Naquele tempo a vida era serena e calma na pacata cidade de Viana do Castelo. O mar e o rio davam-lhe um encanto ímpar e só a azáfama que se vivia para o lado dos estaleiros navais, perturbava o ar bucólico que a natureza lhe emprestara. Os estaleiros navais empregavam para cima de dois mil operários e eram a única entidade empregadora com alguma expressão, já que não havia outras indústrias significativas. De relevo apenas a frota pesqueira, dedicada à pesca do bacalhau e as fábricas de pirotecnia que levavam o nome da cidade a todo o mundo.
No Verão, principalmente no mês de agosto, Viana era inundada de turistas que deliravam com a excelência do seu folclore, com a policromia dos trajes das lavradeiras, com a alegria das suas danças e cantares, com a participação activa das suas gentes no saltitar do vira e da chula. Viana era a capital da alegria e na sua Praça da República desaguava um mundo de gente que a procurava para fruir a beleza ímpar deste verde Minho.
Pedro era um vianense de gema e nada se comparava à sua Viana. Revia-se na paisagem, na alegria das gentes, na sua gastronomia gostosa, no borbulhar do seu vinho verde, nas amizades que lhe aqueciam a alma. Os amigos sempre o procuravam e as noites de Verão eram alegres e barulhentas, acabando nas margens do Lima, sentados nos bancos de pedra que ali existiam, contando histórias e anedotas, discutindo o viver quotidiano da urbe, assistindo a cenas caricatas que, por vezes, se desenrolavam nas margens do rio. Uma vez, numa noite, uma mulher de aspecto humilde, abeirou-se deles e começou a gritar, agarrem- me que me vou deitar a afogar. Não se deitou, porque Pedro a agarrou e, com carinho, a convenceu a ir para casa, metendo-lhe, discretamente, na mão, uma nota, dizendo-lhe ser para um chá.
Era assim o coração de Pedro, generoso, magnânimo sempre pronto a ajudar os que sofriam. Os amigos conheciam-no bem, apreciavam as suas qualidades, tentando segui-lo. Era capaz de dar o último escudo que tivesse no bolso a um mendigo que dele se abeirasse, deixando de tomar o seu café ou emprestar o único par de sapatos que tinha, a um amigo, para ir a um baile. Sempre respondia aos apelos dos que dele precisavam. Procurava construir um mundo menos cinzento em que não houvesse miséria, mais solidário, fraterno, um mundo em que a hipocrisia das palavras não encobrisse o egoísmo das acções, um mundo em que reinasse a paz entre os povos e a ganância desse lugar à partilha. Pedro era um sonhador e acreditava que todos os homens eram iguais em direitos.
No liceu, Pedro conhecera Eunice e sentia por ela uma certa atração. Os seus olhos brilhavam mais quando a via e falar com ela era para ele o prazer supremo. Pouco a pouco foi desenvolvendo em si um sentimento próximo do amor e a sua mente não conseguia apagar a sua imagem quando a via subir as escadas da Universidade, airosa e doce, no seu sapato raso, já que Eunice era alta e esbelta. Mas ela não correspondia aos seus olhares porque o seu coração pertencia já a outro. As suas conversas com Pedro eram triviais e simples, fruto da camaradagem que reinava entre todos e não havia um laivo de amor nas suas palavras ou nos seus olhares. Pedro sofria em silêncio esta apatia e pouco a pouco, foi-se afastando, fechando-se em si mesmo, desconsolado e triste.
Começou então a ressurgir na sua mente uma ideia que, em tempos, tivera, dedicar-se à vida religiosa. Sem Eunice, a vida mundana não lhe dava qualquer prazer e o bem que praticava parecia-lhe um gesto insignificante, frente às misérias que observava ou lia. A ideia foi-se avolumando e ganhando corpo, até que um dia se decidiu a entrar para a Ordem do Carmo, solicitando que fosse mandado para as colónias, em missão. Queria afastar-se de Eunice e da vida mundana que levava. Mandaram-no para Moçambique e, quando embarcou, havia lágrimas no seu rosto, imagem das muitas saudades que deixava. Por lá ficou durante muitos anos dedicando-se, de alma e coração, à prática do bem, amenizando carências, educando, sarando as feridas dos que sofriam, ensinando a sua fé aos naturais.
Eunice casara e desaparecera da sua vida. Era como se houvesse um antes e um depois da sua profissão de fé. Esquecera e abraçara um outro amor, a dedicação aos pobres e oprimidos que preenchiam toda a sua vida. Num dia em que se deslocava na selva, encontrou um pretinho, de dois ou três anos, só, abandonado, apavorado e chorando. Recolheu-o e levou-o para a missão, tratou dele e por lá ficou, educando-o, dando-lhe o carinho que perdera. Mais tarde soube que a aldeia em que o menino vivia, tinha sido atacada por forças militares portuguesas e a sua mãe morrera no ataque. Perdera-se na mato tivera a sorte de ser encontrado por Frei Pedro. Quando, anos depois regressou à metrópole Frei Pedro trouxe-o consigo, preparou-o para a vida e largou-o quando entendou que já tinha asas para voar.
Os anos correram. Frei Pedro encheu-se de cabelos brancos e as suas pernas foram perdendo a destreza doutros tempos.
Percorrera, várias vezes, o país, mas nunca regressou à sua terra. Não queria reviver ou recordar o seu passado, incompatível com a vida austera que escolhera. Mas, por vezes, não evitava que lhe viessem à lembrança alguns momentos que o haviam marcado, como o amor que tivera por Eunice e que estiveram na origem do seu percurso como missionário.
Um dia, sentindo que a velhice se aproximava, pensou que devia ir visitar a sua Viana que nunca mais vira desde os tempos em que renunciara à vida mundana. E lá foi...Chegou num dos comboios que ligavam o Porto a Viana. E quando, ao saír da estação do caminho de ferro, contemplou a larga avenida que leva até ao rio, sentiu que o seu coração acelarava e recordou o seu viver de então e tudo o que deixara para trás. Talvez Eunice ainda fosse viva, cheia de filhos e netos que, um dia sonhou pudessem ser seus. Procurou informar-se e soube que ainda era viva, viúva, a residir em Viana, muito perto do local onde a conhecera outrora. Percorreu a cidade, revendo-a e apreciando os progressos. Alguma coisa mudara e continuava linda. Era Verão. Havia muita gente nas ruas e a sua presença, com o hábito de missionário, passava despercebida no meio da multidão. Já não conhecia ninguém, nem sabia dos amigos do seu tempo. O jardim público continuava belo e os seus canteiros exibiam as mais variadas flores, numa policromia que o encantava. As suas árvores haviam crescido e formavam uma alameda cuja sombra amenizava o calor que se fazia sentir. Mais ao fundo, o rio corria mansamente para o mar, despedindo-se da velha ponte que o afagava à passagem.
Frei Pedro, inconscientemente, dirigiu-se para a esplanada do café que servia o jardim. Espraiou o olhar pelas mesas que se alinhavam, repletas de pessoas de todas as idades. Lá ao fundo, os seus olhos cruzaram-se com outros olhos que o fitavam curiosos. Era uma senhora de idade, os cabelos alvos como a neve, com uma criança a seu lado. Vestia de escuro, era magra, mas, embora sentada adivinhava-se nela ainda uma certa elegância. Frei Pedro abriu-se num sorriso e dirigiu-se para a sua mesa. Era Eunice:
- Ainda me conheces? perguntou.
- Sim, conheci-te logo, embora ficasse um pouco confusa com esse hábito. Não sabia que eras missionário. Nunca soube mais nada de ti em todos estes anos.
Frei Pedro pegou-lhe na mão, com respeito, e beijou-a carinhosamente. Havia algumas lágrimas nos seus olhos e nos de Eunice. Falaram longamente. Narraram as suas vidas. O marido de Eunice falecera há sete anos. Não fora totalmente feliz. Tivera três filhos.Tinha dois netos. Sentia-se só e a solidão magoa. Fora casada quarenta e cinco anos. Vivia só, por opção. Não quisera ir viver com nenhum dos filhos.
Frei Pedro contou-lhe o que foi a sua vida de missionário e confidenciou-lhe que já há algum tempo tencionava abandonar o hábito.
Estava cansado e, de certo modo, desencantado. Tanto trabalhar em prol dos outros e o mundo estava cada vez pior. Pensava que poderia ser mais útil noutras funções, como leigo.
O dia ia longo. Entardecia. Ouvia-se o riso das crianças brincando no jardim. Pairava no ar uma serenidade que Frei Pedro há muito não sentia. Olhou Eunice e viu que os seus olhos brilhavam como no seu tempo de adolescente. Sentiu o coração bater mais forte. Pensou que seria a hora de partir ou ficar para sempre. Ficou...
No outro dia foi procurar Eunice, já sem o hábito, como um simples homem que queria ser feliz. Não havia idade que os impedisse de o ser, nem cabelos brancos que os demovesse do seu propósito. Pedro pegou na mão de Eunice e acariciou-a e os seus olhares disseram o que as palavras não necessitaram dizer.
Bragança, 28/10/2016
Luís Machado
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