quarta-feira, 16 de setembro de 2015

QUANDO O CORAÇÃO SE REPARTE

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado



A vida é feita de bons e maus momentos.... Há períodos em que tudo parece correr bem: fabricamos sonhos, criamos ilusões, navegamos em euforias empolgantes, descobrimos paraísos, descansamos em oásis onde bebemos a esperança...
Parecem-nos claras as escolhas dos caminhos que trilhados, certos os passos, adequado o ritmo, belo o horizonte que almejamos...
E vamos caminhando, acompanhando o tempo, ouvindo cantar os pássaros e colhendo flores, amando primaveras, vivendo o dia a dia que nos ocupa as horas, nos resolve tarefas, nos garante os bens de que necessitamos. Não há tempestades ou procelas nos nossos corações, vivemos em paz,bem connosco e com os outros, respirando saúde...
Mas há também períodos em que nos parece que o mundo vai ruir a nossa volta: falta-nos a saúde, os bens escasseiam,os amigos(?) fogem,o amor arrefece,os sonhos dissipam-se,as ilusões morrem,a esperança fornece, os caminhos estreitam-se,o horizonte é longínquo, os nossos corações afogam-se em rios de amargura....Se ao menos houvesse esperança, se no fim da jornada brilhasse um raio de sol, se as procelas assinassem! E vamos caminhando, acompanhando o tempo, a espera que os pássaros cantem e as flores rebentem em primaveras de cor...
A vida e assim, repartindo-se em momentos de tristeza ou euforia, de bem estar ou carência, de sonhos ou desilusões, de luta ou acalmia,de paixões ou serenidade...
E assim vai sendo também o nosso coração. Das paixões da juventude, evoluímos, lentamente, para a serenidade da velhice, num caminhar gradual, povoado de amores esquecidos, renovados, conseguidos. Num tempo certo ou serôdio, o nosso coração esteve, por certo, refém de um outro coração, ligados platónica ou efectivamente, por juras ou anseios, em sonhos irrealizáveis ou, de facto consumados. Em algum momento da nossa vida, sentimos que o nosso coração vagueava, errante, perdido num turbilhão de dúvidas, indeciso, perplexo, dividido, hesitando quanto ao caminho a seguir. E sofremos porque o amor se não reparte, é tudo ou nada, é dádiva total, é unívoco. Até que um dia, um raio nos atinge e algo nos diz, é por ali que vou, é este o meu caminho. E , então , tudo é fácil e o nosso espírito serena. Depois vem o tempo, como juiz das nossas decisões...
Queria falar ainda de um outro amor que enche o nosso coração e que, esse sim, se reparte sem que isso nos angustie ou fira: o amor à nossa terra, a terra onde nascemos ou a que nos adoptou. Como dizia a canção, eu tenho dois amores que em tudo são iguais: Bragança onde vivo há 43 anos e Viana do Castelo,onde nasci...há muitos anos. Em Viana do Castelo, nasci, cresci, fui educado, fui feliz (e infeliz ), aprendi a ser homem, a amar a natureza e o próximo. Bebi a beleza prodigiosa de uma região privilegiada pela natureza, com o seu rio lendário (o Lete do esquecimento) , o mar de praias de areia fina, onde as ondas rebentam na penedia e se desfazem em espuma rendilhada e vão e vêm, num vaivém sem fim... E os montes altaneiros, Santa Luzia , a verdura dos campos, os seus monumentos, a sua história e, mais que tudo, a família, os amigos, a lembrança dos amores da juventude, os sonhos que sonhei e que foram morrendo com o tempo... E a saudade de tudo que foi e já não é, os país que Deus levou, os amigos que partiram, as ilusões que se esvaíram...
E por fim Bragança, que amo porque é já minha, onde meus filhos cresceram, se educaram, onde fui feliz enquanto pude, onde moram meus afectos e os sonhos que sobraram de uma vida já longa. Bragança que eu amo, porque é já minha, que eu amo pela sua beleza, pelos seus monumentos, pelas suas gentes, pelas amizades que fui construindo em quatro décadas de salutar convívio, por aquele cantinho do café onde vou sonhando... Bragança e Viana do Castelo, dois amores para um só coração, um só amor repartido, com ternura e o desvelo de quem muito ama… 

Publicada no Correio Transmontano a 18 de junho de 2015
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