Quando ao fim da tarde, desciam a escadaria dos serviços onde estagiavam, era como se recuperassem a liberdade e enfrentassem a vida com a alegria esfuziante dos seus verdes anos. Era Dezembro. As noites eram frias e o vento cortante e o homem das castanhas que estacionava o seu carrito em frente ao majestoso prédio donde vinham, não tinha mãos a medir para satisfazer os pedidos que lhe chegavam. O pequeno cartucho feito em papel de jornal, bem cheio de castanhas assadas, custava um escudo. Era um hábito que todos seguiam e que ajudava a atenuar o frio. Comidas as castanhas, as conversas prosseguiam ao longo da avenida que percorriam e só terminavam quando o último entrava em casa, no lar ou na pensão em que se hospedavam.
Teolinda era natural da cidade e era a primeira a despedir-se, seguindo para a casa onde vivia com os pais e um irmão mais velho. Havia dois rapazes no grupo e mais três raparigas: Leopoldo e Carlos, Maria da Luz, Maria Amália e Odete. Era um grupo unido que, com Teolinda percorria a cidade, agitando ideias, humorando a horas, sentindo a vida com a alegria própria dos verdes anos. Teolinda era linda, não só de nome. Era esbelta, nobre de sentimentos, um coração puro, serena como as águas de um lago. Os seus olhos eram ternos e irradiavam candura. Era a bem amada do grupo. Todos a respeitavam e lhe dedicavam uma amizade profunda e queriam o melhor para ela. Nas suas andanças pela cidade, o grupo apercebia-se do bom e do mal que ela continha. Autênticos palácios, rivalizando com barracas de madeira onde vivia gente, restaurantes e cafés de luxo contrastando com a miséria de quem estendia a mão, pedindo uma c`roínha para comprar um pão. E o homem das castanhas, indiferente, ia vendendo prazer a quem tinha um escudo para comprar um cartucho. E muitos cartuchos vendia, como quem vende ilusões. Tão doces e quentinhas que comer as suas castanhas era penetrar num mundo de sonho, era fugir dum antro de papelada e descobrir a vida. Apenas um escudo separava os que tinham fome e pediam uma c`roínha para comprar um pão, dos que, por prazer, saboreavam as castanhas que lhes adoçavam a vida. Sempre o grupo comprava castanhas ao fim da tarde e sempre os olhos de Teolinda brilhavam no negrume da noite e incendiavam o coração de Leopoldo. Este era um artista que admirava o belo. O seu hobby era a pintura. Gostava de pintar o busto de mulheres e sonhava encontrar, um dia, alguém que lhe proporcionasse pintar o sorriso de Gioconda. Quando conheceu Teolinda, olhou os seus olhos e o seu sorriso deixou-o paralisado, era a sua Gioconda.
Dia após dia, mais admirava o seu sorriso e já não era apenas um modelo que procurava, mas um farol para a sua vida. E aqueles olhos eram tão expressivos e belos que o perturbavam sempre que a olhava. E um dia, falou a Teolinda no amor que nele despontava e pediu-lhe que o amasse também. Teolinda olhou-o ternamente, com carinho, e disse-lhe que já tinha um outro amor pelo que não podia corresponder ao seu. Mas pediu-lhe que conservasse a amizade antiga e visse nela a amiga que muito o estimava. Leopoldo deixou que uma lágrima rolasse dos seus olhos e estendeu-lhe a mão, meigamente, e nesse gesto ia toda a doçura do sentimento que por ela nutria. A tristeza invadiu o coração de Leopoldo que deixou de sorrir. Todos notaram esta mudança e a compreenderam. E à tarde, quando chegava a hora das castanhas, era o momento de apaziguar paixões, misturando risos com a doçura das mesmas. Maria Amália era a mais expansiva e o seu coração magoado não a impedia de sorrir com gosto nestes momentos de boa disposição. Teolinda refugiava-se no silêncio e pouco se sabia da sua vida amorosa. Era uma excelente colega, inteligente, hábil, participativa, integrante no grupo em todos os momentos. O momento das castanhas, quentes e doces, ao anoitecer, quando o frio começava a apertar, era o momento chave daquela amizade que os unia. O gargalhar feliz ecoava na noite e merecia dos transeuntes um sorriso aprovador e camarada. Carlos sorria e Maria da Luz e Odete participavam na alegria do grupo com as suas conversas bem-dispostas. Leopoldo exibia o seu sorriso triste e contemplava o nada, sem o sorriso de Gioconda que sonhara. Não conseguia esquecer Teolinda e, discretamente, olhava-a, sofria e perguntava-se a si próprio porque chegava sempre tarde! O destino podia ter antecipado o seu encontro e mudado o rumo da sua vida. Mas só a conhecera quando iniciara o estágio, quando Teolinda já tinha descoberto o amor. Sentia-se perdido, sem vontade de procurar novos caminhos. Refugiava-se na sua arte e pintava mulheres de sorriso enigmático, curvilíneas e belas, mas nenhuma delas conseguia reproduzir o sorriso de Teolinda, a sua Gioconda. O mistério daquele olhar profundo, vivia no fundo da sua alma, na ternura do seu coração e esse pertencia a um outro há muito tempo. Leopoldo pintava e sofria e sentia que os seus retratos eram belos mas sem vida.
Teolinda conhecera em tempos, um homem mais velho que a seduzira com as suas palavras e a sua experiência. Dizia-lhe coisas belas que ela gostava de ouvir e prometia-lhe o céu se o amasse. De inicio Teolinda apenas ficou perturbada e tinha muitas dúvidas. Nunca experimentara namorar com alguém, nunca alguém tocara o seu coração e a sua ingenuidade roçava o sentir de uma criança que, no fundo, era. Mas, como água mole em pedra dura, João conseguiu penetrar no coração de Teolinda e encetaram uma relação amorosa. Era muito nova e irradiava beleza e simpatia. Quando começou o estágio, juntamente com os restantes colegas, tinha dezoito anos. Namorava há dois e, a pouco e pouco, fora-se afeiçoando a João que se mostrava muito apaixonado. A sua experiência de vida, já tinha trinta anos, fora crucial para o desenvolvimento da relação entre ambos. Teolinda não estava apaixonada por João mas nutria por ele um sentimento próximo do amor. Apreciava a ternura de João, era cúmplice nos carinhos que trocavam, sentia prazer quando ele a beijava docemente. Mas não conseguia apaixonar-se por ele. A diferença de idade era um óbice que não conseguia transpor.
Leopoldo nada sabia da vida de Teolinda, a não ser que entregara o coração a outro homem. Não imiscuir-se na sua vida, por uma questão de decência. Sentia que a amava e que lhe era difícil esquece-la mas não tencionava perturbá-la. Mas sempre que com ela falava, no âmbito da camaradagem que reinava no grupo, percebia que Teolinda o olhava com alguma ternura e via como os seus olhos eram lindos e brilhantes.
Quase no fim do estágio, Teolinda casou-se com João e todas as ténues esperanças de Leopoldo ruíram e este afastou-se, com o coração dolorido e triste.
Passaram muitos anos. Nunca mais Teolinda e Leopoldo se encontraram os falaram. Leopoldo tornou-se um celebrado pintor e Teolinda reformou-se da sua profissão e passou a ajudar João no seu restaurante. Continuava linda, com o seu enigmático sorriso e a leveza dos seus gestos. Leopoldo continuou sempre a pintar bustos de mulheres, mas eram sempre tristes os seus incaracterísticos olhares. Jamais encontrara a sua Gioconda e considerava incompleta a sua obra. Lembrava-se de Teolinda, nunca a esquecera, sempre a guardara no seu coração.
Até que um dia, Leopoldo entrou num restaurante plantado na margem da estrada em que seguia. Dirigia-se a Moncorvo para apreciar as amendoeiras em flor. Ao entrar, os seus olhos depararam com Teolinda ainda linda e com o mesmo olhar de sempre. O seu coração bateu mais forte e não pôde, num impulso, deixar de a abraçar. Algumas lágrimas bailavam nos seus olhos, ali estava a sua Gioconda, a mulher que nunca deixara de amar. E foi paixão o que sentiu. Teolinda contou-lhe que o marido morrera havia um ano e os seus olhos diziam tudo o que guardara durante muitos anos, um segredo bem fechado no seu coração, o amor apaixonado por Leopoldo, desde os verdes anos do seu estágio distante.
Havia castanhas no belo assado que lhe foi servido. Lembrou-se do homem das castanhas e teve saudades… Como o tempo passara… Mas havia ainda o futuro para viver…
8/12/2106
Luís Machado
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