Crónicas do meu viver // Por Luís Machado
Quando era menino e moço, era costume fazermos, lá em casa, o presépio e adornarmos a Árvore de Natal. Esta mistura do religioso com o profano não nos causava qualquer conflito emocional e era com alegria que percorríamos a cercania do lugar onde morava, à procura de musgo para compormos as ruas e caminhos do presépio, assim como dávamos um salto ao Monte de Santa Luzia, em busca de um pinheirinho que enfeitávamos com o que tínhamos e não era muito: umas fitas coloridas, umas bolas , uns bonecos e pequenos tabletes de chocolate e pouco mais , porque não havia dinheiro para comprar iluminações como as que agora se usam , se é que as havia, então.
E como era belo o nosso presépio, feito com pequenas figuras de barro , de cores variadas , com o Menino Jesus nas palhinhas , Nossa Senhora e S.José , ladeando-o , os imprescindíveis Reis Magos com as suas ofertas, o burrinho e a vaquinha , pastores , ovelhas e curiosos , figuras grotescas ,por vezes , apreciando o evento , que já havia quem gostasse de apreciar tudo , naquele tempo...E a estrela que guiara os Reis Magos, lá estava , num sitio mais alto , como um farol , guiando os marinheiros que procuravam bom porto...
E como eram belos , o nosso presépio e a nossa árvore, tão belos como não havia outros, mesmo aquele muito grande que montavam na Igreja da Misericórdia, com águas em cascata , moinhos que rodavam , figuras que se moviam , luzes que acendiam e apagavam, grandes e belas figuras , das tradicionais às mais modernas . Mas o nosso presépio tinha outro encanto, fora feito com o nosso entusiasmo e a candura e a inocência dos nossos poucos anos e até o Menino Jesus parece que sorria para nós... Será que sorria mesmo? E ali ficávamos, contemplando o conjunto, absortos, sonhando estórias que outros nos contavam, sobre fugas e milagres que não percebíamos bem, mas que ouvíamos com prazer e arquivávamos no nosso imaginário...
Entretanto os tempos mudaram, nada é permanente na vida, e o marketing, os negócios, a política e outros interesses, transportaram o espírito natalício para um patamar diferente e o consumismo tomou conta de tudo e engalanou o mundo com as suas luzes e árvores monumentais. O Pai Natal, deslizando nos seus trenós, vindo do país do gelo , entrou profundamente no imaginário das crianças e dos adultos e inundou os espaços com prendas e festas , colocando em segundo plano a humildade do presépio, onde um Cristo Menino se aquece nas palhinhas, quando se publicitam colchões luxuosos , onde dormir é um sonho... E entre a palha e o conforto desses colchões de sonho, a escolha é óbvia. Num mundo materialista o Pai Natal ganhou e são tantos os Pais Natal que já se organizam desfiles para entrada no Guinness, alargando o negócio até ao rapar dos bolsos.
Tudo se compra e tudo se vende, satisfazem-se as carências de um ano de privações, para alguns, empanturram -se outros com excessos que depois há que pagar, a criançada rejubila com a esperança de novos brinquedos, os adolescentes encantam-se com os novos modelos de tabletes e quejandos , os adultos namoram eletrodomésticos e mobílias, férias de sonho ou passeios relâmpago com ceias programadas onde há tudo o que os ricos consomem todo o ano... E há Pais Natal por todo o lado, colorindo a paisagem e entusiasmando a criançada, com chocolates e balões coloridos, em profusão...
Parafraseando D.Luísa de Gusmão, esposa de D.João IV, que dizia " antes ser rainha por um dia do que duquesa toda a vida ", eu diria, a propósito dos festejos de Natal, que mais vale ser rico por um dia do que pobre todo o ano e não me custa aceitar que uma parte da humanidade carente de bens materiais e afeto, se empolgue e se lance na euforia coletiva que são os festejos natalícios. E os pobres, coitados, cuja carência os afasta, no resto do ano , de festas e iguarias, bem precisam que o Pai Natal os acolha , por uns dias, no seio da sua opulência e lhes traga de prenda um balão onde diga Esperança.
Mas as festas de Natal têm uma outra vertente, a festa da família, que convida à aproximação de pais e filhos ausentes , de netos ansiosos por encontrarem de novo os avós que não viam há muito , de irmãos que raramente se encontram , de amigos que se renovam... E a ceia, que se apresenta farta e variada, neste encontro fraterno, leva em cada acepipe um pedaço do coração de quem participa, mais as saudades de quem falta porque a lonjura obriga...
E Bragança também tem o seu Natal, um carinho oferecido às suas gentes pela CM , que estas muito apreciam, o gesto e o evento, intitulado Bragança, Terra Natal e de Sonhos. O evento desenvolve-se a partir da Praça Camões, onde se poderão apreciar um conjunto de atividades, a pista de gelo, encanto de crianças e adultos, uma belíssima árvore de Natal, um rico e maravilhoso presépio montado com amor pelo seu criador, standes e uns cafezinhos de apoio, para além de pistas e outros entretenimentos para as crianças. A festa alonga-se a toda a cidade com iluminações, um presépio na Praça da Sé e o apoio, sempre presente, do Comércio local, alindando e iluminando as suas montras. E não falta a música de fundo, criando ambiente para o fruir saudável da quadra festiva e para termos, realmente, Bragança em Terra Natal e de Sonhos. Pena é que, para muita gente , o sonho termine quando se apagar a última luz. Mas enquanto isso não acontecer, estendam as mãos aos que sofrem e tornem o Natal um verdadeiro Natal que, mais do que festa , deve ser Amor.
Luís Machado
Publicado no Correio Transmontano a 4/12/2015
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