sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

CONTO DE NATAL CIDEA e LÚCIO , UM AMOR FALHADO

De Luis Machado

Eu sou Lúcio e vivo de sonhos.

Chamava-se Cidea a bela jovem que encontrou meus olhos quando, naquela tarde de verão, eu, Lúcio, chegara, pela primeira vez , ao bairro onde iria morar por muitos anos.
Eu tinha onze anos e ela, possivelmente, teria a mesma idade. Tinha os olhos doces e o seu rosto fazia lembrar um botão de rosa, era assim que eu a via. Se é que o amor nasce desse modo , foi amor o que nasceu ali. Tentar explicar , depois de tanto tempo , o que senti , então, é correr o risco de extrapolar no tempo outras experiências vividas com atores diferentes e em circunstâncias diversas. Mas sei , isso recordo , que o meu coração infante recebeu aquele choque que o amor provoca e nos faz vibrar e sentir que algo de novo vive em nós.
Doravante ,eu percorria o quarteirão do bairro onde ela morava e olhava a janela do seu quarto , procurava o jardim , de longe , em silêncio , como que envergonhado deste amor precoce que ia criando raízes , bem fundo , no meu coração.
Havia rosas e outras flores no jardim desse meu bairro, mas eu nunca tive coragem de colher uma para lhe mandar e , primavera após primavera , as flores iam crescendo e murchando , à cadência do tempo, tal como nós que de meninos e moços, percorremos os anos , sofremos as convulsões da adolescência e damos connosco adultos , percorrendo caminhos e vislumbrando horizontes que almejamos, sonhamos e vamos , vamos , vamos...
Cidea amou outras gentes enquanto crescia e o seu coração aprendia... 
Enquanto isso, eu ia seguindo, de longe , a sua vida e sonhava histórias de cavalaria , eu Lúcio, cavaleiro andante , protector de sua dama , Cidea , e , por montes e vales , levava o seu pendão e , no peito , o seu coração.
Os anos foram passando e aquele amor de infância permanecia no coração de Lúcio com a mesma candura e a ternura de sempre. Fazia poemas que guardava no coração e a ninguém transmitia, cantava só, no meu quarto, as canções românticas que gostava que ouvisse , imaginava declarações de amor que ficavam no meu pensamento e que nunca os meus lábios pronunciavam e , platonicamente, sonhava com um amor puro , só sentimento , que fazia de Cidea , para mim , uma imagem etérea...
Um dia o destino aproximou-nos e o meu coração ficou cheio de esperança, pude pegar-lhe na mão, sem lhe dizer que a amava e sentir que aquela imagem etérea era também mulher e fiquei-me na contemplação platónica daquela beleza que guardei tantos anos no meu coração. 
Dia após dia, crescia em mim esse amor que extasiado eu via ali , sentada junto a mim , candidamente falando da vida , num respeito profundo , inumano , sem que os sentidos empolgassem a nossa relação de amizade. 
E eu Lúcio, sonhava futuros e crianças brincando naquele bairro de jardins floridos, Ternuras, afagos , suspiros de amor , adeus venho já , nas calmas manhãs de outono...
Passavam-se os dias e eu sentia em Cidea uma certa ternura naquele olhar tão lindo que me apaixonara naquela tarde distante. Os meus olhos sorriam no brilho desse olhar e era terna a noite quando me ia deitar e a lua ne acompanhava os passos...
Cidea era para mim o sonho de criança que o destino adiara. Todo aquele tempo em que esperara por ela, cimentara em mim a certeza de que um dia ela seria minha e que, juntos, caminharíamos na vida de mãos dadas... Mas outros eram os desígnios de Deus... 
Um dia, enchi-me de coragem e escrevi-lhe uma longa carta de amor , como , então, era usual fazer e fiquei aguardando um sim àquele amor paciente que tantos anos guardara no meu coração. 
Era tempo de Natal, havia cânticos nas ruas da minha cidade e sorrisos felizes nos rostos das crianças: É Natal , é Natal , já nasceu Jesus... As luzes iluminavam os céus e o meu coração vestia-se de esperança, aguardando uma carta de Cidea que me trouxesse certezas do seu amor desejado...Eram longas as horas , os dias infindáveis, a espera uma tortura...
Até que chegou a ansiada carta...Abri-a e os meus olhos ficaram rasos de lágrimas...". Lúcio, lamento , em nome da nossa amizade, mas o meu coração pertence já a outrem. Lembras-te daquele rapazinho , como tu lhe chamaste , de que falamos há dias? É esse o dono do meu coração. Serei tua amiga para sempre , pesa-me não poder ser mais." 
Lá fora, a música continuava a tocar...É Natal, é Natal , já nasceu Jesus... 
O meu intranquilo coração ficou despedaçado... Acabara-se o tempo, ruíra o meu sonho de criança, os meus olhos moravam a vida,sem esperança. Nas palhinhas do Presépio um Jesus pequenino sorria e eu não achava graça... 
Fugi do mundo, embrenhei-me no nada, frui aventuras inconsequentes e fúteis, enclausurei-me nas páginas de mil livros , fui poeta , rasguei meus versos, chorei no silêncio da imensa solidão que me tomou...
Depois...descobri um outro tempo e entrei... 
Nunca mais vi Cidea. Dizem-me que está velhinha como eu cujos níveos cabelos teimam em me adornar a fronte. No baú dos meus sonhos, quando dói mais a dor que , às vezes , sinto, vou espreitar o sono daquele sonho antigo, afago-o com carinho , deixo-o dormir tranquilo, pois sei que me acompanhará enquanto percorrer este caminho... 
E eu Lúcio que vivo no sonho e fantasia, contemplo, com saudade , esse outro tempo em que sonhei um grande amor, falhado... 
É Natal, uma outra vez, há cânticos nas ruas da minha cidade e sorrisos felizes nos rostos das crianças: É Natal, é Natal, já nasceu Jesus... As luzes iluminam os céus. Nas palhinhas do Presépio um Jesus pequenino sorri e eu acho graça…

Sem comentários:

Enviar um comentário