Rómulo! O seu nome fazia-me lembrar impérios que avassalaram o mundo de então. Tinha um ar dominador que ficaria bem a qualquer imperador romano, mas, ao mesmo tempo, era camarada e amigo, dotado de uma energia invulgar que o levava a procurar futuros que ultrapassavam em muito a modorra da vila em que vivia. Sonhava grande e o presente era, para ele, apenas um lugar de passagem, uma situação transitória, um tempo de espera, por um comboio rápido que o levasse a outras paragens. Vestia impecavelmente, o seu fato cinzento que lhe assentava como uma luva, produto de uns dos excelentes alfaiates que havia na vila. Os seus sapatos brilhavam como verniz e completavam a apresentação cuidada que sempre mostrava. Trabalhava incansavelmente e ainda lhe sobrava tempo para se dedicar à pesca subaquática no rio caudaloso que banhava a vila. Pobre barbo que caísse na mira do seu arpão. Fazia gala da sua pontaria e as pescas eram sempre fartas e variadas.
Rómulo tinha o dom de fazer amigos com facilidade, mas o seu sonho era apanhar o comboio rápido que o levasse ao futuro com que sonhava. Um dia, apaixonou-se e o objeto da sua paixão só podia ser alguém com o porte de uma princesa, no garbo e nas qualidades. Foi isso que viu na mulher que provocou essa paixão. Rómulo era filho dum modesto funcionário que só lhe pudera proporcionar um curso secundário, já que não tinha condições económicas para o levar mais longe, embora ele tivesse qualidades e ambição de muito mais. A mulher dos seus sonhos pertencia a um outro mundo. Frequentara a universidade, os pais eram ricos e pertenciam a um meio social diferente. Rómulo amava Teresa e tinha consciência do muito que os separava. Seria difícil Teresa descer ao nível social de Rómulo, mas também o amava e não queria perdê-lo. Como trazê-lo para um nível social semelhante ao seu? Rómulo tinha a resposta e fazendo uso da energia e vontade que o caracterizava, resolveu concorrer a um banco na cidade da sua amada e inscrever-se na universidade na mesma cidade. Trabalharia e estudaria e haveria de conseguir. Nunca aceitaria viver na dependência económica da família de Teresa, nem sentir-se subalterno em relação à mesma. Queria subir a pulso na vida, atingir o patamar cimeiro, com o seu esforço e as suas qualidades de homem, com a sua inteligência e o seu querer. Os amigos e os colegas de trabalho incitavam-no e ajudavam-no na caminhada sublime que empreendera.
Rómulo subia a escadaria da vida com vigor, percorria etapas com sucesso, mostrava as suas qualidades de líder e depressa se viu alcandorado aos lugares cimeiros da sua profissão. Enquanto isso, Teresa não lhe regateava o seu amor e isso era o melhor incentivo para o seu esforço hercúleo. Enquanto ele se desdobrava em trabalho e estudo, ela multiplicava-se em gestos de ternura e esperava-o com carinho quando, ao fim do dia, ele tinha um pouco de tempo para lhe dedicar. Os olhos dela tinham o brilho das estrelas quando ele subia a escadaria da sua casa senhorial e assomava à porta. O esforço de um dia cansativo era amplamente compensado pela ternura de Teresa que o mimava com gestos de carinho. Incitava-o a continuar e confessava-lhe o seu amor que ele retribuía com paixão. Eram momentos belos. Havia primaveras nos seus olhos, futuros em céus que adivinhavam.
Até que um dia, Rómulo pôde exibir o seu canudo e o competente Rómulo passou a ser o magnífico Dr. Rómulo. Houve festa rija na tertúlia dos amigos. Não faltaram votos e augúrios de uma ascensão meteórica a nível profissional e devaneios a nível do amor. Rómulo estava muito feliz. Falara com Teresa e partilhara com ela a sua felicidade. A escadaria da casa senhorial de Teresa, parecia-lhe agora menos íngreme e sentiu-se mais próximo dos valores que a família dela cultivava. Era agora um deles e, por certo, outras portas se lhe abririam e tornariam mais radioso o seu futuro. Poderia começar a pensar em casamento. Era tudo o que ambos ansiavam. Já namoravam havia vários anos e esperavam, com ansiedade por este dia feliz. As portas da casa senhorial abriram-se com júbilo e Rómulo preparava-se para as franquear pela mão de Teresa que, apaixonadamente, o esperava.
Lá longe, na sua vila raiana, os pais de Rómulo seguiam com orgulho a escalada na vida do seu filho querido. Desde que fora para a cidade, na procura de um sonho, nunca deixara de os visitar, assiduamente, degustando com carinho os petiscos da mãe, enlevando-se com o carinho que os seus olhos lhe manifestavam, bebendo ternamente os conselhos avisados do pai, fruindo a amizade profunda dos irmãos. Ao amor profundo de Teresa, juntava-se o amor terno da família e Rómulo sentia-se realizado e feliz. Os pais eram pessoas simples, habituados a lutar na vida para que nada faltasse aos seus filhos. Mas este nada, era muito pouco para o muito que Rómulo sonhava desde que conhecera Teresa. Sonhava com um nível de vida elevado, um meio social diferente, uma vida requintada nada semelhante à que levava na casa de seus pais. Teresa vivia na alta sociedade, como uma princesa, numa casa senhorial onde o luxo se misturava com a grandeza dos aposentos. Era ali que queria viver com Rómulo, era ali que queria construir com ele a sua felicidade. Ele deixava-se embalar pelas palavras e pela ternura de Teresa e ficava extasiado ante a vida de fausto que o esperava.
Até que chegou o dia marcado para o casamento. Tudo estava organizado para uma cerimónia com pompa e circunstância. Teresa levava um longo e vaporoso vestido branco, belo como a candura da sua alma. Rómulo vestia um fato preto, costurado pelo seu alfaiate de sempre. Os pais não puderam ir, porque o pai adoecera gravemente havia uns meses e não podia deslocar-se. Representou-os um irmão mais novo. Os seus olhos deixaram aflorar algumas lágrimas quando o abraçou efusivamente. Aquelas lágrimas eram os beijos que desejava dar aos pais naquele dia feliz.
E o tempo correu! Rómulo era muito feliz com Teresa, mas cedo reconheceu que não era a vida de fausto que contribuiria para essa felicidade. Perante os pratos requintados que lhe apresentavam, lembrou-se muitas vezes dos petiscos simples da mãe, na maravilhosa sopa que fazia, das sobremesas gostosas que preparava nos fins de semana. E aquelas batatas à espanhola que fazia, eram bem mais saborosas que os pratos gourmet que degustava. E o vinho simples da adega da sua terra, parecia-lhe agora mais saboroso que os afamados vinhos franceses que serviam. Até o sol da sua terra tinha outro brilho e as águas do seu rio Minho lembravam e guardavam os mais belos barbos que pescara na sua juventude. Lembrou os amigos e a família e sentiu quão mais sinceros e quentes eram as suas manifestações de amizade e amor, quão mais solidárias eram as pessoas com quem convivia. E teve saudades desses tempos em que também era simples e a sobremesa mais saborosa era o leite-creme da mãe.
Como a vida nos ensina! Quando subimos o vale até ao cimo da montanha, notamos que lá em cima está mais frio e só de lá vislumbramos a beleza das veigas e dos rios serpenteando no vale.
Bragança 18/11/2016
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