Crónicas do meu viver // Por Luis Machado
1 - Hoje levei meus passos até às margens do Fervença.
Percorro o passadiço lentamente, desfiando recordações de dias mais felizes em que percorria toda s encosta, de lanço em lanço .
Subíamos os 135 degraus do escadório que nos levava à Capela de N.Sra da Piedade , tomávamos a estrada ao cimo, descíamos novamente até ao rio e procurávamos uma sombra onde descansar da caminhada.
Havia bancos e sombras em todos os patamares , mas os passos antes eram poucos. Junto ao rio , no parque infantil , ainda se viam algumas pessoas e no espaço do café esperava-se , pacientemente , que os clientes chegassem.
Agora já não me afoitava subir a escadaria e a percorrer os sucessivos patamares. A condição física já não é a mesma e custa-me percorrer , sózinho , aquele espaço...
Mas hoje ,dando continuidade a algumas romagens de saudade que há algum tempo encetei , levei meus passos até às margens do Fervença , na área intervencionada da Polis. De novo percorri , lentamente , o passadiço , debrucei-me no gradeamento a contemplar as águas e as margens e procurei , em vão , algum peixinho que as alegrasse.
As águas corriam lentamente, pejadas de detritos das belas árvores que orlam a margem direita. Chorões imponentes como que se lavavam no rio, estendendo os seus ramos até às águas... Ao passar nos açudes, o rio cantava harmonias que deliciavam meus ouvidos e me faziam sonhar cataratas gigantes de Fervenças enormes , rendilhando as águas que saltavam para colossais abismos...
E o Fervença corria , manso , muito devagar , alargando além , junto ao jardim , orlado de canaviais onde , em tempos , havia patos que grasnavam e desenhavam nas águas os seus bailados...
E não pude ouvir o seu grasnar , nem o coaxar das rãs que , em multidões , povoavam as margens...Nem o cantar dos melros no arvoredo... nem pássaros voando , perseguindo insectos... apenas , de quando em vez , uma pomba perdida passava ante meus olhos...
Só o arvoredo estava belo, de verdes matizados , ramos enleados e folhas bem juntinhas, inclinado para o rio como que a querer beijá-lo.
Estou um pouco surdo e já misturo os meus zumbidos crónicos com o sibilar dos sons da natureza... Mas pareceu-me ouvir ao longe o canto das cigarras e dos grilos... ou será o vento? Seria algum lamento por esta tristeza de não haver vida neste rio tão belo...
2- Entro no bar, sento -me naquele confortável espaço envidraçado , saboreio um bom café e umas águas e só não fumei um pensativo cigarro, porque não fumo...
Mas fiquei ali a pensar , só , com a minha solidão , organizando os meus sonhos , revivendo passados , consultando um presente que procuro viver sem tibiezas...
E vêm-me à lembrança outros tempos nestes mesmos espaços , no jardim frente ao rio , com festas à mistura, bailes onde deslizava nos braços da amada , noite fora , até de madrugada...
Era a primeira vez que vinha a Bragança. Desaguei com um amigo , num daqueles carros americanos enormes , na Av.João da Cruz , frente ao café Lisboa , donde telefonamos e anunciamos a chegada. Não havia telemóveis, nem SMS , voicemail e quejandos. E fomos ao encontro daquela que seria a minha nova família, recebido com alguma desconfiança, pois os minhotos não gozavam de grande fama por estas bandas. Mas eu era especial e os meus advogados se encarregaram de me defender o bom nome. E lá fui aceite , autorizado a catrapiscar a minha princesa que comigo trabalhava lá nos confins do Minho.
E o tempo fez o resto. Deus nos traçou o destino e , mais tarde , cá vim parar , acompanhado de quatro minhotinhos, saborear Bragança, por quem me apaixonara havia muitos anos. E por cá fiquei , ignoto cidadão fazendo o seu melhor, construindo futuros sonhando madrugadas , declinando protagonismos , à espera de amanhãs que pensava felizes...
E agora ali estava , no café do Fervença , catalogando memorias, escondendo desilusões e mágoas, arrumando sonhos , alinhavando ilusões. E enquanto isso , ansiava que algum melro assobiasse no arvoredo e ouvia os silêncios que do rio vinham... Peguei nos meus passos e regressei a casa... Era tempo...
3 - Hoje chega a Bragança a Volta a Portugal em bicicleta. O centro da cidade regorgita de gentes que assistem ao programa televisivo que antecede a chegada. Há movimento. O pais assiste a um desfilar de entrevistas e informações sobre Bragança , sua historia , sua vida , sua beleza , seus anseios. No canto do café, onde me sento, observo o bulício, ouço opiniões, deito um olho à TV... É bom ver vida neste centro histórico , normalmente , morto ou adormecido.
Os repórteres do CT acompanham a azáfama com alegria. Poucos são os acontecimentos que sucedem em Bragança.
Bragança hoje está no mapa…
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