sábado, 26 de setembro de 2015

Quem tem uma mãe tem tudo // O meu herói

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

Quem tem uma mãe tem tudo

A minha mãe Soledade


A minha mãe chamava-se Soledade que é sinónimo de solidão, estado de tristeza de quem se sente só. Nada mais errado, pois teve oito filhos e uma caterva de netos que não lhe permitiam ter um momento livre nunca a deixando só. 
A Senhora Soledadinha, como carinhosamente lhe chamavamos, não tinha grande cultura livresca, nem muitos anos de estudo, mas era um repositório do saber popular, acumulado ao longo de gerações e que se consubstanciava nos ditos e máximas que usava com mestria. Não tinha nascido num folinho, como ela dizia, antes tinha comido o pão que o Diabo amassou, com uma infância que não fora feliz.
Era inteligente, observadora, perspicaz e comentava com graça os acontecimentos políticos do seu tempo, sem subterfúgios ou palavras dúbias, pedindo meças aos nossos actuais comentadores, pagos a peso de ouro.
À medida que ia somando filhos, ia perdendo um pouco da paciência que era necessária para aturar a prole e não eram raros os tabefes que ia distribuindo para desconsolo de alguns e gáudio de outros.
Criar oito filhos, numa época de pouca abastança e de trabalho mal remunerado, era mais difícil do que gerir uma creche, já que a mãe acumulava as funções de empregada doméstica, ama, cozinheira, administrativa, educadora, gestora dos poucos fundos entrados pelo trabalho do pai e sei lá que mais funções que o governo de uma casa implica. E tudo sem um queixume, assumindo o destino como um dever irrevogável e irreversível, porque Deus assim quisera e ela e o pai assim assumiram.
Quantas vezes ela teve de fazer o milagre de multiplicação dos pães, que as bocas eram muitas e os proventos poucos, mas com um pouco de nada ela fazia maravilhas na cozinha e os seus cozinhados tinham o sabor das iguarias mais cantadas. E até o caldo de farinha milha com uma chouriça sanguinha, se transformava num manjar dos deuses. Era de lamber os beiços, como então se dizia. E com um pouco mais de presigo, das iguarias que a mãe inventava com génio, lá se iam criando os oito filhos, sãos e escorreitos, preparados para enfrentar a vida, sem grandes luxos, mas com uma visão da vida e do mundo que lhes permitiu encontrar o seu caminho.
Eu era o mais velho dos oito irmãos e como tal gozei de alguns privilégios que aos outros não foram permitidos. Fui o único que, ao sair da primária, pude continuar os estudos. Os restantes fa-lo-iam mais tarde, subindo na vida a pulso. E agora, quando completo oitenta anos, olho e vejo-os a todos, saudáveis, fruindo a vida, contemplando os filhos e netos que perpetuarão o nome dos Machados.
Mas a vida é um caminhar no tempo e este trouxe à Senhora Soledadinha melhores condições de vida e a alegria de ver os filhos conquistarem a sua independência, com alguns acidentes de percurso que foram resolvendo.
Não sei se há alguma Santa com o nome de Soledade, mas se não há, eu elejo a minha mãe com o coração e rezarei perante o quadro com a sua imagem, pintado pelo meu amigo Manuel Barreira, que, orgulhosamente tenho exposto na minha sala de estar. Os seus olhos tristes refletem os sacrificios que fez para nos criar, mas eu sei que, no céu, ela está orgulhosa de todos nós tanto quanto nós nos orgulhamos dela.

A minha mãe Soledade





O meu herói


Este conto foi escrito há cerca de trinta anos e dedico-o a todos os pais.
Recordo-o ainda com saudade, embora os anos vão desfazendo os profundos laços de amizade e ternura que nos uniam.
Mas ele foi sempre para mim um ser muito especial, movimentando-se num mundo que não era real, flutuando entre o céu e a terra entre o sonho e as duras certezas do quotidiano.
Naquele dia, eu acordara cedo. Pouco dormira, preocupado com as responsabilidades que me esperavam. Levantei-me, lavei-me, vesti-me, tomei o pequeno-almoço e quando chegou a hora de partir, peguei na sacola com os livros e lá fomos os dois, eu e o meu pai calcorreando as longas ruas que nos separavam da escola.
Havia poucos carros, mas as ruas estavam pejadas de transeuntes que caminhavam rápido para os empregos. De vez em quando via-se um carro, puxado por pachorrentos bois, transportando as coisas mais diversas, guiados por homens possantes de aspecto austero e rude, tez tisnada pelo sol, faces enrugadas pelo frio de muitos invernos.
No caminho encontramos outros iniciados nestas coisas da escola igualmente preocupados e apreensivos.
Contavam-se histórias de longas réguas, pesadas como o tempo, brandidas pela mão de professoras sem dó, de olhares furibundos, que não perdoavam a ignorância ingénua da pequenada. E eu ia pensando nos bolos que me esperavam, nas histórias contadas pelos mais velhos, de tudo dando conta ao meu pai, na longa caminhada pelas ruas estreitas, com o seu sorriso complacente e bondoso, animador e camarada.
Eram oito e meia quando chegamos à escola. O velho convento infundia respeito. Viam-se ainda os claustros em ruínas, onde, à noite, dizia-se, as almas dos velhos frades vinham rezar as suas orações!
Gaiatos traquinas e barulhentos animavam a malta e havia risos e gargalhadas, misturadas com as lágrimas furtivas dos mais novos.
E, então, chegou a professora: nova e bonita, inspirou-me alguma confiança e dissipou alguns dos medos que me atormentavam. O meu pai abraçou -me, disse-me que era preciso estudar para ser um homem de bem, mas eu percebi que uma lágrima bailava nos seus olhos bons, quando me deixou, com a promessa de que, no fim das aulas, me viria buscar.
E agora ele ali estava, passados tantos anos, a olhar-me como nesse primeiro dia de escola da minha infância, compreendendo os meus sonhos de adolescente, animando-me com as suas palavras, sonhando comigo um mundo mais fraterno! E lá íamos nós percorrendo outros caminhos, conversando sem fim, sem medo que as palavras não chegassem para dizermos, um ao outro, tudo o que nos ia na alma. Aprendi com ele a amar a vida nas coisas mais simples e a respeitar os outros como irmãos, o companheirismo e a amizade!
Lembro-me que passeávamos pelos campos, alheados do tempo, insensíveis ao cansaço, falando de tudo, cheios de certezas, corações sem ódio, fruindo a vida, poetas anónimos, fazedores de ilusões!
E veio-me, então, à lembrança um dia em que tudo foi diferente. Era o pós-guerra e a crise tudo avassalava e destruía. Os sonhos num mundo melhor e mais fraterno confrontavam-se com a dura realidade da miséria e até os poetas tinham fome... Nesse dia ficou desempregado, chegou a casa sem dinheiro e sem brilho no olhar... Indiferentes a tudo, as crianças corriam e brincavam. Dali a pouco, iriam querer comer!... E comeram, porque a solidariedade humana funcionou em pleno e aquele olhar voltou a recuperar o brilho!
Quando, anos mais tarde, eu parti para longe, foi como se partisse um pedaço de si mesmo! Mas os nossos corações mantiveram-se unidos e sempre que o visitava, havia montes de notícias a relatar, recordações a avivar, planos a gizar, como se a vida recomeçasse em cada reencontro!
E quando um dia, já muito doente, se despediu de mim, com lágrimas nos olhos e a garganta embargada pela comoção, eu senti que o Meu Herói se aprestava para a longa viagem sem regresso e temia que o seu "menino" não voltasse a tempo de o apertar nos braços como naquele primeiro dia de escola da minha infância!
Voltarei sempre... enquanto capaz de sonhar e de me sentir camarada e irmão de toda a gente! Enquanto, Meu Herói, acreditar que vale a pena ser " um homem de bem" como quiseste que eu fosse! Simplesmente!

Luís Machado

Os meus pais Emílio e Soledade

Eu na Primeira Comunhão

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