Crónicas do meu viver // Por Luís Machado
1. Com o calor que tem feito, todo o trabalho é penoso. Agradável mesmo,é saborear umas bebidas frescas numa qualquer esplanada ou, em casa, com um mínimo de roupa e descalços, estendermo-nos no sofá e aí pensarmos: o que fazer ao tempo? Sou reformado , dispensado de horários e muitas horas do dia utilizo-as estudando , lendo , escrevendo, facebookiando, e, confesso, não me sobram muitas.
Nota-se um número crescente de estrangeiros no centro da cidade , dinamizando o serviço de cafés e restaurantes , quiçá de outros estabelecimentos comerciais. A maioria são espanhóis que emprestam à área uma maior alegria.
2 . Há alguns anos atrás, eu atendia na Livraria Mário Péricles, muitos espanhóis que ali iam procurar livros dos nossos melhores escritores e conversar um pouco. Nunca nos ficávamos pela conversa que era sempre agradável, pois eram , normalmente , pessoas de cultura superior , preparando doutoramentos ou simplesmente apreciadores da literatura portuguesa. E , com alguma vaidade o digo , tenho a convicção de ter sido útil a muitos , ao ponto de me oferecerem livros da sua autoria que guardo ainda, com muita amizade e saudade. Um desses visitantes era professor universitário em Madrid e mandou-me alguns livros da sua autoria : traduções em Castelhano de obras de Fernando Pessoa , com a respectiva analise e comentários. Estava a preparar o doutoramento e a tese versaria Fernando Pessoa.
Uma outra situação interessante, das que ainda recordo , foi a de uma pessoa de idade que , após a aquisição de alguns livros , me perguntou se eu saberia a razão por que os tinha adquirido : " Sabe, eu levo os livros porque sou galego , não sou espanhol. Os espanhóis não lêem autores portugueses . Não era totalmente verdade , mas isso me levou a pensar na excelência das relações que , principalmente na raia minhota , galegos e portugueses mantinham em todas as áreas , desde a comercial, à cultural , turística e até amorosa...
3. Há muitos anos vivi na vila de Monção debruçada sobre o rio Minho que corria , bucolicamente , em direcção ao mar , com as suas águas beijando ternamente as margens da Galiza e do Minho.
Era um rio muito belo e rico em lampreias , sável , um ou outro salmão e muitos dos peixes que , normalmente , povoavam os rios do norte do país. Hoje já não é bem assim, pois a construção de barragens do lado espanhol, alterou profundamente o equilíbrio ecológico.
A margem portuguesa do rio era muito bonita , amuralhada numa certa extensão, com espaços ajardinados, e era por ali que se viam pares de namorados, contemplando a paisagem idílica, de mãos dadas , fruindo a natureza e trocando caricias...
Do lado espanhol via-se passar o comboio ronceiro , à semelhança do Tua , vencendo , lentamente , a distância que o aproximava de outras urbes.
E o rio corria , lentamente , ao ritmo da vida de então, convidando o olhar a espraiar-se pelas distâncias que o haviam de levar até Caminha e ao Atlântico. Para trás ficara Melgaço, outra vila raiana , capital do contrabando , que era , nessa época , o ganha pão da maioria dos seus habitantes.
Zona montanhosa e pedregosa, muitas daquelas pedras tinham assistido ao nascer do Condado Portucalense e à génese de Portugal, pela mão de Afonso Henriques, filho de Henrique, cavaleiro provençal a quem Afonso de Leão havia oferecido o Condado,como recompensa da ajuda na luta contra os sarracenos.
Era um território de fragas e rios idílicos, cujas fronteiras foram sendo desenhadas na ponta das espadas , lanças e varapaus , com que se iam combatendo e empurrando os mouros para sul...
E assim nasceu Portugal, companheiro de sempre da Galiza ,com quem partilhou a língua, os costumes , a poesia , durante muito tempo , até que cada um seguiu o seu caminho...
E como são belas e ingénuas as poesias do nosso cancioneiro galaico-português , cantigas de amor , cantigas de amigo , cantigas de escárnio e mal dizer , tão belas , tão sedutoras , que foram o enlevo de poetas e réis que também as cantaram... "ai flor, ai flor do verde pino, se sabedes novas do meu amigo..."
Mas é assim a vida e a Galiza e o Minho nunca passaram da fase de namorados que trocaram promessas que nunca cumpriram...
E no passeio dos Neris , era assim que lhe chamávamos quando ali namorava, na muralha sobre o rio, um poeta monçanense, João Verde, escreveu o seguinte poema : " A Galiza mai -lo Minho/ são como dois namorados/que o rio traz separados /quase desde o nascimento. / Deixá-los pois namorar/ já que os pais para casar/lhes não dão consentimento "...
E ao ler diariamente, no grupo Terras Ibéricas/Gentes e Lugares, memórias desse passado que nos une , não posso deixar de pensar no belo poema que transcrevo acima e noutros casamentos que na raia imensa ficaram por fazer...
Publicada no Correio Transmontano a 28 de julho de 2015
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