sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

DO VÃO DA MINHA JANELA

Crónicas do meu viver // Luís Machado.

1- Há dias que estou no Porto. De vez em quando apetece-me mudar de ares, espairecer um pouco o espírito, sorver o ar do mar aqui bem perto, contactar outras gentes, sentir outras culturas, visitar amigos, familiares e tomar uns cafés, aqui e ali, ouvindo o sussurrar das gentes conversando ou lendo pacatamente as notícias sempre repetidas do jornal que compro.
Há horas em que escrevo e leio e isso me ocupa algumas horas. Perco-me em reflexões e o meu espírito navega pela vida, observa, sente, procura respostas, indaga tudo o que é indagável frui desejos que sonha, ambiciona, quer...
Às vezes sinto aquela leveza de alma que me leva a outros mundos onde gostaria de estar...Imagino céus e caminhos que gostaria de ter percorrido e que se tornaram inacessíveis no meu caminhar...Esboço paisagens e horizontes, longínquos, lá no fim do mundo, que percorro em pensamento em vidas virtuais cujo futuro é o sonho... Sinto vontade de viver, mas interrogo-me e não encontro respostas, não há futuro, senão esta vida que, dia após dia, me ocupa o tempo e passamos o tempo à espera que o tempo passe... E ele passa devagar, consumindo sonhos e anseios e deixa-nos apenas lembranças e frustrações, também... 
2- Está um tempo horrível! Vou à varanda e espraio o olhar pela paisagem que se estende até ao longe, montes altaneiros e aglomerados de casas que se alinham no horizonte... Há ainda campos e árvores que amenizam o feio dos edifícios grandes que também avisto. Já anoiteceu. Acendem-se as luzes. Há uma certa beleza na paisagem noturna crivada de pirilampos, tremulando ao vento. Por vezes chove copiosamente e as ruas transformam-se em rios, tornando quase impossível a circulação de automóveis e peões. O vento uiva nos telhados e traz os seus lamentos, como quem chora por nós... É a voz do vento! Talvez esta voz seja um lamento pelos atos infernais dos homens. E muito há que chorar!... 
Ainda hoje as televisões noticiaram um ensaio nuclear, uma bomba de hidrogénio, que terá provocado um terramoto de grau 7, na escala de Ritcher ! Uma barbaridade cometida contra a natureza e a humanidade... Outros o fizeram antes, alguns o farão a seguir. Para quê? Em defesa de quê, de que princípios? Aonde nos levará esta escalada de ensaios? Que tragédia nos preparam ? Reflitam e ajam enquanto é tempo! Amanhã pode ser tarde e nem a fantasia de cineastas nos salvará... 
3-Vendo os noticiários da TV, aprecio o cair da neve nas terras altas do norte... Gostei de a ver ao longe, cobrindo as montanhas e os campos as estradas e as árvores que pareciam pintadas. É um encanto ver cair a neve, as crianças brincando à " pelotada ", fazendo bonecos, correndo sobre ela, comendo-a até…
Fertiliza os campos enche os rios, ajuda o turismo, entusiasma os fotógrafos profissionais e amadores, dá trabalho a muita gente, mas tem também o seu lado negativo: fecham as escolas, dificulta o trânsito , há trabalhos que se não fazem e as cidades ficam com a sua operacionalidade reduzida, pese embora a boa vontade das autarquias em minorar as dificuldades. Cantada por poetas pela sua beleza e magia, a neve encanta multidões, mormente aqueles que com ela nunca tiveram contacto e a veem, romanticamente, nos ecrãs da TV. Por mim gosto de a ver do vão da minha janela, quando estou em Bragança e me bate leve , levemente, nas vidraças por onde a olho..." cai neve na natureza e cai no meu coração
Preciso de um cafezinho, bem quente , para fundir esta neve e aquecer a alma , mas chove tanto , aqui no Porto , que mal posso sair de casa. Estou só, escrevendo esta crónica que falou de tristeza e do tempo. Talvez amanhã faça sol, talvez não neve no meu coração, talvez haja esperança em dias melhores, talvez a vida possa ser um pouco mais bela... 
4-Hoje é dia de Reis. Amigos que estão muito longe, quiseram associar-me aos festejos e cantaram para mim " olhei para o céu, estava estrelado...Vi o Deus Menino em palhas deitado...Em palhas deitado. em palhas dormindo..."
Recordei os meus tempos de menino e o cantar feliz das janeiras pelo grupo dos Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo e da figura popular, impar, poeta do povo, Zé Rancheiro, que emprestava a sua voz truante ao amplo coro que a acompanhava. E eu olhava-o com carinho e admiração e cantava com ele " olhei para o céu..." e sorria com os dizeres brejeiros que faziam parte do reportório fecundo.
Comprei um bolo rei, o presépio continua ativo naquele canto da casa , abrigado à sombra do pinheirinho. O Deus Menino dormia nas palhinhas deitado e o meu coração estava cheio de saudades... Lá fora chovia...O vento uivava nos telhados...Há neve lá para as montanhas onde vivo... " Cai neve na natureza e cai no meu coração...". Vamos comer uma alheira pra aquecer a alma... E eu que não bebo, apetece-me um bom Alvarinho par mata as saudades…

Sem comentários:

Enviar um comentário