Basílio gostava de vaguear junto às margens do rio e apreciar a azáfama dos pescadores da lampreia. Apanhavam-na com redes ou à fisga, e quando a safra era abundante e de boa qualidade, toda a gente comia lampreia, pois os preços eram acessíveis para as bolsas dos menos abastados. Quando havia poucas, tornavam-se disputadas e o preço subia, ficando apenas ao alcance dos mais abonados.Era o manjar dos deuses, no dizer dos apreciadores do ciclóstomo. Basílio era um desses apreciadores e não deixava passar a oportunidade de a degustar, várias vezes, no decorrer do período em que se podia pescar.
Era dezembro. Aquele frio húmido parecia entranhar-se nos ossos, mas mesmo assim, Basílio percorria a margem do rio, quase até ao mar e ali ficava a contemplar o encontro das duas águas, beijando-se, nesse beijo agridoce, espumando ternura. Depois, voltava lentamente até ao seu jardim, virava para a avenida e ia sentar-se no seu café, onde, por vezes, encontrava os amigos de sempre. Saboreava a sua chávena de café, um hábito antigo que lhe vinha dos seus tempos de menino, lia o jornal, conversava com os amigos, ouvia o noticiário na tv. Da mesa onde se sentava, via o edifício em frente, do outro lado da avenida, com seis andares. No último andar, via-se uma varanda que dava para um aposento onde morava uma jovem escultural e bela. Por vezes, distraía-se e assomava à varanda ,como Deus a deu ao mundo, talvez pensando que ninguém a via... ou talvez não. Basílio várias vezes a viu nesse propósito, até que, um dia, resolveu subir as escadas do prédio, com a intenção de a avisar de que estava a ser objeto de observação de muitos olhares indiscretos e que deveria evitar essas aparições provocatórias. Tocou a campaínha e quando a porta se abriu, apareceu-lhe uma jovem, muito jovem, com uma beleza invulgar e um sorriso encantador, vestida com elegância, que o interpelou:
- Bom dia, o que deseja?
- Bom dia! Eu sou o Basílio e tenho o prazer de falar com...
- Eu sou a Rebeca. A que devo a sua visita?
Basílio contou-lhe que era objeto de observação dos homens quando aparecia nua na varanda e aconselhou-a a evitar essas aparições, pois os comentários que gerava, não eram muito abonatórios para ela. Rebeca corou, agradeceu e promoteu não mais aparecer na varanda. Convidou-o a entrar e tomar um café, mas Basílio recusou e convidou-a, por sua vez, a tomar um café com ele, quando estivesse disponível. Deixou-lhe um cartão com o seu nome e número de telefone e retirou-se, beijando- - lhe, cerimoniosamente a mão.
Decorridos uns dias, o telefone tocou. Era Rebeca que lhe perguntava se podia tomar um café com ele, nessa tarde, por volta das dezassete horas. Basílio prometeu ir buscá- - la e assim fez.
Era dezembro. O dia estava lindo e a temperatura amena. Tomaram o café e foram passear na alameda do jardim, junto ao rio que corria, mansamente, para o mar. Equipas de remo deslizavam velozmente nas águas, no treino que sempre faziam à tarde. Um ou outro barco à vela traçava piruetas mais ao longe e os mirones seguiam os barcos, postados na longa avenida marginal, apreciando o esforço e a perícia dos atletas. Na alameda, Basílio e Rebeca conversavam. As árvores estavam despidas de folhagem e as flores eram poucas, sobressaindo no verde dos canteiros. Mas havia o sol, prestes a desaparecer no horizonte, era ligeira a brisa que soprava do rio e as palavras que ambos trocavam eram serenas e tranquilas como a brisa que os afagava.
Rebeca contou tudo: Era estudante, os pais viviam no Porto e raramente vinham a Viana.O pai era médico e quando resolveu transferir-se para o Porto, levou a mãe e deixou-a ficar até ao fim do ano letivo, na casa que habitavam. Fora Rebeca que assim quisera, pois gostava da escola e do ambiente que frequentava. Basílio disse-lhe que acabara o curso secundário e esperava arranjar emprego.Não tinha possibilidades económicas de continuar a estudar, ir para fora cursar o ensino superior. E passava o tempo lendo e estudando, procurando emprego em qualquer organismo do Estado, mas era preciso esperar que abrissem concursos. Sem que o pensassem, as suas mãos procuraram-se e assim caminharam durante algum tempo pela longa alameda. Aproximava-se a noite, estava a ficar frio, vinha do rio uma brisa fresca que convidava a regressar a casa. E assim fizeram. Subiram o troço da avenida onde morava Rebeca, sempre de mãos dadas, olhando-se ternamente. Basílio levou-a até à porta de casa, despediram-se sem darem um beijo, mas o brilho dos seus olhos era a promessa de muitos beijos futuros. Não marcaram data para se reencontrarem, num dos próximos dias. Telefonariam e fá-lo-iam então. Mas ambos sabiam que seria breve.
Basílio regressou a casa, pensativo. Nessa noite não saíu. Ficou a ler e a pensar no sentimento que ia nascendo no seu coração.
Rebeca sonhava. De um episódio caricato da sua vida, nascia uma história que, tudo apontava, iria ter um fim feliz. Simpatizara com Basílio, pela sua educação, pela sua elegância e simpatia, pela nobreza do seu carácter que ia descobrindo. Gostava de se aproximar mais dele, de aprofundar o conhecimento que dele tinha, de penetrar na sua alma, mas Basílio era tímido e mantinha uma distância que dificultava essa aproximação.
E, então, um dia, Basílio recebeu uma carta oficial convocando-o para estágio no serviço para que concorrera em Lisboa. Não podia recusar, pois poderia ser o início de uma carreira que necessitava encetar. Falou com Rebeca que fcou desolada, mas compreendeu-o e animou-o, dizendo-lhe que poderiam comunicar pelo telefone, dando notícias das suas vidas. Prometeu esperar por ele, recatadamente, embrenhando-se nos estudos, com mais afinco, preparando-se para regressar ao Porto, à casa de seus pais, no fim do ano letivo. Ali, pensava prosseguir os seus estudos e ali o esperaria quando quisesse visitá-la, se o não pudesse fazer, enquanto estivesse em Viana.
Era dezembro! As ruas da cidade alindavam-se com luzes multicores e ouviam-se os cânticos de Natal, transmitindo paz. “É Natal, é Natal,...”. Basílio deixou-se embuir do espírito natalício. Encontrou-se com Rebeca e abriu-lhe o seu coração. Dos seus lábios jorraram palavras de amor, promessas e projetos. Era um novo mundo e uma nova vida que se abria para ele. Queria partilhá-la com Rebeca, construir com ela essa nova vida que sonhava. Havia lágrimas nos olhos de Rebeca que falava, em silêncio do que lhe ia na alma. Das suas mãos suaves saíam carícias que palavra alguma podia transmitir.
O carrilhão da basílica, fazia-se ouvir em toda a cidade e asua música era melodiosa e terna. Piscavam as luzes nas árvores de Natal. Multidões passeavam-se nas ruas coloridas da cidade e havia dois corações que choravam de alegria. Era Natal.
Bragança, 30/12/2016
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