Este conto foi escrito há cerca de trinta anos e dedico-o a todos os pais .
Recordo-o ainda com saudade, embora os anos vão desfazendo os profundos laços de amizade e ternura que nos uniam.
Mas ele foi sempre para mim um ser muito especial, movimentando-se num mundo que não era real, flutuando entre o céu e a terra entre o sonho e as duras certezas do quotidiano.
Naquele dia , eu acordara cedo. Pouco dormira, preocupado com as responsabilidades que me esperavam. Levantei-me, lavei-me,vesti-me,tomei o pequeno almoço e quando chegou a hora de partir, peguei na sacola com os livros e lá fomos os dois, eu e o meu pai calcorreando as longas ruas que nos separavam da escola.
Havia poucos carros, mas as ruas estavam pejadas de transeuntes que caminhavam rápido para os empregos. De vez em quando via-se um carro, puxado por pachorrentos bois,transportando as coisas mais diversas, guiados por homens possantes de aspecto austero e rude, tez tisnada pelo sol, faces enrugadas pelo frio de muitos invernos.
No caminho encontramos outros iniciados nestas coisas da escola igualmente preocupados e apreensivos.
Contavam-se histórias de longas réguas , pesadas como o tempo, brandidas pela mão de professoras sem dó, de olhares furibundos, que não perdoavam a ignorância ingénua da pequenada. E eu ia pensando nos bolos que me esperavam, nas histórias contadas pelos mais velhos, de tudo dando conta ao meu pai, na longa caminhada pelas ruas estreitas, com o seu sorriso complacente e bondoso, animador e camarada.
Eram oito e meia quando chegamos à escola. O velho convento infundia respeito.Viam-se ainda os claustros em ruínas, onde, à noite,dizia-se, as almas dos velhos frades vinham rezar as suas orações!
Gaiatos traquinas e barulhentos animavam a malta e havia risos e gargalhadas, misturadas com as lágrimas furtivas dos mais novos.
E,então, chegou a professora: nova e bonita, inspirou-me alguma confiança e dissipou alguns dos medos que me atormentavam. O meu pai abraçou -me, disse-me que era preciso estudar para ser um homem de bem, mas eu percebi que uma lágrima bailava nos seus olhos bons, quando me deixou,com a promessa de que, no fim das aulas, me viria buscar.
E agora ele ali estava, passados tantos anos, a olhar-me como nesse primeiro dia de escola da minha infância, compreendendo os meus sonhos de adolescente, animando-me com as suas palavras, sonhando comigo um mundo mais fraterno! E lá íamos nós percorrendo outros caminhos, conversando sem fim , sem medo que as palavras não chegassem para dizermos,um ao outro, tudo o que nos ia na alma. Aprendi com ele a amar a vida nas coisas mais simples e a respeitar os outros como irmãos, o companheirismo e a amizade!
Lembro-me que passeavamos pelos campos, alheados do tempo,insensíveis ao cansaço, falando de tudo, cheios de certezas, corações sem ódio, fruindo a vida, poetas anónimos, fazedores de ilusões!
E veio-me, então, à lembrança um dia em que tudo foi diferente. Era o pós-guerra e a crise tudo avassalava e destruía. Os sonhos num mundo melhor e mais fraterno confrontavam-se com a dura realidade da miséria e até os poetas tinham fome... Nesse dia ficou desempregado, chegou a casa sem dinheiro e sem brilho no olhar... Indiferentes a tudo, as crianças corriam e brincavam. Dali a pouco, iriam querer comer!...E comeram,porque a solidariedade humana funcionou em pleno e aquele olhar voltou a recuperar o brilho!
Quando, anos mais tarde, eu parti para longe, foi como se partisse um pedaço de si mesmo! Mas os nossos corações mantiveram-se unidos e sempre que o visitava, havia montes de notícias a relatar, recordações a avivar, planos a gizar, como se a vida recomeçasse em cada reencontro!
E quando um dia, já muito doente, se despediu de mim, com lágrimas nos olhos e a garganta embargada pela comoção, eu senti que o Meu Herói se aprestava para a longa viagem sem regresso e temia que o seu "menino" não voltasse a tempo de o apertar nos braços como naquele primeiro dia de escola da minha infância!
Voltarei sempre... enquanto capaz de sonhar e de me sentir camarada e irmão de toda a gente! Enquanto, Meu Herói, acreditar que vale a pena ser " um homem de bem" como quiseste que eu fosse! Simplesmente!

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