quarta-feira, 16 de setembro de 2015

UM VELHO QUE NÃO ERA DO RESTELO (ou um quase conto)

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado


Há já muitos anos, eu e a minha mulher, educados os filhos e entregues a si próprios, gostávamos de , no verão, ir gozar umas pequenas férias, sós , como dois namorados, num qualquer lugar onde retemperássemos forças. A praia era o lugar preferido e aí passávamos 10 a 15 dias, descontraídos, acompanhados de velhos amigos ou outros de circunstância que o acaso punha no nosso caminho. 
Nesse ano o local escolhido foi Benidorm, no sul de Espanha, uma praia maravilhosa que nos havia sido recomendada por um dos meus filhos que ali havia estado. 
Escolhida a Agência de Viagens que haveria de organizar a viagem e a estadia, marcada a data , escolhidos os companheiros de jornada, aí vamos nós percorrendo as centenas de quilómetros que nos separavam do destino, num belo autocarro que demorou muitas horas até ao sul de Espanha. Aí chegados, depositados no Hotel, organiza-mo-nos de acordo com as amizades ou afinidades que uniam os membros do grupo e , desde logo , iniciamos a fruição do tempo. A nossa companhia predilecta foi para um casal de Bragança, amigo da minha mulher há longos anos. A senhora era professora jubilada e o marido funcionário bancário aposentado, muito conceituado, pessoa de muitas leituras e grande cultura, personalidade forte, porte atlético, uns anos mais velho do que eu. Era um casal muito unido, ainda apaixonados, então, mais do que nunca, pois uma fatalidade se abatera sobre o meu amigo : estava a ficar cego, a sua visão era quase nula, não conseguia ler e já se orientava mal. Essa circunstância aproximou-nos mais e eu passei a ser, naquele período, os olhos que o meu amigo ia perdendo. 
Quando, pela manhã, nos deslocávamos para a praia, logo aí ,no trajecto , íamos passando em revista o que de interesse se passara e fora noticiado, comentando , opinando , avançando soluções para alguns problemas. O meu amigo era um homem de esquerda, equilibrado, nada radical , com uma consciência social profunda, preocupado com a situação das camadas mais vulneráveis da sociedade e com a barbárie que se ia impondo no mundo. Eu era o discípulo, ele o mestre. Mas as circunstâncias alteraram, um pouco, esta relação e era eu que levava ao mestre " notícias do meu país ", como o vento as levava ao Poeta... 
Durante o dia o calor aconselhava que nos recolhêssemos um pouco e adiávamos a continuação das nossas conversas para a noite. E, então, nas noites cálidas de Benidorm, na avenida marginal, sentados num banco de pedra , rodeados de uma multidão ruidosa , bombardeados pela música infernal dos bares e discotecas que enxameavam a avenida , ali estávamos nós , absortos , pensando os problemas do mundo , como se estivéssemos sós e nada perturbasse a nossa solidão . E de tudo falávamos e tudo discutíamos e para tudo tínhamos uma solução, um caminho a percorrer, sempre com os olhos no futuro. Eram longas e diversas as nossas conversas, variados os temas, sem lugar para silêncios. Os meus olhos permitiam-lhe ver o que os seus próprios olhos lhe negavam e, sendo eu bastante mais jovem , o meu amigo bebia das minhas palavras o entusiasmo e a emoção que se vai perdendo com a idade. Criamos uma boa amizade e eu aprendi, um pouco mais, o valor da solidariedade. 
Um dia , passados muitos meses ,chegou-me a noticia de que o meu amigo falecera , em Braga , vítima de um acidente estúpido. Fiquei em choque, o meu coração sentiu muito aquela perda, a perda de alguém com quem sonhara alvoradas de liberdade e bem estar para a humanidade, a perda de alguém cujos olhos viam para além das trevas e que deram outro brilho ao meu olhar , a perda de alguém que me ensinou caminhos que o tempo me ajudou a percorrer...

Publicada no Correio Transmontano a 26 de junho de 2015

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