à vela traçava piruetas mais ao longe e os mirones seguiam os barcos, postados na longa avenida marginal, apreciando o esforço e a perícia dos atletas. Na alameda, Basílio e Rebeca conversavam. As árvores estavam despidas de folhagem e as flores eram poucas, sobressaindo no verde dos canteiros. Mas havia o sol, prestes a desaparecer no horizonte, era ligeira a brisa que soprava do rio e as palavras que ambos trocavam eram serenas e tranquilas como a brisa que os afagava.

Rebeca contou tudo: Era estudante, os pais viviam no Porto e raramente vinham a Viana.O pai era médico e quando resolveu transferir-se para o Porto, levou a mãe e deixou-a ficar até ao fim do ano letivo, na casa que habitavam. Fora Rebeca que assim quisera, pois gostava da escola e do ambiente que frequentava. Basílio disse-lhe que acabara o curso secundário e esperava arranjar emprego.Não tinha possibilidades económicas de continuar a estudar, ir para fora cursar o ensino superior. E passava o tempo lendo e estudando, procurando emprego em qualquer organismo do Estado, mas era preciso esperar que abrissem concursos. Sem que o pensassem, as suas mãos procuraram-se e assim caminharam durante algum tempo pela longa alameda. Aproximava-se a noite, estava a ficar frio, vinha do rio uma brisa fresca que convidava a regressar a casa. E assim fizeram. Subiram o troço da avenida onde morava Rebeca, sempre de mãos dadas, olhando-se ternamente. Basílio levou-a até à porta de casa, despediram-se sem darem um beijo, mas o brilho dos seus olhos era a promessa de muitos beijos futuros. Não marcaram data para se reencontrarem, num dos próximos dias. Telefonariam e fá-lo-iam então. Mas ambos sabiam que seria breve.

Basílio regressou a casa, pensativo. Nessa noite não saíu. Ficou a ler e a pensar no sentimento que ia nascendo no seu coração.
Rebeca sonhava. De um episódio caricato da sua vida, nascia uma história que, tudo apontava, iria ter um fim feliz. Simpatizara com Basílio, pela sua educação, pela sua elegância e simpatia, pela nobreza do seu carácter que ia descobrindo. Gostava de se aproximar mais dele, de aprofundar o conhecimento que dele tinha, de penetrar na sua alma, mas Basílio era tímido e mantinha uma distância que dificultava essa aproximação.
E, então, um dia, Basílio recebeu uma carta oficial convocando-o para estágio no serviço para que concorrera em Lisboa. Não podia recusar, pois poderia ser o início de uma carreira que necessitava encetar. Falou com Rebeca que fcou desolada, mas compreendeu-o e animou-o, dizendo-lhe que poderiam comunicar pelo telefone, dando notícias das suas vidas. Prometeu esperar por ele, recatadamente, embrenhando-se nos estudos, com mais afinco, preparando-se para regressar ao Porto, à casa de seus pais, no fim do ano letivo. Ali, pensava prosseguir os seus estudos e ali o esperaria quando quisesse visitá-la, se o não pudesse fazer, enquanto estivesse em Viana.

Era dezembro! As ruas da cidade alindavam-se com luzes multicores e ouviam-se os cânticos de Natal, transmitindo paz. “É Natal, é Natal,...”. Basílio deixou-se embuir do espírito natalício. Encontrou-se com Rebeca e abriu-lhe o seu coração. Dos seus lábios jorraram palavras de amor, promessas e projetos. Era um novo mundo e uma nova vida que se abria para ele. Queria partilhá-la com Rebeca, construir com ela essa nova vida que sonhava. Havia lágrimas nos olhos de Rebeca que falava, em silêncio do que lhe ia na alma. Das suas mãos suaves saíam carícias que palavra alguma podia transmitir.
O carrilhão da basílica, fazia-se ouvir em toda a cidade e asua música era melodiosa e terna. Piscavam as luzes nas árvores de Natal. Multidões passeavam-se nas ruas coloridas da cidade e havia dois corações que choravam de alegria. Era Natal.

 Bragança, 30/12/2016

SAUDADE


Quis dar-te um beijo sentido,
dos que me levam ao céu,
tu mo deste e eu levei-o
e senti bem que era teu...
Quis ir contigo a Paris
para ver a Mona Lisa,
declinaste o convite
porque ias para Pisa...
Então, eu não fui também,
enlacei-te pela cintura,
olhei fundo nos teus olhos
e sonhei quanto eras pura...
Inclinei-te pra mim,
dei-te o beijo que me deras,
nem Mona Lisa,nem Pisa,
só o beijo que quiseras...
Tal foi a inclinação
que me recordei de Pisa
e o sorriso que mostraste
lembrou-me o de Mona Lisa...
Era tudo uma ilusão,
nada disto era verdade,
anseios do coração
quando lhe chega a saudade....
Porto,31-07-2016
Luis Machado

ESTAVA SERENA A NOITE


Estava serena a noite
e eu pensava em ti...
Era fraca a minha condição
e os meus olhos
não brilhavam como dantes...
Apetecia-me ter-te ali
e ir contigo contar as estrelas,
banhar-me de luar
e no teu peito me enxugar,
secar as minhas feridas
com teus beijos doces,
fazer cintilar o teu olhar
na penumbra da minh'alma
e nesse espaço etéreo
construir o sonho de te ter,
doce e meiga,no meu coração...
Estava serena a noite
e eu pensava em ti...
Dos teus olhos lindos
irradiava a luz
que iluminava a minh' alma
e a fragrância que exalava
a rosa que colhi no meu jardim,
rivalizava em odor
com o perfume do teu corpo
que inebria meus sentidos..
Estava serena a noite
e a leve brisa que soprava
era suave e doce
como a tu voz dolente
que soprava em meus ouvidos,
tão terna e docemente,
as palavras de amor
que eu ansiava ouvir...
Estava serena a noite
e a minh'alma perdia-se
no tempo e vagueava,silente,
num mar de recordações e sonhos,
olhos que se cruzam,
palavras que se dizem,
passos cadenciados que se dão,
mãos que quase se tocam,
ausências sofridas que nos doem...
Estava serena a noite...
Tu partiras sem mim
preso nas saudades que sentia
das promessas de beijos
que adivinhava em teus olhos,
brilhantes de pudor....
Vi afastar teus passos,
dançando na calçada,
já sem os meus braços
puxando-te pra mim...
Estava serena a noite
e eu pensava em ti...
Não ias fugir assim,
borboleta voando no tempo
beleza efémera que se esconde
na penumbra da ausência,
fogo que se apaga na dor
dum amor que se perde...
Estava serena a noite...
V. Voltaste para mm
e as palavras que eu disse
eram apenas o prelúdio
duma sinfonia imortal
que soubeste escutar,
eram o sol rasgando
a treva imensa do teu ser,
o trovão que acordou em ti
os sonhos que iam morrendo....
Estava serena a noite...
Havia brilho nos teus olhos
e as palavras fluiam
em girândolas de amor,
como estrelas cadentes
tracejando o espaço...
Havia futuros que se abriam,
e as tuas mãos, ah,as tuas mãos,
tão suaves e ternas,indicavam
o caminho por onde eu queria ir...
Porto,25-07-2016
Luis Machado.