CRÓNICAS DO MEU VIVER //
POR LUIS MACHADO
Reflexões e Memórias - Dum discurso magnífico às injustiças da
vida
1 - Há dias li e reli o discurso proferido pelo grande
escritor universal, moçambicano por nascimento, Mia Couto , aquando da receção
do titulo de " Doutor Honoris Causa " , pela Universidade Politécnica
de Maputo.
Mia Couto é um escritor diferente que se ama e
admira, se copia e se cita com uma frequência e intensidade tais, que mesmo os
que nunca o leram o " postam " e lhe endereçam likes a frases que ,
às vezes , nem são dele.
Quem o leu , quer sempre ler mais e , ansiosamente ,
segue tudo o que escreve , até discursos que se espera formais , mas que Mia
Couto transforma em peças da arte de bem pensar e escrever.
Não vou falar da alegria contagiante dos seus
livros , da sua capacidade de inventar palavras e personagens que nos encantam
, da magia da sua narrativa...Isso é trabalho de especialistas ,que eu não sou
,e , se o fizesse, iria , por certo , diminuir o encanto de quem lê....
Li e reli o discurso , num estilo diferente dos
seus livros , num português de sonho , crítico e irónico , bem humorado , mas
indo ao fundo dos problemas que a sua mensagem queria passar, ilustrada com
exemplos que nos fazem sorrir , mas também reflectir...
E é ao ler a parte final do seu discurso , em que
trata da corrupção no estado, que eu fico empolgado pela coragem ,pela clareza
,até pela simplicidade das estórias com que ilustra o tema.
E não resisto à tentação de contar uma dessas
estórias , vertidas no discurso por Mia Couto , com uma leveza narrativa de
quem se quer fazer entender por aqueles a quem a mensagem se destina.
Em dado momento , Mia Couto foi a uma repartição do
estado moçambicano , tratar de um assunto do seu interesse, incógnito, como um
vulgar cidadão , esperando a vez de ser atendido . Quando isso aconteceu, expôs
o que ali o levava ao jovem funcionário que o atendeu e lhe propôs o pagamento
de um pequeno suborno para emitir o documento de que precisava.
Quando reconheceu o poeta ,fez marcha atrás e
justificou-se da seguinte maneira : sabe Sr. Mia , eu gostava muito de ser uma
pessoa honesta , mas falta-me o patrocínio.
E a análise que Mia Couto faz a seguir , é de uma
lucidez e de um encanto narrativo que me empolga. Não vou repetir ,
empobreceria a riqueza dos conceitos e a beleza das palavras, mas deixo um
convite aos meus leitores para que abandonem ,por alguns minutos , o conforto
das suas leituras fáceis e saboreiem esta jóia que é o discurso de que vimos
falando...
Mas falarei , sucintamente ,de alguns problemas que
também nos afetam e que merecem a nossa atenção ,desde logo o patrocínio de que
falava o jovem funcionário.
Há tempos escrevi um poema que começava assim
" ...não quero competir,nem ser primeiro, apenas teu parceiro, irmão ,
nesta aventura de viver, ingente...quero ser apenas um entre a outra
gente....."
Ideias de um poeta que não colhem entre as modernas
gerações onde o espírito de competição é levado a um nível que mata , à partida
, o espírito de solidariedade de fraternidade... O que importa é ser primeiro,
muitas vezes sem olhar a meios, interessando apenas o resultado final. Impera o
individualismo, o egoísmo mais feroz, hipocrisia nas relações entre as pessoas
, a falta de ética , pessoal e profissional , uma moral adaptada às
circunstâncias ,uma ausência quase total de valores. E a falta de tudo isto,
bem pode ser o patrocínio de que fala o jovem funcionário, no discurso de Mia
Couto...
E se alargarmos a analise, temos ainda a falta de
escrúpulos, o compadrio , o trafego de influências , a corrupção a níveis nunca
vistos , cobrindo toda a sociedade , desde os lugares mais humildes até às
cúpulas, atingindo os sectores público e privado.
É óbvio que este não é apenas um problema nosso e
estende-se a todo o mundo civilizado. Tudo está refém dos poderes económico e
financeiro e tudo gira à volta dos seus interesses. E a vergonha a que temos
assistido nos últimos tempos, dispensa mais comentários e palavras.
Bom seria que se fossem recuperando os valores que
se foram perdendo ao longo dos tempos invertendo esta tendência suicida que
perverte e aniquila toda a nossa vida social.
2 - "Na corrente corrupta da vida a mão
dourada do crime pode entravar a justiça... e,quantas vezes , vemos o próprio
prémio do mal comprar a lei ".
Assim falava Shakespear num dos seus escritos, já
lá vão alguns séculos. Pomo-nos a pensar, a refletir sobre estas palavras e
sentimos uma angústia enorme.
Uma velhinha rouba um chocolate e é julgada de
imediato. Outros navegam alegremente em paraísos distantes, onde milhões de
euros brilham nos seus bolsos iníquos e nada acontece e recebem comendas,
cantadas como exemplos de gestores de topo... E vêm-me à lembrança histórias de
outros tempos em que a dimensão das coisas era bem menor, em que , muitas vezes
, em que a corrupção era paga em presuntos ,o tráfego de influências se chamava
cunha ,o roubo de média dimensão se chamava desvio e só os salteadores de estrada
tinham o privilégio de ser chamados ladrões. Grandes roubos , nem sequer
havia...
O conceito de honestidade era também diferente…Há
muitos anos ouvia-se na rádio um programa de Olavo d,'Eça Leal , muito
apreciado , e em que , dentro do que então era possível , se faziam algumas
críticas mordazes aos costumes vigentes.
Contava ele que tendo necessidade de adquirir
alguns produtos para sua casa, se dirigiu à mercearia do bairro e aí fez a sua
aquisição. Pagou, saiu e quando ia já a alguns metros de distância, ouviu
chamar por si. Era o comerciante que vinha entregar uma moeda de um escudo que
, por lapso , Olavo havia deixado em cima do balcão. Ficou agradavelmente
surpreendido com o gesto de honestidade do comerciante que bem poderia ficar
com a moeda, sem que disso ele se apercebesse. Mas depois pensou: já agora vou
ver até onde vai a honestidade do sujeito.
Chegado a casa pesou o kg de bananas que tinha
comprado e estas só pesavam 850 gramas... E então concluiu que seria desonesto
ficar com o escudo esquecido no balcão, mas era apenas uma habilidade comercial
vender 850 gramas de bananas por um kg..
Nesse tempo em que tudo era vendido a retalho, era
normal juntar um pouco de água no leite e ao vinho , viciar as balanças,
subtrair com um funil alguns kg de arroz aos sacos de serapilheira de 50 kg e
outras habilidades que distinguiam os comerciantes espertos dos que teimavam em
continuar honestos . Nunca estes tiveram comendas; quanto aos outros, as
pessoas tiravam -lhes o chapéu na rua ,porque eram ricos e muito considerados.
Mas isso eram outros tempos. Hoje as coisas são
feitas com outra subtileza e noutra dimensão..... já não há tostões , senão
milhões e estes, como dizia Shakespear, podem tudo comprar , até a alma...! E há
quem a venda barata....
Publicada no Correio Transmontano a 10 de setembro de 2015
https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/
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