Uma arreliadora lesão tem-me impedido de dar os pequenos passeios que preenchiam o meu tempo nas manhãs da permanência no Porto. Ouço, no entanto, o barulho da cidade que se move, em permanência, o passar dos carros, o vozear das gentes, o ladrar dos cães em defesa do seu território e, às vezes, o silêncio que se abate, por momentos, sobre mim e onde observo, da varanda, o casario ao longe, e as montanhas para além das quais está o meu mundo, um mundo diferente, mais sereno e onde ainda é possível conhecer os vizinhos e encontrar os amigos, sem esforço. E há bons lugares sagrados do nosso dia a dia, por onde passaram e passam muitos dos nossos sonhos, onde observamos a beleza ondulante que aproveita o sol ou descontrai, placidamente nas esplanadas, cruzando as pernas com à vontade...
Mesmo com a ligeira lesão que me condiciona os passos, não deixo de aproveitar o tempo e, com a ajuda da minha filha, lá vou tomar o meu café, rever alguns amigos, passear, de carro, onde nos leva a vontade. Mas é o mar que mais nos atrai e o marulhar das ondas enche o meu coração de saudades e leva-nos aos locais onde fomos felizes. À medida que os anos passam, os acontecimentos passados assumem, para nós, uma importância crescente e os olhos da saudade ampliam a sua importância e fazem deles momentos impares. Viana do Castelo a Vila Praia de Âncora, são dois desses lugares mágicos que povoam o nosso imaginário. Foi para lá que nos encaminhamos no último fim-de-semana,para, num pequeno restaurante, com vista para o mar, saborearmos um peixinho fresco e delicioso. Deleitado o estômago, foi tempo de encantar o espírito, dando um longo passeio de carro pela estrada interior, junto ao mar, apreciando a paradisíaca paisagem. O rio que corria ao nosso lado, parecia um lago onde se espelhavam os nossos sonhos ou recordações de outros tempos que por ali passamos, amando e sendo amados ,gizando futuros, vivendo impetuosamente, a idade, crescendo na compreensão da vida, desbravando os caminhos que nos conduziriam ao hoje.E não havia lesões que nos parassem o animo, nem medos que nos retraíssem a sede de aventura, a vontade de chegar mais longe, de fruir intensamente as coisas boas da vida,de viver os prazeres que a juventude nos proporciona, a ânsia de chegar aos horizontes onde morava o desconhecido que sonhávamos. E tínhamos a força física e anímica para tudo buscar e acreditar, num tempo em que, qual cabrito montês, trepávamos, com vigor, as encostas da vida. Quando o tempo passa, uma parte da nossa vida já passou também. E resta a saudade do que foi bom e a vontade de esquecer o que nos magoou.
Como é lindo o mar que, a espaços, avisto! É como se admirasse o infinito, a imensidão da vida onde todos os dias mergulhamos e refrescamos as ideias que, tumultuosamente, perturbam os nossos sonhos. O rendilhado da espuma das ondas que se desfazem nas rochas, inebria o meu olhar e sonho caramujas e lapas dos meus tempos de menino.Como o tempo passou! Lembro corpos deitados nas areias escaldantes, refrescando os olhos nas curvas que passavam a caminho do mar ! Hoje, já poucos ligam à beleza das curvas, mais preocupados com a infinita lonjura das retas por onde passeiam os seus bólides. Mas os meus olhos cansados, ainda conservam a pureza de então e apreciam a policromia simples dos corpos que se mostram na plenitude do belo. Coisas de velhos que ainda associam a arte e a poesia num corpo de mulher!
Ao chegarmos a V.N. de Cerveira, invertemos a marcha e regressamos pela mesma estrada, reapreciando a paisagem e alguns pormenores que sempre nos escapam. As praias regurgitavam de gente que buscava a frescura das águas para suavizar o calor intenso que se fazia sentir. O mar estava calmo, como se ele próprio estivesse cansado das batalhas da semana que findava. No regresso ao Porto, atravessamos Viana do Castelo, passamos a velha ponte Eiffel que tantas recordações nos suscitava. Desviarmos para a praia do Cabedelo e aí nos retemperamos, na bela esplanada de um café, bebendo umas águas que nos ajudassem a combater a desidratação que o calor provocava. Está diferente o local, bem diferente dos tempos da minha adolescência. Nesse tempo, era uma praia selvagem onde se fruía a natureza. Hoje, os pinhais estão pejados de vivendas e o turismo fez o resto...
Quando chegamos ao Porto era já noite. Fora um passeio maravilhoso, mas cheguei cansado e acalorado. Adormeci, sentado no sofá e entrei no reino dos sonhos, o que me acontece muitas vezes. Sonhei " contigo "...e vi-me a cantar o " Havemos de ir a Viana ", de Pedro Homem de Melo, que Amália tão bem interpretava. E eu dizia " Havemos de ir a Viana, ao monte de Santa Luzia e do alto da montanha havemos de ver o mar...". E repetia, repetia...à espera que tu ouvisses...
Porto,22-07-2016
Luís Machado
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