sábado, 23 de janeiro de 2016

AMOR VIRTUAL E GASTRONOMIA REGIONAL, SONHOS E REALIDADE

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

1. Hoje partilhei um vídeo que me levou a refletir profundamente sobre a vida, sobre o nosso comportamento perante certas situações que nos envolvem, sobre a intensidade dos nossos sentimentos, sobre a verdade dos mesmos, sobre o modo como os manifestamos.
Um pai, sentado no chão, era interpelado por uma bebé que ainda não sabia falar, mas que se exprimia por sons que eram a expressão do seu falar e por gestos que diziam do muito que queria transmitir. O pai distraía-se a olhar para o lado, para o programa da TV , e o bebé obrigava-o a olhar para ela, empurrando-lhe amorosamente a cabeça e continuava a sua algaraviada que era talvez a expressão do seu amor. A introduzir o vídeo, talvez o autor, alguém escreveu: ". Quando uma mulher estiver falando com você...olhe para ela ! " Eu comentei dizendo " O inverso também é verdadeiro ", isto é, quando um homem estiver falando consigo, olhe para ele, ou escute-o com atenção, se estiver telefonando, ou siga com atenção o que ele está digitando, se for esse o caso. E, no entanto, alguém medianamente inteligente, percebe que, muitas vezes, não é isso que acontece e percebe quando está a falar só e, do outro lado, está alguém que faz que fala, mas que não fala, que faz que ouve, mas não ouve e lê e responde sem atenção às mensagens que vai recebendo. Quando, por vezes, isso nos acontece, nunca sentiram vontade de fazer como a bebé? Mas as relações entre as pessoas são complexas e a maneira como manifestamos os sentimentos são diversas e díspares. 
Eu sou um bom ouvinte, ouço e sigo com atenção as intervenções de quem comigo fala ou conversa por outros meios e dou a minha opinião após ouvir o que me dizem. Não omito assuntos sobre os quais preferia não falar, nem passo à frente sobre outros que podem ser mais polémicos. Procuro não arranjar conflitos e evito discussões sobre política ou futebol, assuntos cujas opiniões e paixões são de tal radicalismo que levam sempre a situações desagradáveis. Gosto de falar sobre tais assuntos, mas com pessoas que os vivam sem paixão e com racionalidade. Gosto de conversar e seleciono os amigos. Não abdico de falar de amor,mas, com a minha idade, já sou mais poeta do que praticante. Aprecio a beleza feminina, dando preferência à beleza da alma, mas as curvas ondulantes de um belo físico ainda provocam em mim sensações não só estéticas. Gosto de poetizar sentimentos e emoções e não fazer do corpo da mulher palco de experiências lúdicas intimistas. Sou amigo do meu amigo e a amizade é para mim o mais puro dos sentimentos. A amizade não morre, o amor pode esvair-se com o tempo e as circunstâncias. Há algum tempo, alguém, no facebook, referia-se ao amor virtual com pouca simpatia e punha em causa a sinceridade dos arroubos dos namorados como " amo-te muito..." você é o amor da minha vida " e " o meu amor é eterno " , e outros do mesmo teor, suscitando dúvidas sobre este tipo de amor, hoje muito em voga nas redes sociais. É natural que tenha alguma razão quem assim fala, mas, como em tudo, não devemos generalizar. Há um grande perigo que isso aconteça, mormente quando os intervenientes se não conhecem e idealizam personagens que não têm correspondência com a realidade. Aí o perigo existe porque há pessoas que ficcionalmente brincam com os sentimentos alheios, visando objetivos menos sérios. Há sempre quem queira vestir a pele de cordeiro, sendo lobo! Mas há também quem procure apenas uma alma gémea com quem compartilhe sentimentos e emoções, num plano ideal, sem pensamentos concupiscentes que um tal relacionamento arreda. É complexo? É ! Não aconselhável a menores de muitos anos, cheios de viço, na frescura da vida. Aí há que fruir o amor na sua plenitude, na entrega total e sem peias, apaixonadamente, numa simbiose de emoções e sensações, que os eleva aos céus... Aos mais velhos fica o desejo de uma mão que se dá, de um regaço onde descanse seus tédios, de quem o ouça e com ele fale, de uns olhos que o vejam com a ternura que o seu coração pede...E se um amor real tudo isso pode satisfazer, um amor virtual pode imaginar e sonhar e preencher o espaço vazio do seu coração... " O coração tem razões que a razão desconhece " e são estranhos os desígnios de Deus...Tudo tem o seu tempo...

2.Quando estamos longe de casa e do convívio dos nossos amigos de sempre, os acontecimentos ganham uma dimensão que, normalmente, não têm quando estamos presentes…
Ontem, um post colocado no facebook, fazendo referencia ao presunto e enchidos transmontanos, fez grande sucesso e foram muitos os comentários que mereceu. Tal facto trouxe-me à lembrança o Festival do Butelo e das Casulas a ser inaugurado na Praça Camões, e Bragança e a que não posso assistir por não me ser possível, nesta data , a deslocação do Porto ,onde me encontro. Será, por certo, um sucesso e contribuirá para um maior conhecimento de um produto que muito aprecio e que não deixará de estar presente na minha ementa de carnaval, quando regressar. Manifestações desta natureza e o empenho das instituições e fabricantes do Butelo, são necessários ao desenvolvimento do turismo da região que bem pode ter na gastronomia um dos seus pilares.

SOL NASCENTE


Nunca vi nascer o sol
porque chego sempre atrasado
à beira mar...
Ia alta a lua
quando te conheci
cheia de angústias
e desilusões...
Queria-te lua nova
perseguindo sonhos,
mas tu já não eras
a doce donzela
que a vida lançara
nos braços de alguém
que te magoou...
Beberas tristezas,
sofreras vilezas,
num vão desamor
que te destruiu
os sonhos que tinhas...
Mas eu encontrei-te,
ia alta a lua...
Tua alma ia nua
e o coração vazio...
Não crias no amor,
sofrias a dor
dum tempo já ido...
Olhaste meus olhos,
eu olhei os teus,
mandaste-me beijos,
eu mandei-te os meus...
Ia alta a lua...
A tua alma pura
já não ia nua
e o teu coração
bebera do meu,
doce e terno amor,
banindo o vazio
dessa grande dor...
Ia alta a lua...
O sol já descera no seu arrebol...
Amanhã vou ao mar
ver nascer o sol...


Luís Machado

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O RENASCER DO AMOR


Quando o amor é apenas sentimento
e não concupiscente ambição de posse,
quando o amor que um coração sente
é apenas afeto que vela docemente,
não falamos , por certo , dum adolescente,
mas dum velho cujo coração
ainda vibra com muita emoção...

E porque um velho ama e o seu coração
procura caminhos que o levem ao céu,
não o julgues mal ,dá-lhe a tua mão,
empresta-lhe a idade da tua paixão,
deixa-o caminhar com seus passos leves
nas nuvens que trilha na sua quimera,
deixa-o sonhar amores que quisera...

E dá-lhe flores para ele oferecer
às mãos que aceitam este seu querer,
que podem ser rosas,cravos ou marias,
camélias também e outras mais belas
cujo amor ardente canta aleluias
e inebria de sonhos esse coração
que , enlevado,estende sua afável mão...

Deixai-o sonhar , deixai-o viver,
deixai-o falar com palavras sábias
que foram outrora palavras de amor...
Deixai-o animar o seu coração
que ainda vibra com muita emoção...
Deixai-o sonhar , deixai-o viver,
é um amor perdido que quer renascer...

Luis Machado

PÁGINAS DO MEU DIÁRIO E OUTROS TEMAS AVULSOS


Crónicas do meu viver// Por Luís Machado

1. Na vida de cada um de nós, há dias sim e dias não. Levantamo-nos, olhamos o céu que se apresenta belo ou cinzento conforme a nossa disposição e estado de espírito. E tudo nos corre bem ou corre mal. Nos dias não, o cão faz tropelias que não nos agradam, o esquentador não funciona, entornamos o café, o carro não pega , somos apanhados por uma bátega de água e molhamos os pés, chegamos atrasados ao local de encontro, enfim, um dia para esquecer. Nos dias sim, parece-nos que tudo é belo na vida, sentimo-nos leves e calmos, tudo bate certo nos nossos afazeres do quotidiano, encontramos os amigos que mais apreciamos, há paz no nosso coração, os nossos pensamentos são claros e analisamos a vida com mais rigor, vemos beleza e alegria nos gestos e nas coisas mais simples.
Ontem, foi para mim um dia um pouco triste , embora procurasse lutar contra essa tristeza que o tempo sombrio e triste favorecia. Mas não conseguia sacudir este torpor que me arrefecia a alma e tudo me parecia sombrio e sem graça. Nem o passeio que dei pelas ruas da cidade, pedonando quilómetros na zona velha da urbe, me deu um outro alento. Os rostos dos transeuntes eram fechados e inquietos, corria-se em vez de andar, o trânsito automóvel era intenso e o vento que do mar soprava era frio e cortante. Entrei num café e pedi um comprido, com adoçante e sentei-me numa das mesas. Ao lado, um casal jovem lanchava. Reparei na beleza ímpar da donzela, face marmórea, linda, traços corretos, boca de sonho, olhos que pareciam estrelas, cabelos alourados, penteados com graça. O rapaz, feliz, contemplava-a, ternamente e as suas mãos teciam caricias mútuas. Eu olhava, discretamente, o quadro e embevecia-me com a doçura do trato e com os olhares cheios de promessas. Havia gente bela e feia, à mistura, no café , rostos sombrios , olhar distante , saboreando um café quentinho , enganando o frio que se fazia sentir, corpos cansados de um dia de trabalho e das correrias loucas para cumprir horários.
Saí. Regressei a casa, caminhando pelos passeios estreitos até ao carro, estacionado longe, como longe é tudo neste Porto cidade e tive saudades da minha Bragança, alcandorada nas montanhas distantes. Lá é tudo já ali e também há bonitas donzelas de pele marmórea ou morena , de olhos cujo brilho supera o das estrelas. E as mãos devem ser de veludo... De todas as idades, dos 0 aos 100. Os meus cansados olhos as contemplam quando deambulo pela cidade , olhando a vida... Sinto saudades da minha Bragança e das suas gentes. Quando era jovem, cantava-se. " Tenho um amor em Viana e outro em Ponte de Lima... "... Os tempos passam e os horizontes alargam-se... A minha cidade é o mundo e, como diz o poeta , ". eu amo o longe e a distância. ..". 
2- Hoje o dia foi diferente. Acordei com um telefonema amigo que me predispôs para novas leituras e novas escritas. Saí apenas para tomar um café e comprar o jornal, regressando a casa. Embrenhei-me na leitura do jornal, li os títulos, artigos de fundo , folheei as páginas centrais e quedei-me na leitura mais atenta da campanha eleitoral para as presidenciais que corre morna e sem despertar o interesse da maioria dos portugueses. E é pena que assim seja , pois é muito importante a eleição para um cargo cujo detentor se pretenda seja um árbitro e um impulsionador da vida do país e não cum corta fitas como já temos tido ao longo dos tempos , isento ,imparcial , um Presidente que o seja de todos os portugueses. O desinteresse demonstrado pela população, serve apenas àqueles que estão apostados na desqualificação do cargo e perseguem interesses partidários que não serão os do país. A abstenção que se adivinha irá ser desprestigiante e irá, paulatinamente, minando os alicerces da própria democracia. Cabe a todos os cidadãos, partidos e concorrentes, contribuírem para a inversão dessa tendência e fazer com que todos exerçam o seu direito de cidadania com elevação.
3- Da maneira como nos vemos, depende o que vemos nos outros. Do que dermos aos outros, depende o que nos darão a nós. Do que fizermos aos outros, depende o que nos farão a nós.
O nosso comportamento na sociedade tem de ser pautado pelo respeito e elevação, pelo espírito de solidariedade, pelo estrito cumprimento dos nossos deveres para com os outros, pelo aperfeiçoamento permanente dos princípios e valores pelos quais devemos orientar as nossas vidas... 
À guisa de conclusão, deixo-lhes um poema transcrito da parede de um dos quartos de crianças judias no campo de extermínio de Auschwitz. " Amanhã eu fico triste... Amanhã! Hoje não. Hoje fico alegre! E todos os dias, por mais amargos que sejam, eu digo : amanhã eu fico triste, hoje não!"
Uma lição para todos nós, que, quantas vezes, não sabemos agarrar, com otimismo e esperança, as nossas vidas...

BEIJOS


Pedi-te um beijo
e tu mandaste-mo,
doce ,virtual...
Mas não é igual,
falta o calor
e a frescura dos teus lábios
e as tuas mãos
suavizando as minhas...
Falta o hálito doce
da tua boca linda
e o perfume inebriante
do teu corpo...
Falta seres tu
e não a tua imagem,
nesta virtual viagem
dum beijo
que pedi...

Luis Machado

FÉNIX


Hoje , quando abri os olhos,
o sol raiava na minha janela
e inundava de luz
a minha alma...
O céu estava azul,
uma aragem tépida
fazia ondular s folhagem
perene das árvores,
o meu coração estava calmo
e fruia a paz da natureza...

Sentia a paz de alma
que meu coração queria...
Lá longe , nas montanhas ,
brilha a neve ,
branca e leve,
branca e fria,
mas não no meu coração...
Um certo calor m' a funde
e , nos prados verdejantes
que além vejo ,
há esperança de novas primaveras...

Vou descansar a tristeza...
Pinto a vida de arco-iris
e vou navegar no sonho,
no meu barquinho encantado ,
o meu barco de papel,
procurar minha sereia
cujos beijos são de mel...

Vou , concerteza , encontrá-lá
e trazê-lá no meu peito ,
bem junto do coração...
Seus cantares hão-de chamar-me
no seio desta ilusão...

Luis Machado

POR QUE CHORA A NATUREZA

Por que chora a natureza?
Dormem aves nos beirais,
não há estrelas no céu,
o sol com frio se aquece,
tudo na alma arrefece...

Entristece o coração,
o ar pesa , a chuva cai,
não há flores pr' adoçar
este nosso olhar distante,
o cheiro forte da terra
afoga-se em dilúvios
e a névoa permanente
encobre nossas saudades,
de tempos e de distâncias,
de olhares que se não vêem,
de odores e outras fragrâncias
e de mãos que se não dão,
de beijos quentes e ternos,
dormindo no coração...

Por que chora a natureza?
Será de amor , é tristeza?
Os eflúvios que o tempo exala,
são de lonjuras
que o mar separa,
do curvejar terno e doce
de rosados corpos ,
corpos morenos , corpos amados,
de beijos quentes,beijos sonhados,
ternas promessas, sonhos dourados...

Por que chora a natureza?
Será de amor , é de tristeza?
Quantas saudades no vento,
voando pr'alem do tempo...
Quantos sonhos adiados,
quantos outros destroçados
que o tempo vai diluindo
nesta chuva inclemente
e nesta fuga pra frente
que a nossa alma impele...

Quantos sonhos por cumprir,
quantas ânsias a viver
na procura de horizontes,
quantas procuras em vão
de caminhos que nos levem
pra longe da solidão...

Por que chora a natureza?
Será de amor, é tristeza?

Luis Machado

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

DO VÃO DA MINHA JANELA

Crónicas do meu viver // Luís Machado.

1- Há dias que estou no Porto. De vez em quando apetece-me mudar de ares, espairecer um pouco o espírito, sorver o ar do mar aqui bem perto, contactar outras gentes, sentir outras culturas, visitar amigos, familiares e tomar uns cafés, aqui e ali, ouvindo o sussurrar das gentes conversando ou lendo pacatamente as notícias sempre repetidas do jornal que compro.
Há horas em que escrevo e leio e isso me ocupa algumas horas. Perco-me em reflexões e o meu espírito navega pela vida, observa, sente, procura respostas, indaga tudo o que é indagável frui desejos que sonha, ambiciona, quer...
Às vezes sinto aquela leveza de alma que me leva a outros mundos onde gostaria de estar...Imagino céus e caminhos que gostaria de ter percorrido e que se tornaram inacessíveis no meu caminhar...Esboço paisagens e horizontes, longínquos, lá no fim do mundo, que percorro em pensamento em vidas virtuais cujo futuro é o sonho... Sinto vontade de viver, mas interrogo-me e não encontro respostas, não há futuro, senão esta vida que, dia após dia, me ocupa o tempo e passamos o tempo à espera que o tempo passe... E ele passa devagar, consumindo sonhos e anseios e deixa-nos apenas lembranças e frustrações, também... 
2- Está um tempo horrível! Vou à varanda e espraio o olhar pela paisagem que se estende até ao longe, montes altaneiros e aglomerados de casas que se alinham no horizonte... Há ainda campos e árvores que amenizam o feio dos edifícios grandes que também avisto. Já anoiteceu. Acendem-se as luzes. Há uma certa beleza na paisagem noturna crivada de pirilampos, tremulando ao vento. Por vezes chove copiosamente e as ruas transformam-se em rios, tornando quase impossível a circulação de automóveis e peões. O vento uiva nos telhados e traz os seus lamentos, como quem chora por nós... É a voz do vento! Talvez esta voz seja um lamento pelos atos infernais dos homens. E muito há que chorar!... 
Ainda hoje as televisões noticiaram um ensaio nuclear, uma bomba de hidrogénio, que terá provocado um terramoto de grau 7, na escala de Ritcher ! Uma barbaridade cometida contra a natureza e a humanidade... Outros o fizeram antes, alguns o farão a seguir. Para quê? Em defesa de quê, de que princípios? Aonde nos levará esta escalada de ensaios? Que tragédia nos preparam ? Reflitam e ajam enquanto é tempo! Amanhã pode ser tarde e nem a fantasia de cineastas nos salvará... 
3-Vendo os noticiários da TV, aprecio o cair da neve nas terras altas do norte... Gostei de a ver ao longe, cobrindo as montanhas e os campos as estradas e as árvores que pareciam pintadas. É um encanto ver cair a neve, as crianças brincando à " pelotada ", fazendo bonecos, correndo sobre ela, comendo-a até…
Fertiliza os campos enche os rios, ajuda o turismo, entusiasma os fotógrafos profissionais e amadores, dá trabalho a muita gente, mas tem também o seu lado negativo: fecham as escolas, dificulta o trânsito , há trabalhos que se não fazem e as cidades ficam com a sua operacionalidade reduzida, pese embora a boa vontade das autarquias em minorar as dificuldades. Cantada por poetas pela sua beleza e magia, a neve encanta multidões, mormente aqueles que com ela nunca tiveram contacto e a veem, romanticamente, nos ecrãs da TV. Por mim gosto de a ver do vão da minha janela, quando estou em Bragança e me bate leve , levemente, nas vidraças por onde a olho..." cai neve na natureza e cai no meu coração
Preciso de um cafezinho, bem quente , para fundir esta neve e aquecer a alma , mas chove tanto , aqui no Porto , que mal posso sair de casa. Estou só, escrevendo esta crónica que falou de tristeza e do tempo. Talvez amanhã faça sol, talvez não neve no meu coração, talvez haja esperança em dias melhores, talvez a vida possa ser um pouco mais bela... 
4-Hoje é dia de Reis. Amigos que estão muito longe, quiseram associar-me aos festejos e cantaram para mim " olhei para o céu, estava estrelado...Vi o Deus Menino em palhas deitado...Em palhas deitado. em palhas dormindo..."
Recordei os meus tempos de menino e o cantar feliz das janeiras pelo grupo dos Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo e da figura popular, impar, poeta do povo, Zé Rancheiro, que emprestava a sua voz truante ao amplo coro que a acompanhava. E eu olhava-o com carinho e admiração e cantava com ele " olhei para o céu..." e sorria com os dizeres brejeiros que faziam parte do reportório fecundo.
Comprei um bolo rei, o presépio continua ativo naquele canto da casa , abrigado à sombra do pinheirinho. O Deus Menino dormia nas palhinhas deitado e o meu coração estava cheio de saudades... Lá fora chovia...O vento uivava nos telhados...Há neve lá para as montanhas onde vivo... " Cai neve na natureza e cai no meu coração...". Vamos comer uma alheira pra aquecer a alma... E eu que não bebo, apetece-me um bom Alvarinho par mata as saudades…

O QUE SÃO AS PALAVRAS

O que são as palavras
quando de amor falamos?
Pérolas, estrelas , sois,
pedaços da alma ardente,
folhas , flores , semente
dum sonho que brota docemente,
luz duns olhos verdes,azuis,negros
com lágrimas rolando,agridoces ,
nos sulcos virginais
dum rosto quente ?

O que são as palavras
que riem, choram, entontecem
de prazer um coração,
levam novas da vida
aos que longe estão,
Cantam saudades no plangente
trinado das guitarras,
chorando melodias doloridas,
sentidas no coração da gente..?

O que são as palavras
que o inferno e o céu disputam,
trovejando perfidias e outras doidices
que arrasam vidas e sonhos dourados
ou levam consolo aos necessitados,
pintando de azul corações magoados
e fabricam sonhos e belas quimeras,
em jardins floridos pelas primaveras ?

O que são as palavras
que meu ego enganam,
belas melodias que , doces , embalam
meus sonhos tardios,
meus sonhos de nada ,
quimeras que ouso ainda criar ,
ilusões pungentes deste meu lutar ?

O que são as palavras
que inebriam meu estro,
torço, rebusco ,embelezo, alindo,
digo nada e tudo ,
visto de cambraia, forro de veludo,
pinto de arco-iris, num fazer infindo ?

O que são as palavras
cálidas ou frias,nunca execrável
neste poetar triste e inexorável,
com que busco a verdade
nesta minha idade ?

O que são as palavras
belas , doces , simples
que transcendem o nada,
buscam o infinito, mas não vêem nada?

O que são as palavras
que falam de amor
e só trazem dor?

O que são as palavras?
Já não sei dizer...

Fenece-me o estro, não sei que escrever...

Luis Machado

AMOR E SONHO

Hoje sonhei que te ia buscar
ao fim do mundo,
para comigo voares
até ao longínquo Marte
e ali , no silêncio efémero
deste sem tempo,
construir contigo um novo céu,
sem ânsias, sem distâncias,
sem angústia e sofrimento,
sem dor, sem ansiedade,
onde este amor que sonhei
não fosse sonho,mas realidade....

Voamos, de mãos dadas, pelo espaço,
bebendo a luz eterna das estrelas...
Descansamos nas brancas, fofas nuvens
que o céu azul colorem...
Ouvimos o clamor dos mortos
e o celestial cântico dos anjos...
Vislumbramos Deus em pensamento
e pedimos-Lhe, doce prece,
por este amor complexo
que a vontade do destino tece...

E o sonho que de efémero veste,
sorria em nossos corações,
tão docemente, que as ilusões
que o destino tece,
nos pareciam reais,
não meros anseios virtuais...

E quando Morpheus chegou,
gentilmente, fechando nossos olhos,
despertou em nós o velho sonho,
cheio de ausência e distâncias,
de dor e sofrimento,
de angústia e ansiedade,
um sonho virtual e de verdade,
num só tempo de ilusões,
um sonho bordado só de amor,
triste como a planta
que cresce sem flor...

E o longínquo Marte,
paciente e austero,espera por nós
num hotel de sonhos,
belo e doce,onde estamos sós...
Mas Morpheus sorri e,
calmamente,
abre nossos olhos,docemente...
Havia um sol nos céus,
ventos uivando,
e aves voando no além...
Há um mundo confuso e triste
e um amor que a tudo isto resiste...

Luis Machado

A VIDA É UM PUZZLE

A vida é um puzzle
de muitas peças feito,
simples, difíceis, complexas...
E ao manejar as peças,
misturamos estrelas com flores,
o céu com o mar profundo,
O luar com o verde esperança,
a dor mais lancinante
com o afeto doce da criança,
o brilho sereno de um olhar
com a candura gostosa
do desabrochar do amor,
Ao silêncio das belas madrugadas
com o teclar terno de umas
mãos suaves musicando,
ricos , pobres , miseráveis,
mesclando de negro
o verde inebriante das campinas...

E ao encaixar as peças,
se vislumbro um busto
cujo olhar me encanta,
meto-o junto a um outro
cujo coração anseia...

E quase me apetece
banir deste vivido puzzle,
a tristeza , a dor ,
toda a amargura
e juntar , apenas , docemente ,
o amor com a ternura,
a serenidade boa desses olhos
com o sonho dourado dum abraço
que espera no tempo,
o sol com as estrelas,
iluminando as almas
e os corações carentes
de afeto e de carinho,
raiando de esperança e luz
a humanidade inteira...

E o meu vívido puzzle,
simples, difícil ou complexo,
teria as cores vibrantes
dum arco-iris total,
retirando as pedras
que só nos fazem mal...

Luis Machado

NATAL --ESTA PALAVRA IRMÃO


Estava o Cristo Menino
nas palhinhas a pensar
se é que valia a pena
morrer para nos salvar...

Seu pensamento via longe
para além da Palestina,
alcançava o mundo todo,
era essa a sua sina...

E viu guerras, viu miséria,
viu ambições desmedidas,
viu irmãos se maltratando,
viu famílias desunidas...

Enxergaram os seus olhos
esta miséria moral
de ver ajoelhar povos
à fúria do capital...

Viu a ganância crescer
à custa de quem trabalha,
viu pobre gente a sofrer
para engordar a canalha...

Viu hipócritas sorrir,
armados em benfeitores,
sugando o sangue dos pobres
vergados por tantas dores..

E o Menino pensou
que humanidade era esta
que se esqueceu do amor
mesmo nos dias de festa..

Havia estrelas no céu
e este triste Menino
sofria em seu coração,
da terra tal desatino...

Era noite de Natal,
muitos cantavam a paz...
No seu leito de palhinhas
o pobre Cristo ali jaz ,

pensando no seu destino,
ns visão de tanta dor
e como era urgente
criar um mundo de amor.

Nessa gruta de Belém,
nessa enorme solidão,
um Menino que era Deus
criou a palavra irmão...

29-12-2015

Luis Machado