Crónicas do meu viver // Por Luís Machado
Estava eu a pensar na escolha de um tema para escrever a minha crónica semanal, quando, folheando um caderno, deparei com o seguinte pensamento que escrevera numa das suas paginas : " Na dúvida entre dois amores, é sábio descartar os dois, pois se fosse amor não haveria dúvidas...". Não sei quem é o autor do pensamento, mas parece-me interessante refletir um pouco sobre ele, já que o tema do amor é um assunto inesgotável que a todos interessa e fascina. É óbvio que o pensamento se refere ao amor entre duas pessoas, porque em se tratando de outros amores, não faria sentido tal conclusão. Podemos amar, simultaneamente, a pintura, a literatura, o ballet, o teatro, o cinema, o desporto, e não há qualquer incompatibilidade entre esses amores diversos. Mas tratando-se de amor entre duas pessoas, o problema é mais complexo e daí a conclusão do pensamento referido.
E será mesmo assim? Em todas as circunstâncias? Será que um homem não pode amar duas mulheres, em simultâneo, ou uma mulher amar dois homens? Não haverá, pelo menos, um momento em que o coração se reparte entre um amor que se vive e outro que se adivinha? Não haverá um momento em que o sentimento e a razão se confundem e, perplexos será difícil a escolha? E não é legitima a dúvida que se instala, a um coração que tem de decidir qual o caminho a seguir? Será que a solução é descartar os dois?
E aqui se põe o problema do amor verdadeiro. O amor verdadeiro tem de estar preparado para resistir a tudo. Ele acontece quando dois seres humanos se amam e sabem resistir, em todas as circunstâncias, aos problemas que possam surgir, nada os abala, ultrapassam as dificuldades, unem-se nos momentos difíceis e cantam hossanas nos momentos de alegria. Será que existe o amor verdadeiro? A promiscuidade que existe na sociedade actual, com traições, desprezos, humilhações, mentiras, faz com que muitas pessoas não acreditem no amor verdadeiro que é confundido com paixão. Esta preocupa-se com as pequenas coisas, o prazer momentâneo, impetuoso, fútil, ao contrário do amor que vive de sentimentos profundos que perduram no tempo, mas que não é, necessariamente, eterno. Quando uma das partes quebra o compromisso assumido, trai, quebra-se a confiança e o amor soçobra, tantas vezes, com uma tristeza que avassala a alma. O amor verdadeiro implica, antes do mais, que cada uma das pessoas que ama, se ame a si própria, saiba ser integra consigo própria, cuide a beleza interior e exterior como um todo. Quem não se ama a si próprio, não pode amar os outros, quem não respeita os seus próprios valores, não pode respeitar o seu parceiro e os valores que assume. Daí que o amor verdadeiro implica trabalho, determinação, sacrifício, abnegação, um cuidado permanente com o outro, um saber assumir prioridades e cuidados. Não se limita às palavras românticas trocadas nos momentos de êxtase, nem aos momentos eróticos que sempre acontecem. Vai muito para além disso. Cada ser humano constrói o tipo de amor verdadeiro que o faz feliz e não há um tipo de amor padronizado, que a todos satisfaça. Cada um constrói o seu próprio amor, conforme a sua personalidade e o seu grau de exigência e vontade. Amor verdadeiro será, numa linguagem poética, " aquele que o vento não leva e a distância não separa". Mas há tantos que o vento leva e não resistem à separação que a distância impõe.." Longe da vista, longe do coração", assim diz o adágio popular. Só um amor verdadeiro, real, forte, determinado, alicerçado em valores e sentimentos muito profundos, resistirá aos ventos que o assolam e à distância que o enfraquece.
Num mundo em mutação acelerada, em que os valores se esvaem e campeia o egoísmo, em que se privilegia o supérfluo e o acessório e se esquece o essencial, em que as palavras adquirem um significado diferente conforme as circunstancias, em que a palavra amor se banaliza e se emprega sem o significado profundo que deveria ter, falar de amor verdadeiro é falar de algo complexo que talvez não exista, que talvez seja uma utopia, que talvez seja a ligo a que aspiramos, mas que a vida actual, promiscua, egoísta, dificilmente permite. E como os seres superiores, aqueles que mudaram o mundo e nos impuseram as suas ideias, aqueles que se vão da lei da morte libertando, também têm coração e amam, aqui lhes deixo um pensamento sublime de Albert Einstein: " Se um dia tiver de escolher entre o mundo e o amor, lembre-se: se escolher o mundo ficará caem amor, mas se escolher o amor, você com ele, conquistará o mundo ".
Lembrem-se mesmo, às vezes, pequenas decisões mal tomadas, levam às grandes rupturas...
Bragança,12-06-2016
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