Quando , como eu , estamos prestes a atingir a proveta idade de 80 anos, a vida já não tem para nós aquele deslumbramento próprio dos verdes anos. Vemos as coisas com mais serenidade , sem grandes entusiasmos , sonhos limitados , arroubos breves , sem quimeras e sem procuras vãs.
Já atravessamos muitos desertos e percorremos muitos caminhos , nadamos em muitos mares e rios , sentimos a beleza de muitas primaveras e o rigor de invernos que foram pintando de branco os nossos cabelos.
Já não são os concertos barulhentos e com milhares de assistentes , a beleza dos seus efeitos de luzes , a elegância das bailarinas e dos coros , que nos empolgam e nos levam para fora de casa até de madrugada.
Mesmo quando se canta o amor a noite inteira e se eleva ao rubro o coração das teenagers e as que julgam que ainda o são, não conseguimos reunir entusiasmo bastante para nos perdermos no seio da multidão que vibra e vive cada momento com emoção.
E , no entanto , eu entendo a necessidade de tais eventos , a vontade de pular , de cantar bem alto as canções que do palco vêm ,de adular os cantores , de gritar o seu nome e de sonharem beijos que flutuam no ar...
A vida tem tão poucos momentos de descontração e felicidade que é preciso aproveitar estes momentos efémeros e vivê-los intensamente ,para , mais tarde , recordar...
Ontem, à noite , foi um desses momentos e nas vias que levavam ao Eixo Atlântico, o movimento era grande e os lugares de estacionamento tornaram-se poucos. Juntaram-se milhares de pessoas para verem o fogo de artifício e assistirem ao Concerto de Tony Carreira..
À meia-noite , em ponto , subiu o primeiro foguete a que se seguiu uma belíssima sessão , com bouquets maravilhosos , durante 15 minutos.
Assisti a tudo da janela da minha casa , acompanhado do meu cão que se assustou e não gostou do barulho. Mas foi lindo...
Depois seguiu-se o Concerto que empolgou os milhares de assistentes.. Não assisti. Da janela da minha casa apreciei o bulício e recolhi-me.
Hoje , após o almoço , como sempre , instalei-me no sofá para dormir uns minutos. Mas o sono não veio e , então , pus a rodar um CD com o Concerto de Aranjuez. Não sei quantas vezes já ouvi este concerto , mas foram muitas.
Fechei os olhos para melhor saborear os acordes , na semi obscuridade da sala , em absoluto silencio . E senti-me noutro mundo, como que se não tivesse corpo e o espírito vagueasse no espaço , embalado pelas notas maravilhosas do Concerto.! E ali fiquei alguns minutos, sem pensar , sem sentir , absorto no fruir desta música celestial que me empolga! Quando o CD terminou fiquei em paz comigo próprio e pensei como o mundo seria bem mais belo , se substituíssemos o troar dos canhões pela harmonia e beleza do Concerto de Aranjuez !
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