António não era propriamente um D. Juan, mas exibia alguns tiques de sedutor que muito agradavam às raparigas do burgo. A começar pelo penteado impecável, um pouco à imagem de Clark Gabel com uma poupa enrolada, bem untada com brilhantina e fixador da moda. A face exibia aquele sorriso estereotipado dos galãs de Hollywood e os modos eram estudados para que a pose parecesse natural na sua elegância. Num tempo em que os homens usavam fatos, casaco e calça, de um bom tecido e a ganga era para os fatos macaco dos operários, António primava pela sobriedade e o seu calçado, sempre bem limpo, completava a apresentação cuidada com que se mostrava nas tertúlias de amigos que frequentava. Não variava muito a indumentária pois a capacidade económica não lhe permitia ter um guarda-roupa variado e extenso. O pai era bombeiro e a mãe doméstica, a criar uma prole numerosa que não permitia luxos, nem perder tempo com salamaleques nas roupas dos filhos. António aprendera a passar as suas próprias calças e camisas, com requinte de profissional. E isso lhe permitia uma apresentação impecável, com o pouco que tinha. Quando António se passeava na Praça Central ou percorria a longa Alameda do Jardim, nas noites de concerto da banda local, não eram poucos os olhos femininos que o seguiam, apreciando a sua elegância e o sorriso fácil com que brindava as meninas. Namorava e desnamorava com facilidade, não que quisesse colecionar troféus, mas porque era inconstante e depressa se cansava e desiludia com as mulheres que amava. Dizia-se que quando era muito jovem, tivera um desgosto de amor e que nunca conseguira esquecer essa paixão. Daí que parecia não acreditar no amor e os namoros eram para ele um mero exercício de masculinidade que desempenhava a preceito. Tinha sempre uma namorada que não apresentava aos amigos, não porque tivesse ciúmes dos seus olhares mas porque queria manter uma separação e independência total entre o amor e a amizade. Somente uma vez ele se associara a um amigo para namorar uma de duas irmãs que andavam sempre juntas, Mariana e Rosália. Ele estava interessado em Mariana e pediu ao seu amigo Júlio para fazer companhia a Rosália que era ainda mais bonita e viva que a irmã. Não foi difícil o amigo aceitar o desafio e depressa se viu os dois pares de namorados se passearem na Alameda Marginal ou nas longas ruas do centro histórico que levavam ao outro lado da cidade e ao mar.
Corria o mês de Agosto e Viana era palco permanente de ranchos folclóricos, grupos de bombos, concertinas e acordeões, cabeçudos e gigantones, moçoilas trajadas à vianesa, cantares e danças que a todos encantavam e eram a delícia dos turistas, portugueses e estrangeiros que, aos milhares, visitavam o burgo. António e Mariana e Rosália e Júlio, passeavam, de mãos dadas pelo centro histórico, enlevados, embriagados pelo amor nascente, trocavam fugidios beijos, abraçavam-se de quando em vez, absortos, no meio da multidão que, alheia ao amor dos jovens, cumpria o seu ritual de tudo visitar, com ar cansado que o calor provocava. Ouvia-se o bruaá das gentes, caminhando ao ritmo das concertinas e do ribombar dos bombos dos Zés Pereiras. Havia bandos de crianças acompanhando os Gigantones e os Cabeçudos que percorriam as ruas. António e Mariana sorriam e as suas mãos, entrelaçadas, diziam do muito que continuava crescendo nos seus corações. Júlio e Rosália perdiam-se na multidão, escondidos nos beijos fugidios que trocavam e nas carícias breves das suas mãos delicadas.
A Praça da República, com a beleza dos seus monumentos e a sobriedade artística de alguns dos seus edifícios, era o palco preferencial da alegria esfuziante que se espalhava por toda a cidade e era lindo assistir à concentração das lavradeiras, ao ribombar estonteante dos zabumbas, à harmonia prazerosa das concertinas e acordeões , à alegria contagiante dos Cabeçudos e Gigantones, ídolos da pequenada.
António e Mariana, abstraindo-se do ruído melodioso de toda a azáfama que envolvia a Praça, curtiam o seu amor, passeando de mãos dadas, bebendo reciprocamente os seus olhares de mel, sonhando aleluias em amanhãs de esperança. Mariana era uma ternura, linda, morena, o cabelo negro caindo-lhe sobre os ombros, estatura média, elegante, pernas bem torneadas, os pés guardados em sapatos rasos, cor de vinho. Tinha o sorriso belo de uma adolescente feliz e os seus dentes alvos brilhavam nuns lábios de carmim que sonhavam beijos que os seus olhos negros sugeriam a António. Este, enlevado, olhava-a com ternura e as suas mãos apertavam-se num convite secreto a caminhos futuros. Sentia um estranho torpor que o inibia de agir e, contemplativo, os seus olhos bebiam os olhares de Mariana e afogavam o seu coração num amor reverente que, docemente Mariana retribuía. E assim, dia após dia, nasceu entre eles um amor profundo que o tempo ia fazendo crescer. Tornaram-se companheiros de todas as horas naquele verão quente. António ia abandonando as tertúlias de amigos, dedicando todo o seu tempo ao amor a Mariana com quem passeava à beira rio e ao longo da extensa Alameda que atravessava o Jardim onde cresciam as mais belas flores, tratadas pelo Sr. João, chefe jardineiro. Na esplanada do café havia sempre pares de namorados, amando-se languidamente e as suas mãos desenhavam romances de enternecer. António gostava de tomar o seu café e por ali se quedavam, olhando o movimento da Alameda muito frequentado neste período de verão. Do outro lado, erguia-se o coreto onde, nas noites cálidas, o maestro José Pedro exibia a sua banda, quase uma orquestra, tocando, afinadamente, música clássica e rapsódias várias. Os mais velhos ocupavam os lugares da frente, quer porque tinham o ouvido mais duro, quer porque eram os maiores apreciadores do repertório do maestro. E exibiam os seus conhecimentos musicais, discutindo minúcias e afinações e tecendo as suas críticas à execução. Os mais novos iam ouvindo os acordes, espantavam-se com a afinação dos instrumentistas e contavam, entre si anedotas jocosas. As meninas reuniam-se em grupos, deliciando-se com os olhares marotos dos rapazes e soltavam risadinhas que rivalizavam com os acordes doces que do coreto chegavam. As estrelas espiavam dos céus e sorriam ante a ternura dos jovens. Corria uma brisa fresca vinda do rio onde deslizavam pequenos barcos que se dedicavam à pesca ou outras atividades lúdicas. António e Mariana olhavam-se ternamente. Tinham tomado o café e passeavam na Alameda, repleta de gente que fugia ao calor das casas e se refrescava com a brisa serena que crescia do rio. Tinham vontade de fugir daquele bulício e esconder-se na escuridão da noite, embriagar-se de beijos, sentir o calor intenso dos seus corpos jovens, procurando-se, sair do mundo e atingir os céus. Naquela noite, o luar, cúmplice, escondeu-se e só o brilho dos seus olhos iluminava a negridão do espaço. Foi fácil encontrar o caminho do céu e para lá caminharam docemente.
No dia seguinte, António levantou-se cedo. O Sol raiava no firmamento, as flores e arrebitavam as suas lindas pétalas, a passarada ensaiava os seus voos matinais, gente apressada seguia o seu caminho, o rio corria apressadamente para o mar, ao encontro doutras águas que dessem sal à sua vida. Chegou à janela do seu quarto e olhou a azáfama que se instalava. Além, dois cães engalfinhavam-se e lutavam, sabe-se lá porquê. Um gato miava no telhado, chamando a sua fêmea com que serenatando ao amanhecer. António pensava em Mariana. Lembrava a noite anterior em que se entregaram pela primeira vez, na doçura dos seus olhos castanhos rivalizando com o brilho das estrelas na serenidade dos seus gestos, na doçura das suas mãos, na sua pele de veludo, na meiguice dos seus beijos. Além, na Avenida, ouviu-se estridente, a sirene de uma ambulância. Ouviu alguém dizer que houvera um grande acidente, dois carros que haviam batido de frente. Sentiu o coração bater mais forte, era a hora a que Mariana saía de casa a caminho do estabelecimento do pai. Saiu a correr à procura de notícias, como um louco, pressentindo o pior…
No dia seguinte, no cemitério, António chorava em silêncio. Deus não quisera que ele fosse feliz e levara Mariana para junto de si, para o Céu que eles haviam sonhado naquela noite tão linda.
António andou por aí, triste e cabisbaixo, consumindo na sua dor…
Era outra vez verão! Bandos de andorinhas animavam os beirais e os jardins engalanavam-se das mais belas flores. Estava lindo o rio e o mar espreitava ao longe. António escolheu esse dia e partiu ao encontro de Mariana, um cancro minara a pouca vida que lhe havia restado.
Bragança, 21/9/2016
Luís Machado
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