sábado, 2 de julho de 2016

REFLEXÕES DE UMA TARDE DE VERÃO

Crónicas do meu viver  // Por Luís Machado

Hoje é o primeiro dia de verão. O dia acordou sereno e o azul dos céus confunde-se com o azul das águas do mar que meus olhos miram, sentado na esplanada fresca onde me encontro. Ali se juntam as águas do rio que corre suavemente, com as águas do mar imenso que as recebe com amor e as junta a todas as outras águas que, apaixonadamente, caíram nos seus braços. Além vejo a ponte que se confunde com um desenho simples de criança, traços geométricos que parecem baloiçar ante meus olhos cansados e me fazem lembrar a passagem do sonho à realidade, anseios que se transportam, dia após dia, na procura de algo próximo da felicidade. Para muitos, a ponte é cada vez maior e do outro lado há apenas desilusões e tristezas. Os sonhos vão-se ficando no trajecto longo, trucidados pela realidade que lhes mostra sofrimento e dor e torna a felicidade uma miragem que vive no deserto sem fim das suas vidas. Volto à minha esplanada e contemplo as águas deste mar imenso. Liberto os meus sonhos lendo algumas páginas de Mia Couto. Miro-me nas águas serenas deste quase lago e vejo, nesse espelho, a minha alma intranquila, buscando, no horizonte, outros caminhos que me levem ao Éden que procuro. Há névoas que o ocultam, já vai alto o sol e apenas alguns barquinhos desenham piruetas nas águas, rumo ao seu destino. À minha volta há gente que passa, que fala alto e diz coisas que eu não ouço, porque eu estou só, pensando em todos, mas não sentindo ninguém. Às vezes, o meu pensamento voa para bem longe, para outros mundos onde a paisagem e os costumes são diferentes.

E eu que tenho no meu coração hábitos bem arreigados, para me fazer compreender, tenho, por vezes, de dizer o que não penso e de pensar o que não digo, buscando o equilíbrio. E há sonhos que me empolgam, desejos que persigo, anseios que espero, um dia, se tornem realidade E as águas vão correndo por baixo daquela ponte, olhando, com ansiedade, o mar, ao longe, aguardando o momento daquele abraço eterno, em que as vontades se fundem e a sua doçura acre absorva o gosto profundo do sal. Gostaria de viver esse momento, sentir o pulsar de um coração que desse vida ao meu, que adoçasse o sabor amargo das minhas lágrimas que não consigo evitar quando os meus olhos pensam. Talvez o meu futuro esteja no mar, esse mar em que as ondas rebentam em espuma rendilhada, na penedia da minha alma.

O sol vai subindo e está quase no seu apogeu. Aqui, no lugar em que me encontro, sopra uma brisa fresca, vinda do mar. Observo o semblante de quem passa ou de quem, ausente, me faz companhia. Há corpos esbeltos, cirandando, mostrando seus encantos, curvas bem delineadas, ondulando ao ritmo da brisa. As pupilas dos meus olhos alargam-se para melhor os ver e sinto-me Rembrant, pintando o belo. O azul forte das águas, parece alargar-se até ao infinito. Sinto a maresia e a maré baixa deixa a descoberto a penedia, onde miúdos e graúdos se entretém a apanhar mariscos. Um barco a motor, aqui bem perto, sulca as águas, deixando um rastro branco que se vai sumindo lentamente. Olho e vejo o longe. Imagino mais do que vejo e sei que há vida na outra margem, escondida atrás do arvoredo que vislumbro. Talvez alguém esteja feliz, enquanto outros sofrem. A vida é feita de alegria e sofrimento. O meu coração está calmo, sinto o pulsar da vida e sigo o meu caminho que não sei onde vai terminar. A vida também é procura e felizes dos que encontram. De sonho em sonho, como quem sobe uma escadaria, vamos trepando até encontramos o Éden...

Por vezes, há escolhos no caminho e não conseguimos subir mais do que alguns degraus. Será que há inferno? Ontem fomos dar um passei até ao Cabo da Roca e no regresso, paramos na Boca do Inferno. Um exemplo típico do belo horrível, embalado por uma lenda que fala de amores contrariados. Alguém disse, em voz alta, que o inferno tinha uma boca bem grande, ao que eu retorqui que não era suficientemente grande para abocanhar toda a maldade humana. Mas ao olharmos aquela boca horrenda, vem-nos à lembrança a lenda do amor que ali teve origem e isso nos sossega , porque ainda há amor no mundo e os romances acontecem e vivem-se, tantas vezes, em silêncio e no âmago dos nossos corações. E não se dizem porque impossíveis à partida, transforma-mo-los em sonhos e guarda-mo-los no baú das recordações, na prateleira das coisas belas que nos sucederam na vida. E voltamos à realidade, onde também há sonhos à espera da luz diáfana que os traga à ribalta. Porque também há honra nos sonhos, nos nossos e nos que induzimos no coração dos outros...Sempre a luz brilhará quando juntarmos os sonhos e procurarmos o Éden... Lá vai o barquinho à vela, sulcando as águas desse mar profundo, ouvindo o piar das gaivotas e levando os meus sonhos. Levantou a névoa, o horizonte está mais límpido, não há nuvens no céu azul que se confunde com o azul do mar...

São horas de ir almoçar. Levanto os olhos do caderno onde escrevo e observo o caminhar das gentes... Há tanta gente linda por aqui, com muitos anos de beleza interior...Procuro penetrar os seus corações e perceber... Há tantos olhos que olham para mim sem me ver, como a mim custa entender o que se refugia por trás do silêncio em que se escondem... 

Oeiras, 23-06-2016

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