Crónicas do meu viver // Por Luís Machado
"Esta palavra saudade, aquele que a inventou, a primeira vez que a disse, com certeza que chorou.". A minha mãe chamava-se Soledade, sinónimo de saudade, do latim solitate/ solidã. Quando se perde alguém que muito amávamos, mãe, esposa, filhos, netos, amigos, invade-nos uma grande tristeza, o nosso coração fica repleto de saudades e, em muitos casos, sentimo-nos sós, numa solidão que só o tempo conseguirá amenizar. Por vezes, pensamos que a vida fica sem sentido, que nada será igual nos nossos dias, que não mais teremos interesse em traçar objectivos que nos mobilizem, que todos os nossos sonhos se esfumam. É um período de luto que será mais ou menos prolongado, sendo, em alguns casos, eterno e levando à mais profunda solidão. Mas a vida tem de continuar, temos de reagir, sob pena de sermos mortos/vivos, vegetando, desistindo de tudo... Como dizia alguém "o luto tem apenas a duração necessária para você entender que precisa continuar de pé. " E reagimos, traçamos novos objectivos, construímos novos sonhos, fabricamos algumas ilusões que vamos alimentando com vontade e fé... Mas fica a saudade. E o que é a saudade? " A saudade é um sentimento causado pela distância ou ausência de alguém que amamos." e que é, ela própria, uma forma de solidão. Pode ter origem na ausência de alguém que já partiu ou de alguém que vive longe de nós, separados pela distância ou pelo desencontro, que não só a lonjura se mede em quilómetros, senão, também, pela ausência de afetos. E vem-me à lembrança um pequeno texto que me faz pensar e refletir sobre a verdade que encerra " Não encontramos ninguém por acaso.
Atravessamos o caminho uns dos outros por um motivo." E esse motivo é, às vezes, tão incompreensível que, pensamos, só Deus nos poderá ter levado a esse caminho. " Deus transforma choro em sorriso, dor em força, fraqueza em fé, sonho em realidade." A realidade que sonhamos, que perseguimos, que nos parece tangível e nos foge e regressa envolta em esperança, num jogo que nos cansa, vicia e desespera. E sempre que a realidade nos foge e volta a ser um sonho, sentimos saudades no nosso coração, sós num mundo de talvez, sem certezas, num mundo de procura e desencontro. Mas quando a realidade volta e o sonho se concretiza, é como se a vida sofresse um novo impulso, como se tudo começasse de novo, com o coração cheio de certezas, abolindo as saudades e o sofrimento que a solidão nos traz.
A minha mãe chamava-se Soledade, um outro nome da palavra saudade. Na minha sala de estar, recolhida num dos cantos mais belos, está um quadro pintado por um amigo, o retrato de minha mãe que bem parece o de N.ª Senhora das Dores, tal o ar de sofrimento que os seus longos anos lhe trouxeram. Olho-o, muitas vezes, com saudades dos meus tempos de menino e moço e vejo-a com aqueles olhos cavados pelo tempo, observando e sofrendo com a tristeza que, por vezes, me arrefecia a alma. Como ela compreendia a angústia que vivia no meu coração! Com o rodar dos tempos, habituei-me a vê-la com os olhos da saudade e a compreendê-la melhor!. O tempo nos ensina a valorizar o que perdemos!
Quando eu era adolescente ou jovem adulto, gostava de escrever cartas de amor às minhas ocasionais namoradas, amores que eram volúveis como o tempo que passa... Fui sempre um pouco teórico nessa área, ao contrário de alguns amigos que eram essencialmente práticos e cuja eficiência lhes trazia proveitos que eu apenas sonhava. Produto das minhas leituras de livros de cavalaria e outros de cariz romântica, eu sonhava com um amor ideal que buscava, encontrei e perdi... E era aí que a minha mãe compreendia o meu sofrimento e acho que sofria também. Mas a vida ensina-nos que é preciso permanecer de pé e continuar buscando outros caminhos, elaborando outros, quiçá quimeras, amanhãs que cantam nos nossos corações. Encontrei alguém a quem dediquei a minha vida, que foi a mãe dos meus filhos, cujo amor durou 52 anos e a quem escrevi centenas de cartas de amor, quando estava distante e o meu coração estava cheio de saudades. Eram cartas simples e românticas que escrevia no silêncio do meu quarto de solteiro, nas terras que percorria ou quando ela se ausentava para férias que eram muitas naquele tempo distante. Eram cartas simples, versando temas simples como, recordo-me, as deambulações de uma aranha, num canto da minha secretária, ou um raio de sol que penetrava, envergonhado, por uma frecha da janela fechada. Eram cartas que diziam da saudade pela ausência que a distância aumentava. Tudo na vida tem um princípio e um fim. Podemos escolher o princípio, mas não sabemos nunca quando chegará o fim.! Mas, um dia, ele chega e ao esplendor do sol sucede o negrume da noite, e logo a saudade, a interrogação " E agora?" Podemos escolher vários caminhos, buscar uma outra vida, desistir, viver no nada, refugiarmo-nos em pensamentos negativos...
E o tempo passa e com ele vem a serenidade do espírito!!
Cada um escolhe o seu caminho, a maneira de o trilhar, os meios para chegar ao termo da jornada. Cada um escolhe entre viver ou ver a vida passar. Eu escolhi viver e busco o meu destino. Dou passos para lá chegar, devagar, que tenho pressa e já não posso correr. Acho que ainda tenho tempo para lá chegar. Há vozes que eu ouço e me enviam saudades e eu escrevo poemas onde digo " se tu disseres que me amas, meus olhos serão, para sempre, teus." Hoje já quase se não escrevem cartas de amor, tudo é diferente e mais célere, as novas tecnologias tudo permitem. Mas a palavra saudade escreve-se com as mesmas letras e é o mesmo sentimento que as dita.
Mas ainda há quem escreva cartas de amor, talvez diferentes das de outrora, mais assertivas, mas, ainda assim, encantadoras. Vejam só...
Aviso do namorado novo Eu não admito que a minha namorada vá visitar um Amigo. Porque toda essa consideração, mimos, carinho, atenção, e etc, que o amigo lhe dá, foi o mesmo que eu usei para lhe conquistar. Até porque, antes de namorados, ela foi minha desconhecida, passou a ser conhecida, ficou Amiga e só depois passou a ser namorada. Portanto não me vem aqui com truques de meu Best, fiuto-fiuto, e o mais agravante é que os moços em Angola não gostam de receber as Amigas no solo ou no quintal, querem logo levar no quarto. Ah, porque é para conversar melhor, ter mais privacidade e tal. Com namorada do outro queres privacidade pra quê? Ham?
Epha, amor, fica já a saber, se você ir visitar um teu Amigo, nosso namoro termina, mesmo se o tal Amigo tá doente, você não pode ele ir visitar, você tem de esperar ele morra, pra poder ir no óbito. E eu como sou bom namorado até faço questão de te acompanhar e até ajudar chorar e a meter o cão no buraco."( com a devida vénia partilhado de Quero-te no meu Chat...Amor à distância... Distancia em que o Amor é saudade e desejo).
Amor e saudade dos nossos dias e de sempre. Digam lá que não é lindo!!!
Bragança, 26-05-2016

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