domingo, 17 de julho de 2016

SE O FUTURO FOSSE HOJE

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

1 – Quando as águas de um rio passam sob a ponte, jamais voltarão ao ponto de partida. Seguem seu caminho, à procura do mar, sem nunca parar, levando mundos de ilusões, sonhos desfeitos, vidas por viver, tristezas, ambições, amores que foram, paixões sonhadas e não concretizadas… E os nossos olhos, vêem-nas correr e correm também atrás delas, abraçam-se na amplidão do mar, diluem-se no infinito e desaparecem tragadas pelo nada onde se quedam…
Regressado a Bragança após umas curtas férias em Oeiras vejo-me a braços com uma arreliadora constipação que me prostra e me inibe, consequência dos medicamentos que tenho de tomar. Lembro-me do mar e do rio que nele desagua, dos horizontes longínquos que albergaram meus sonhos, do retorno do meu barco de papel ao porto donde partira, do brilho das estrelas que deram luz à minha vida. E a ponte que eu olhava além, via passar as águas que jamais regressariam e seguiam a caminho do mar, esse mar onde moram as ilusões que o tempo desfez e se ouvem no pio triste das gaivotas. Cessou o canto sedutor das sereias, ouço apenas o marulhar das águas e o bater inclemente das ondas. São longas as praias onde passeio meus passos já cansados. Busco um outro alento que dê força à minha alma, busco-o com afinco, com a vontade de que meu barco encontre outras estrelas que do céu me caiam, que me leve a outras montanhas onde descanse e mitigue a minha sede de infinito. Quero encontrar a vida que me foge, construir um outro amanhã, pacificar um coração que se habituou a sofrer na imensa solidão que o tomou, encontrar uns olhos que saibam ler na minha alma a melancolia que nela se instalou e que eu quero banir para todo o sempre. Preciso de olhar o céu e ver o brilho intenso das estrelas, fulgurante, sereno, suave…
Perco-me em recordações e esqueço-me do hoje. Quando nestas noites cálidas de verão, me sento no sofá e procuro concentrar-me no presente, o meu pensamento perde-se e vagueia pelo tempo à procura de certezas que eliminem meus medos e me apontem caminhos que quero trilhar.
É difícil ser feliz! Construímos a vida pressupondo que baste querermos para alcançarmos aquilo por que lutamos e esquecemo-nos que nem todas as forças convergem para esse objetivo e se umas nos atraem para o centro dos nossos sonhos, outras nos afastam e nos lançam na maior das desilusões. E, por mais que lutemos, por mais que procuremos, por mais que nos esforcemos para encontrar a felicidade que almejamos, há sempre escolhos no caminho, há sempre dúvidas, incertezas, incompreensões, desamores que nos angustiam e nos ferem. E quando as pequenas feridas que vamos acumulando no decorrer da vida, se juntam e nos magoam, às vezes, quase sempre, os sonhos desabam com fragor e é grande a desilusão nas nossas vidas.
Tudo tem o seu tempo… E até a amargura se recicla… No meio do deserto, surge, por vezes, um oásis onde saciar a sede e descansar os nossos corações. Abrimo-nos à vida, mergulhamos nesse lago de esperança que o oásis nos oferece e procuramos acreditar que ainda é possível sobreviver à tristeza. Erguemo-nos e caminhamos na senda de novos sonhos, esperando que não sejam novas ilusões. A vida continua, o tempo passa, sob a ponte as águas do rio correm para o mar, imparáveis, apressadas, à procura do sal que tempere a sua ânsia de chegar além, ao horizonte, onde, novamente, os barquinhos de papel procuram as estrelas. E outra vez sonhamos… Se o futuro fosse hoje…

2 – Morreu Camilo de Oliveira, um Senhor na arte cénica portuguesa das últimas décadas, um colosso do humor, uma personagem inesquecível para quem acompanhou a sua carreira de tantos anos. Os Grandes também morrem, mas ficam sempre entre nós pela sua obra que servirá de exemplo aos que vêm a seguir. Estaremos sempre com Camilo porque ele soube conquistar os nossos corações e jamais sairá da nossa lembrança. Camilo será mais um dos que “ por obras valerosas se vão da lei da morte libertando “.

Bragança, 4/7/2016

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