Crónicas do meu viver // POR LUIS MACHADO
1 - No último fim-de-semana, desloquei-me a Viana do Castelo para assistir às Bodas de Ouro de um irmão. Foi uma festa linda, para o casal, para os filhos e netos, para todos os convidados presentes. No copo de água que se seguiu à missa houve tempo para trazer ao presente recordações de muitos anos, actualizar conversas há muito adiadas, rever velhos amigos, cantar e dançar ao som de belas melodias, seleccionadas a preceito por quem sabe do ofício e conhece os gostos de quem ouve.
Novos e velhos dançaram alegremente, esquecendo reumatismos e dores nas articulações, que a alegria é a melhor terapia para muitas das moléstias que afligem os mais idosos. E porque me recordei de bodas semelhantes celebradas há anos, a vontade recusou-se a entrar na dança e fiquei ali, comovido, a olhar os pares que rodopiavam na sala, as lembranças ensombrando este momento feliz.
Celebrar 50 anos de casamento é um momento de felicidade que muitos não alcançam. Só o amor ajuda a ultrapassar o tempo, somando, ano após ano, bons e maus momentos, vitórias e desaires, momentos de euforia e tristeza, nascimento de filhos e netos, morte de entes queridos que ficarão, para sempre, na nossa saudade.
O que há de mais belo no amor de um homem e de uma mulher durante tantos anos, é a capacidade de ultrapassarem, em conjunto, as agruras que a vida vai trazendo, de arranjarem soluções para as dificuldades que têm de enfrentar, terem tempo, disposição, carinho para educarem os filhos e mimarem os netos e, muitas vezes, se esquecerem de si próprios e dos prazeres que podiam fruir. Mas na hora de fazer o balanço, sentimos que valeu a pena e que as rugas e os cabelos brancos são apenas mimos que a vida nos deu por tanto termos vivido. E só o amor que sentimos é o prémio de todas as lutas e canseiras que a vida nos trouxe.
2 - Quando calcorreava ruas e avenidas da minha terra natal, quantas lembranças me vieram à mente, sonhos, amores e desamores, amigos que partiram, lugares onde fomos felizes e deixamos um pouco de nós próprios, ilusões que alimentamos e se desfizeram no tempo, quimeras que perseguimos, utopias que sonhamos. E vejo-me, menino e moço , deambulando pelas ruas da urbe , catrapiscando as moçoilas , que as havia bonitas , sonhando aventuras que eram apenas desejos , imaginando-me um galã desses filmes melosos que o cinema americano nos dava , imitando bigodes e penteados poupudos, alindados por uma boa camada de brilhantina. O meu herói era o Clarc Gable que aprimorava um sorriso que derretia corações...
E de sonho em sonho, já que não havia divas , lá acabávamos por conquistar uma colega estudante ou uma costureirinha simpática das modistas da terra. E havia algumas muito bonitas que nos faziam arregalar os olhos de cobiça e nos atraíam quais sereias cantando no mar que ali bem perto estava. Mas não quero entrar na minha própria privacidade e por aqui me fico. Todavia, lembro com saudade esses tempos da minha mocidade em que o sonho comandava , realmente , a vida...
E alguns sonhos ficaram pairando no azul dos céus daquele verde Minho... E falando ainda de amor, ficou-me , das minhas leituras de algum dia , um poema de D.Berta Bento Colaço (?) que dizia assim : " O flirt é um fio dourado/ sobre um rio pendurado, todo luz/ Amor é o nome desse rio/ quem não sabe andar no fio, catrapuz. " Confesso que, embora alertado, e porque sempre achei graça ao flirt, algumas vezes me desequilibrei no fio e catrapus, mergulhei nas águas do rio. Nalguns casos foi agradável a queda, havia uns braços suaves que nos amparavam e , ternamente , nos colocavam na margem. Outras, não era assim e de amores desgraçados estão os romances cheios...
Cuidado com o fio, o rio continua correndo por aí e nem sempre as ninfas nos estendem os braços com ternura. Mas amem, amem sempre, o amor torna diferente a vida, suaviza as dificuldades do caminho, inebria os sentidos, perfuma o ar que respiramos, leva-nos a alems onde tudo é azul e o sol eterno...
E quando alguém celebrar 50 anos de casados, cantem hossanas ao amor e acendam uma vela do tamanho da esperança... O mundo bem precisa de amor e de esperança...
3- Há dias fui agradavelmente surpreendido com a visita de um velho amigo e colega, António Joaquim Canedo de seu nome, que , no pós 25 de Abril , comigo enfrentou , profissionalmente , as dificuldades do momento. Há muitos anos que não o via pelo que recordamos peripécias do passado, falamos do presente e admirei a frescura de espírito deste jovem de 84 anos quando nos falava do futuro. Descobri nele um poeta de mérito quando teve a gentileza de me oferecer um exemplar do seu livro " Transmontano de Gema ".E o conteúdo do livro mostra-nos mesmo a fibra de um transmontano de gema e de um cidadão atento ao que se passa no seu país. São sublimes alguns dos seus poemas que nos recitou e que sabia de cor. Bem haja, bom amigo.
4 - Queria ainda fazer referência a um livro do meu bom amigo Prof. Afonso Maria de Castro, com o título " Doces Recordações ". É um livro despretensioso, com histórias que nos encantam e recordações que, muitas vezes, nos comovem, escrito com a graça e o saber de um cultor da língua. Será um manancial de boas ideias e inspiração para algumas das minhas crónicas. Um muito obrigado pela gentileza da oferta. Do céu alguém lhe agradecerá a dedicatória verbal que nos foi transmitida.
https://www.facebook.com/Correio-Transmontano-957732094254077/timeline/
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