terça-feira, 15 de setembro de 2015

Reflexões e Memórias - Dum discurso magnífico às injustiças da vida

CRÓNICAS DO MEU VIVER // POR LUIS MACHADO
Reflexões e Memórias - Dum discurso magnífico às injustiças da vida


1 - Há dias li e reli o discurso proferido pelo grande escritor universal, moçambicano por nascimento, Mia Couto , aquando da receção do titulo de " Doutor Honoris Causa " , pela Universidade Politécnica de Maputo. 

Mia Couto é um escritor diferente que se ama e admira, se copia e se cita com uma frequência e intensidade tais, que mesmo os que nunca o leram o " postam " e lhe endereçam likes a frases que , às vezes , nem são dele. 
Quem o leu , quer sempre ler mais e , ansiosamente , segue tudo o que escreve , até discursos que se espera formais , mas que Mia Couto transforma em peças da arte de bem pensar e escrever.
Não vou falar da alegria contagiante dos seus livros , da sua capacidade de inventar palavras e personagens que nos encantam , da magia da sua narrativa...Isso é trabalho de especialistas ,que eu não sou ,e , se o fizesse, iria , por certo , diminuir o encanto de quem lê.... 
Li e reli o discurso , num estilo diferente dos seus livros , num português de sonho , crítico e irónico , bem humorado , mas indo ao fundo dos problemas que a sua mensagem queria passar, ilustrada com exemplos que nos fazem sorrir , mas também reflectir...
E é ao ler a parte final do seu discurso , em que trata da corrupção no estado, que eu fico empolgado pela coragem ,pela clareza ,até pela simplicidade das estórias com que ilustra o tema. 
E não resisto à tentação de contar uma dessas estórias , vertidas no discurso por Mia Couto , com uma leveza narrativa de quem se quer fazer entender por aqueles a quem a mensagem se destina.
Em dado momento , Mia Couto foi a uma repartição do estado moçambicano , tratar de um assunto do seu interesse, incógnito, como um vulgar cidadão , esperando a vez de ser atendido . Quando isso aconteceu, expôs o que ali o levava ao jovem funcionário que o atendeu e lhe propôs o pagamento de um pequeno suborno para emitir o documento de que precisava. 
Quando reconheceu o poeta ,fez marcha atrás e justificou-se da seguinte maneira : sabe Sr. Mia , eu gostava muito de ser uma pessoa honesta , mas falta-me o patrocínio.
E a análise que Mia Couto faz a seguir , é de uma lucidez e de um encanto narrativo que me empolga. Não vou repetir , empobreceria a riqueza dos conceitos e a beleza das palavras, mas deixo um convite aos meus leitores para que abandonem ,por alguns minutos , o conforto das suas leituras fáceis e saboreiem esta jóia que é o discurso de que vimos falando... 
Mas falarei , sucintamente ,de alguns problemas que também nos afetam e que merecem a nossa atenção ,desde logo o patrocínio de que falava o jovem funcionário. 
Há tempos escrevi um poema que começava assim " ...não quero competir,nem ser primeiro, apenas teu parceiro, irmão , nesta aventura de viver, ingente...quero ser apenas um entre a outra gente....." 
Ideias de um poeta que não colhem entre as modernas gerações onde o espírito de competição é levado a um nível que mata , à partida , o espírito de solidariedade de fraternidade... O que importa é ser primeiro, muitas vezes sem olhar a meios, interessando apenas o resultado final. Impera o individualismo, o egoísmo mais feroz, hipocrisia nas relações entre as pessoas , a falta de ética , pessoal e profissional , uma moral adaptada às circunstâncias ,uma ausência quase total de valores. E a falta de tudo isto, bem pode ser o patrocínio de que fala o jovem funcionário, no discurso de Mia Couto...
E se alargarmos a analise, temos ainda a falta de escrúpulos, o compadrio , o trafego de influências , a corrupção a níveis nunca vistos , cobrindo toda a sociedade , desde os lugares mais humildes até às cúpulas, atingindo os sectores público e privado. 
É óbvio que este não é apenas um problema nosso e estende-se a todo o mundo civilizado. Tudo está refém dos poderes económico e financeiro e tudo gira à volta dos seus interesses. E a vergonha a que temos assistido nos últimos tempos, dispensa mais comentários e palavras. 
Bom seria que se fossem recuperando os valores que se foram perdendo ao longo dos tempos invertendo esta tendência suicida que perverte e aniquila toda a nossa vida social.
2 - "Na corrente corrupta da vida a mão dourada do crime pode entravar a justiça... e,quantas vezes , vemos o próprio prémio do mal comprar a lei ". 
Assim falava Shakespear num dos seus escritos, já lá vão alguns séculos. Pomo-nos a pensar, a refletir sobre estas palavras e sentimos uma angústia enorme. 
Uma velhinha rouba um chocolate e é julgada de imediato. Outros navegam alegremente em paraísos distantes, onde milhões de euros brilham nos seus bolsos iníquos e nada acontece e recebem comendas, cantadas como exemplos de gestores de topo... E vêm-me à lembrança histórias de outros tempos em que a dimensão das coisas era bem menor, em que , muitas vezes , em que a corrupção era paga em presuntos ,o tráfego de influências se chamava cunha ,o roubo de média dimensão se chamava desvio e só os salteadores de estrada tinham o privilégio de ser chamados ladrões. Grandes roubos , nem sequer havia... 
O conceito de honestidade era também diferente…Há muitos anos ouvia-se na rádio um programa de Olavo d,'Eça Leal , muito apreciado , e em que , dentro do que então era possível , se faziam algumas críticas mordazes aos costumes vigentes.
Contava ele que tendo necessidade de adquirir alguns produtos para sua casa, se dirigiu à mercearia do bairro e aí fez a sua aquisição. Pagou, saiu e quando ia já a alguns metros de distância, ouviu chamar por si. Era o comerciante que vinha entregar uma moeda de um escudo que , por lapso , Olavo havia deixado em cima do balcão. Ficou agradavelmente surpreendido com o gesto de honestidade do comerciante que bem poderia ficar com a moeda, sem que disso ele se apercebesse. Mas depois pensou: já agora vou ver até onde vai a honestidade do sujeito. 
Chegado a casa pesou o kg de bananas que tinha comprado e estas só pesavam 850 gramas... E então concluiu que seria desonesto ficar com o escudo esquecido no balcão, mas era apenas uma habilidade comercial vender 850 gramas de bananas por um kg.. 
Nesse tempo em que tudo era vendido a retalho, era normal juntar um pouco de água no leite e ao vinho , viciar as balanças, subtrair com um funil alguns kg de arroz aos sacos de serapilheira de 50 kg e outras habilidades que distinguiam os comerciantes espertos dos que teimavam em continuar honestos . Nunca estes tiveram comendas; quanto aos outros, as pessoas tiravam -lhes o chapéu na rua ,porque eram ricos e muito considerados.
Mas isso eram outros tempos. Hoje as coisas são feitas com outra subtileza e noutra dimensão..... já não há tostões , senão milhões e estes, como dizia Shakespear, podem tudo comprar , até a alma...! E há quem a venda barata....
Publicada no Correio Transmontano a 10 de setembro de 2015
https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/

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