petiscando na relva os seus sabores...
Saltitava feliz, entre as flores
onde havia cravos, rosas e jasmim...
Era lindo o melro, seu bico amarelo
lembrava searas, ondulando ao vento,
e valsas que eu dançara num outro momento,
num amor precoce , mas , ainda assim , belo!
E havia no meu pensamento
um outro melro negro, madrugador , jovial,
cumprimentando o cura ao descer ao quintal,
lembrando-me tempos em que eu tinha alento !
Depois , noutras primaveras,
lembro-me de estrelas caídas dos céus,
enchendo de luz estes olhos meus,
tempo de sonhos, ilusões, quimeras...
A luz das estrelas se apagou um dia,
e vieram invernos, rigorosos, frios
e o meu coração que procurava estios,
encontrou solidão, ficou só , sofria...
Mas o tempo que ameniza a dor,
aqueceu a minh'alma com um sol radioso
que surgiu nos céus, brilhante, esplendoroso,
doce, sereno, cheio de luz e cor...
Chegou a primavera, com melros no jardim,
e os caminhos que eu trilhava
me mostraram oceanos que , de longe , mirava
e paisagens diferentes na lonjura sem fim...
Cantava o meu melro de bico amarelo,
na copa das árvores lá do meu jardim,
havia flores, rosas , amores, cheirava a jasmim,
a vida era verde, o tempo era rosa , o mundo era belo...
Havia gaivotas, voando nos mares,
levando meus sonhos para os horizontes
que eu sonhava aqui, no alto dos montes,
traziam esperanças, voando aos pares...
E o meu melro canta uma canção de amor,
trinados tão belos que fazem sonhar,
saudades que evoca que fazem chorar,
saudades que sinto que me trazem dor...
E ao vê-lo cantar assim , docemente,
ouvindo seus trinos que fazem vibrar,
o meu coração carente de amar,
grava na minh'alma a canção dolente...
Vai-se pondo o sol no meu horizonte,
meus passos são leves, já não tenho chão ,
mas há ainda esperança no meu coração
que o mar se levante e chegue ao meu monte...
Luis Machado

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