sábado, 12 de dezembro de 2015

NATAL, TEMPO DE AMOR, DE TODOS OS AMORES

Crónicas do meu viver/ /Por Luís Machado

Nesta quadra festiva fala-se muito de amor, dos vários tipos de amor que vivem dentro da mesma palavra: amor ao próximo, amor à família, amor/paixão entre dois seres que se querem.

1 - O primeiro enche as páginas de jornais, revistas, redes sociais, organizações de solidariedade social e outras organizações afins, todos eles apostados na solidariedade para com os que mais sofrem, os que menos têm, os que mais precisam. É como que um rebate de consciência pelo pouco que fazemos, ao longo do ano, em prol dos mais necessitados, aqueles que, por circunstancias várias, se veem atirados para a rua, para o desemprego, para a cama de um hospital, para um lar de idosos, para a prisão, para o vício que mata, para a marginalidade que aniquila. E lembro-me que todos nascemos iguais em direitos, mas que nascemos, muitas vezes, diferentes pelas circunstâncias: uns nascem numa família miserável onde tudo falta, outros na abundancia supérflua onde tudo sobra; uns inteligentes, para quem tudo é mais fácil e outros a quem a natureza não dotou; uns sãos, perfeitos e saudáveis, outros aleijados, doentes, cheios de problemas físicos ou mentais.
Muitas vezes não temos consciência dessas abismais diferenças e atiramos as culpas para a inércia, para o não querer fazer, para o vicio assumido e não combatido, para tudo aquilo que pensamos aliviar a nossa consciência. E , no entanto, como cidadãos temos muita culpa porque assim seja, porque não soubemos construir uma sociedade diferente , mais humana , menos egoísta , mais justa , mais solidária , mais atuante na defesa dos direitos humanos , mais interventiva na escolha e responsabilização de quem manda e desmanda.
Penso no Papa Francisco e no seu exemplo de humildade que é apenas um caminho numa igreja que devia concentrar-se na defesa dos pobres e oprimidos, mas vive ainda numa certa opulência. Penso no muito que fez e no muito que há ainda a fazer... 
É Natal! Como seria bom que este Natal fosse, realmente, um Natal de amor e fraternidade entre os homens...

2 - Celebra-se ainda o amor à família, a reunião dos pais, filhos, netos, irmãos e demais familiares que , percorrendo enormes distâncias , apagam , à volta da mesa que se quer farta e variada , as saudades que lhes enchiam a alma... E o bacalhau e seus bolinhos, o polvo, os filhós, as rabanadas, os sonhos, o bolo rei, as frutas cristalizadas e outros acepipes , não são mais que um pretexto para o amainar das saudades , para a troca de afetos , para o distribuir de carinhos e meiguices... E quando, à meia-noite, o Pai Natal bate a porta e carrega o saco dos brinquedos, é uma explosão de alegria na pequenada que contagia os adultos e induz à troca de mais abraços e ao afogar de mais saudades e à recordação de outros natais, com outros alguéns que já partiram...É a hora da lágrima ao canto do olho e aos suspiros que engolimos em silêncio porque é tempo de festa, não de tristeza...

É bom que o Pai Natal não se esqueça dos que nada têm e pouco esperam!
3- E temos, por último, o amor / paixão entre dois seres que se querem. O amor é transversal a todas as idades. E se é paixão na juventude, é um sentimento sossegado, terno e doce quando a neve de muitos invernos já tingiu de branco os nossos cabelos... Mesmo quando o nosso coração está amargurado, o amor está lá e o sonho, quantas vezes, suaviza a amargura, a melancolia e a solidão das nossas vidas... Como diz António Gedeão, o sonho é uma constante da vida, ou como Fernando Pessoa… “O homem é do tamanho do seu sonho”. 
Há algum tempo, num tempo de muita solidão, escrevi um poema que intitulei " Amor ou um sonho de Verão " .Talvez não fique mal nesta crónica que fala do amor. 
" - Chamei-te Amor / porque não sabia o teu nome/ e Amor é um nome lindo. Começou a chover / o aroma das flores dissipa-se no ar /e eu repito, baixinho, / vezes sem conta, o teu nome lindo/ e sonho palavras que não dizes... Apetece-me descansar no teu regaço. / Repousar a cabeça no teu peito,/ banir, para sempre , este cansaço/ de estar longe sem ti Amor, o teu nome lindo, / repito sem cessar/ enquanto o aroma das flores/ se dissipa no ar. Começou a chover/Os meus olhos cansados/anseiam por te ver... Sinto fugir o tempo / como as águas de um rio/ que corre sem parar... Além, no horizonte, já se vislumbra o mar Temo, Amor, que me falte o tempo para te encontrar.
O amor é alegria e sofrimento, é procura e encontro, é um contentamento descontente, como dizia Camões... É transversal a todas as idades, ama o jovem, ama o velho... " Amor verdadeiro é aquele que o vento não leva e a distância não separa " Amor é sonho, é fantasia, é dor. Há juras de amor eterno que o tempo quebra e apaga e, como dizia Florbela Espanca," Tudo no mundo é frágil/tudo passa / Quando me dizes isto /toda a graça/ duma boca divina, fala em mim." , mas ". Há uma primavera/ em cada vida ,/. É preciso cantá-la assim/ florida/ pois se Deus me deu voz/ foi pra cantar.." 
Cantemos, então, o amor... E vós jovens, Cantai, como Florbela Espanca, "Eu quero Amar, amar perdidamente. Amar só por amar..."
Só o amor nos torna felizes, embora, às vezes, choremos quando a saudade nos amarfanha a alma. 
É Natal, tempo de amor, de todos os amores…

Publicado no Correio Transmontano a 11/12/2015


Sem comentários:

Enviar um comentário