Crónicas do meu viver// Por Luís Machado
1. Na vida de cada um de nós, há dias sim e dias não. Levantamo-nos, olhamos o céu que se apresenta belo ou cinzento conforme a nossa disposição e estado de espírito. E tudo nos corre bem ou corre mal. Nos dias não, o cão faz tropelias que não nos agradam, o esquentador não funciona, entornamos o café, o carro não pega , somos apanhados por uma bátega de água e molhamos os pés, chegamos atrasados ao local de encontro, enfim, um dia para esquecer. Nos dias sim, parece-nos que tudo é belo na vida, sentimo-nos leves e calmos, tudo bate certo nos nossos afazeres do quotidiano, encontramos os amigos que mais apreciamos, há paz no nosso coração, os nossos pensamentos são claros e analisamos a vida com mais rigor, vemos beleza e alegria nos gestos e nas coisas mais simples.
Ontem, foi para mim um dia um pouco triste , embora procurasse lutar contra essa tristeza que o tempo sombrio e triste favorecia. Mas não conseguia sacudir este torpor que me arrefecia a alma e tudo me parecia sombrio e sem graça. Nem o passeio que dei pelas ruas da cidade, pedonando quilómetros na zona velha da urbe, me deu um outro alento. Os rostos dos transeuntes eram fechados e inquietos, corria-se em vez de andar, o trânsito automóvel era intenso e o vento que do mar soprava era frio e cortante. Entrei num café e pedi um comprido, com adoçante e sentei-me numa das mesas. Ao lado, um casal jovem lanchava. Reparei na beleza ímpar da donzela, face marmórea, linda, traços corretos, boca de sonho, olhos que pareciam estrelas, cabelos alourados, penteados com graça. O rapaz, feliz, contemplava-a, ternamente e as suas mãos teciam caricias mútuas. Eu olhava, discretamente, o quadro e embevecia-me com a doçura do trato e com os olhares cheios de promessas. Havia gente bela e feia, à mistura, no café , rostos sombrios , olhar distante , saboreando um café quentinho , enganando o frio que se fazia sentir, corpos cansados de um dia de trabalho e das correrias loucas para cumprir horários.
Saí. Regressei a casa, caminhando pelos passeios estreitos até ao carro, estacionado longe, como longe é tudo neste Porto cidade e tive saudades da minha Bragança, alcandorada nas montanhas distantes. Lá é tudo já ali e também há bonitas donzelas de pele marmórea ou morena , de olhos cujo brilho supera o das estrelas. E as mãos devem ser de veludo... De todas as idades, dos 0 aos 100. Os meus cansados olhos as contemplam quando deambulo pela cidade , olhando a vida... Sinto saudades da minha Bragança e das suas gentes. Quando era jovem, cantava-se. " Tenho um amor em Viana e outro em Ponte de Lima... "... Os tempos passam e os horizontes alargam-se... A minha cidade é o mundo e, como diz o poeta , ". eu amo o longe e a distância. ..".
2- Hoje o dia foi diferente. Acordei com um telefonema amigo que me predispôs para novas leituras e novas escritas. Saí apenas para tomar um café e comprar o jornal, regressando a casa. Embrenhei-me na leitura do jornal, li os títulos, artigos de fundo , folheei as páginas centrais e quedei-me na leitura mais atenta da campanha eleitoral para as presidenciais que corre morna e sem despertar o interesse da maioria dos portugueses. E é pena que assim seja , pois é muito importante a eleição para um cargo cujo detentor se pretenda seja um árbitro e um impulsionador da vida do país e não cum corta fitas como já temos tido ao longo dos tempos , isento ,imparcial , um Presidente que o seja de todos os portugueses. O desinteresse demonstrado pela população, serve apenas àqueles que estão apostados na desqualificação do cargo e perseguem interesses partidários que não serão os do país. A abstenção que se adivinha irá ser desprestigiante e irá, paulatinamente, minando os alicerces da própria democracia. Cabe a todos os cidadãos, partidos e concorrentes, contribuírem para a inversão dessa tendência e fazer com que todos exerçam o seu direito de cidadania com elevação.
3- Da maneira como nos vemos, depende o que vemos nos outros. Do que dermos aos outros, depende o que nos darão a nós. Do que fizermos aos outros, depende o que nos farão a nós.
O nosso comportamento na sociedade tem de ser pautado pelo respeito e elevação, pelo espírito de solidariedade, pelo estrito cumprimento dos nossos deveres para com os outros, pelo aperfeiçoamento permanente dos princípios e valores pelos quais devemos orientar as nossas vidas...
À guisa de conclusão, deixo-lhes um poema transcrito da parede de um dos quartos de crianças judias no campo de extermínio de Auschwitz. " Amanhã eu fico triste... Amanhã! Hoje não. Hoje fico alegre! E todos os dias, por mais amargos que sejam, eu digo : amanhã eu fico triste, hoje não!"
Uma lição para todos nós, que, quantas vezes, não sabemos agarrar, com otimismo e esperança, as nossas vidas...
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