Há dias que ficam gravados para sempre nos nossos corações. Ontem, dia 10 de Julho, será um desses dias, por um punhado de circunstâncias que se não repetirão e que trouxeram felicidade ao nosso coração. Desde logo, porque fui assistir ao baptizado de uma sobrinha-neta que trouxe muita felicidade aos pais, avós, irmãs, tios e demais familiares. Não foi um vulgar baptizado, sempre belo! Foi um acontecimento muito especial que encheu de júbilo o coração dos pais! Todas as mães merecem os filhos que Deus lhes dá, mas há algumas que merecem mais, porque são pessoas muito especiais que merecem ser felizes e realizar os seus sonhos! Às vezes, demora o seu tempo, é preciso lutar, procurar o caminho, perseverar, mas sempre se alcança o horizonte que almejamos e o sol brilha nos nossos corações.
Foi linda a festa que reuniu familiares e amigos, num convívio alegre e sereno, num lugar paradisíaco. O ar fresco do mar amenizava a canícula que se fazia sentir e as bebidas frescas atenuavam o mal estar que o calor provocava. Havia risos e abraços de quem há muito se não via, gentis corpos de jovens exibindo os seus vaporosos vestidos, velhos procurando as sombras e recordando tempos em que também eram assim, adultos ainda jovens mostrando a sua virilidade através dos copos que iam emborcando.
Acabada a cerimónia religiosa e iniciado o alegre convívio, esperava-se, com ansiedade, uma outra hora, a hora a que a Selecção Portuguesa de Futebol entrasse em campo, na capital francesa, para discutir com a equipa de França o jogo que iria atribuir o título de campeão da Europa. Ao fundo do salão estava montado o ecrã e, desde logo, os mais entusiastas tomavam posição para assistir à contenda. Havia um entusiasmo transbordante, de novos e velhos, homens e mulheres, muitos dos quais nunca se tinham interessado por futebol! Mas hoje, era diferente, estava em causa o titulo de campeão da Europa, o prestigio de um país que tinha sido vilipendiado ao longo da competição e tratado, com desdém, por uma imprensa xenófoba e retrógrada que nos considerava um povo menor que nem direito teria a participar numa competição desta envergadura, destinada aos eleitos, aos povos de elite, aos que aspiravam a ser os senhores do mundo.
Os jovens eram os mais entusiastas e barulhentos e o seu entusiasmo contagiava os mais velhos que participavam na festa. As senhoras emitiam opinião sobre a elegância e beleza dos nossos jogadores, enquanto os homens se debruçavam mais sobre aspectos técnicos e táticos, congeminando estratégias para ultrapassar a arrogância dos gálios que haviam de se ver gregos perante os humildes galos. Começada a contenda, logo os gálios encristaram a crista e tentaram atarantar os humildes galos, a bem ou a mal, com a conivência do juiz da partida que devia sofrer de miopia congénita ou de daltonismo, pois só via as faltas das cores mais claras e ficava, impávido e sereno, ante as entradas brutais dos gálios. E assim, passados poucos minutos do início da partida, Cristiano Ronaldo, em quem se depositavam as maiores esperanças, foi mandado para o balneário, atingido pela "meiguice" consentida pelo árbitro que continuava, impávido e sereno, à boa maneira britânica, esquecendo a velha aliança, porque, possivelmente, outros valores mais altos se alevantavam... Rejubilou o público afecto aos franceses, porque, pensaram, sem Cristiano Ronaldo, os pobres galos, atarantados sem o capitão que os galvanizava, seriam presa fácil para a sua soberba selecção que já havia, sabe Deus como, eliminado a arrogância germânica. Mas, como dizia Camões," Cale-se de Alexandre e de Trajano, a fama das vitórias que obtiveram, que outros valores mais altos se alevantam..." e foram esses valores mais altos, essa força interior que foram buscar ao mais intimo do seu âmago, a revolta contra a ignomínia que se tornava visível a cada instante, foram esses valores, repito, que tornaram gigantes vos pequenos galos evos catapultaram para uma vitória indiscutível e insofismável.
Foi triste a falta de fair-play manifestado por grande parte dos franceses perante a derrota das suas cores. Mas dos fracos não reza a história e temos de ser magnânimos, como aquela criança que aparece num vídeo no facebook, a consolar um adepto francês que, compreensivelmente, chorava a derrota da sua equipa. Um grande exemplo, dado por uma criança, descendente de portugueses, e que apoiava a equipa da pátria de seus pais.
E para que o mundo olhe para Portugal com outros olhos, também noutras modalidades desportivas mostramos o valor dos nossos atletas e na ciência, os nossos jovens foram brilhantemente premiados como os melhores.
Quando uma campanha orquestrada por quem não conhece a nossa cultura e o nosso povo, nos cataloga como um povo de mandriões que gosta de viver à custa dos outros, fruindo graciosamente aquilo que a natureza nos deu, o sol, o mar, a beleza impar desta terra bendita, esquecendo o muito que já demos ao mundo, é urgente que nos ergamos, que mostremos quem somos, o que podemos fazer, o que queremos, o caminho que queremos trilhar, os objectivos que queremos alcançar. Temos de mostrar a esta Europa sem alma, dominada pelo poder financeiro, pela ganância, pelo desprezo pelos que sofrem, pela ambição desmedida, que não somos os PIGS que querem submeter e escravizar, que sabemos ser grandes quando nos espicaçam o orgulho, que não vergamos a cerviz aos poderosos e que, em Portugal, mesmo depois de mortos, são precisos quatro para tirar um homem de casa. Que este exemplo do campeonato europeu de futebol, nos leve a refletir e a entender a dimensão do nosso valor e a perceber que quando queremos, podemos. Não podemos é tolerar Migueis de Vasconcelos, nem Judas que nos vendam por trinta dinheiros. E, infelizmente, há quem nos venda por menos.
Porto, 13-07-2016
Sem comentários:
Enviar um comentário